sábado, 9 de janeiro de 2016

REGRESSO A MAPUTO

 
Depois de dez dias, entre o mar, as ameijoas e as leituras, retemperados para o ano novo? As nossas sombras, minha e da Teresa, e as miúdas na cavaqueira. ou a fracção das gerações?
No rescaldo do retorno, a Teresa escreveu uma bela e melancólica cronica e um poema. Que aqui posto:

Regresso a Maputo. Sem vontade. Regressar a esta realidade é sempre duro, mesmo se nos distanciamos por poucos dias. Não que a realidade tenha apenas um rosto, mas o rosto visível de Maputo para mim, o rosto que se me apresenta depois de afastar o olhar e voltar a ver é um rosto corroído pelo tempo, devastado pela fealdade, pela decadência, por algo que não foi capaz de se acomodar ao seu tempo, à mudança. Que foi apodrecendo em vida, ainda que à vida sobrevenha uma outra vida que fervilha e teima em multiplicar os seus fermentos. Cheiro, sim é um cheiro que se me entranha na pele.É acre, ácido de detritos. Em breve me habituaria a ele como sendo uma extensão de mim se me não recusasse a isso, se isso não fosse a minha forma de resistir.
Ali a poucos quilómetros estendeu-se diante de mim a outra face deste tempo. Aquela que ficou esquecida pelos poderes, por todos eles e que por isso arrasta as pessoas como enxames de abelhas à procura da cidade, da flor que desconhecem ter entretanto definhado, num solo que se foi tornando dia a dia mais árido à força de uma sobre utilização. Esquecidos por todos,só lhes resta esquecerem-se, perderem a raiz, o tempo, a face,e partirem. Trazem sonhos, esperanças ou simplesmente uma bagagem feita de nadas onde tudo se destina a vir, a ser, a devir. Ou então esperam, ali onde nasceram e morrerão, do outro lado do rio, esperam sabe-se lá o quê, e quando. Ali naquele mar que se estende, uma rede de pescadores é lançada ao mar. Vinte homens e mulheres de todas as idades puxam-na. Quase uma hora para retirar a rede às garras tenazes do mar. Vinte pessoas, quarenta braços. E ao fim de uma hora, precipitam-se sobre a rede quarenta olhos expectantes. Aproximo-me também expectante. Desta rede depende a fome ou a saciedade de vinte bocas e de outras tantas que em casa esperam os frutos daquela jornada, que o mar como soberano concede ou não aos seus súbditos.Os braços contraem os músculos sacudindo a rede para juntar os peixes. A partir daquele momento os olhos perdem toda a expressão. Os músculos relaxam-se, as pupilas renunciam ao foco, como se lhes fosse indiferente o número de peixes que ali se encontram. Não é. Mas, simultaneamente só pode ser. Porque o resultado não é uma equação matemática que depende ao mesmo tempo do trabalho feito, das horas a que se levantem, do empenho que coloquem nessa tarefa. Não depende de ninguém, nem sequer de todos. De facto, não depende. O resultado está à vista, mas eles ainda não viram, embora os olhos estejam fixos na rede. Na rede onde saltam ainda nem mais nem menos do que cinco peixes. Cinco, como os dedos da mão. Cinco peixinhos ainda plenos de vida. Vinte famílias, quarenta olhos postos em cinco peixes. A quietude do dia que nasce como um entre tantos outros num infinito sem espera, num infinito sem esperança. Tranquilo como a morte e a vida. Assim, simplesmente parado, sereno, o barco torna-se um fardo que se recolhe, os braços puxam a corda do barco de novo para terra. Sem um gesto de desânimo, sem um som de revolta. O silêncio do sagrado: aceitar a dádiva ou a recusa do destino. Vinte homens colocam o barco no lugar, como colocam o silêncio, como colocam o tempo, num lugar parado, adiado. Como se dali não dependesse comer ou morrer de fome. Tranquilamente, conformados, voltam as costas, caminham sobre a areia, trocam algumas palavras e regressam a casa.
Para nós aquela mesma praia representa o reverso da cidade. Para ali transportamos os nossos víveres para dez dias. Tudo o que é necessário para sobreviver durante os dias que ali vamos ficar, porque em quilómetros nenhum comércio se oferece. Carregamos tudo e de volta nada ali deixamos. Parasitamos este lugar durante dez dias distendidos entre a tepidez das águas, o som das ondas que rebentam perto quando o sol penetra docemente no corpo, em cima de nós quando mergulhamos à beira do mar, ou ao longe quando adormecemos numa rede a contar as estrelas. Imagens de um paraíso onde perdemos as imposições do tempodas obrigações, e nos entregamos ao sabor dos pequenos gestos, sem qualquer atrito.  
