quinta-feira, 2 de julho de 2015

ACTOS DE CULINÁRIA

 
Ontem, no evento do lançamento do livro, coube ao Machado da Graça a apresentação. Eu li este breve texto sobre o mecanismo da recriação das fábulas:


«Ao pegar no molho de estórias que o Gianfranco Gandolfo reuniu desta vez – o Gianfranco é o fura-fura, o investigador deste grupo, aquele que vai aos arquivos farejar o que lá está perdido e esquecido – e nos trouxe para serem reelaboradas, apercebi-me logo de que havia no material todo o tipo de situações e de estado genético. Havia do mais suculento aos farrapos dificilmente aproveitáveis. No entanto, à partida quase todas as narrativas colectadas padeciam de dois problemas, primeiro o português do transcritor era de fracos recursos, e depois, em noventa por cento dos casos não tinha a menor noção de como se contava uma história e se arrumam os materiais, e sobretudo, de como se dá ritmo a uma frase. É elementar não esquecer que estas histórias orais foram recolhidas no princípio dos anos oitenta, ainda Moçambique dava os primeiros passos para sair da grave realidade de noventa por cento de analfabetismo em que se encontrava à saída da independência.
Acrescente-se que muitas das histórias estavam truncadas. Ou terminavam antes ou fora de tempo, ou algumas havia em que o fio era cortado, simplesmente. Vou dar dois exemplos. Começo com a história de O CEGO NWAVUTLARE.  Nesta história narram-se as desventuras de um cego que na sua condição não consegue governar a sua vida pelo que nenhuma mulher o quer. E então ele sente a falta, quer do direito à reciprocidade, quer, mais chãmente, do coiso e tal, daquilo que faz os gatos miarem em certos meses. Sob essa pressão de um desejo que ele não consegue calar, forja uma artimanha e assim arranja a primeira mulher. Depois, como ela tem uma voz prenhe de sensualidade que o derrete, compreenda-se, então imagina imediatamente os riscos de ser traído, e resolve partir com ela sem demora, para longe dos olhares da malícia alheia.
E chegam a uma terra sem homens, o que o deixa antenado, pois imagina-se um reizinho entre um cento de fêmeas sedentas. Só que há um problema naquela terra: não há homens porque um leão os come. E o combate entre um cego e um leão é com certeza um pleito muito desproporcionado, uma tarefa que tornaria cobarde o próprio Dom Quixote. Contudo, a sorte e a esperteza favorecem-no e lá consegue matar o leão, convertendo-se no herói da aldeia, o que lhe dá uma outra aura aos olhos de toda a comunidade... feminina. Vejamos agora, como termina o conto no texto original:

«Depois de matar o leão o cego foi eleito para dirigir a região tendo escolhido um elemento da população para seu colaborador. Este, como Nwavutlare, era cego e andava sempre a aldrabá-lo principalmente nos dinheiros. Assim, certa vez, a mulher pediu dinheiro ao marido para compra de certos artigos.
O cego puxou da gaveta, tirou umas dez moedas perguntando se aquela importância chegava para as ditas compras ao que a mulher afirmou tratar-se pura e simplesmente de dez escudos (meticais). O cego voltou a puxar da gaveta pedindo à mulher para tirar algumas pepitas de ouro e mesmo libras, ao que a mulher depois de espreitar informou não existir nada do que mandava retirar senão algumas moedas de escudo e cinquenta centavos.
Informado disto Nwavutlare mandou chamar o seu colaborador com quem discutiu acabando por batê-lo com a sua bengala e que este levantou-se socando no cego. Este levantou-se, saltou muito alegrando-se muito dizendo...»

A história ficou inacabada, terá dado um chilique ao narrador antes de a completar. E embora a sugestão de que um soba cego tenha como tesoureiro outro cego seja deliciosa – lembrando-me aliás a relação que hoje se estabelece entre os líderes políticos e os seus amanuenses na Europa -, ela por si só daria outro conto, e torna-se excessiva na economia da fábula, pois na arquitectura das narrativas também se intrometem as leis da proporção.
Visto que, no essencial, se trata de uma estória anti-determinista, de um homem handicapado que luta contra o destino que lhe armava o seu problema e que ganha a batalha, resolvi ir espalhando pela narrativa breves índices da importância que tinha para ele ser reconhecido pelas mulheres e terminar com as consequências felizes do seu feito heróico - e assim um homem que vivia duma carência tenaz torna-se um pródigo, o que insinuo elegantemente:

«Depois de matar o leão, o cego foi eleito para dirigir a região e ficou menos triste e pobre e é por isso que naquela região há tantos filhos míopes. »

Um caso de mais difícil resolução era o de A RAPARIGA QUE CAIU NA COVA, onde se lia:

«Uma vez certas raparigas foram à procura da lenha e uma delas caiu dentro de uma cova e as restantes continuaram a sua viagem sem ter em conta com aquela que caiu. Esta ficou a escutar... para quem passasse ou que cortasse a lenha por aí perto, onde de repente ouviu alguém a cortar lenha, esta cantando o seguinte:
Quem corta a lenha por aqui perto 
Quem corta a lenha por aqui perto 
Quem corta a lenha por aqui perto 
Que comunique à minha mãe em casa
Que a menina está morrendo
Por estar metida numa cova aberta
Pela pata do elefante...

