sábado, 30 de julho de 2016

O VENTO E A ESCOLTA, 29/08/2016

irving penn


Quando estou num período mais repousado, por questões de equilíbro e ecologia mental, tento traduzir ou fazer versões de pelo menos um poema por dia. Hoje descobri outra razão adicional para o fazer: a busca de uma expressão exacta, como quem esculpe na água.
Mais dois poemas de Milosz. No segundo habita um verso que é particularmente luminoso do ponto de vista da intuição que nos inculca: «Amo a matéria que é só um espelho que gira». Este é um verso que diríamos herbertiano, não fora ser-lhe três décadas anterior – dele ressalta o veio profundo que navega subterraneamente na diccção de alguns grandes poetas, uma espécie de vsão transpesoal interior/anterior ao expresso. E repare-se como este «espelho que gira» é já «o andado desandado» do segundo poema, escrito sessenta anos depois.

MANHÃ

Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.


Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.

E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.

O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.

Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.


ESTE MUNDO

Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!


COMENTÁRIO A PASCAL

Pascal: «il n’aime plus cete personne qu’il aimait il ya dix ans. Je crois bien: elle n’ est plus la même, ni lui non plus. Il était jaune e elle aussi; elle est tout autre. Il l’aimerait peut-être, telle qu’elle étais alors.»
A asserção é heraclitiana e há algo de pueril neste juízo. Próprio de um homem que nunca teve mulher. É evidente que  tempo nos muda e, simultaneamente, muda também as circunstâncias e o pano de fundo em que amávamos. De facto as relações afectivas têm estações como a natureza e conhecem o inverno. Na nossa imaturidade não acreditamos que o inverno prepara a Primavera, dado associarmos, com nefanda estupidez, o amor à intensidade emocional dos instantes. O amor é uma lenta aprendizagem do tempo à sua feição natural, que é cíclica. Ou antes, é uma forma de incarnar sem atrito as transformações silenciosas que o tempo produz em si mesmo ao vivenciar as suas manifestações.
Crescemos sem darmos conta, como amadurecem os frutos e os cães mudam de temperamento – um dia olhamos a criança e notamos: está enorme! Nós não nos vemos envelhecer, de forma consciente – a não ser que tenhamos a doidice de Frida Khalo que tinha um espelho no dossel, suspeito que para espreitar duas coisas: o seu rosto lânguido quando gozava e, no inverso, os estragos que o sacho e a enxada do tempo faziam no seu corpo. Provavelmente, por fim, para surpreender a chegada da morte, embora seja impossível estarmos em vigília permanente; suspeito que a morte lhe terá chegado pelas traseiras. Na verdade, a vida é sem esperança e o amor – essa entronização do tempo em nós através da atenção e do corpo de outrém – é a aceitação disso sem tragédia, com sabor incluído e um ligeiro patetismo. Não convoco aqui, para já, outro elemento vital ao amor mas suplementar: a dignidade. É um suplemente desejável, mas à parte. Pode haver paixão sem dignidade, pode ser até iníqua. Faz parte do espectro da paixão desvelar nódoas no carácter, porque é sem moral. O amor pelo contrário, é a polpa que aprende a não corromper-se. É a isto que se chama fidelidade. Que não tem nada a ver com os acidentes na paisagem – a passagem de um ou outro aerolito momentâneo – mas antes com a constância de acreditar que o inverno prepara a primavera. Pelo que a proposição pascaliana  (ou heraclitiana) não passa de uma puerilidade coroada pelo sucesso da sua fórmula.


