segunda-feira, 26 de agosto de 2013
A SÍRIA E A QUESTÃO DE ADORNO
Não creio que um poeta com um mínimo de seriedade possa, a dado momento, deixar de enfrentar a questão de Adorno.
Qual é a questão de Adorno?
Dizia ele, se admitimos que Auschwitz é o mal absoluto e que a poesia não pode, doravante, estimular a busca de uma beleza ideal, como é que a poesia, depois de um acontecimento que revelou aquilo que havia de mais negro na humanidade, é ainda possível?
Pode o poeta transmitir qualquer coisa que seja - malgrado o inferno com que modelizou a memória - da ordem do "canto lírico", face à violência, face ao aviltamento da indiferença a que uma sobrecarga de informação nos expõe, hoje?
Houve inclusive quem tenha afirmado, "um poeta que, hoje, se queira lírico não passa de um canalha".
Depois do que nos noticiam na Síria, estas questões são de novo actualíssimas.
Foquemo-nos pois no que "pode" a poesia.
A poesia, em meu entender, sendo "apenas" um meio entre outros de contribuir para a felicidade dos homens, como declarou Wallace Stevens, fá-lo resgatando-nos da monotonia a que todo o primado da representação propende, despertando em nós "o caçador de instantes".
Este caçador de instantes (a "figura" caçei-a em Rafael Argullol) é o homem que não admite a imagem de um continuum, seja para o tempo, seja para a vida, e entroniza com uma outra medida da existência, paralela, descontínua, livre, não normativa, em permanente transformação.
Então, a sua energia lírica estilhaça as margens da representação para se ancorar na expressão, essa melodia ou ferida incicatrizável que vivifica a linguagem e altera a nossa relação com a realidade, induzindo-lhe uma mudança.
Ao cantar as "rugosidades do real", a ténue fragilidade do aparente ou a força do gratuito, a poesia contagia a realidade, compromete-a com o contingente, e precisamente, por recriar sucessivamente as suas condições de existência, i.é, de inteligibilidade, desvia-nos da tentação de ficarmos dependentes das coisas ideais.
Ou seja, concebemos a poesia como uma "fuga" para a realidade e não uma fuga dela. Ainda que esta realidade, como a vislumbro, seja dilatada: o realismo é apenas um dos seus braços, e não ao contrário.
Pode então a poesia enfrentar o Mal Absoluto?
Existe, no meu entender, um erro de perspectiva na formulação de Adorno.
É uma falácia querer contrapor ao mal absoluto a inefabilidade de uma beleza ideal ou de um bem perene, que não faleça, pelo motivo mais drástico: toda a aspiração a uma idealidade tende a degenerar rapidamente num Mal Absoluto.
Mesmo que tenha como pretexto a poesia ou uma experiência espiritual ou religiosa.
Neste aspecto, as religiões orientais defendem-se mais do que as Religiões do Livro, ao partirem do princípio de que um estado de budeidade, por exemplo, ou a meditação, são experiências inapelavelmente individuais, nas quais a transmissão do dogma não substitui a prova da experiência. Abre-se aqui o espaço para um segundo nascimento, que independe duma instância suprapessoal, duma mediação impersonalizada. Aquilo que é aceite como experiência comum a alguns, e até como cânone, tem de ser verificado por cada um. É esse o sentido do conselho budista: «Se encontrares Buda, mata-o!».
Pelo contrário, o proselitismo ou o integrismo religioso, de outras esferas religiosas, são Males Absolutos onde somos interceptados pela "heteronomia do valor": agimos "em nome" de uma pura exterioridade, de uma mediação que nos administra os valores e a emoção. Somos então dominados pela patologia do simbólico, a qual reverte o qualitativo no quantitativo.
Nos antípodas disto, a poesia, pelo rigor da porosidade (o poeta é o homem mais "esburacado" do mundo) que a incorpora, o desenho do incriado e a consciência da sua vulnerabilidade histórica, não tolera a massa, a abstração, a obturação do nome.
É plausível mas não aceitável a ideia de um Mal Absoluto para as Massas. Este assemelha-se a uma formação coraligínea sem peixes: um anonimato. O Mal Absoluto é intrinsecamente pessoal, tem um nome, o nome que "eterniza" a vítima.
O erro de Adorno foi ter admitido, legitimado, a abstração, cedendo às relações de força que o fascismo potenciou: um morto apenas repete outro, converte-se num número. Só um nome materializa o lugar da memória.
Se os média não fossem já essa produção maquinal de «incultura informada» (Konstantinos Tsatos) que nos ejecta para a abstração, os mortos da Síria (as crianças, cuja morte escava dentro de nós) tinham todos nomes. Mil e tal mortos não me diz nada, o Francisco, o José, o Joaquim o Ahamad, a Fátima, têm um rosto - interpelam-nos.
Uma Massa é uma simultaneidade de movimentos em fusão, rapidamente indistintos, cegos.
Ao aceitar nomear a obscenidade de um Mal Absoluto dirigido às Massas, Adorno sem querer polinizou um conceito que torna imagináveis outros genocídios, dado que o Bem, o Mal, ou a Beleza, concebidos como uniformidades, aparentemente têm os ilimites (é sempre possível alargar os seus limites, como a sua actualidade, no caso da Beleza) do mercado da comunicação - estão sempre em expansão, como o universo.
O que os gregos anteciparam com o conceito de hybris (a desmesura).
O que se pretendeu liquidar em Auschwitz? A singularidade. Aquela morte programada, colectiva, ilustrava a crença de que se podia burocratizar – i. é neutralizar – as intensidades humanas, a subjectividade, impersonalizar o fluxo. A vida era ali encarada como o pequeno acidente, a paráfrase, que dá proporcionalidade ao lugar-comum.
A poesia, pelo contrário, desconcerta o lugar-comum, opera nos antípodas dele e ilumina o que escapa à linguagem, ao que a atravessa e ultrapassa, em nome de uma incidência particular, de uma experiência concreta, que só a palavra galvaniza. E dirige-se a cada um.
Por este viés, a beleza não emerge como a cristalização de um ideal, algo embrionário que chegou à sua perfeição, antes se valida como o que harmoniza momentaneamente o caos e desperta um padrão no informe, uma melodia, relevando «um sentido para a existência que estava até aí fora do conceito» (Yves Bonnefoy).
É por isso que a morte não atinge a motricidade da expressão poética e que a questão de Adorno afinal visa um alvo errado ou se concentra na época errada.
Creio que Adorno se dirigia ainda ao poeta épico, enquanto no Eliot de Terra Baldia, por exemplo, já se entrevê um caminho de aporias. A poesia de Terra Baldia é a soma das estrias que foi possível salvar à fragmentação e à incomunicabilidade; já Celan consegue ser fulgurante naquilo que gagueja.
Ou seja, Auschwitz foi a ilustração de uma lei determinista, enquanto a poesia que não se confina ao género – porque também há uma poesia parafrástica, condicionada pela representação - é o que é de todo indeterminado, uma dança que exigisse que estivéssemos atentos aos intervalos do ritmo, pois só aí se recupera a imprevisibilidade do vento.
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quarta-feira, 21 de agosto de 2013
ELUCIDAÇÃO ÀS FONTES
O que parece impossível pode acontecer: na Abysmo
reuniram-se uma série de amigos escritores que em vez de rivalizarem entre si
dialogam, em vez de competir riem mutuamente, em vez de serem egoístas discutem
os livros uns dos outros, na tentativa, muitas vezes ainda em embrião, de que
cada um dê o melhor de si na senda do seu projecto. Isto é raro e deve ser
mantido, e vale mais que contractos milionários em editoras que só têm para
oferecer relações de utilidade.
Pior, estamos todos evidentemente irresignados com as nossas
situações pontuais, mas não com o mundo, o que nos leva a todos – e esta é
outra característica comum – a afirmar e a agir, em vez de nos confinarmos à
energia do ressentimento.
Não somos nem queremos ser “marginais profissionais”, ou “revolucionários
façanhudos”, com morais bicudas que não admitem transigir com a ética,
unicamente escritores que fazem aquilo em que acreditam, convicta e com o
máximo de verdade e persuasão possíveis.
Parece que isto dá azo a todas as interpretações malsãs e
equívocos. Paciência.