Informador: Nhacuavane Uache
Colector: Grupo orientado n.º 3
Gaza, Chibuto, 2/7/1981»
Lida a coisa, a gente pergunta-se, ok, e depois? E durante muito tempo achei que este farrapo de história era um caso perdido. Até que, um dia, estou a explicar a uma filha o mecanismo das lenga-lengas e então fez-se-me luz. Espera lá, vou usar o dispositivo da repetição das lenga-lengas e dar-lhe uma chave moral no fim, como é hábito nas fábulas. Mas que moral? Não me decidia e meti a ideia no cabide, à espera de uma oportunidade. Esta surgiu quando percebi que neste caso só seria útil a continuação se a história se propusesse ensinar que por vezes é preciso desobedecer para sobrevivermos ao sistema que impõe que nos tornemos tolos.
Como vêem, o trabalho de adaptação destes contos oscilou entre a recriação pura e simples ou a “simples” arrumação dos materiais, para lhes dar persuasão narrativa, detalhe, ritmo e algum polimento verbal. E por vezes, como acontece na tradução, foi preciso distorcer um pouco os elementos diegéticos, para devolver maior veracidade e energia ao espírito da coisa.
Porém, convém esclarecer, mais do que querer dotar estes contos de um estilo literário e convencional estive preocupado em recuperar neles a originalidade e a frescura e até a argúcia do estilo popular, pois imagino sempre que os narradores populares, na sua língua-mãe terão uma graça, um brilho, uma habilidade com a palavra, e as pausas que a sustém, que o transcritor não soube transmitir noutra língua.
Portanto, nestes contos há uma gestão permanente entre a liberdade e o respeito; sujeitei-me, por exemplo, em absoluto à lógica narrativa das fábulas, uma lógica anti-aristotélica, na qual os acontecimentos se sucedem ao arrepio de um mecanismo causal e onde a mundivência e a relação com os limites físicos e a morte é manifestamente diferente, sendo por conseguinte normal, como se ilustra no conto Artesão de Flautas, que alguém volte à vida e a prossiga de uma forma feliz e bem sucedida, depois de ter sido morto e pilado pelo pai.
Acabo com um provérbio chinês: «tu não podes impedir os pássaros da infelicidade de voar por cima da tua cabeça, mas tu podes, ainda assim impedi-los de construir os seus ninhos nos teus cabelos...». Ou seja não vale a pena lamentar-nos sobre o tempo em que vivemos, e é preferível adoptarmos uma sabedoria de vida cujo antegozo só a música, a dança e a literatura nos podem dar. É preciso reencontrar a leveza nos tempos de chumbo. É esta uma das mais dignas funções da ficção e espero tê-lo conseguido nestes contos onde a comédia e a tragédia se fundem com a sabedoria que a cultura popular algumas vezes nos transmite.»

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A MESA PÉ-DE-GALO E O COELHO E A MASSALA




- Outro livro, António?
- Saiu-me, mãe! E tu, já obtiveste perdão para o anterior, Aí em cima?
- Já pedi audiência. Mas está difícil, e tu ainda carregas a tua pena?
- Recalcitrante e contumaz... Sabes que foi por causa destas duas palavras que não tirei o curso de direito que tu desejavas para mim?
- Não te entendo, filho.
- De tanto chocar com estas duas palavrinhas nos manuais, entendi que se as repetisse ad eternum rapidamente me tornaria num réprobo...
- Fiquei na mesma, mas sempre te desculpaste com os outros...
- Sai sermão?
- Eu não queria, mas cada vez que me convocas é isto, é para me apresentar outra pedra no teu pescoço... Ganhas ao menos?
- Ganhei em pobreza, distingo mais o que me é essencial.,.
- Hum, para franciscano falta-te a tonsura...
- E é sobre o quê, essa bodega?
- Recrio algumas fábulas tradicionais africanas... 
- Coisas pagãs, não sei meu filho... essa tua vocação para mártir não sei onde te leva...
- Não disseste que andavas em piqueniques com o S. Pedro?
- ... e por que me tratas por tu à mesa pé-de-galo se em vi
da nunca o fizeste?
- Informalidades dos espíritos...
- Olha, ainda tens o terço que te dei quando fizeste dezoito anos?
- Cala-te boca... Sabes alguma coisa dos Gregos, do que se vai passar hoje?
- Platão 1- Sócrates 2, no torneio de pingue-pong... era isto que querias saber.
- Bom, tenho de ir, chamam-me... tenho de ir fazer o lanche para a tua neta...
- Sabes que mais, que descobri aqui? Que o silêncio tem insónias...
- Contas-me logo, contas-me depois... e trata lá do meu caso...
- Conta-me é tu uma das histórias, para eu medir a gravidade do caso...
- ok, vou-te contar só uma!