INFORME SOBRE A SITUAÇÃO NA TURQUIA

Formigam os homens endiabrados
À procura da pata de Deus.  

segunda-feira, 25 de julho de 2016

ESCRITOS NA VARANDA: IMPERMANÊNCIA



Uma vez em casa do poeta Joaquim Manuel Magalhães vi-o riscar com sanha uma palavra que a editora havia impresso ao fim da página de rosto do seu belo livro Segredos, Sebes, Aluviões, enquanto vociferava contra a impertinência da “sentença” intrusa.  A palavra era “impermanência”. Bom, o Joaquim era então um pequeno deus e eu um candidato a oficiante, teria ele menos dez anos do que os que conto nesta altura. Já na juvenília da veterania autorizo-me a pensar que, mesmo nos melhores de nós, além da soberba há vezes em que também nos sobra a imprudência.
Lembrei-me desta história depois de ter escrito o poema que se segue, no intervalo de uma dessas pesadas tarefas que impõem uma mudança de casa. Resolvi descansar uma hora e levei para o café uma antologia do Milosz. Foi no confronto com este magnífico polaco que se verteu o poema:

«IMPERMANÊNCIA

As estrelas exumam a luz
do fundo do seu próprio abismo.
Pestanejam e salta o tigre.

É infindável o núcleo das estrelas,
vive na ponta dos seus raios,
na transparência com que o felino

trespassa as suas presas,
alumbrando-lhes a carne e os ossos
- como a palavra, sentada

num grão de pó, lhes parece
agora saturada! A energia
que as estrelas despendem

neste esforço é a mesma que late
no teu coração, amor, e insuficiente

é o nosso fôlego para retê-lo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

MAGNÓLIA E DANTE / a parte maldita


A arrumar papeis redescubro este artigo que fiz sobre  o magnifico Magnolia, nos distantes anos 90. Porque o achei sem rugas, aqui o deixo



MAGNÓLIA E DANTE:
A PARTE MALDITA
Blake e Miles são os dois dálmatas que flanam pela mansão de Earl Partridge, o empertigado magnate da comunicação que se debate com a doença, num leito que se adivinha derradeiro.
Houvesse um terceiro dálmata (poderia chamar-se Bacon) e refazia-se assim a figura de Cérbero, o monstro com três fa(u)ces de cão e corpo eriçado de cabeças de serpente (que fisionomicamente têm semelhanças com as cabeças dos dálmatas, nasceram do mesmo padrão), que guarda Aqueronte, o rio da morte, e convocava-se, ao mesmo tempo, a poesia, a música e a pintura: três testemunhas fiáveis do “passamento” dos humanos neste trânsito terreno.
Magnólia, o filme de Paul Thomas Anderson, encena um mundo em queda, nos seus diversos círculos infernais. Precisamente, uma das leituras inesperadas que este filme proporciona nasce da consonância do seu universo com o que Dante desenha a pontas de fogo n’ O Inferno. E numa narrativa que começa com o insólito caso de um suicidado, Sydney Barringer, às mãos dos seus pais, e por expôr a serialização que as coincidências organizam, assestando uma nova mira para a inteligibilidade do real (as sincronicidades jungianas), a existência de inegáveis semelhanças estruturantes com a obra de Dante permite lê-lo como uma plausível variante cinematográfica da Divina Comédia.