É engraçada a minha história com o Cotrim e como ela tem
dado azo a tantas desembocaduras.
Não me lembro exactamente do dia em que o conheci e que
entrámos imediatamente em empatia. Sei que já convergimos maduros na amizade e
que sempre nos divertimos juntos. Fomos cúmplices várias vezes: tentámos vender
histórias às televisões, em várias edições que publiquei sobre indicação dele
quando tive uma pequena editora, a Íman (olá Vera Tavares, olá Pedro Nora, olá
João Chambel, olá Daniel Lopes, olá Jaime Rocha, olá Vicente Franz Cecim, olá
Nicodemos Santos, olá Nuno Torres, olá António Rodrigues, olá Vergílio Alberto
Vieira, olá José Mário Silva, olá Teresa Aica Barios, olá Diniz Conefrey, olá
Ondjaki, olá João Jesus de Paes Loureiro, olá Vasco Baptista Marques, olá Celso
Martins, olá Paulo Ramalho, olá Maria Velho da Costa, olá Rui Tavares, olá Helder
Moura Pereira, olá José Amaro Dionísio, olá Teresa Noronha, olá Amadeu Baptista, olá José Teófilo Duarte… - meus cúmplices,
autores, tradutores, sócios da Íman), em projectos e desânimos vários… mas
divertíamo-nos sempre como brutos. E às vezes divertíamo-nos de uma forma tão
desproporcionada que um dia o nosso almoço, regado como soía acontecer na corte
de Salomão, acabou comigo com a cabeça do úmero esmigalhada.
Em consequência do qual passei um semana no hospital,
assistindo a todos os bombardeamentos de Cabul. De onde saiu um dos meus melhores poemas de
sempre (um ribeirinho de dezoito páginas em que endereço uma carta ao poeta
sírio Adonis, e que depois seria publicado no livro «Combate de Flautas», pela
&etc.).
Não. Não foi um caso de violência doméstica. Eu havia
comprado uma ópera brasileira «Guarani», e discutíamos a ópera italiana contra
a alemã. Ele queria à viva força levar o CD para gravar, sem eu o ter ouvido, e
eu insistia na devida necessidade de eu ter a primazia. E a meio da praceta do
Camões ele, de brincadeira, agarra-me no cd e dá-me um piparote com a anca. Eu
surpreendido pelo inusitado encosto da nave Apolo 13 dei um mau passo para o
lado, tropecei numa pedra da calçada e caí desamparado sobre a caldeira de uma
árvore tendo batido com o ombro numa esquina da caldeira.
A única coisa que tenho a lamentar é que nunca ouvi a ópera
Guarani.
Portanto, devo ser o único autor no mundo que parte os ossos
sempre que almoça com o seu editor.
Isto liga.
Mas isso não me dá direitos de propriedade. Portanto ao
contrário do que diz a Isabel Coutinho (por amabilidade, o que me alegra) não
sou co-proprietário nem co-editor da Abysmo.
Aquilo é mesmo dele, do má-raça-Cotrim, e nós, os seus
amigos e autores, estamos todos interessadíssimos em que resulte, e por isso
falamos uns com os outros, mas os livros saem como saem porque é ele quem os
faz e porque ele os faz como o poeta que é – o resto são balelas.
Claro que a amizade pode ser uma espécie de
proporcionalidade que é indeterminável e que vou tentar arrastá-lo para o
casamento da minha irmã (pá, temos gim, grappa, uísque, uma piscina e uma
cantoria infindável), mas isso são outras favas por contar.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
"LINCHADO POR ENGANO"
foto de josé teixeira
Eu não sei se alguma vez estive
com o jovem escultor Alexandria, “linchado por engano” (que destino!) num dos
bairros periféricos de Maputo, por um povo a quem a indiferença dos políticos
anda a deixar colérico. É provável que sim e o luto em que anda a malta da
Garajinha, uma das poucas tertúlias que frequento em Maputo, indica-me que sim.
Mas fique registado a minha perplexidade e desconsolo. A minha revolta.
Tenho vários amigos artistas que
vivem nas periferias e estão todos muito, excessivamente, inquietos com a vaga
de violência que nesse momento campeia por lá.
Sobre este assunto, veja-se o
excelente texto do José Teixeira no blogue Ma-schamba, aqui. http://networkedblogs.com/O5HTJ.
Aqui deixo também uma foto do Pimentel, suponho, com alguns trabalhos daquele
que era considerado uma das novas vozes mais originais da arte moçambicana.
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Alexandria
quinta-feira, 25 de julho de 2013
DELEUZE E O IMPODER
Em carta a um amigo japonês, Kuniich Uno, escreveu Deleuze, sobre como se sucedia a sua colaboração com Guattari, com quem urdiu três livros nucleares, O Anti-Édipo, Mille Plateux, e O que é a Filosofia:
«Pouco a pouco, um conceito tomava uma existência autónoma, de modo que por vezes nós continuávamos a compreendê-lo de maneira diferente - por exemplo, nunca compreendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”. Nunca o trabalho a dois tendeu a uma uniformização, sendo mais uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma».
Raramente vimos manifesta uma liberdade tão viva e uma tão expressa paixão pelo múltiplo. Os dois pensadores colaboravam para poderem convergir e divergir, numa pulsação contínua, sem receio de se contradizerem ou necessidade de afinarem os argumentos, até apararem as linhas de fuga.
Nunca lhes passou pela cabeça a disputa ou a necessidade de domínio na relação e, de imediato, prescindiram da supérflua tentação de armar os argumentos para terem ou não ter razão; pelo contrário, sem reservas, numa porosidade em acto, a aventura de penetrarem em espaços desconhecidos (os que “a resistência” do outro abria na escuta de cada um, com a maravilha duma nova perspectiva alargar o âmbito, perspectivar-se na projecção de novos conceitos ou na súbita ambivalência do pensamento que se julgava “fechado”) tornou-se prioritária.
Eis uma colaboração que prescindia de negociação, porque o conflito estava desactivado de antemão, não havia confronto entre forças/opiniões polarizadas, não se tratava de uma dialéctica, mas de estar aberto a um fluxo que faz das suas sombras matéria para, como Deleuze diz, numa exaltante proliferação, modelar o pensamento pela virtualização do múltiplo.
Testemunhamos aqui um verdadeiro “encontro”, que activou a possibilidade de cada um deles - face a face, nesse diálogo que ia tecendo o seu próprio percurso - superar as fronteiras de um pensamento condicionado pela inércia da opinião. O que só pode acontecer quando seguimos as linhas da água e à “vontade” preferimos o “impoder”.
O contrário do que defende Bertrand de Jouvenel, no seu livro basilar sobre o Poder, para quem “um homem sente-se mais homem quando se impõe e faz dos outros um instrumento da sua vontade”, atitude que é hoje a mais comum e, lamentavelmente, a única disseminada.
O “impoder”, contudo, esclareçamos, não é um signo de impotência mas um reforço da potência que nasce da liberdade a si mesmo e às marcas de representação. O que talvez explique que Michel Serres tenha dito de Deleuze que era o único caso que conhecia de alguém a quem o pensamento trazia felicidade.
A mesma liberdade também se patenteava no jesuíta Richard Wilhelm, tradutor do «I Ching» para o Ocidente, ilustrada quando afirmou que aquilo que mais se orgulhava na vida fora, em trinta anos de missionarismo na China, nunca ter feito uma conversão ao cristianismo.
É desta grandeza humana que estamos necessitados, da qualidade de gente que se dispõe à luta para “não ter poder”.
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terça-feira, 23 de julho de 2013
DEPOIS DE TER REVISTO O TIGRE E A NEVE
Escreveu Mahler à sua
mulher: «Eu não sou senão um arqueiro que atira no escuro”. Neste arqueiro cego
encontra Salah Stétie a metáfora para falar do poeta.
Também eu me sinto
vizinho dessa concepção, o que não nos traz certezas nem futuro mas essa imensa
liberdade que nos dá o encontro com algo imemorial. De entre as mitologias em
torno do poeta e da poesia é a que prefiro – a de uma escola de ignorâncias,
como diria Ramos Rosa.Também eu, no começo de todos os equívocos, quis ser um poeta maldito. Felizmente a vida pregou-me a partida e deu-me filhos, o que me fez entender que tudo recomeça sempre e em todas as direcções, mesmo o mal recomeça sempre, ainda que refractado.