Atravessamos no batelão, ao lado de seis carros que procuram o mesmo que nós. Paz, silêncio, nada, beleza, suavidade, o desenrolar do tempo sobre uma paisagem límpida e natural, à ausência de agressões, de atritos outros que as ondas que cortas no mar, sobre os teus sentidos.
Sem carro, uma das muitas e nossas anacronias, dependemos de que alguém nos venha buscar para percorrer os cinco quilómetros de picada que nos separam da casa que o nosso amigo generosamente nos empresta. Ligamos para um dos complexos turísticos que fica a 200 metros da casa e meia hora passada um sul-africano com quem trocamos pouco mais do que sorrisos e uma dose de cumplicidade não-verbal aparece para nos transportar numa carrinha de caixa aberta que nos sacode até ao destino onde descarregamos os garrafões de água, a arca térmica com a carne e peixe e os sacos com a comida, para além de uma dezena e meia de livros que finalmente vamos ter tempo para ler. Cinco para cada um de nós que elas também ganharam o vício, graças a deus. 
O alpendre poupa-nos da inclemência do sol e enterra-nos como estacas aquele habitat. Ali permaneceria para sempre se fosse arbusto ou ave ou até insecto.
Regresso.  
Lembro-me de quando dezoito anos volvidos sobre a minha partida, regressei. Os lugares eram os mesmos, seguramente, Sim, alguns edifícios tinha surgido entretanto. Que digo? Muitos. A marginal, debruçada sobre a baía que me acolhia, à vez, sonhos e desesperos, transformara-se numa alameda de mansões. Não a reconheço como a cidade da minha infância. E naquele momento senti que ao longo de dezoito anos me acostumarasem o saber a ruas onde os rostos desfilam, individualmente distintos. Ali na terra que me vira nascerconfrontava-me como se fosse pela primeira vez com uma massa anónima onde os rostos se sobrepunham. Nada do que via, estava guardado e inscrito na minha memória. Nada daquilo existia naqueles sítios que eu percorrera vezes sem conta, sem me dar sequer conta do que via.
Ao longo destes onze anos de retorno a uma possível pátria a estranheza não só não desapareceu como se acentuou. Não foi possível acostumar-me, mais ainda, recuso-me a acostumar-me. E, no entanto, a vida foi-me empurrando gradualmente para a interface de uma cidade que foi envelhecendo longe dos cuidados hospitalares. Assim, o quarteirão que me leva a casa e de onde velozmente me afasto dela, cobre-se diariamente de uma mole de gente que chega da periferia amontoada em camiões a que chamam carinhosamente “mylove” ou nos “chapas” onde as mais das vezes em vez de doze transportam vinte almas. A magia? Não encontro. Deve estar onde os meus olhos não penetram, onde o meu espírito desconhece os segredos que a desvelam.
As mulheres retiram a capulana quando entram na cidade. Caminham sobre uma mistura de terra, sacos plásticos, urina, restos de lixo ou apanham um outro veículo meio destruídos pelas inúmeras voltas ininterruptas e pelos milhares de pessoas que diariamente sobem e descem gritando “paragem”. Às vezes as gentes amontoam-se de tal forma que não se distingue o rosto de alguém do braço, perna ou qualquer outra parte do corpo do outro… Os corpos perdem-se do seu indivíduo e passam a ser do domínio público.    
É com o mesmo desespero do dia em que a deixei, sitiada pela guerra, que a observo.
Percorro a longa avenida que distancia os vários países desta cidade. Alguém me diz: numa ponta estamos em Beirute, noutra queremos acreditar que ainda não saímos de Lourenço Marques.
Saio para a rua caminhando sobre os restos das vendas da rua do dia anterior. Sapatos desirmanados emaranham-se em cuecas usadas que ninguém quis comprar. Assim, sem mais, lembrando outras vidas que já os usaram. Uma dança de sacos plásticos e de areia rodopia em torno das nossas cabeças. Começam a chegar os vendedores da manhã. Vendem café, sandes de ovo, de badjia, vendem tomate e alface e laranja ao lado de mochilas e roupa usada.
Ando dois quilómetros e sento-me numa esplanada. “anybodyneeds a apartement to rent?” ouço e o olhar de ave de rapina do homem que oferece neste inglês macarrónico um apartamento ao preço de Novo Iorque alterna-se com um sorriso cândido, prestes a saltar sobre a presa ou a bater em retirada.
Um português acredita que está no Nicola “uma tosta e o sumol da praxe” sentencia para o empregado que se acostumou também com o linguarejar dos tugas.
Assim, sem mais escrevo, como quem resiste… como quem insiste em viver apesar de tudo.