Magnolia compõe um mosaico de destinos que se animam como labaredas à medida que se vai impondo o âmbito dramático. As personagens de Magnolia, nove como os círculos deO Inferno, só descobrem a sua verdadeira dimensão quando acossadas pelo carácter emergente, irreversível, inaceitável da dinâmica que a morte descongela.
O feliz prazer da repetição ou reiteração, que governa a vida da infância até à estação final, vê aí amputado de súbito aquilo que futuriza a vida: o poder de antecipar (Julian Marias). É pela voragem da morte que o filme lhes sega as ilusões e nos faz penetrar na autêntica dimensão das personagens: a Dor, letal e impensável “latência manifesta”. Aquilo que obstrui à vida o seu delta de possibilidades.
Mas lembremos os traços gerais da trama: Earl Partridge/ Jason Robards (1), dentro de poucas horas, vai morrer. A sua jovem mulher Linda/ Julianne Moore (2), que sempre o atraiçoou e herdará a sua fortuna, devia estar radiante. E no entanto... O moribundo só tem um desejo: rever o filho, Frank Mackey/ Tom Cruise (3), que ele, um dia abandonou à cabeceira da cama onde a sua primeira mulher morreria do “mesmo” cancro que agora o abate. Frank converteu-se num falocrata irado, um guru da misogenia que quer converter os vínculos sexuais à lógica do «fast food». Para realizar o contacto com o filho Earl só pode contar com a solidariedade de Phil/ Philip Seymour Hoffman (4), o devotado enfermeiro que o assiste.
Entretanto, outro núcleo duro de personagens orbita à volta de Jimmy Gator/ Philip Baker Hall (5), um celebrizado pivot televisivo que por sua vez também morre com um cancro. Gator, para os telespectadores incarna os valores da família americana, mas existe um fosso entre as aparências e a realidade. Como sabe Claudia/ Melora Walters (6), sua filha, de quem o pai abusou e que agora é um farrapo humano entregue à toxicodependência. Na vida desta, por via de uma queixa dos vizinhos entra Jim (7), um polícia de falas mansas absolutamente devotado à causa do bem. Implicados com Gator estão também Stanley(8), um menino prodígio que é um barra nos concursos de temática cultural, e Donney (9), um ex-campeão dos concursos, e cujo sucesso não o deixou amadurecer para o amor (como ele diz:«tenho mesmo amor para dar mas não sei onde o pôr»).
Entre a agonia de Earl e a apocalíptica chuva de sapos perfazem-se as poucas horas desta narrativa quase contada em tempos reais.        
As sequências do filme incrustam-se umas nas outras: não se desenvolvem, como é corrente, de modo espasmódico, linear, até à sua tensão final, funcionando antes como elásticos que se esticam e contraem. À maneira de uma boneca russa que assimila ou incorpora bonecas semelhantes, o filme cruza tramas que desenham um padrão comum. E assim pelo entrelaçamento de histórias paralelas, de destinos activados pela dor que os isola, instaura-se uma sincronia, a mesma que Ossip Mandelstam, em Colóquio sobre Dante, detectava em O Inferno: «O tempo para Dante é o conteúdo da história, entendida como um acto único e sincrónico».
Escrevia Mandelstam: «o terror do presente, uma espécie de terror praesentis» estampa-se com tal veemência no poema que «o presente puro equivale a um exorcismo.Ao separar-se de todo o futuro e do passado, o presente conjuga-se como dor pura, como perigo».
Repare-se agora no que diz Dante, no Canto XVI: «Eu estava onde ouvia o ribombar/ da água caindo noutro círculo, semelhante ao que soa um colmear.» É espantoso verificar como isto ilustra a montagem de Magnólia. A montagem do filme processa-se por cortes verticais, não faz “avançar” o tempo, é –lhe interior. Cada cena é um estrato, de onde a “água” (o caudal das imagens) transborda, caindo no seguinte: o mecanismo é normalmente um travelling lento que vai aproximando a câmara da personagem até ao GP (grande-plano). Quando a câmara foca esse mapa que é o rosto, o instante conjuga-se como dor pura, como perigo, e os sulcos da emoção acabam por emaranhar-se, decalcar-se uns nos outros, por transbordar, alterando assim o desenho do mapa, isto é, do rosto.
A dor de Earl, por exemplo, que lhe reduz a expressão à afasia, permite o raccord com a elocução de Gator, que também está minado. Ou a volúpia de Frank a enaltecer nos seus seminários o membro viril tece um raccord com o grito de remorso de Linda quando alude aos felácios com que traiu Earl.