Um maldito é um homem de um só vinco, que toma a prancha partida da piscina da sua infância por todas as pranchas do mundo e que teima em dizer «não» quando a melhor negação é dizer sim.
Se o vinho nos põe alegres, por que teimar em ter mau vinho? Há por aqui uma enorme pose, uma estapafúrdica falta de sabedoria.
A única forma eficaz da nossa indignação contribuir para uma mudança no mundo é dotá-lo de algo que nos religue e quebre a inércia do tanto que nos quer separar. Da beleza, por exemplo, que é a forma momentânea com que damos uma melodia ao informe.
Esta é com certeza o transe que nos impele à colaboração mais activa, numa realidade que, apesar de nós, se desagrega. E não importa o quanto se desagrega, mas o que fizemos para sair da linha recta e para a olhar duma perspectiva que a re-encantou. Uma vez, na adolescência, dum mau poeta, li uma imagem que nunca mais me esqueci: na cidade que tombou num manto espessíssimo de nevoeiro dois homens aproximam-se. Não se vêem, mas um deles assobia a melodia do Casablanca, e quando cruzam as nubladas ausências, o que ia calado, sem se dar conta, começa também a assobiar a mesma canção. É tudo o que é possível fazer e julgo ser o pequeno estribo que nos salva do ganido dos cínicos.
Também eu lastimo o estado das coisas e me zango e atabalhoadamente me atiro num galope de sentenças e imprecações, de recusas que ziguezagueiam como eu, mas persistir na ira só me daria a impaciência que não me deixa ver. Há que saber que em cada momento o escuro pulsa com uma cadência diferente de modo a conseguirmos orientar a flecha na noite. Para onde ou para quê atiramos, desconhecemos, só intuimos que é nessa direcção. Um poeta maldito, e há muito poucos que o sejam genuinamente, é-o, apesar de si, de relance, e não em preocupada demonstração de zelo. Não fazem profissão.
Uma vez tive um poeta amigo tão furibundo que (dir-se-ia) torcia as colheres só de as olhar. Ficou em apuros. Todas as semanas jogávamos bilhar a dinheiro e eu perdia sempre. Era a única forma de se deixar ajudar. Depois insistia em passar pelo cemitério e em ir mijar nas campas. Percebi com ele que afinal não queria ser um poeta maldito, e que não urinar nas campas não queria dizer que as enchêssemos de licores.
Há uma grande vantagem em não ser um poeta maldito: não sei o que vou rejeitar amanhã, não sei sequer como vai ser amanhã, e o futuro e o passado encadeiam-se num presente discrepante, mas aberto, com sombras e flashes de luz atordoadores. Um homem vário e ondulante, diria o Montaigne, dá quanto muito uma profissão de fé, que é igual a dizer que na mão só se leva o vento, às rabanadas.
Um maldito-de-profissão ainda está na orbe do poder, procura ser um contra-poder, eu prefiro os refractários que, sem muita convicção, apenas porque não conseguem ser de outra maneira, semeiam o “impoder”. Pode até amar o mal, uma certa configuração que lhe dá textura aos tecidos. Desde que ame, que não finja amar. Aí os tigres brilham na neve.
QUATRO OU CINCO TREMOÇOS ACHADOS NUM CADERNO
1
O poeta é o único
bombeiro
que apaga o fogo com um incêndio.
2
A sombra de Argosdesenhou-me no calcanhar
uma elipse
com os caninos
- intuo
que não sou Ulisses?
3
Sempreque atirava o laço
a corda dava um nó no ar
antes de salpicar
o que quer que fosse.
4
A turquês e o alicate,um casal inconsútil
dançam um tango
no arco da aorta.
5
Se bem que inestimáveis,ara do desejo,
aqueles calendários
tinha o ar
do tempo
que já passara.
6
Incoercível
a força com que a corola
impele para o alto
a pélvis azul
do céu.
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OTIGRE E A NEVE
domingo, 21 de julho de 2013
ONDINA, O POSFÁCIO DA EDIÇÃO PORTUGUESA
O Nazir Can, um jovem académico que se graduou em Barcelona e que agora pertence aos quadros da USP de S. Paulo, ainda não
tinha desaguado nos 30 quando, há cinco anos, desembarcou um dia em Maputo por
causa de uma investigação que o levaria a escrever, um ano depois, uma
magnífica tese de doutoramento sobre a obra de João Paulo Borges Coelho, e que
neste momento está no prelo, em Portugal e em Moçambique.
Foi um encontro de grande empatia e
ficámos amigos e por isso quando se pôs a hipótese de publicar A Maldição de Ondina, disse-lhe que
gostaria que fosse ele a escrever um posfácio para Portugal. É o que sai na edição
da Abysmo e que aqui divulgo, embora
truncando o primeiro parágrafo:
Partindo
de vivências reais para homenagear as estórias literárias que se fundem nos
seus universos mentais, Cabrita congrega
e articula, no thriller policial A
Maldição de Ondina, diversos saberes: o histórico, antigo, imediato e
imaginado, i.e., dos tempos que “foram”, dos que “são” e dos que “poderiam ter
sido”; o político-social moçambicano, doente, alvo de contínuo diagnóstico; o
cinematográfico, infinito, paixão sempre revisitada; o fotográfico, envolvente,
que produz pausas em movimento no relato; o crítico-literário, sedutor, com os
seus apelos e aporias; o geográfico, eloquente, respirando história; e até
mesmo o gastronómico, metonímico, caracterizando-se pela transformação,
deglutição e reaparição. Tudo isso para celebrar, como referimos, o saber literário,
melancólico e abrangente, desencantado e desenfadado - o verdadeiro pai de
todos os outros.
Este
caldeirão de sabores, remexido com uma batuta experimentada, ganha forma por
via de uma estética que valoriza o abalo e a provocação, demandando uma reação,
cativa pela economia narrativa de alto pendor imagético, casando descrição e
reflexão, e fundamenta-se na musicalidade e no estilo, aliando o linguajar oral
(de Moçambique e de Portugal) à expressão escrita mais clássica. As epígrafes
de Aristóteles e de José Lezama Lima funcionam, pois, como uma pista, uma
espécie de índice programático da obra, visto que clamam pelo gesto poético,
mesmo quando este se socorre de atos reais e de ações verosímeis, e sintetizam
a condição do poeta que o agencia. Isto é, resumem o destino deste ser
abandonado que se deixa levar pela condição que lhe calhou em sorte e que,
nadando com as mãos amarradas num tonel de vinho, almeja tão-só a raiz das
coisas.
O
romance relata a história de César, escritor e professor universitário, do seu
amigo Raúl, que segue as pistas de um assassino em série (pelos vistos muito
letrado), da sua mulher Beatriz, professora universitária e investigadora de
literaturas africanas, da sua ex-mulher, a intelectualmente sedutora Argentina,
da sua irmã Filipa, médica, e ainda de Aurora, sua cozinheira. A partir desta
última personagem, e dos seus amores secretos com o maldito e irresistível
malgaxe Jean-Joseph (na própria cama em que o príncipe Ali Khan jurava
eternidades à diva do cinema Rita Hayworth, no palácio da Ilha de Moçambique),
o romance convoca ainda o fait-divers histórico
para, de certo modo, desvirtuá-lo, privilegiando o cariz enérgico e inesperado,
sensual e erotizado de um quotidiano que, ao contrário dos discursos sobre a
História, não é contido, não sabendo nem querendo domesticar-se.
O autor
surpreende o leitor desde a primeira página, sobretudo pela plasticidade de uma
linguagem capaz de produzir inopinados vaivéns entre a expressão mais clássica
e a mais coloquial. Ao ponto mesmo de torná-las massa da mesma matéria, e de
fazer confluir o significante no significado. Tudo isso através de uma rítmica
proveniente da poesia: “Não param de
manducar, de clamar por bebida, de vasculhar tudo na casa, metediços. A casa de
banho ficou ocupada vitaliciamente (descobriu que o mais novo penteia o bigode
com a sua escova de dentes), nos intervalos de emporcalharem lençóis, as
toalhas de mesa, os sofás, de ranho e merda e vinho e esperma. Mal acorda,
ainda enevoada, vê-os a adejar pela casa, sem decoro, os maxilares infatigáveis
com que retalham o dia, enquanto plangem guitarras nas marrabentas...” (p.