A Teresa nos anais do msiro e depois

MAR DE PRATA 

Estende-se a prata dos dias
num braço de mar quieto
donde partem navios.

Também me quis nómada
ou não quis
Karma ou destino
cigana e sombra
de silêncios ancestrais

Junto as peças
uma a uma
uma enorme clareira
dobra-se sobre o passado
e estende-se como um mar
anterior a mim.

Mergulho
sinto na pele a frescura de uma água
que não me é estranha
aflora dalguma fresta
desta sombra prateada
que se desenha ao fundo do meu leito.

Tacteio a água,
os seus contornos
escavo uma onda.
Ela é breve.
Resta-me outra para escavar
a primeira já é espuma
rosto apagado na areia

Estende-se a prata dos dias
e escavo numa gota o mar inteiro.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

MARIA LEONARDO NA CINEMAGOSTO FILMFOKUS PORTUGAL-BERLIN


A minha filha Maria Leonardo, acaba de inaugurar uma exposição de fotografia,em Berlim. Estou totalmente babado, aquele pintainho mijão que nunca me deu tréguas, gerou um ovo de muitas virtualidades. Espero, com desespero, que lhe corra bem, e, já agora, que venda muito. Agradeço à mãe, Ana Cristina Leonardo, que lhe deu uma boa educação.
E escrevi para ela um conto, que faço acompanhar de algumas das fotografias:
 
 
 