Sublinha-se este procedimento formal em duas sequências onde a montagem desenha uma “panorâmica” de 360º pelas personagens: primeiro no começo da emissão do concurso televisivo, O Que É Que As Crianças Sabem?;depois, no momento anterior à queda dos sapos, quando todas as personagens interpretam o terrível refrão da canção de Aimée Mann,Wise Up: «A dor não vai parar/ Até que consigas despertar». Despertar para quê? Para a morte? O que é iniludível é que essas duas “panorâmicas” perfazem um círculo, infernal, que a todos contém. Ninguém está ileso.
Adiantava-se acima que as personagens são nove como os círculos do cone invertido doInferno. E serão atribuíveis a cada uma características que as afinam com os diferentes tipos de «pecadores» recenseados em cada círculo? De imediato podem-se identificar três dos protagonistas centrais da fita – Earl, Franck, Gator – com as três feras assustadoras que aparecem a Dante, no início da sua jornada: a pantera, o leão, a avareza. A jovem pantera com o filho, Frank, o leão com o pai, Earl, a avareza, por antonomásia, com Gator – o animador televisivo que pode manipular o destino financeiro dos concorrentes. Curiosamente, estão os três ligados à “indústria dos media” e neste caso, ousemos extrapolar, nesta Trindade coube a Gator o papel do Espírito Santo, aquele que na realidade corporiza e valida o “espírito” da televisão.
Mas podíamos ensaiar algumas outras afinidades: Stanley, o menino prodígio da televisão, Don, o ex-menino prodígio, e os pais de ambos, podem perfeitamente caber no círculo IV, os dos «avarentos e pródigos» (os pais são avarentos porque retém «o dom de amar», ou o condicionam às performances dos filhos, os pródigos);Linda teria o destino dos «luxuriosos», o Círculo II; Frank engrossa a lista dos «fraudulentos» que recheiam o Círculo VIII, como aliás o seu pai e Gator; a filha deste, Claudia, inscreve-se no Círculo VII, o dos «violentos contra si mesmo»; Jim, o polícia, identifica-se com os «pusilânimes» do Vestíbulo, que se situa aquém do Aqueronte, etc.
O facto de Jim ser um pusilânime, defeito que o coloca, digamos, no hall do Inferno, ser-lhe-á favorável. A sua exterioridade abre-lhe as portas da narração, dando-lhe o direito de ser um dos cicerones desta visita aos labirintos das trevas que a malha urbana tece. Ainda que o deixe duplamente sozinho face à consciência de que pouco pode fazer para alterar o seu e os restantes destinos. Jim e Phil, um enfermeiro de tal forma devotado que só lhe resta uma réstia de vida «por procuração», simbolizam «o bem» nesta fita. Ambos altruístas, embora impotentes: a nenhum deles é reservado o poder da cura. A situação deles compara-se à que Dante definiu para Virgílio: «mais do que uma sombra e muito menos que um homem».
Jim, com honras de narrador final, resume deste modo a sua missão no mundo: «Às vezes as pessoas precisam de ser perdoadas. A parte tramada é que não posso abrir mão disto...». Subentenda-se: a parte tramada é não lhe caber o livre arbítrio, condenado a esse papel de uma vã misericórdia! É caso para invocar a terrível fórmula de Séneca: «antes de sermos marinheiros somos naúfragos!». 
A única finalidade aceitável das actividades humanas como a cultura é a produção de singularidades que enriqueçam de modo contínuo a relação do sujeito com o mundo. Nos concursos televisivos esta relação é pervertida pois a cultura é convocada para ser diluída como item ou molécula no fluxo informativo. Stanley sabe identificar e mesmo cantar um trecho de Carmen de Bizet mas não é um fruidor do «belo canto», pois esta qualidade requeriria um desperdício de tempo; tão vital à sua abulimia de dados informativos.
O que é que as crianças deste concurso televisivo sabem? Que as esferas cognitivas e a da emocionalidade estão de costas voltadas. Que a concorrência começa em casa, o que as obriga a viver num cenário onde o tempo já não devaneia, sonha, ou se extravia. O tempo, neste filme, sofre-se como um desgaste ou um veio por onde correm a especulação e o embuste. Tempo é dinheiro. E por isso caiem sapos do céu, como se moedas de lama fossem. Na realidade, em Magnólia, o céu já não existe, foi convertido numa enorme pantalha luminosa onde cada sapo equivale a um grão.