19). Enquanto estrangeiro em terras que têm o condão de espantar, o autor não
se abstém de refletir sobre a diferença cultural. Esta, porém, se mantém onde
lhe convém, i.e., precisamente no campo das diferenças: “O martelar da música
desde o primeiro dia, extravagando indiferente ao silêncio exigível a um luto,
ao recolhimento da viúva, punha às escâncaras a intrusão. Mas o quinhão de
infortúnio que a cada um é destinado viver é intransmissível, não lhe cabe
imiscuir-se” (p. 23). Para descrever a diferença, como se pode observar, o
narrador socorre-se de duas máximas sentenciosas, articuladas pelo fio musical:
a primeira afirmando a posição de perplexidade e desconforto da personagem
estrangeira; a segunda reconhecendo a inutilidade de referida posição num
cenário que lhe é diariamente outro.
A dita relativização não
envereda, no entanto, pela via fácil e politicamente correta do autor
metropolitano que faz ouvidos de mercador quando sobre África escreve. E isto
porque Cabrita não tem pejo em denunciar, satirizando, tudo aquilo que rechaça
neste recanto do mundo onde se decidiu inspirar: “Quem aterra em África dá conta, nos primeiros dias, de uma descomunal
expansão do instante. Uma hora ramifica-se em duas, é como a criança que
entrevê o Éden na porta giratória: nem se entra nem se sai (...) Entrasse
Ulisses num banco africano antes de regressar a Ítaca, já encontraria Penélope
casada” (p. 33). Daí que este romance faça um passeio elegante e eloquente,
por vezes mesmo aterrador, pelas insidiosas formas de violência e práticas de
poder existentes em Moçambique, esta terra que se transformou com o correr dos
tempos num “exército de órfãos” (p.
215): desde a violência de género que atravessa o país de lés a lés, e que é
acompanhada pelo desdém político e pelo eterno álibi da tradição (“Devem estar a chupar-lhe tudo, pensa,
malditas tradições. Vamos lá a ver se não a violam, à conta do kutchinga” – p. 23), passando pelas estratégias de manipulação da
autoridade (e do tal “comportamento de
fusão, de irrefletida unanimidade, que é uso na terra” – p. 45) e do
cíclico processo do qual esta última é motor e cúmplice activa (“As drogas, o tráfico de toda a ordem, serão
negócios dominados por Momade, o qual distribuirá as benesses por capangas,
clubes desportivos e Partidos, até que o ímpeto emergente de um rival lhe traga
os dissabores que agora administra” – p. 222), culminando nas rupturas
familiares mais cruas e inquietantes.
Para estas últimas, Cabrita
socorre-se de um arsenal metafórico original, cuja função, para além da
vizinhança de sentidos entre realidades díspares que está na origem deste
recurso, passa ainda por um roçar, ou mesmo por um escavar, do real mais
palpável e sorumbático: “Um mês depois o
marido envolveu-se num motim na prisão e foi abatido. Há dez dias. Separada do
seu homem há dez dias, por uma bala que lhe engarrafou a alma. Dez dias separam
a memória fresca do marido daqueles lábios grossos de sangue coagulado que
agora, de viés, pedem, insistentes: – Ma-ma-mã, pe-pe-ço sardinha!” (p.
21). O resultado catastrófico destes esquemas de exceção é sintetizado em
sentenças que, esvoaçantes por todo o romance, elucidam a solidão das
personagens e da sociedade em geral. Estas máximas constituem-se, além disso,
em autênticos achados de estilo e de significado: “É provável que não haja memória para além do sulco das feridas” (p.
60); “É difícil gerir tanta coisa à
distância. E pior ainda quando isso implica um sentimento que cava uma
distância de nós para nós mesmos” (p. 153); “Os judeus viveram o exílio na diáspora, o negro vive um perpétuo exílio
interior porque vive imerso numa imagem que perdeu a referência” (p. 186);
“há vários dias que sentia o seu coração
esfacelado pelo turbilhão de gaivotas que da sua janela via sobre a lota”
(p. 192).
Nesta narrativa ambiciosa,
composta por micronarrativas que se encaixam no texto-mãe, fazendo-o fluir e
outorgando voz, a espaços, a narradores outros, cabe ainda (como não?) a
reflexão sobre os processos de escrita: tanto da escrita que se aventura (“Descobrir como imprimir ritmo a uma frase é
um transe de que não se recupera e perdê-lo, deixar escorrer entre os dedos
esse tônico, faz ressoar um alarme similar ao do atleta que descobre que no seu coração mirra o
músculo papilar” – p. 46), quanto daquela que procura, sem encontrar, um
porto-seguro: “Agora, falta-me a linha, o
posicionamento, o vislumbre de guelra aberta numa frase eficaz e sinto-me um
remoinho estéril onde, a verdejar alguma coisa, não se avista cardume” (p.
47); tanto da escrita literária que fica aquém do re-presentado (“words, words, words, refratárias ao mínimo sopro de vida, à
imprevisibilidade com que o existente filtra a alma de um fundo amorfo” –
p. 59), quanto da escrita dos “intérpretes” literários, que desconhecem a
descoberta: “um exegeta literário nunca
terá a temeridade dos samurais, que teciam um haiku enquanto praticavam o
hara-kiri, nós estamos viciados em experiências diferidas” (p. 202). Obra
total, aberta, naquele sentido dado por Eco, i.e., plurissignificativa,
dinâmica, com uma estrutura que adapta e sustém as restantes estruturas que
emergem no/do seu interior, A Maldição de
Ondina põe o mundo à espera e, como compete à boa literatura, nada oferece
sem um retorno tácito. Neste audaz exercício meta-literário, realizado
minuciosamente por um autor com dotes de equilibrista que defere, i.e., que
traz algo de um lugar para outro, o leitor permanece em vigília, sendo também
ele convidado, ou forçado, a provar as várias facetas de uma mesma realidade. E
a incomodar-se.
Assim, em A Maldição de Ondina, notamos a veia do poeta no músculo do
romancista que, também aqui, num género literário distinto, mantém o afã de
sentir tudo de todas as maneiras. Veja-se, a título de exemplo, duas
manifestações radicalmente opostas do gesto erótico, este acto que, afinal de
contas, constitui por excelência a linguagem do corpo. O confuso e eufórico, de
Aurora e Jean-Joseph: “Jean-Joseph,
abeirou-se pé ante pé, na cozinha, apertou-lhe o seio enquanto a boca lhe
roçava o pescoço e a outra mão lhe subia as saias, numa decisão comandada por
espíritos. Aurora deslinda dois caminhos convergentes para a pulsação que lhe
umedece o sexo: ou grita, denunciando Jean-Joseph, o que era o mesmo que
separar a sua sombra a punção e martelo, ou cala, gemido a gemido, despendendo
o recato, enquanto da batedeira suspensa o chocolate escorre para o chão”
(p. 64); o ritmado e disfórico, de Argentina e Litos: “Litos penetra-a e entrança-lhe o corpo nos braços e Argentina ouve a
bola de basquete no piso de
cimento do campo de treinos, nas traseiras da casa. Argentina agarra-se ao
sincopado ritmo da corrida dos miúdos, aos seus gritos, ao sorvo de ar na
trajetória da bola, ao repique da bola, saltitante, suspensivo, no arco do
cesto. Argentina procura adivinhar o posicionamento dos jogadores, a sua
evolução no campo, a natureza das faltas, o jogo das mãos no despique do
esférico, enquanto Litos a embucha poro a poro, nem reparando que ela está meio
seca, tão seca como o baque da bola quando rebenta” (p. 141). O denominador
comum desta constelação de sensações contrapostas é a expressão, de quilate
superior, repleta de imagens (esta “fantasmata” sem a qual, no dizer de
Aristóteles, não é possível a memória), de associações (sem as quais não é
possível a comunhão de sentido) e de ritmo (sem o qual não é possível a
fruição), que criam o contorno necessário para a maceração silenciosa do
leitor.