O COELHO E A MASSALA

Estava um coelho repimpado debaixo de uma massaleira quando lhe caiu na pança uma massala madura. Foi um susto de morte ver aquela espécie de planeta em equilíbrio na barriga. Susteve, susteve muito a respiração, antes de, num arrepio, fugir esbaforido, com os tufos nas orelhas todos em pé.
Passava por ali o cabrito do mato, que ao ver o estado do coelho, curioso, se pôs a correr ao lado dele:
- Ó senhor coelho, que lhe deu maleita! De que foge o amigo?
- Fujo do que devias fugir, pois não vês tu que o céu está a cair?
O cabrito do mato ficou desconcertado, pois estava um céu imaculado e sem nuvens, e insistiu:
- Tem a certeza do que diz, senhor coelho?
O coelho passou-lhe a massala, grande e rija, e disse-lhe:
- Diz-me tu, se não é um planeta.
O cabrito intrigado chegou-lhe o dente e partiu-o, de tão rija que era a esfera.
E assustou-se por seu turno, correndo numa gritaria, ao lado do coelho. Até que chegaram ao parque onde viviam muitos outros animais, camaleão, cágado, gazela, avestruz, zebra, cudo, ratos, um ror de bicharada. E o coelho e o cabrito informaram os outros animais dos perigos que aí vinham e todos ficaram com a pele de galinha. Só o cágado olhava desconfiado para o fruto, resmoneando:
- Hum, isto parece-me massala.
Mas o rato cravou-lhe o dente e partiu-o. E o cágado cismou então que aquela esfera era uma rocha. E sem demora desataram a fugir, fugiam da própria sombra, e assim, dobrados pelo pavor que os tomava chegaram a uma floresta muito densa e recôndita, onde pararam enfim, e não porque ali se sentissem mais a salvo mas por estarem estafados da corrida. Recobrado o fôlego veio uma sede danada, mas por ali não havia água.
Resolveram unir os esforços e abrir um poço.
Bom, quase todos. O coelho anunciou logo que não queria trabalhar, já se sentia a salvo e por isso podia prosseguir a sua soneca.
Os outros animais avisaram-no:
Então, depois do poço aberto não irás beber desta água…
E ele desvalorizava, encolhendo os ombros:
Pois, pois!
E pôs-se a bater a sua sorna.
Os animais cavaram, cavaram, e não encontravam água. Um deles lembrou-se:
Onde está o cágado? Esse é quem sabe.
O cágado, que era muito preto e lento, tão preto que lhe chamavam Mica, ainda estava a caminho da floresta. Correu o cudo ao seu encontro e trouxe-o nas costas.
Inteirou-se o Mica do plano dos amigos e dispôs-se a ajudá-los. Farejou, como uma antena que procura gambozinos, e enfiou-se vagarosamente por um buraco húmido ao abrigo de uma moita. Não tardou muito ouviu-se uma voz ufana:
- Aqui tem água.
E alegremente fuçaram, fuçaram, até que dois metros abaixo encontraram uma corrente de água fresca. Foi ver quem mais bebia.
Após esta canseira deu-lhes a larica e foi cada um deles procurar que comer, deixando a gazela a guardar o poço.
Aproximava-se a noite quando o coelho acordou e vendo a situação gizou um plano. Quinze minutos depois chegava ao pé da gazela, que já sentia uma moinha no estômago, com frutos silvestres:
- Olha o que a tua avó te mandou!
A gazela devorou-os com gosto.
Gostas muito desses frutos… - comentou o coelho.
- Isssh!… Se mais houvesse! – retorquiu a gazela, satisfeita.
- Se me deixares amarrar-te, vou-te buscar mais.
A gazela nem pensou duas vezes e acedeu ao pedido do coelho. E, estando ela amarrada, o coelho banqueteou-se com a água.
Quando vieram os outros animais, a gazela estava faminta e choramingas.
- Quem te amarrou, perguntaram.
- Foi o coelho…, respondeu.
- E que choras, tu? – perguntou-lhe a zebra de maus modos, a ver se ela mostrava arrependimento.
- Choro porque não tenho nenhuma avó… - respondeu a gazela, misteriosamente.
E então bateram-lhe por ter desleixado a guarda da água.
E puseram-se a discutir quem havia de ficar a vigiar o poço. O Mica que era tão vagaroso a falar que só acabava as frases quando já os outros tinham esgotado todos os seus argumentos, garantiu-lhes:
- Comigo, o coelho não leva a água…
E como o disse depois de todos os outros terem esgotado os seus argumentos, a coisa pareceu definitiva e ficou ele a guardar o poço.
Foi tudo em busca do seu alimento enquanto o cágado foi buscar visco às árvores e untou com ele o corpo. Após o que se colocou no seu posto, perto do poço.
Veio o coelho pé ante pé, mas o cágado estava alerta.
- Onde vai, Senhor Coelho?
- Deixas-me ir ali só beber um niquinho de água? Também se lá for não me apanhas! – gabou-se o esperto.
- Para quê fazer uma coisa a mal, se pode fazer a bem? Dê-me um abraço de amigo e depois pode lá ir à sua vontade.
O Coelho ficou um tanto desconcertado, mas pensou, se ele é tolo, deixa-me aproveitar… E aproximou-se do cágado para lhe dar um abraço:
- Venham então cá esses ossos… - dizia sorridente, enquanto abria muito os braços.
E deu-lhe um abraço tão apertado que nunca mais se conseguiu descolar do cágado. Por contorcionismos que fizesse para tentar sacudir o cágado, quanto mais se esforçava mais o outro se colava ao seu tronco. E o Mica soletrava, sorridente:
- É um pra-zer ter um ami-go co-mo vo-cê!
Quando chegaram todos os outros animais o coelho estava rendido de cansaço, deitado, de barriga para o ar e com o cágado em cima. E tinha os lábios gretados de secos.
Observava divertido o Cágado:
- Pa-re-ce que lhe ca-iu mei-o pla-ne-ta em ci-ma…
Então todos os outros animais nomearam o Mica chefe da aldeia…