A dado momento, não vaticina um jovem rapper que o crime que Jim investiga foi cometido pelo «Verme»? Verme era um dos nomes que designava o Diabo na Idade Média. E consequentemente justifica-se o espanto do jovem rapper em relação à cegueira com que as forças da ordem sonegam o evidente.
Uma sociedade na qual o tempo já não é transporte no sonho e onde sobrevém uma dificuldade em fixar o que se apresenta à frente dos olhos produz uma modelização restritiva quer do sujeito, quer do social. Ángel Crespo num ensaio sobre as «metamorfoses» em Dante conclui que, em O Inferno, estas estão subordinadas ao que o pecado de cada um potencializava. Ou seja, as metamorfoses (os suicidas transformados em árvores, por exemplo) espelham uma eterna confirmação da falta praticada e a maior condenação estaria nesse impedimento em ser-se outro, ou outra coisa. A impossibilidade de esquecer, em suma. Queixa-se Gator, a dado momento: «Nós podemos cortar com o passado mas o passado não corta connosco». 
No filme, o drama de Donney, que sintomaticamente quer mudar a sua imagem com uma operação aos dentes, reside na sua impossibilidade de esquecer que já foi, como Stanley um menino de ouro e que agora não passa de uma nódoa-em-aberto. Este insofismável sentimento da queda tem raíz na sua «imagem televisiva» - de um implacável vencedor - em contradição com a sua débil presença «ao vivo». Donney não sabe descartar-se da sua imagem, o que precipita uma extrema indistinção sobre o que em cada momento sente. 
E isto leva-nos a outra analogia, a da esfera televisiva com Dite, a cidadela que se implanta no Sexto Círculo de O Inferno e à beira de cujas muralhas se localiza o cemitério de Epicuro e dos seus sequazes.
Segundo Epicuro o bem supremo do homem está no prazer negativo, na ausência completa de dor para o corpo e de perturbação para a alma. O pensamento de Epicuro está para a filosofia como as poluções nocturnas estão para o amor mas o figurino antecipadamente «virtual» das suas posições - o bem é substituído pelo prazer e o mal pela dor - estatui como norma de conduta um critério eminentemente subjectivo, que contribui para a dissolução de qualquer vínculo moral.
Perfil que me parece encaixar no perfil desse «espectador televisivo» que Fernando Belo evocava num dos seus livros (em Filosofia e Linguagem) ao relatar o caso daquela senhora das Avenidas Novas que à menção da bomba de neutrons replicava, excitada: «Não hei-de morrer sem ver. Ora, está consumada a aspiração das guerras «em directo». E com ela chegaram o turismo televisivo, a ginástica ou o sexo televisivo, a lotaria e o confessionário. Hoje, o hedonismo social persegue o êxito televisivo – que entre outros atractivos converte vícios em virtudes e até um aprisionado Capitão de Abril (o Otelo) numa inesperada fera sexual – que, com uma irónica vocação mallarmeneana, tende a olhar o mundo como um atributo da sua caixa virtual.  
Em Dite, a cidade onde se acolhiam, repare-se, os «violentos contra Deus, a natureza e a Arte», todos os seus «internos» se encontravam sob vigilância de uma tropilha de demónios. Esta vigilância medida ao décimo de milímetro não me parece distante da que é hoje ensaiada por uma Entidade Audiovisual que procura moldar o mundo ao seu circuito interno. E que dizer quando até o interior do corpo (como nas tomografias de Earl) é vasculhado pelas «imagens», transformando a doença num ruído?
Saliente-se, por último, o paradoxo que desencadeia o facto de que quanto mais nos sentimos vigiados pelas câmaras menos queremos ver o que está diante dos olhos.  
Conta Boccaccio na sua “Vida de Dante” que os últimos treze cantos do Paraíso se haviam extraviado e que acabaram por ser encontrados quando um sonho revelou a Pedro Alighieri, filho de Dante, onde se escondiam. Não teria Dante, para quem a sua obra se inscrevia no quadro das profecias, achado que esta precisava de ser actualizada soprando aos ouvidos de um adormecido Anderson a trama para o filme?
É uma hipótese: é mais que um dizer.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