Obra
de uma rara riqueza intertextual, capaz de fazer interatuar Baudelaire, Octavio
Paz, Camus, Shakespeare, Dickens, Juan Gelman, Cervantes, Melville e Pessoa
numa mesma cenografia, onde ainda cabem As
Mil e Uma Noites, Charlot, Felini, Mamoulian, Orson Welles, Monet,
Brueghel, etc., A Maldição de Ondina caracteriza-se, pois, pelo contato de
imaginários aparentemente díspares, pelo ritmo e destreza, pela plasticidade e
elegância, e pela crueza na denúncia; fundamenta-se ainda na economia poética,
ou seja, numa linguagem capaz de abarcar a riqueza ou a pobreza dos seres e das
coisas apenas e tão-só com as palavras necessárias. Neste sentido, um café da
capital, que resiste como pode às vicissitudes do tempo, é apresentado da
seguinte forma por um narrador cáustico: “Não
conhecia os meandros da história do café Continental, mas sempre lhe parecera
bizarro que o capitel das colunas fosse ornado de chocalhos e os azulejos
tivessem farfalhudas vacas estampadas, como se o dono do lugar quisesse
transmitir às pessoas que a sina da vida é condenar-nos ao estábulo, à condição
de bestas” (p. 96); já Quelimane, ou melhor, um dos seus bairros, é a
testemunha estripada, dezoito anos volvidos, da guerra civil: “Quadriculado convulso, uma cidade que
desaprendeu a mansidão, se desdobra aos baldões e se acama em escombros, aquela
parte recôndita de Quelimane – enegrecida pelas deficiências da iluminação
pública e por casas esventradas pelo desleixo dos homens e a erosão da guerra.
O asfalto fora há muito corroído pela lama e urina dos cães, a pontapé naquele
canto; tal como as folhas de jornal enlameadas que crianças sujas esgaravatam
num afinco inexplicável” (p. 213). Estamos perante lugares relegados,
subordinados pela história, e que, por respirarem de maneira diversa, são aqui
alvo de uma atenta diagnose; tal como algumas das personagens-figurantes deste
romance que, não sendo coral (não visa dar voz a ninguém a não ser a si mesmo),
outorga um olhar a tudo o que respira: “verdadeiramente
insólito era o seu olhar metálico, insondável, de quem desde tempos imemoriais
já só tem passado” (p. 121); “uma
mulher de pôr qualquer sentinela às avessas, uma mulata clarinha com sardas na
canela, boca carnuda e peitos ideais para vender a fiado” (p. 122); “um homem vestido de marinheiro, com galões
de oficial, e sem mais características de nota, além do cabelo extremamente
louro e fino, que apertava de têmpora a têmpora a abóbada calva do crânio, e da
barba ruiva, flamejante, em contraste com aquele magote de negros combalidos e
embrutecidos pela tristeza” (pp. 146-147).
A Maldição de Ondina é um cativante
exercício meta-poético, com uma cadência, uma musicalidade e uma seleção do
material discursivo a todos os níveis eficaz. O que retemos nestas leituras de Cabrita sobre África e sobre
o ser humano em geral é essa sua capacidade em aliar descrição e reflexão sem
nunca perder a mão sobre a narração (qualidade que o autor tanto admira em
outros escritores, mas que pratica tanto ou mais que os mesmos), essa ausência
(clássica) de pudor em sentenciar, atirando harmoniosamente em todas as
direcções (inclusivamente na que vai de si para si mesmo), essa experimentação
sobre a própria experiência, seja ela mundana ou artística (que, para o autor,
como se poderá notar, se alimentam mutuamente), sem contar os divertidos,
vivazes e tensos diálogos mantidos entre as personagens. E, claro, como todo
bom romance, A Maldição de Ondina não
podia deixar de exigir algo ao seu leitor – do leitor ativo, que estabelece um
pacto, obviamente; e não tanto daquele que desfruta do dado de borla das eventuais notas de rodapé. Àquele leitor,
dizíamos, lhe competirá resolver um espinhoso quebra-cabeças: como prosseguir
sem se atulhar no ressentimento e, simultaneamente, sem negar os factos?
Agudo no seu propósito ético e arguto na dinâmica
estética que o entretece, António Cabrita revela neste belo romance – que é
simultaneamente localizado e universal, que fala da memória e da
impossibilidade de esquecer, das marcas físicas e dos exílios interiores – os
inquietantes umbrais de um país que, no mínimo, contagia. E que de tanto
contagiar e de ser contaminado se tornou no pano de fundo de uma maldição metamorfoseada que o autor,
agora, trata de nos oferecer. Saudemo-la, pois, sem a esquecer. Porque, afinal,
“As coisas belas transformam aquilo que
em nós está ainda informe” (p. 154).
Para comprar:
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NAZIR CAN,
PREFÁCIO DE MALDIÇÃO DE ONDINA
sexta-feira, 19 de julho de 2013
OS DINOSSAUROS SÃO SEMPRE RETRÁCTEIS
Em Dezembro de 2011, o arquitecto e crítico de arte Manuel Augusto Araújo escreveu no seu blogue, Praça do Bocage (pracadobocage.wordpress.com), o texto que segue em baixo sobre A Maldição de Ondina, o meu romance publicado no Brasil e que conheceu agora, finalmente, a sua edição portuguesa:
Não tem título porque não consigo
encontrar um título que exprima a minha perplexidade, para não usar ou
acrescentar outro adjectivo. Chega-me às mãos um recorte do Guia da Folha de
S.Paulo, o mais lido no Brasil e com circulação nacional, com uma crítica
literária que destaca “A Maldição de Ondina” de António Cabrita,
em que o crítico literário Nelson de Oliveira, um dos mais conceituados do
Brasil, o considera Imperdível! e lhe atribui a classificação Óptimo!
Por cá, o livro não existe. Quem o
quiser ler terá que encomendar pela internet ou numa livraria com ligações ao
Brasil, onde foi editado pela LetraSelvagem.
Não deixa de ser estranho que um livro
de um autor português não seja publicado por uma editora nacional e que faça,
posteriormente, o seu caminho no Brasil. Não se conhecem autores brasileiros
que tenham feito esse percurso.
António Cabrita está há seis anos em
Moçambique, onde ensina no Instituto de Cinema e desenvolve intensa actividade
nos meios culturais desse país. Entre outras coisas da sua sempre vulcânica
agitação intelectual, alimenta um blogue interessantíssimo. Escreve muito e
escreve bem. Um dos seus últimos livros, de literatura infanto-juvenil, “O Pastor de Ventos”, é uma
obra-prima. Passou quase sem uma referência tal como “Tormentas de Tintin
e Mandrake no Congo”, um retrato carregado de humor de uma geração que
deambula entre amores e desamores, bons e maus costumes e que, de quando em
vez, é varrida por transes melancólicos.
O que aconteceu agora ainda é pior. Não
encontrou editor em Portugal para a “A Maldição de Ondina”. Bateu
a várias portas onde delicadamente, isto é tudo gente de refinada educação, foi
posto do lado de fora. Alguns até permitiram que pusesse o pé lá dentro, numa
insinuação que o deixariam entrar se seguisse sábias recomendações de
carpintaria que tornariam o livro publicável. Umas aplainadelas na truculência.
Aligeirar o peso do texto, que isto do peso imaterial dos livros é muito pior
que o seu peso real, veja-se a quantidade de confitables books, para os mover
quase exigem meios mecânicos, que se vendem como milho na época de envernizar
de cultura o natal. Arrancar uns pregos que podiam ferir os dedos do leitor
arrasado por intertextualidade e referencias que continham o perigo oculto de
curto-circuitar as milhares de conexões sinápticas entre os biliões de
neurónios do leitor médio português. Perigo de catástrofe nacional a somar à
catástrofe em curso, orquestrada pela troika internacional e seus serventuários
lusitanos, desastre iminente que nem o anticiclone dos Açores alimentado a
espinafres seria capaz de deter, pelo que os diligentes editores teriam que
actuar preventivamente. A protecção civil também passa pela literatura.