HOMEM SENTADO NA MONTRA
                                               para a Maria Leonardo
Um conto. Redigir em dois dias um conto capaz. Esticando a massa que acolherá o molho de tomate, os ingredientes, um queijo que funda. Ainda que reservando uma última lâmpada para o assombro final. Como aquele ilusionista reformado que levava nos bolsos surrados da gabardina um piano de cauda e duas congas e que errava pela cidade alumiando sorrisos, no encalço da partitura. Um a zero, ganha o Tottenham.
(Recomecemos pela hipótese do narrador estar sumido porque num golpe de vento irrepetível lhe saiu a lotaria e agora prefere mover-se em surdina, à socapa, passos de veludo sobre um tapete felpudo, de modo a não ser atropelado pela cobiça de personagens e leitores).
No Cristal Palace joga-se com sangue: uma perna partida por um pontapé seco e colocado, está refeita a igualdade moral ( - a gana com que o defesa central se atirou à perna do atacante, aliada à ratice de não ter parecido um ataque de maldade, não defrauda as espectativas da sua caríssima contratação: temos guerreiro!). Penalti. Uma qualidade que distingue os contos, a vitória, neles é sempre garantida nos penalties.
Quem mete a chave na porta, às três da manhã? Eh! – grito. Faz-se silêncio. Dois longos segundos em que o silêncio se empastela e ganha anexos; seguidos de uma corrida de retirada, célere, que irradia de si mesmo como o fósforo que aprende a arder. A novidade rasga o tecido do mundo, a máquina oleada range diante de um grão de areia. Quem tem uma chave de minha casa e se apresta a visitar-me, sem avisar, às três da manhã, com intenções enviesadas? Esta noite não voltará. E amanhã terei de trocar a fechadura ao conto.
Um bom conto é uma presença e um segredo. A presença é o “ground”, o mais importante está no aracnídeo intervalo entre as figuras, na forma como aquele se move e dissimula. Um gato acomodado ao forro de uma gaveta, um dilúvio camuflado num pingente do candeeiro de vidro, a turgência que desperta o membro murcho da múmia.
Abro um livro ao acaso, pela cauda. Abro sempre os livros pela última página, para espreitar que números de telefone terei lá assentado, que versos desgarrados aí tiveram a sua urna. Estou nervoso. Preciso de ocupar o tempo, as mãos, de perder os olhos noutros limiares, paisagens com guiador. O ruído da chave na porta enfloresceu as pontes da insegurança; o ruído da chave na ranhura consolidou uma brecha nas plácidas circunvoluções da mente; não voltará o intruso esta noite, mas eu, que só queria escrever um conto, descubro-me mais siderado que o aerólito a quem deram uns pauzinhos chineses para se banquetear com a estrela negra. A paz é um sentimento tão breve. Tudo nos suplanta e sobressalta, ao mínimo alarme ensombra-nos a derrota.
Quem será esta Márcia, de quem assentei o número de telefone? É um número fixo. Será solteira, estará sozinha, pensará em mim, neste hora em que lhe dedico a minha mais entranhada arte da fuga? Será bonita, um camafeu? Há quantos anos terei eu escrito este número na página, como uma promessa de revisitação? Seria um mundo ideal, aquele em que encontrássemos um número de telefone de uma desconhecida às três da manhã e num impulso lhe telefonássemos para trocar fluidos, palavras, as pausas, os sinuosos caminhos da respiração, quiçá (como se intrometeu no texto este tolo advérbio?) emendas para o mundo. Mas não, vamo-nos amputando. Lê-se na anotação que escrevi no livro, logo abaixo do número de telefone da Márcia: “temos de avançar com uma amputação de cada vez, e, suficientemente amortecidos, temos de renunciar ao que é preciso para que o medo do esquecimento não nos entrave a vida…”. Quantas dobras se dão neste abstruso raciocínio? Quantas vezes sou eu opaco para mim mesmo? Quereria dizer que temos de aceitar o esquecimento para que a vida decorra sem sobressaltos, fluindo anónima, livre da sua própria gravidade? Neste caso, o amor seria o antídoto contra as dores de esquecer, a anestesia? Quantas vezes amei para me anestesiar? A que distância orbitamos sobre nós, quando queremos começar a pensar – e será possível fazê-lo sem a torpeza de esquecer? Recuso-me a embarcar em mais abstracções. Decido-me. Digito os números da Márcia. Toca quatro, cinco vezes, atende.