- Mãe... mãe... adormeceste? Mãe... É boa, pirou-se!

UMA DAS GRAVURAS DE JORGE NHACA, QUE ILUSTRAM O LIVRO


sexta-feira, 19 de junho de 2015

A CICATRIZ DE DEUS

                                                                          Seráphine

Em dado momento, estive para fazer acompanhar a narrativa O BEIJO NO ARAME (um dos dois corações de «Éter») de três contos mais curtos onde retrataria, “supostamente”, o meu pai, um tio e o meu avô, três figuras muito presentes na minha infância e que raramente surpreendi em manifestos gestos de ternura. Não quer dizer que tal não pudesse acontecer, mas o mais vulgar era a retranca, o pudor.
E, claro, em todos os contos misturava-se a descrição de alguns acontecimentos inspirados na realidade e o que inventei livremente, num vislumbre que nunca poderá ser “puro”, pois não cabe à literatura a tola pretensão de iluminar o retrato de alguém, e antes lhe é inerente realizar uma liga em que a dosagem equilibrada de plausibilidade e mentira acaba por traduzir uma certa confiabilidade narrativa.
Ou seja, estas personagens, recriavam mais a atmosfera da época e do carácter, às vezes violento, que esta imprimia às personalidades do que procuravam ser lidos como réplicas exactas dos meus familiares.
Este jogo e esta ambivalência é que fundam a literatura. Nada foi assim exactamente mas tudo “podia” ter sido assim, propriedade que Aristóteles atribuía à “poesia”, na sua Poética.
Depois de ter recuperado um computador que julgava perdido, reli então, ao fim de três ou quatro anos de "gaveta", este conto sobre o "meu avô", e aqui o deixo:

A CICATRIZ DE DEUS
1

Quem me vir agora, em anorexia pilosa, compreenderá porque ainda hoje te invejo o farto cabelo solto, seda a que o vento emprestava uma asa de corvo albino.
Via-te no parque, em miúdo, sem ousar falar-te ainda. Descia as escadas para o jardim e corria até à bica. E reconhecia-te num dos bancos que a ladeavam. Atrás dos papos que te escondiam os olhos piscos, adivinhava um olhar benevolente, embora nunca tivesses desarmado nem o pudor nem o seu muro.
Nunca me incitaste a dirigir-te uma palavra.
Depois, fazia chiar o portão do parque, pagava à tosca da vigilante (havia lá camafeu mais horrível!) os cinco tostões, o pescoço torcido na tua direcção, na esperança de que me tivesses seguido pelo canto do olho. Fazia o mesmo quando subia ao escorrega, lá de cima, antes do impulso para a descida sondava o teu grau de atenção aos meus movimentos. Davas à palheta com outro reformado, apaparicavas uma mulher da tua idade, numa macaqueada animação trivial – mas nunca olhavas para mim.
A primeira vez que te vi foi no lago do jardim. A minha mãe sentava-se no pétreo banco em semicírculo que serve de rodapé ao painel de azulejos de Cargaleiro, e eu corria à volta do lago: um desenfreado cometa com uma cauda de pombos. Atirava o milho para trás das costas e fugia, excitado e temeroso, enquanto um magote de aves espanejava o ar, debicava-me os ombros.
Acabado o pacote sentei-me ao lado de um velhinho, na outra ponta do semicírculo. A minha mãe teve uma expressão de dissabor. Eu catava um último grão de milho, e o idoso estendeu-me a mão com três, embrulhados num sorriso. Aceitei-os, e atirei-os aos pombos, que calcorreavam a borda do lago. A minha mãe levantou-se e firme, embora compassiva, pegou-me na mão e silvou boa-tarde para o idoso.
Seguimos num ritmo musculado e subíamos a escada do jardim quando ela anunciou, aquele é o teu avô.
Só pelos nove anos, já eu ia sozinho para o jardim há pelo menos dois anos, é que me dirigiste a palavra: então toninho, dá cá uma bacalhoada! Entretanto, eu fixava-te do alto do escorrega e vinha-me, salteada, como o bouquet saído da cartola do ilusionista, a dúvida - foi mesmo ele quem espetou uma faca de mato na avó?