Um sobressalto. Que raio será esse
animal: leitor médio português! Pela quantidade de títulos que são publicados e
a não correspondente qualidade, pelas listas dos tops poder-se-á ter uma ideia
do que será o leitor médio de um país onde a iliteracia é o que se sabe (é
fazer uma passagem rápida pelas centenas de comentários às noticias dos jornais
desportivos – três jornais desportivos diários com tiragens arrasadoras, um
record europeu talvez mesmo mundial depois de tratamento estatístico), onde os
escritores que mais vendem têm a extraordinária peculiaridade de não saberem
escrever.
No meio de tanto papel impresso, livros
magníficos de várias literaturas mas também livros de escritores que são
excelentes escritores mas de quem se publica tudo e mais alguma coisa, muita
dessa coisa é despicienda só salta para os escaparates com canina esperança
editorial nos compradores desavisados que irão ferrar o dente não no conteúdo
mas no nome do autor. Livros de ensaios nas mais diversas áreas, completamente
descartáveis, em que os que derramam o pensamento são mais astrólogos que
investigadores ao lado de políticos a proclamarem inanidades e mais uns tantos
impudentes pensadores. Livros de auto-ajuda e transes esotéricos para
arredondar as esquinas da vida. Entre tantos livros bons, assim-assim e
assim-assado, para não falar dos livros que não são livros e que nem devem
cumprir bem o seu melhor uso endireitar mesas ou sofás coxos, não há espaço
para a “ A Maldição de Ondina”?
O leitor português não médio tem que ir
ao Brasil se o quiser ler?!
Não serei tão ditirâmbico quanto o
Nelson Oliveira, sou amigo do António Cabrita que fez o favor de mo enviar via
electrónica antes de ser impresso, não me ficava bem classificá-lo de
imperdível, mas “A Maldição de Ondina” é um dos melhores livros
em língua portuguesa publicados em 2011 e lá ficará para além da sua primeira
edição.
Não deixa de ser indignante que nada aconteça aqui, tudo aconteça do outro
lado do atlântico. É um livro a ler e que exige aos leitores portugueses um
esforço acrescido para o lerem por incúria do nosso concentrado editorial.
Enquanto por cá o silêncio continua a ser de chumbo, no Brasil as recensões
literárias sucedem-se. Leiam o posfácio de Adelto Gonçalves para melhor se
entender este inexplicável, mais um adjectivo cordato, buraco negro editorial.
Leia-se então o posfácio
de Adelto Gonçalves:
ANTÓNIO CABRITA E O FUTURO DA LUSOFONIA- Posfácio de Adelto Gonçalves
A África não dorme. Vive em eterna
vigília. Essa é a metáfora que explica A Maldição de Ondina, do
português-moçambicano António Cabrita (1959), livro que tem tudo para empolgar
o leitor brasileiro não só por suas qualidades literárias como pelas marcas de
várias culturas afins ao Brasil que impregnam suas páginas. Como toda boa
metáfora, o título A Maldição de Ondina tem duplo sentido. Ou seja,
explica o fenômeno que faz parte da natureza intrínseca dos golfinhos,
mamíferos que não podem dormir jamais, já que, para sobreviver, necessitam vir
à tona de cinco em cinco minutos para respirar. E, portanto, não podem esquecer
a condição em que vivem, sob o risco de desaparecerem.
Não se pode esquecer que a referência à
Ondina, ninfa das águas na mitologia germânica, serve também para qualificar
uma rara síndrome – em 2006, havia apenas 200 casos conhecidos no mundo –,
cujas formas graves exigem que a pessoa receba ventilação mecânica 24 horas por
dia. Ou seja: vigília ininterrupta.
Mas explica também o sentir e o estar
africano ao longo dos séculos. Um povo – feito de muitas nações, etnias e
tradições milenares – que está condenado à permanente vigilância, diante
daqueles povos que se mantêm sempre à espreita para espoliá-lo, como fizeram os
europeus por séculos a fio. E, agora, ao que parece, fazem os chineses, os
colonizadores do século XXI, que estão a explorar as florestas do Norte de
Moçambique até o ponto de transformá-las em vasto deserto. Sem esquecer aqueles
que saem do próprio povo africano – que, afinal, é resultado de muitas e
distintas etnias – e que, no poder, acabam também por espoliá-lo. Mas essa não
é uma característica do africano, mas da espécie humana, seja lá qual for a sua
matiz de cor.
Portanto, não se quer dizer aqui que, se a África tivesse ficado imune à presença do europeu e de povos como indianos, hindus, goeses, mouros, cojás e tantos outros que a assolam desde tempos avoengos, teria tido um destino melhor. Ou que, hoje, seria um continente sem problemas, um paraíso terrenal em que Deus pudesse passear tranqüilo no jardim pela viração do dia.
Portanto, não se quer dizer aqui que, se a África tivesse ficado imune à presença do europeu e de povos como indianos, hindus, goeses, mouros, cojás e tantos outros que a assolam desde tempos avoengos, teria tido um destino melhor. Ou que, hoje, seria um continente sem problemas, um paraíso terrenal em que Deus pudesse passear tranqüilo no jardim pela viração do dia.
Pelo contrário. É provável que estivesse
imerso em mais obscurantismo, ao menos sob o prisma da visão eurocêntrica que
nunca iremos perder. Não é isso o que se contesta aqui: até porque essa é uma
opção irreme-diavelmente perdida na História. E que remete ao lamento do poeta
Manuel Bandeira (1886-1968) sobre a vida que podia ter sido – e que não foi.
A África é o que é hoje. E ponto final.
Entrecruzamento de raças e etnias, suas mazelas – a miséria de muitos povos, a
falta de perspectivas para muitos, a opressão de uma classe sobre outras – são
iguais às de todos os homens que vivem na Terra – uns mais, outros menos. Uma
espécie de Brasil nenhum pouco às avessas. Se aqui o partido que se dizia de
esquerda e defendia os oprimidos chegou ao poder pelas vias da democracia
chamada burguesa e, naturalmente, não o quer largar, ainda que tenha de
recorrer a meios inconfessáveis, ao estilo das antigas máfias napolitanas, lá o
partido dos oprimidos, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), alcançou
o poder pela força das armas, depois de ter, primeiro, colocado o colonialismo
para correr e, em seguida, em meio a anos de contendas e mortandades, destruído
pelos fuzis adversários que tinham os mesmos objetivos.
No poder, num congraçamento entre
“marxistas-leninistas arrependidos” e oportunistas incrustados nas máquinas
partidárias, tanto lá como cá, os partidos e seus dirigentes logo esqueceram os
miseráveis que tanto defendiam, deixando-se levar pelas delícias do dinheiro
fácil das grandes corporações nacionais e internacionais, que, afinal, ninguém
é de ferro e a vida é uma só e tem de ser vivida à larga, ainda que à custa da
dilapidação do patrimônio público, da corrupção generalizada, do gangrenamento
da vida da nação e da destruição dos bens naturais do país. Tudo em troca de
“consultorias”, “sobras de campanhas” ou “numerário não contabilizado”,
conhecidos eufemismos brasileiros para a maldita taxa de corrupção e outras
formas de enriquecimento ilícito. Obviamente, sempre revestidas por “bazófias
patrióticas”, como diria o autor.
É o que se pode sentir neste romance de
Cabrita, um retrato de uma África pouco conhecida no Brasil, mas facilmente
reconhecível, que se desenha na vida de meia dúzia de personagens: César,
luso-moçambicano, professor e escritor de romances policiais; Raul, amigo de
César, policial; Beatriz, mulher de César e professora universitária na área de
Literaturas Africanas; Argentina, concubina de César por dez anos e gestora
numa ONG; Aurora, antiga ama-seca de César e sua cozinheira; e Filipa, irmã de
César e médica. Além de outros personagens secundários apenas citados, como a
famosa atriz Rita Hayworth (1918-1987), estrela de Gilda (1946), que, entre
outros casamentos, viveu com o príncipe Aly Khan, de 1949 a 1953, num palácio
na Ilha de Moçambique, para quem, no romance, Aurora – provavelmente, macua ou
maconde – teria prestado serviços culinários.