Ouço-me dizer: “Meu amor, sou eu. Voltei… Meu amor, tudo o que faço ou medito fica-se pela metade que só o teu corpo completa…”. Observo desapontado que já falo com teleponto, e como raio me entrego a galanteios baratos com uma desconhecia, recrimina a minha mente, prestes a emitir umas sílabas de desculpa. A inesperada carícia da voz dela atrasa-me a intenção: “Querido, estou com muito sono, encontramo-nos amanhã, no Nautilus, às dezoito… beijos, lindo!”. O clic do fecho da comunicação desfere na minha carne a mais amena das flechas. Uma ferida acalmou dentro de mim. Retomo o conto:
«Três e dezoito da manhã. Amanhã é um dia de acordar com a mosca. Acordamos com a mosca quando verificamos que é inescapável: há aulas para dar das 13 às 22h. O meu dia da mosca é a terça.
As moscas, como os ventos, sempre me habitaram. As moscas de Sartre, as anti-euclidianas de Córtazar, a Albertina do O’Neill; as moscas etíopes enroscadas nas faces dos miúdos, que tomam por aerogares; o temor nunca confessado de Gregor, de jovem e sisudo escaravelho dominado pelo pesadelo de se julgar uma rutilante mosca verde; a taciturna mosca de Cronenberg; a volta-ao-mundo-em-oitenta-moscas; a mosca que é um epígono do anjo e a irmã: um anjo transistorizado; a mosca de Victor Hugo. Que via Victor Hugo na mosca? Um ponto de mira para o infinito. O meu primo, em miúdo, tirava-lhes as asas e enfiava-as nos buracos das tomadas. Eu era menos cruel e inventei as moscas-fantasmas, polvilhando-as de farinha.
O que é a paranóia senão uma mosca telescópica voejando em torno de certas palavras saturadas de açúcar?
Poder-se-á, a propósito das hipérboles da mosca, falar de uma estética restrita?
Uma vez comprei um casaco de cabedal numa loja de roupa em segunda mão e fui perseguido por um zumbido durante horas, até que descosi parte do forro e vi que uma mosca se escapulia. Que probabilidades havia deste fenómeno acontecer? E porque raio a mim, que fui sempre atraído pelos mistérios da mosca?
O drama da mosca é ser um estar-aí sem nunca lhe caber o ensejo de um estar-em-si. Daí estar tão mal equipada: o seu horizonte visual não ultrapassa o meio metro e a sua percepção visual não tem a acuidade necessária para topar a teia de aranha, literalmente invisível para o desprevenido díptero.
Talvez seja este pormenor que liga a nossa condição à da mosca: ela não vê a teia como nós não captamos a urdidura viscosa com que o futuro nos atrai e lixa com a sua lixa para ferro.
A mosca é um hiato na eternidade ou o excremento do vento? Questões para minguar em colóquio com os alunos.
Às terças, dia de Napoleão desembarcar em Santa Helena.»
Suspendo os dedos sobre o teclado, como se ficasse de bolsos vazios. Aonde isto nos conduz, como progride a narrativa? Não progride, ou fá-lo com o vagar das natas num coador. Por influência da terceira sinfonia de Gorecki que pus a tocar para matar o silêncio macaco que dentro de mim devolve uma e outra vez o estalido seco da lingueta a dar de si, ao girar da chave na fechadura? Não acabei de dizer que a voz de Márcia me acalmou? E o estalido não chegou a acontecer, antecipei-me com um grito, embora a auto-sugestão mo martelasse na cabeça, imprimindo figuras, rufias rilhando na penumbra; não fora eu ter reparado no suave deslisar da chave na ranhura e esse momento virtual teria sido materializado, tornando-se a massa de um encontro desvairado de desfecho absolutamente incerto.
Não aguento mais a tensão, vou verificar de novo se as trancas das portas estão corridas no trinco (ainda há pouco não estavam, daí o perigo), vou meter-me na cama e tomar um lexotan que têm em mim, como raramente os tomo, um efeito devastador. Amanhã continuo e pode ser que, entretanto, sonhe com a Márcia e a identifique.
Faltei a uma aula para comparecer ao meu inesperado encontro no Nautilus, o café de Maputo onde abancam os tugas, conspirando a toda a hora contra os azares que disputaram as suas escolhas e a sorte dos sonâmbulos.
Há cinco mulheres solitárias no café. Não reconheço nenhuma, nenhuma delas me acena, denunciando-se. Duas seriam mais facilmente ossadas de dinossauro que fêmeas de primata. Dispenso-as das minhas cogitações. A uma terceira, a quem aflora um buço, cobre-lhe a cabeça um lenço, é muçulmana, risco-a da lista. A que me agrada mais, uma negra cobreada com os olhos iluminados por um nítido vaivém das marés, sorri, no momento em que me dispunha a dirigir-se à sua mesa, à chegada de um gabiru que a beija sem equívocos. Só me resta a quinta, uma loura emaranhada numa beleza que entardece como tábua rangente. Teria sido um esplendor há dez monções. Mas que esperava eu, um cinquentão amolgado como o enxofre saído do inferno?