AS AMORÁVEIS CAUTELAS, O REGRESSO DE OZO

                                                                  Roberto Matta

Escreveu-me Ozo, o meu amigo mais herético. Está em Hong Kong. Enviou-me um novo poema, que corre em baixo


AS AMORÁVEIS CAUTELAS

1

Pela invasão capilar
instalei-me nos versos.
Sobre
sob
a derme
de um deus careca
instalei-me nos versos.


2

O coração disparado
pisoteia-lhe
a flor.

Merda para as estrelas
perfumadas do Mallarmé
pensa, A mim
é o coração disparado
quem digita inteiro
o som
da morte.


3

Amplio-me.
Sou a última gota
no teu corpo
de vinho.
Aí se turva
a linha,
na acidulada rosácea´
do teu ânus
inflecte o horizonte
para dentro.
E aí nada se deslassa,
hélas!


4

Olhando de viés
despejei-lhe o chumbo
nas tripas.
Não custa abandonar
cidades
que só têm meandros
e perfídias.
A caixa estava quase
vazia,
entre mim e a vida
não há uma ganza
há uma gaze.


5

Já não sabe estar só.
Em estando sozinho
sente-se em ressaca.


6

Pode uma vida agastar-se
sem reboco,
os fios de electricidade
bamboleantes
ao vento;
o tijolo descontínuo,
pardo?

A delida cinza
das gaivotas
satura o ar.

A boca seca,
assoreada.


7

Não faças como os antigos,
não te assoes
ao poema.
Não lhe imponhas a constipação
de Pessoa, nem a tua,
tácita.

O único drama
com a metafísica
é que não se coaduna
com a exaltação da raposa
quando trincha
a perdiz.
Não existe o azul,
simplesmente
o para lá
dos cipestres.



8

Dar à identidade
uma pele de galinha?
Há que recuar.

A minha mãe pariu-me
com táximetro.
Juro não cair noutra.


9

Que as estrelas que latejam
no meu crânio
lá se mantenham depois da enxaqueca!

És ambicioso, pá!


10 (releitura de Lispector)

E a Clarice
sem mover raciocínios
nem guindastes
tirava um macaquito do nariz
e pensava distraidamente
no que um querubim
tinha segredado
ao S.Pedro:
a sua tremenda saudadade
de morangos.


11

Rasuras, reenxertos:
extravagando.

Cidades em divisas:
uma folha de jornal
que o vento desdobra
aos baldões.

Desafeita glande
Adormecida.


12

Numa amorável cautela
saiu-me o verso de um poeta sueco
dos mais caros:
“Nunca houve
degelos

Iníquos!”

sábado, 9 de janeiro de 2016

REGRESSO A MAPUTO

 
Depois de dez dias, entre o mar, as ameijoas e as leituras, retemperados para o ano novo? As nossas sombras, minha e da Teresa, e as miúdas na cavaqueira. ou a fracção das gerações?
No rescaldo do retorno, a Teresa escreveu uma bela e melancólica cronica e um poema. Que aqui posto:

Regresso a Maputo. Sem vontade. Regressar a esta realidade é sempre duro, mesmo se nos distanciamos por poucos dias. Não que a realidade tenha apenas um rosto, mas o rosto visível de Maputo para mim, o rosto que se me apresenta depois de afastar o olhar e voltar a ver é um rosto corroído pelo tempo, devastado pela fealdade, pela decadência, por algo que não foi capaz de se acomodar ao seu tempo, à mudança. Que foi apodrecendo em vida, ainda que à vida sobrevenha uma outra vida que fervilha e teima em multiplicar os seus fermentos. Cheiro, sim é um cheiro que se me entranha na pele.É acre, ácido de detritos. Em breve me habituaria a ele como sendo uma extensão de mim se me não recusasse a isso, se isso não fosse a minha forma de resistir.
Ali a poucos quilómetros estendeu-se diante de mim a outra face deste tempo. Aquela que ficou esquecida pelos poderes, por todos eles e que por isso arrasta as pessoas como enxames de abelhas à procura da cidade, da flor que desconhecem ter entretanto definhado, num solo que se foi tornando dia a dia mais árido à força de uma sobre utilização. Esquecidos por todos,só lhes resta esquecerem-se, perderem a raiz, o tempo, a face,e partirem. Trazem sonhos, esperanças ou simplesmente uma bagagem feita de nadas onde tudo se destina a vir, a ser, a devir. Ou então esperam, ali onde nasceram e morrerão, do outro lado do rio, esperam sabe-se lá o quê, e quando. Ali naquele mar que se estende, uma rede de pescadores é lançada ao mar. Vinte homens e mulheres de todas as idades puxam-na. Quase uma hora para retirar a rede às garras tenazes do mar. Vinte pessoas, quarenta braços. E ao fim de uma hora, precipitam-se sobre a rede quarenta olhos expectantes. Aproximo-me também expectante. Desta rede depende a fome ou a saciedade de vinte bocas e de outras tantas que em casa esperam os frutos daquela jornada, que o mar como soberano concede ou não aos seus súbditos.Os braços contraem os músculos sacudindo a rede para juntar os peixes. A partir daquele momento os olhos perdem toda a expressão. Os músculos relaxam-se, as pupilas renunciam ao foco, como se lhes fosse indiferente o número de peixes que ali se encontram. Não é. Mas, simultaneamente só pode ser. Porque o resultado não é uma equação matemática que depende ao mesmo tempo do trabalho feito, das horas a que se levantem, do empenho que coloquem nessa tarefa. Não depende de ninguém, nem sequer de todos. De facto, não depende. O resultado está à vista, mas eles ainda não viram, embora os olhos estejam fixos na rede. Na rede onde saltam ainda nem mais nem menos do que cinco peixes. Cinco, como os dedos da mão. Cinco peixinhos ainda plenos de vida. Vinte famílias, quarenta olhos postos em cinco peixes. A quietude do dia que nasce como um entre tantos outros num infinito sem espera, num infinito sem esperança. Tranquilo como a morte e a vida. Assim, simplesmente parado, sereno, o barco torna-se um fardo que se recolhe, os braços puxam a corda do barco de novo para terra. Sem um gesto de desânimo, sem um som de revolta. O silêncio do sagrado: aceitar a dádiva ou a recusa do destino. Vinte homens colocam o barco no lugar, como colocam o silêncio, como colocam o tempo, num lugar parado, adiado. Como se dali não dependesse comer ou morrer de fome. Tranquilamente, conformados, voltam as costas, caminham sobre a areia, trocam algumas palavras e regressam a casa.
Para nós aquela mesma praia representa o reverso da cidade. Para ali transportamos os nossos víveres para dez dias. Tudo o que é necessário para sobreviver durante os dias que ali vamos ficar, porque em quilómetros nenhum comércio se oferece. Carregamos tudo e de volta nada ali deixamos. Parasitamos este lugar durante dez dias distendidos entre a tepidez das águas, o som das ondas que rebentam perto quando o sol penetra docemente no corpo, em cima de nós quando mergulhamos à beira do mar, ou ao longe quando adormecemos numa rede a contar as estrelas. Imagens de um paraíso onde perdemos as imposições do tempodas obrigações, e nos entregamos ao sabor dos pequenos gestos, sem qualquer atrito.  
Atravessamos no batelão, ao lado de seis carros que procuram o mesmo que nós. Paz, silêncio, nada, beleza, suavidade, o desenrolar do tempo sobre uma paisagem límpida e natural, à ausência de agressões, de atritos outros que as ondas que cortas no mar, sobre os teus sentidos.