Por trás de tudo, um pano de fundo
facilmente reconhecível: uma estrada de terra batida é aberta só para que
presidentes (das câmaras) de duas cidades e secretários do partido se visitem;
um presidente da câmara de Maputo é atropelado de modo acidental, mas ninguém
acredita na versão oficial; enfim, crimes que nunca se explicam, como aquele
com o qual o policial Raul se vê às voltas com investigações a respeito de
pessoas que desviaram dinheiro para o partido, mas para os quais o partido
volta as costas. Como nesse tipo de regime o agente policial anda sempre sobre
o fio da navalha, dependendo das facções que estão no poder, Raul trata de
colocar as barbas de molho, pois teme que o seu fim possa estar próximo. E pede
a César, que nunca teve filhos, que leve o seu “miúdo daqui para fora”, pois
não quer que fique com a mãe, em Quelimane, pois “isso seria condená-lo a uma
vida medíocre...”. (pág. 159).
Observador arguto do linguajar
moçambicano, Cabrita constrói os diálogos com fidelidade à oralidade, o que
permite suspeitar que, em pouco tempo, o idioma de Camões estará totalmente substituído
pelo de Shakespeare não só em terras que foram do sultão Mussa Bin-Mbiki como
em todo o antigo e vasto império Monomotapa e nas antigas terras do reino do
Ndongo, cobrindo todo o “mapa cor-de-rosa” imaginado, um dia, pelos
colonialistas lusos. Até porque a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
(CPLP), como organismo internacional, não passa de uma bela fantasia. E, até
prova em contrário, pouco faz em defesa da lusofonia. Que o digam os rebeldes
da Casamansa, província do Senegal, que desde 1982 empreendem uma inglória
guerra de guerrilha para se livrar da opressão do governo de Dakar e virar país
independente na órbita da CPLP.
Cabrita nasceu português de quatro
costados, pois é do Pragal, freguesia do concelho de Almada, cidade do distrito
de Setúbal, que fica à entrada do rio Tejo, em frente a Lisboa. Mas, como
muitos de seus ascendentes, achou de tentar descobrir na África, não a árvore
das patacas dos quinhentistas, porém outra maneira de viver. Quem sabe, menos
morna e asséptica, porque sob o sol africano e em meio a ameaças físicas e até
contagiosas. Como gosta de viver na contramão, foi para Maputo há poucos anos,
a uma época em que raros lusos se dispõem a ir para a África e os que de lá
retornaram choram até hoje o “império colonial derramado”. Não se arrependeu,
pois encontrou material, o chamado “tecido da vida”, para escrever novas e
surpreendentes histórias como estas que o leitor brasileiro tem a oportunidade
de conhecer.
O que se lê neste romance, para quem
conhece a vida nas favelas e subúrbios das grandes e médias cidades
brasileiras, não haverá de surpreender. Talvez uma ou outra expressão autóctone
que o escritor esclarece devidamente em notas de rodapé. Um personagem era bem
visto pela comunidade porque colocara a filha a estudar – já estava na 11ª
classe –, ainda que o seu verdadeiro negócio fosse o tráfico. Outro, que exibia
uma cara da ratazana, tinha duas mulheres e nove filhos e vivia de biscates. Um
terceiro, professor primário, fora abandonado pela mulher, depois de tê-la
espancado até quase à morte, com oito meses de gravidez, por causa de ciúmes do
pastor.
Em meio a uma natureza paradisíaca, a
violência doméstica é corriqueira em algumas aldeias, onde o isolamento parece
enlouquecer os homens. “As pessoas catanavam-se à primeira, por medo, cativos.
À mínima tensão o marido acusava a mulher de feitiço e a família dele acabava
por cataná-la, a cobro da noite (...)”, diz Beatriz (pág. 200). Catanavam-se,
ou seja, cortavam-se com facão.
O estilo de Cabrita é de fácil e envolvente
leitura, ainda que os capítulos em flash nem sempre permitam acompanhar o foco
da narrativa ou o fio-condutor da trama com facilidade, exigindo novas e
detidas leituras. O texto, porém, vale por si mesmo, pois não deixa de explorar
todas as técnicas desenvolvidas pelos grandes mestres da literatura. Com
mestria, Cabrita recorre ao discurso indireto livre sempre que pode: “(...) A
sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar a casa e levar as crianças,
advertindo-a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o
polícia do sétimo”. (pág. 19).
A história, porém, é conduzida em torno
de César, uma espécie de alter ego do autor, professor, intelectual que
vive rodeado de livros, casado com Beatriz, mas que teve uma amante com o
sugestivo nome de Argentina. Filho de “boa família portuguesa”, que é como se
diz daquelas famílias que conseguiram amealhar um bom patrimônio e dinheiro no
banco, César não hesita em chantagear o pai, em troca de que este o deixe levar
consigo a amante negra para com ele estudar em Lisboa. Afinal, o pai sabe que
ele sabe de sua segunda mulher, “a quem instalara casa nas Torres Vermelhas, em
Maputo”. O silêncio vem “em troca de uma passagem para Argentina e de um
aumento chorudo na mesada”.
Se não conseguiu entrar no curso de
Direito como o pai ansiava, enquanto Argentina concluía o de Economia, César
ganhou fama com seu primeiro romance policial, a que se seguiram outros. Quando
se sentia secar por dentro, retornava a Moçambique em busca de reciclagem e
renovação. Depois de anos com Argentina como amante, resolve casar a sério com
a professora Beatriz, talvez em busca de uma união estável. Mas aqui não há
como deixar de pensar que, para ele, as “pretas” só servem como amantes, ainda
que Argentina seja uma mulher extremamente culta. Ranço do racismo
colonialista, quem sabe. Mas, quando o casamento com Beatriz entra na fase
morna, César volta a Moçambique, atrás novamente de Argentina, que, a essa
altura, também voltara para a África de olho num mestrado no Zimbábue.
Quando está às vésperas de reatar com Argentina, quem sabe para finalmente constituir uma família e uma velhice tranquila para ambos, o destino o leva para outro rumo. Por lealdade a Raul – morto numa cilada em Quelimane, provavelmente por um colega de profissão, vítima de alguma intriga política –, terá de assumir o filho do outro para colocá-lo longe da África. E garantir-lhe uma vida melhor.
Quando está às vésperas de reatar com Argentina, quem sabe para finalmente constituir uma família e uma velhice tranquila para ambos, o destino o leva para outro rumo. Por lealdade a Raul – morto numa cilada em Quelimane, provavelmente por um colega de profissão, vítima de alguma intriga política –, terá de assumir o filho do outro para colocá-lo longe da África. E garantir-lhe uma vida melhor.
Eis a metáfora de volta: na África nunca
ninguém poder dormir, o que significa que não se pode esquecer o passado, essa
assombração que vai aonde quer que se vá. Em outras palavras: como não podem
esquecer o que lhes fizeram, os africanos não conseguem superar o ressentimento
e atingir o perdão. Nem perdoar os outros nem a si mesmos. Essa é a maldição
que paira sobre a África. A maldição de Ondina.
________________
* Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de
São Paulo e autor, entre outros, de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio
de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova
Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil
Perdido (Lisboa, Caminho, 2003)
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MALDIÇÃO DE ONDINA
segunda-feira, 15 de julho de 2013
A ARTE E O ENGENHO
Fui ver o filme Os Mestres da Ilusão.
Gostei e odiei.
Gostei por ser de facto
um grande espectáculo, de que se sai momentaneamente saciado.
Odiei porque o guião é
absolutamente desonesto para com o espectador e a solução «deus ex-machina» com
que a narrativa no final ata os seus nós é tão engenhosa como da ordem do
embuste. Apesar da trama ser congruente com as “leis” do ilusionismo, e de o
artifício ser anunciado desde o primeiro instante – portanto nada a obstar do
ponto de vista da construção de uma trama para a qual a verosimilhança não é chamada.
As minhas objecções são
morais.
Este filme faz-me
lembrar outro êxito e outro filme engenhoso, cuja chave só se dava no último
plano: Os Suspeitos do Costume. No
qual, só no fecho sabíamos que o coxo afinal não era coxo mas o maior dos
vigaristas. O “problema” é que o
espectador havia sido induzido por uma mentira desde o princípio e quando as
regras é não se ter regras então “tudo é possível” e aquilo que aparecia como
um grande achado (final) no fim de contas não passava de um processo imaginoso
mas que não era verdadeiramente imaginativo, ainda que o parecesse (e a
diferença entre uma coisa ser imaginosa ou imaginativa é vital para a distinção
entre a arte e o comércio).