Chama pelo empregado – é a voz dela! Ou estarei enganado? A minha hesitação é fatal, ela move-se com uma agilidade que desvanece a imagem das rugas. Corro para fora e ainda a enxergo a enfiar-se num tchopela. Tenho sorte, há outro na praça. Peço, Siga o seu colega.
Paramos à entrada do Icma, o Instituto Alemão. Atravessa o portão, franqueia a porta. Saio então do tchopela. Há um ciclo de Novo Cinema alemão no Instituto e a sessão do fim da tarde está prestes a começar. Num impulso compro um bilhete e entro, baixam as luzes. Não a vejo.
Aos três minutos da fita, uma jovem camponesa abraça um leitão pelo pescoço a quem fala carinhosamente, numa intimidade, vê-se pela mansuetude do animal, em que nunca se interpôs o bafio, e, como quem não quer a coisa, a meio da lengalenga, saca uma faca do bolso para desenhar uma meia-lua no pescoço do pequeno bácoro. O sangue gorgoleja e ela, acariciando a cabeça do bicho, aquieta-o, sussurrando, “não vai demorar, não vai demorar…”. Segue-se um filme electrizante, intenso e simples como todas as histórias verdadeiras que nos agarram pelos gasganetes. Só me voltei a lembrar da Márcia quando as luzes se acenderam, sem a descortinar entre os presentes.
Saio abananado da sala, meio aturdido pelo filme e pela surpresa de não a ver, e o meu olhar varreu o átrio do instituto e as imediações. À entrada do bar, num relance fortuito, vejo num placard um poster que anuncia a exposição de fotografia da minha filha, em Berlim. A descoberta encanta-me e perturba-me: nada fiz para a auxiliar nesse primeiro assomo artístico. Sinto-me um detective baixote, míope e careca, a farejar o peixe podre na bancada dos versos, no intuito de deslindar entre as guelras quem perpetrou o crime da pobreza. Volto a sentir outra chave, a escarafunchar noutra fechadura - roda em vão - e retiro-me, merda, esquecido das humidades virtuais de qualquer Márcia. No tchopela, entrego-me ao debate, “Sou um escritor, entendo muito mais de sentimentos do que tu…”, reage o escritor, contra o pai, que riposta, “Ó rapaz, alguma vez te aconteceu alguma coisa na vida? Antes teres sido morto a tiro num assalto!”.
«Muitas provas, grandes revelações. Era assim na Bíblia. É assim nos filmes que têm a redenção como motor narrativo. Táxi Driver, American Gigolo, dois filmes que vocês não podem deixar de ver, meus caros, se querem aprender algo sobre uma demasia benigna que ainda se derrama sobre este período pós-humano…», arengo aos alunos, descrente de que eles conheçam o significado da palavra redenção.
Há dois dias que o conto não engatilha. Telefono-lhe. Márcia? A voz que me atende não é a mesma, maviosa e macia, da vez anterior; é o mesmo grão de voz mas mais metálico, mais grão-de-bico. Está desagradada, O senhor de novo? Manifesto o meu desconcerto, Então, mas…Desilude-me, Respondi-lhe delicadamente para o despachar. Liga-me às três da manhã um número que desconheço. Atendo, pode ser uma urgência. E sai-me aquela conversa de galo de capoeira. Que queria que fizesse? Assim, em duas frases despachei-o e no dia seguinte ainda me ri a imaginá-lo no Nautilus, a mostrar o peito às senhoras…
Abate-me a vergonha. Tento contemporizar, Mas não nos conhecemos? A resposta é definitiva, Não creio e dispenso-me de saber o seu nome. Deste modo, se acidentalmente nos cruzarmos, você sempre tem a chance de não passar logo por idiota… Desculpe então, e agradeço-lhe a bondade, Despeço-me, boa tarde. Desligo. Como salvar este velho esqueleto corroído da jaula do ridículo?
(Contaram-me que o narrador a quem saiu a lotaria regressou com um circo à cidade. É uma companhia de grande habilidade retráctil e que se desloca inteira dentro do bombo. À medida que o narrador avança pela cidade - o bombo à frente do peito, pendurado nos ombros - marcando o ritmo do malabarismo com as macetas que faz bater nas membranas, saem da concha de som percutido cada um dos artistas que abrilhantarão o espectáculo: o homem que parte nozes com a força das narinas, as gémeas com uma gravidez ambulante e cuja barriga se trespassa, como loja alugada, à vista desarmada, de uma para outra; o ilusionista que corta a metade invisível de si e depois se move apoiado nuns braços telescópicos; o domador de letras garrafais – é um enigma esta atracção -; a célebre Ninfa de Malibu, que dentro de um tanque lava todos os dias os dentes a um tubarão-martelo; o maestro de uma orquestra de canários; os cães que defecam a pedido tomos das Páginas Amarelas, referentes à zona requisitada pelo espectador; o contorcionista que vive na chaminé de um cachimbo. Dizem que é um circo que comprou na Sibéria e que metade dos artistas estavam criogenizados).