Sem carro, uma das muitas e nossas anacronias, dependemos de que alguém nos venha buscar para percorrer os cinco quilómetros de picada que nos separam da casa que o nosso amigo generosamente nos empresta. Ligamos para um dos complexos turísticos que fica a 200 metros da casa e meia hora passada um sul-africano com quem trocamos pouco mais do que sorrisos e uma dose de cumplicidade não-verbal aparece para nos transportar numa carrinha de caixa aberta que nos sacode até ao destino onde descarregamos os garrafões de água, a arca térmica com a carne e peixe e os sacos com a comida, para além de uma dezena e meia de livros que finalmente vamos ter tempo para ler. Cinco para cada um de nós que elas também ganharam o vício, graças a deus. 
O alpendre poupa-nos da inclemência do sol e enterra-nos como estacas aquele habitat. Ali permaneceria para sempre se fosse arbusto ou ave ou até insecto.
Regresso.  
Lembro-me de quando dezoito anos volvidos sobre a minha partida, regressei. Os lugares eram os mesmos, seguramente, Sim, alguns edifícios tinha surgido entretanto. Que digo? Muitos. A marginal, debruçada sobre a baía que me acolhia, à vez, sonhos e desesperos, transformara-se numa alameda de mansões. Não a reconheço como a cidade da minha infância. E naquele momento senti que ao longo de dezoito anos me acostumarasem o saber a ruas onde os rostos desfilam, individualmente distintos. Ali na terra que me vira nascerconfrontava-me como se fosse pela primeira vez com uma massa anónima onde os rostos se sobrepunham. Nada do que via, estava guardado e inscrito na minha memória. Nada daquilo existia naqueles sítios que eu percorrera vezes sem conta, sem me dar sequer conta do que via.
Ao longo destes onze anos de retorno a uma possível pátria a estranheza não só não desapareceu como se acentuou. Não foi possível acostumar-me, mais ainda, recuso-me a acostumar-me. E, no entanto, a vida foi-me empurrando gradualmente para a interface de uma cidade que foi envelhecendo longe dos cuidados hospitalares. Assim, o quarteirão que me leva a casa e de onde velozmente me afasto dela, cobre-se diariamente de uma mole de gente que chega da periferia amontoada em camiões a que chamam carinhosamente “mylove” ou nos “chapas” onde as mais das vezes em vez de doze transportam vinte almas. A magia? Não encontro. Deve estar onde os meus olhos não penetram, onde o meu espírito desconhece os segredos que a desvelam.
As mulheres retiram a capulana quando entram na cidade. Caminham sobre uma mistura de terra, sacos plásticos, urina, restos de lixo ou apanham um outro veículo meio destruídos pelas inúmeras voltas ininterruptas e pelos milhares de pessoas que diariamente sobem e descem gritando “paragem”. Às vezes as gentes amontoam-se de tal forma que não se distingue o rosto de alguém do braço, perna ou qualquer outra parte do corpo do outro… Os corpos perdem-se do seu indivíduo e passam a ser do domínio público.    
É com o mesmo desespero do dia em que a deixei, sitiada pela guerra, que a observo.
Percorro a longa avenida que distancia os vários países desta cidade. Alguém me diz: numa ponta estamos em Beirute, noutra queremos acreditar que ainda não saímos de Lourenço Marques.
Saio para a rua caminhando sobre os restos das vendas da rua do dia anterior. Sapatos desirmanados emaranham-se em cuecas usadas que ninguém quis comprar. Assim, sem mais, lembrando outras vidas que já os usaram. Uma dança de sacos plásticos e de areia rodopia em torno das nossas cabeças. Começam a chegar os vendedores da manhã. Vendem café, sandes de ovo, de badjia, vendem tomate e alface e laranja ao lado de mochilas e roupa usada.
Ando dois quilómetros e sento-me numa esplanada. “anybodyneeds a apartement to rent?” ouço e o olhar de ave de rapina do homem que oferece neste inglês macarrónico um apartamento ao preço de Novo Iorque alterna-se com um sorriso cândido, prestes a saltar sobre a presa ou a bater em retirada.
Um português acredita que está no Nicola “uma tosta e o sumol da praxe” sentencia para o empregado que se acostumou também com o linguarejar dos tugas.
Assim, sem mais escrevo, como quem resiste… como quem insiste em viver apesar de tudo.


A Teresa nos anais do msiro e depois

MAR DE PRATA 

Estende-se a prata dos dias
num braço de mar quieto
donde partem navios.

Também me quis nómada
ou não quis
Karma ou destino
cigana e sombra
de silêncios ancestrais

Junto as peças
uma a uma
uma enorme clareira
dobra-se sobre o passado
e estende-se como um mar
anterior a mim.

Mergulho
sinto na pele a frescura de uma água
que não me é estranha
aflora dalguma fresta
desta sombra prateada
que se desenha ao fundo do meu leito.

Tacteio a água,
os seus contornos
escavo uma onda.
Ela é breve.
Resta-me outra para escavar
a primeira já é espuma
rosto apagado na areia

Estende-se a prata dos dias
e escavo numa gota o mar inteiro.