Gostei mas este não é o
meu tipo de cinema e como escritor (e de guiões também) teria dificuldde em embarcar na facilidade/felicidade com que a construção desta trama manipula a boa-fé do espectador, mas pronto, este é uma
escolha e um prurido meu. Parvo sou, e é tão fácil, basta enganar o espectador –
pão e circo, lembram-se?
Aposto que o Inferno do Dan Brown, estará a caminho do
1º milhão de livros vendidos.
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OS MESTRES DA ILUSÃO
quarta-feira, 10 de julho de 2013
O MIRADOURO MURILO, COMO DURA!
O único desgosto que Murilo Mendes (1901-1975) me deu na
vida foi informar-me que René Char detestava Michaux. De resto, com as suas
mãos repletas de milagres, sempre me encantou. É, com Jorge de Lima, o meu ‘béguin’
brasileiro. Não há hipóteses de jogar à defesa com ele, ainda agora abri ao
acaso uma página e saiu o seu “retrato-relâmpago” de Homero, que termina assim:
«O vento analfabeto atira-lhe pedras». E fica-se desdentado de saber que uma
imaginação assim é rara. Para o parafrasear, quando a gente acorda de bom humor
é sinal de que está em Murilo.
TEXTO DÉLFICO
(fragmentos)
Nas sandálias da manhã o pássaro sem poeira.
O povo dá à fantasia o que o povo não lhe dá.
Acontece que os deuses mandam discar um número, mas o
telefone está ocupado: outro recebe a chamada.
Ao largo do horizonte circulam águias: “os deuses pegam-nas
como moscas”.
Os deuses passam o passado e o presente a reconstruir
fragmentos do futuro.
Tenho fome de pedras, diz Rimbaud. Sirvam-lhe fragmentos do
Parténon, mesmo requentados. Ou de qualquer outra pedra anónima, ainda fria, de
Delfos, Delos ou não.
O grande oliveiral olhiverá? Já que olhiviu a paz.
A silenciosa aguardente dos deuses.
Os deuses jejuam de pão e tudo mais. Menos de metáfora.
A cem metros de qualquer ponto está o Oriente.
Os deuses vingam-se dos homens, morrendo.
A glória do diamante impede a borboleta de dormir.
O agouro, agora na ágora, agrega os agressores.
O oráculo não tem pés.
Tomar o remo em qualquer parte – inclusive no mar.
As sombras de vez em quando perdem-se umas das outras.
O cérebro do cérbero, caos latindo.
O sol visto ao microscópio esperneia.
As esferas dormem. Os triângulos vigiam.
Bebi da vida. Suportei dos deuses. Acrescento-me da morte.
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MURILO MENDES
sábado, 6 de julho de 2013
A ANÁLISE POLÍTICA: ATCHIM!
Portas, "o tunisino"
A demissão de Portas era “irrevogável” para a sua
consciência mas não “impreterível” para o país, daí o volte-face. Na verdade,
lendo a sua declaração de demissão na íntegra não encontramos aí nada de
irrevogável, i.é, de irreparável, para além da ameaça do adjectivo – nada mais
que um signo flutuante. É um texto contido, educado, tão calculado que não
existe nele uma aresta, um imprevisto, um adjectivo imperdoável, aquele pequeno
excesso de humano – furor e vergonha - que encontramos em todos os divórcios.
Não, este era dominado como a
esteira rolante que imprime um ritmo uniforme. Ora, não é possível a alguém
zangar-se de facto sem que um mínimo da sua respiração se altere. A não ser que
não esteja zangado de facto e só queira mostrar que está. Aí escolhe uma
palavra oca como uma noz bichada e mete-a em cima da mesa. Espectáculo. Azar
dos outros se depois a noz afinal está vazia.
«Entretanto – leio em Hannah Arendt –, é função de toda a
acção, como distinta do mero comportamento, interromper o que, de outro modo,
teria acontecido automaticamente, tornando-o previsível». Repare-se na
distinção que a autora faz entre acção e comportamento, que é importantíssima
para o élan político e os seus efeitos.
É aqui se manifesta a diferença entre Passos Coelho e Paulo
Portas: Passos Coelho está absolutamente obcecado com o comportamento, tomou
para si um desígnio e segue-o obedientemente sem concessões, por isso foi
incapaz de escutar as razões de Portas para a escolha de Maria Albuquerque.
Portas é de outra inteligência – ele sabe que de vez em quando é preciso
interromper o processo para que a acção tenha lugar, e a sua via ser inesperada
só lhe dá força. É o que acontece agora – ele volta e Coelho está refém, e o
país, que ficou refém da sua demissão irresponsavelmente grandiosa fica agora
cativo pelo grandioso sacrifício com que volta, apesar da sua consciência. Ah,
heroicidade!
Numa coisa ele tem razão – o que falta à vida política de
hoje é acção. É tudo previsível. A oposição unicamente reage à agenda do
governo, e nas redes sociais só parece haver uma única vontade: derrubar o
governo. Não passam de comportamentos. E por isso estão as redes sociais
dependentes dos mais inaparentes flatos. Não há um grama de invenção política,
só anedotas e opinião. Só Portas parece perceber a força e a mobilização do
inesperado.
Por isso pôs todo o mundo a falar dele, e um terço a
pedir-lhe que voltasse. Debaixo de tantas luzes as sombras não são possíveis e
por isso o que era um recorte – a irrevogabilidade – deixa de o ser. Ou seja, o
seu golpe de teatro torna-se destino porque lhe dão importância. E não
interessa se vai voltar realmente ao governo ou se fica nos bastidores a
manobrar os cordéis – a vitória é sua.
Haverá quem se indigne com o descaro de Portas e os seus
volte-faces, como se ainda estivéssemos numa época de homens com carácter. A
tipologia agora é outra, o gesto, a dignidade, a honra já não organizam
sentidos; agora, como diria o Sócrates, a “narrativa” justifica tudo. Não
interessa mais se a moral se torna lábil, a narrativa dará um remate feliz à
soma de vergonhas. O importante já não é ter uma moral mas parecer ser o dono
da sua narrativa.
Daí a importância que se dá no facebook às opiniões e aos
likes – é o modo de cada um decalcar uma ilusão de protagonismo num
comportamento tribal: protesta-se protegido por um sentimento de unanimidade. Mimeticamente.
No mesmo impulso com que Passos Coelho imita o desígnio que traçou para si. E numa
adição de curiosos pensamentos e emoções diferidas, que não se vive mas se
“partilha”.
O que era necessário para que a gente que pulula hoje na
política fosse varrida? O contra-golpe narcísico.
Se durante uns meses as pessoas calassem a sua gritaria em relação à espuma política os políticos ao princípio achariam que tudo estava bem no reino da Dinamarca e depois começavam a assustar-se porque não sabiam do seu imago e ninguém lhes apontava o cheiro fétido.
Ao fim de seis meses, com o medo de se terem tornado realmente irrelevantes, tomavam banho para parecerem iguais aos outros, porque o mimetismo governa, infelizmente, todas as relações humanas.
Como os cães do Pavlov estamos reféns da reflexividade entre o FB e a política e aí temos os Portas e Coelhos que merecemos e as carraças voltam porque sentem que fazem falta a quem se coça.
Se durante uns meses as pessoas calassem a sua gritaria em relação à espuma política os políticos ao princípio achariam que tudo estava bem no reino da Dinamarca e depois começavam a assustar-se porque não sabiam do seu imago e ninguém lhes apontava o cheiro fétido.
Ao fim de seis meses, com o medo de se terem tornado realmente irrelevantes, tomavam banho para parecerem iguais aos outros, porque o mimetismo governa, infelizmente, todas as relações humanas.
Como os cães do Pavlov estamos reféns da reflexividade entre o FB e a política e aí temos os Portas e Coelhos que merecemos e as carraças voltam porque sentem que fazem falta a quem se coça.
(Chiça, que hoje acordei com os vóltios do avesso, amanhã
hei-de voltar a achar que o fb é um fórum necessário e que toda esta
verborreia: atchim…)
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