O Chelsea sofre o terceiro golo: é o heliventilador de Pellegrini a espalhar pela casa a áurea cagança de Mourinho.
Insónia. Não durmo. Três da manhã, again and again. Nunca se cansa a noite de se encavalitar em tão rágeis entalhes, fantasmas locomovendo-se sobre andas? Serão horas decentes para telefonar para Berlim? Qual será a diferença horária? Queria contar à minha filha o episódio com a Márcia para, ao menos, ela rir-se do pai. Convenhamos: rir-se-ia? Ou havia de lembrar-me de imediato que sou casado e tenho filhos, deveres, responsabilidades e não sou um trapezista solteiro para me entregar a novas piruetas? Talvez se lhe explicasse que na escrita tenho o direito de ser um polígamo, um equilibrista no caos. Talvez mesmo ensinar-lhe ( - como se se ensinasse algo a alguém, tendo ela a paciência para a despropositada peroração de um pai, antes do sucesso) que a arte é amoral e um reino da poligamia. Hum, teria isto qualquer sentido para uma jovem a quem magoou a separação dos pais por adultério paterno? E a arte é um reino da poligamia ou um estado do polígono? Merda da indecisão, que não me abandona. Há lugar para uma indecisão na mise en âbime?
Trazem-me o café. Senta-se à minha direita um tipo façanhudo. Um preto de gestos ríspidos e boca contraída, zangado, a vida só lhe deu a conhecer um circo de pulgas. É inútil procurar qualquer conversa ou debate por aqui. Cinco minutos depois, à minha esquerda acomoda-se um jovem calmeirão. O queixo sobressai-lhe mas o seu olhar é benigno, e pende-lhe, desajeitada, uma gravata berrante que pinga como a piroga na cascata. Quando vejo que mexe o açúcar no café munido de toda a pachorra do mundo, pergunto-lhe de chofre, Desculpe incomodá-lo, mas para si a arte é um reino da poligamia ou um estado do polígono? Mira-me dos pés à cabeça, antes de desferir, numa inadivinhável exasperação, Para mim um artista é um idiota que acorda horrivelmente feliz e a arte é um lixo…
A chapada é definitiva, não dá escapatória. Sinto-me à beira do abismo sobre a cascata, entalado  entre um King Kong envelhecido e um jovem buldogue especializado em ginástica subaquática.      
Mudo de mesa, incomodado com uma agressividade que se me afigura escusada face à inocência da pergunta: poligamia ou polígono? O café tem um degrau largo à janela onde se dispõem uma fiada de mesas, e é para lá que me mudo. Sento-me, fico embutido na montra. Esta eleva-se sobre o nível do passeio pelo que sob a minha mesa, do outro lado do vidro, sentam-se dois engraxadores, nas suas bancas de madeira, que se esmeram a fazer rebrilhar o couro alheio. Um dos dois é músico – um estupendo viola baixo, dizem-me –, obrigado a arredondar as suas contas com a graxa.
A zona é um entreposto, com paragens de chapas e machibombos, vendedores ambulantes, milhares de pessoas e de cores garridas cruzam-se, numa amálgama incessante; na esquina, ao lado da banca que vende cds com filmes piratas, alguém escalpelizará pombas, para adivinhar o futuro. O engraxador cuja cabeça está mais próxima dos meus pés é enorme e tem uma careca polida onde o sol se irisa, incandescente, como nos cromados. Com estas cores e este painel humano, que magnífica fotografia faria a minha filha, com o pai embutido na montra. Este desastrado que, pensando nela, no orgulho que tem nela, abre o caderno e com uma urgência doída, ridente, começa a escrever:
«Um conto. Redigir em dois dias um conto capaz. Esticando a massa que acolherá o molho de tomate, os ingredientes, um queijo que funda. Ainda que reservando uma última lâmpada para o assombro final. Como aquele ilusionista reformado que levava nos bolsos surrados da gabardina um piano de cauda e duas congas e que errava pela cidade alumiando sorrisos, no encalço da partitura. Um a zero, ganha o Tottenham.»
 