A cicatriz não deixava dúvidas. Entrevia-a sete, dez vezes, entre a alça da combinação - um bom palmo de farpas. Uma vez pedi-lhe, avó, deixa tocar. Foi a única vez que lhe toquei nas costas, na linha das omoplatas, na cicatriz; foi a última vez de que me lembro de lhe ter visto quase as costas inteiras, de uma ofegante magreza moldada em parafina.
Habituou-se a fechar a porta quando vinha do banho, ou a apagar a luz antes de vestir a combinação, apesar de eu dormir no quarto com ela.
Às vezes pergunto-me se ela não me queria enlouquecer com a sua fantasia sórdida, fúnebre, acordando-me a meio da noite para me perguntar se não ouvia os espíritos a arrastar correntes no corredor ou se não divisava as figuras que ela via no escuro. Anos a fio. Era tremendo, mas, hoje, nada me é tão real como o toque naquela cicatriz, áspera, encordoada, que se lhe derramava pelas costas como um promontório; nada havia de tão concreto naquele quarto que se assemelhasse às costas dela na penumbra e ao meu conhecimento de que aquilo estava ali, emaranhado na sombra, selvático, como o mexilhão na pedra.   
Entre o jardim e o ginásio havia uma loja para artigos de caça e pesca. Todos os dias parava na montra a olhar as diferentes facas de mato expostas, a avaliar a espessura, o gume, a dureza do aço, se consoante a penetração e a incidência o sangue sairia aos esguichos ou borbotões, ou como um manto. Anos de secreta inquirição.

E um dia, não longe daí, vou a entrar com o meu pai no mercado e tu estavas lá, à entrada, apoiado na bengala, ao lado da tua mulher, a Natividade, a merda da coxa como a minha avó a tratava, que segura um saco com cabeças de corvina. O meu pai detém-se e cumprimenta-vos, sem brandura nem desdém, e tu apontas-me a tua mão larga e os cinco dedos abertos em espátula: então toninho, dá cá uma bacalhoada!
Porém, as coisas só se começaram a desanuviar anos depois. O meu pai havia comprado um terreno na Aroeira e, pobre, e desasado em qualquer ofício, há-de precisar de dois auxiliares preciosos para a construção do seu refúgio de fim-de-semana: de mim, como aprendiz de pedreiro (o que eu hei-de odiar aquela garagem com primeiro andar e vista para o pinhal) e de ti, como verdadeiro artífice dos sete ofícios, o único arquitecto e mestre-de-obras daquela construção, a que nem o teu reumático tolda a precisão e o engenho.
Eu teria doze, treze, anos e odiava ser tirado da cama às cinco da manhã para apanharmos a carreira das 5h30 para a Fonte da Telha, parar a quatro quilómetros do terreno e embrenhar-me pinhal dentro, encalacrado de frio, batendo os pés contra a caruma, enquanto o caliginoso silêncio do me pai me precedia. Bufava e interrogava-me, no sem sentido daquelas sendas, como podia o meu pai perdoar-te. Sim, porque ele vira, ele estava no quarto no momento do acto. Não sabia ainda que a vida é um novelo tão emaranhado que acontece reencontrarmos na volta mais inesperada o fio do perdão.
Quando chegávamos lá estavas tu, enfiado ainda na tua carripana; aquela geringonça que montaste com peças desirmanadas de mota, uma gaiola metálica, restos de lona, e duas rodas de lambreta, um verdadeiro riquexó motorizado - o único riquexó nos anos sessenta, em Lisboa e arredores, e que à mera passagem me enchia de vergonha. Tiravas então as luvas, as mais carcomidas luvas de cabedal de que me lembro ter visto, apontavas com o queixo os caboucos e os tijolos e prometias, hoje temos trabalho toninho.
E deus me perdoe se eu não te mandava para os entrefolhos da tua mãe naquele mesmo instante, o espírito errante, furibundo, sentindo aflorarem nas veias as primeiras lâminas de xisto. Mas batia com os pés na caruma e procurava ouvir os pássaros, prometendo não perdoar nenhum lacrau naquele dia, esmagar com o sacho a mona de um rato.
Bebido o café começava a jorna.


2

- … Vê lá se os miúdos não estão a ouvir…
- Estão a dormir…
- A porta está bem fechada?
- Tá…
- Tanto melhor, eu não quero que o toninho saiba alguma coisa disto…
- Mas disto o quê?
- Do que tu sabes e não queres falar…
- Ai… já me estás a enervar… do que é que estás a falar…
- Das reuniões que o teu pai faz lá na Aroeira…
- Que reuniões? É do culto. Conheceu lá uns rapazes nas obras que têm o mesmo culto que ele e pediu-me a casa emprestada para o culto, enquanto eles não arranjam outro lugar…
- Mas que culto, António José? Tu que nem permitiste que os teus filhos fossem à catequese…
- É o meu pai, não lhe podia dizer que não.
- O teu pai que te desgraçou a vida.
- Águas passadas…
- Tu não vês que não é culto nenhum… fui lá ontem buscar umas hortaliças e fiquei em estado de choque com o que encontrei debaixo da cama…
- E que é que encontraste debaixo da cama?
- Uma caixa com armas, para cima de trinta espingardas… não sei que culto é esse…
- Eu vou falar com ele, só pode ser engano…
- Engano? Eu vi.
- Ele só anda na igreja…
- Que igreja precisa de tantas armas?
- Se calhar pediram-lhe que as arranjasse, ele arranja tudo…
- Sim, panelas, bicicletas e motores… e agora gatilhos… abre os olhos, António José…
- Mas de que falas?
- Não vês como ele ficou alvoroçado por causa do 25 de Abril… com a subida ao poder do Vasco Gonçalves? Aquilo mexeu tanto com ele que até lhe curou o reumático…
- Lá isso foi… - concordou o meu pai, rindo –, anda num virote político, mas ele tem 70 anos…
- Sim, e foi da Legião Estrangeira… e foi um salazarista encartado, e teve dez anos de cadeia…
- Isso foi por causa da minha mãe…
- …onde conheceu toda a escumalha do mundo… Garanto-te, António José, ele anda a preparar alguma… e não é boa. Sabes quantos homens o teu pai mandou para a cadeia? O teu irmão Joaquim nem lhe fala por causa disso…
- O meu pai? Não é certo que ele fosse da Pide…
- Tu não queres é ver… ó homem abre os olhos antes que ele nos traga cá para casa a desgraça. Tu não vês como anda o país, uns contra os outros… só nos faltava o teu pai a preparar qualquer golpe ou a querer matar um comunista… vinte e tal espingardas, António José…
- Vou amanhã falar com ele…
- Não vês que perdemos tudo? Levaste três anos a construir aquela casa… é tudo o que temos…
- Já disse, vou amanhã falar com ele.

Eu, atrás da porta, estava zonzo. Levantara-me para ir urinar, ouvira-os cochichar, e nada atrai mais do que um segredo que procura esconder-se. O que acabara de ouvir atordoava-me sobremaneira porque no último ano e meio tínhamo-nos aproximado muito, eu e tu.
Com a queda do fascismo houve em ti uma mudança de comportamento, de repente estavas mais expansivo e loquaz. Como me explicavas, as tuas veias tinham entrado em degelo. Permanentemente alerta e à coca com tudo. Deixaste o jardim, onde te reunias com outros reformados, pelos cafés, pelas reuniões políticas. Juntavas – havias-te tornado evangélico nos últimos anos - Cristo ao fervor da mudança política. E se naquela altura era difícil propor sequer uma aliança semelhante!
Rejuvenesceste dez anos e entregaste-te ao trabalho social voluntário. Uma guita desatara-se em ti e desfiavas histórias de heroicidade militante e clandestina que me assombravam. Em 73 e 74, inclusive, garantias-me, a casa da Aroeira servira de esconderijo para “camaradas” que precisavam de dar o salto, ou de esconder-se. Sem que o meu pai soubesse, era um segredo nosso, obrigaras-me a jurar.
Eu tinha 16 anos e precisava de heróis. Sentia que pertencia a uma geração a quem fora roubada a revolução, a heroicidade e o sacrifício, uma geração pós tudo e bastante desapontada por encontrar já formatados os desafios políticos e morais. As tuas histórias davam uma genealogia, uma legitimidade aos meus vagidos políticos e até me haviam dotado de uma certa aura junto do sexo feminino. Fora-me em tudo vantajosa a tua mudança.
Percebia de repente que sempre me mentiras, que afinal estavas do outro lado e que a tua actividade social não passava de fachada, de espionagem ao serviço de interesses ínvios. Dançavas simplesmente consoante a maré, um vira-casacas.
Se o meu pai não resolvesse prontamente a questão das armas, eu mesmo te denunciaria, prometi-me nessa noite.
Contudo, não fui capaz, e não me perdoei pela fraqueza. Estive dez dias sem te ver e quando te enfrentei, perguntei-te de chofre:
- O que é que te deu na gana, para espetares uma faca na avó?
Pigarreaste, precisando:
- Foi uma grosa… uma grosa…- Depois observaste - Um bêbado de mau vinho é um homem que cai do seu próprio galho! Um bêbado de mau vinho é um homem que cai do seu próprio galho!...- Repetiste, uma meia dúzia de vezes antes de justificares - O coração da tua avó era mais seco que a minha pedra de amolar e quis ver se com a grosa ele soltava faísca...
Enquanto pestanejavas, emborquei um cálice de aguardente, o meu trigésimo terceiro cálice de aguardante, de que me servi sem que tu me ousasses impedir; prosseguias:
- Não é das coisas de que me orgulhe, mas em tempos de miséria ou temos em casa o amor da mulher ou ficamos mais pobres… se até o pão ázimo nos tiram não sobra mais nada, percebes? Quando aos 60 me virei para Deus foi como se estivesse a trepar de novo ao galho onde podia ser um homem. Antes era mau, um homem soberbo, a quem só alegrava a bebedeira do sangue e não a de Deus...
- Merda para Deus… - Atirei-lhe e saí.