 




 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

AS TRÊS GRAIAS

As três Graças, Rubens
 
Vasculhando materiais antigos descubro este ciclo, que me agrada.
As três Graias: o Tempo, a Memória, o Sono.
Já terei usado um verso ou outro noutros poemas, refundindo, não importa. A coisa surge-me como uma unidade que merece a sua contemplação à janela.
Para ilustrar escolhi o quadro do Rubens sobre as Três Graças, porque estas, ao contrário do artista, me parecem Três Graias.
 
O TEMPO
 
1
Gosto, no Tempo,
que me dispa
em contramão.
 
Se me aperalto,
Ele, num aceno
açula os mastins,
 
arma no desejo
de Teseu
a labirintite.
 
2
O simples: estria
que difere
por natureza –
a despeito
dos liftings do amor,
alguma coisa
que difere.
 
Agarrado ao galho
do Tempo,
sou o último fiapo
que o rato
ainda não
visou.
 
3
O meu corpo é o corrimão
onde se coçam as calças
da valiosa criança
do Tempo.
 
4
Era assim quando fui cão.
O orgasmo?
O McGuffing da morte.
 
E hoje cheira-me que transijo
em solo desconhecido,
que o Tempo se devota
a polir a vigota do temor.
 
5
Não é matéria de calendarização.
O Tempo, apenas, num desnorte,
treme treme no luxo da tsé-tsé.
Desaba de si e dos seus como
ninguém,
ou talvez a térmita.
 
6
Fanados por um mistério mais vão
que o das Fossas Marianas,
chegamos a confiar nele,
a incutir:
 
você é quem sabe,
você faz o preço!
 
O Tempo,
de sorriso a tiracolo
tira-nos as divisas:
o seu troco
de alfaiate é o nosso luxo.
 
7
‘Complicas em demasia
a tua vida, se te preocupas
com a acústica do caixão!’,
 
confiou-me Ele, na única vez
em que partilhámos
beata & aguardente.
 
8
É um princípio
de borra-botas, matar
gratuitamente para que a vítima
não chegue a distinguir trufas
de miosótis.
 
Por isso,
enternecidamente,
me escama
o Tempo,
alheio a que eu não seja
sequer
o travesti
de um peixe
.
9
As varizes do Tempo
(coisa feiota de se ver)
renovaram
em mim os brotos.
Nada a fazer.
O temperamento
do bruto
fatiga-me,
dois pontos,
embora a fadiga
me faça crescer, escoucear.
Julga ele que m’ensandece:
que tomarei a baba
que decorre
por cogitação dos fósforos.
Vai uma aposta?
 
10
As nádegas do meu tempo
que foram rijas
como bilhas
de gás
já não enxameiam.
 
11
Não há psicologia que suporte
o pleno
de uma cabeça peneirada
no vidro,
nem a palpitação do sinistro que irisa
e avermelha o empeno do para-brisas.
 
A alta velocidade,
o Tempo é o olho das três Graias,
polinizado de mão em mão,
até que, sem raiz,
pira.
 
 
 
A MEMÓRIA
 
 
1
A memória, a cento e trinta à hora
nos cromados novos
e acossados pela extensa,
tangível, crepitação dos girassóis,
 
de meu só anseia o escalpe.
Que a goiva - insculpido o pó
nos sulcos da madeira –
não descure a sede da galinhola.
 
 
2
A memória, a ocasião falida,
respira como o chacal
apodrecido pelo amor.
 
3
Com a imparcialidade que perfura
a ferrugem - sonha a memória
pôr à tona dos dedos – xamã
em viagem – a mão.
 
4
Na acerada ponta da palavra
confluem as aves e o dardo.
 
5
Desvairo lancinante, o nome,
assim que o lobo
do silêncio imobila a palavra
pelo cachaço.
 
 
6
Inescrutável, nas carótidas do Indiviso,
a dor da terra apátrida
– há ração provisória p’ró indulto?
 
 7
Corvo: fuliginosa tatuagem
da insónia no coração de Noé?
 
 8
A memória, hesitação duradoura
entre fogueira e litoral.
 
9
Infértil o faro do cão qu’esgaravata
o pisca-pólos sob o asfalto.
 
 10
A memória que, com uma grua, alça
a lua afogada do lago
orbita em que domínio?
 
 11
A pele, o sorgo, os ratos, o sisal:
quatro momentos de estupor da pedra.
 
 
12
Aturdidamente, os galos ganham
à noite - num fullen de duques –
o combate pela transigência.
 
13
Restituída, em nome da orfandade,
a memória entricheira-se.
 
14
Gastou-se, a lixa
da caixa de fósforos. Paul
onde a incandescência da imagem
fundiu alma e asma.
 
15
O mais nítido pavor,
veia que pulsa por msn
e cinzela a respiração do osso.
 
16
Quem estanca o pipilar
das aves nocturnas?
Quem aguarda, inebriado,
por detrás da roldana da tristeza
até que chegue o mar,
que chegue a luz?
 
17
Incorrespondido o enigma,
a memória desprende-se
da pele que ladrilhou
- reminiscência tão pura
que, saciada, a veia
bebe aos goles.
 
NOTA: este poema corresponde a uma leitura de Antecedentes Criminais, de Amadeu Baptista; os versos em itálico são deLE.
 
 
 
O SONO
 
Cansada de enfiar o dente nas penas
dispersas, a terceira Graia dorme.
Sileno ri e coça o casco.
A minha filha Luna interrompe:
Pai, que bodega, hoje sonhei
outra vez com o galo amarelo.
É contra as séries.