3
O pastor pôs um ar de extremo compungimento e declarou:
- É com imenso pesar que tenho de lhe comunicar que a nossa igreja não pode continuar a manter o seu avô no nosso asilo… como sabe é uma prática nossa e temos seguido esta prática sem desfalecimento, mas neste caso não podemos transigir…
- Sim, mas porque me chamaram a mim? Tenho irmãos solteiros, primos, que poderiam acolhê-lo mais facilmente… ou que falam com ele. Mais próximos dele. Eu não o vejo há 15 anos e não temos contacto…
Bateu com o indicador no vidro do relógio, no pulso, antes de o levar ao ouvido:
- Desculpe, estas quinquilharias de agora… - Pousou o pulso vagarosamente sobre o tampo da mesa, tapou a montra do relógio com a outra mão e olhou-me com gravidade - O seu avô só quer falar consigo, diz que tem uma coisa para lhe dizer que só o senhor pode entender…
- Hum… muito me surpreende. Mas, diga-me, o que é que ele fez para se tornar impraticável a sua permanência no asilo…
- O seu avô nos últimos dez anos foi um grande pastor. Era um homem de fé e que achou o seu fogo na palavra…
- Está a falar do meu avô? – Perguntei incrédulo.
- Sim, sim, sabe, nós nunca conhecemos inteiramente as pessoas que estão ao nosso lado. E como estiveram tão afastados, é compreensível que lhe pareça estranha a mudança que houve nele…
Ironizei:
- Mudança? Quais delas?
Ele continuou, impassível:
- Eu não conheço bem o passado do seu avô, digamos que provavelmente havia ali muitos nós que precisavam de ser desatados e que no seu contacto com a Palavra do Senhor diluíram deixando o canal liberto para a Palavra Viva… era um encanto ouvir o seu avô numa prelecção. Parecia que as palavras lhe chegavam ditadas directamente… - E apontou para o céu…
- Portanto, digamos, ele desatou a sublimar erros passados, erros ou horrores…
- Talvez seja como diz, mas o seu avô até há um ano era quase um santo… e ajudou muita gente, com a sua Paixão e a sua persuasão…
- Que houve de novo?
- Bom, o Pastor Manuel Domingos é um homem de muita idade… fez este ano 88 anos.
- E manteve todo esse fogo como diz, essa virtualidade de raciocínio até o ano passado?
- Sim… e podemos dizer que algum raciocínio ainda se mantém…
- Não percebo então.
- O ano passado, o seu avô teve um AVC.
- Não sabia, estava no Brasil.
- Uma coisa pouca, mas tinha falhas de memória, fugiam-lhe as palavras, deixou de se conseguir concentrar muito tempo e, sobretudo…
- Diga.
- Perdeu o chip da moral…
- O chip?
- Temos de nos adaptar aos tempos… O Irmão Manuel Domingos foi recolhido no nosso asilo e após dois meses de tratamentos e de descanso começou a receber visitas. Não foi logo, mas as coisas há três meses que perderam completamente o controle…
- Continuo sem entender…
- Como era um elemento muito querido da nossa igreja, o Pastor Manuel Domingos recebia muitas visitas dos nossos irmãos de culto… e das irmãs, velhas e novas…
- Hum, hum…
- Há três semanas, uma fiel nossa, Joana Emília, uma jovem acima de qualquer suspeita moral, veio queixar-se de que o seu avô lhe pediu para ela lhe mexer no sexo enquanto ele lhe lia os salmos de Salomão… No dia seguinte apareceu nu, em erecção, e a blasfemar, à irmã Dolores, a quem quis violar… tem sido assim, sem descanso, e até à minha mulher já pediu para lhe fazer sexo oral…
Brinquei:
- Deixou de sublimar, portanto… - A perplexidade moveu-lhe a maçã de Adão, como se fosse uma bailarina em pontas. Continuei, mudando de registo: - Compreendo. Não sei ainda como vamos resolver este caso, tenho de falar com os meus irmãos primeiros… mas presumo que algo precisa de ser feito nos próximos dias…- Anuiu com a cabeça - Assim será feito. Posso então vê-lo? Quero saber o que ele me tem para dizer.

A juba não tinha perdido um cabelo. Estava apenas um pouco mais baça como o pêlo branco de gato viciado em nicotina. No rosto, o pergaminho redobrara as estrias e o nariz, para surpresa minha, estava mais afilado e curvo.
Não me viu logo. Sentado na cama, que me parecia um catre, olhava pela janela. Acima da cabeceira havia um crucifico com a cruz forrada em veludo vermelho.
Quando deu por mim não se sobressaltou, como se eu apenas lhe tivesse ido à rua buscar o totoloto. Olhou-me apenas demoradamente, sem mudar a expressão, fazendo-me sentir examinado milímetro a milímetro. Só depois sussurrou:
- Toninho… - E puxou a minha mão esquerda para o meio das suas. Só me restou sentar-me ao seu lado.
Fixou-me nos olhos, o azul estanhado das suas íris continuava penetrante. E então os seus lábios mexeram-me e sussurraram:
- Naquele caso da tua avó, Deus é quem segurava a faca…
- Olhe, então merda para si… - respondi.
Arranquei-lhe a mão da mão e saí.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

DEBAIXO DO SILÊNCIO QUE ARDE/ MBATE PEDRO

séraphine

lO texto que li ontem no lançamento, a uma plateia, muito, muito concorrida 

Para começar gostaria de declarar que este livro é muito barato, é uma pechincha, porque pagamos um e recebemos em troca três níveis de leitura, ou seja, três livros num.
A primeira leitura é a que é de comum facultada pela preguiça do leitor, que abrirá o livro e o lerá de fio a pavio, cronologicamente, como acontece em 100 por cento dos livros.
A segunda leitura, mais árdua, porque exige trabalho, é a que é sugerida pela pauta final que se encontra na página 107, onde o leitor descobre depois de ter lido de rajada o livro que o autor afinal sugere uma ordem de leitura absolutamente diferente daquela que nos deu a ordem cronológica.
A terceira leitura chega-nos da necessidade de perceber, pois temos esta mania doentia de querer ver tudo claro, porque é o que o livro começa pela segunda parte e anuncia a primeira parte lá para o fundo.
E nas três vezes apercebemo-nos de que cada montagem dos textos de facto propicia perfis de leitura muito diferentes e logo níveis de inteligibilidade e recepção distintos.
Este esquema, em que julgo não estar enganado se disser que o Mbate foi inspirado pelo dispositivo de leitura do romance Rayuela do Julio Cortazar, é na verdade um bom truque, que entre outras vantagens torna, como disse, os livros baratos, mas a sua maior legitimidade chega-lhe de ser mais do que um esquema.
O Mbate Pedro com isto está-nos a apelar à atenção e a fazer-nos reparar que o lúdico, o sentido do jogo, pode ser uma porta de entrada para falarmos de coisas sérias.
Normal então que se instaure de imediato um duplo sentido no diálogo exposto entre o título e a epígrafe escolhida para o livro. O título e a epígrafe são normalmente as traves mestras de um livro, as suas chaves. Se procuramos um sentido para o livro, é normal que comecemos por espreitar aí, são os seus buracos da fechadura. Ora, no título reza “Debaixo do Silêncio que arde” e na epígrafe lê-se: “Em silêncio, abrem-se sobre o calvário os olhos dourados de Deus”. A primeira coisa a assinalar é o evidente contraste entre as preposições. O termo “debaixo” está no lugar da preposição “sob”, e então vemos que as duas traves que nos induzem a leitura do livre sustentam-se nas preposições sobre e sob, aparentemente contraditórias. Sob, sobre - e no meio desta ambivalência situa-se a voz do poeta.  
Sob o quê e sobre o quê? Julgo falar-nos o poeta da própria condição humana, pois estamos permanentemente divididos, ou condenados, se quiserem, a estarmos sobre ou sob alguma coisa. Até no amor estamos ou sobre ou sob. Face ao poder estamos sempre sob. Já na leitura e na arte podemos estar nivelados.
Por outro lado, o título e a epígrafe começam por armar de forma subtil uma enorme acusação a Deus, apresentando-o como um perverso voyeur que gosta de testemunhar, em silêncio, como as criaturas ardem no inferno. E no Inferno estamos nós, a estudar para carvão.
Mas nesta ambivalência do sobre e do sob há também um aviso: atenção que debaixo de um livro há outro, daí o jogo a que o poeta nos convida com a sua pauta de leitura que contraria a leitura linear que o livro supostamente consagraria. 
Mas voltemos à heresia sobre Deus. Que contrapõe o poeta a esta visão dantesca? A hipótese do amor e a hipótese do poema.
Chamo-lhes hipóteses porque o poeta assim os apresenta, como necessidades urgentes em devir, isto é, para o Mbate o amor e o poema não representam exactamente coisas já acontecidas e cristalizadas mas antes estados em potência e cuja natureza pode mudar durante o processo. Por isso estão em devir, em mutação. O amor e o poema serão os dois últimos patamares da utopia, e por isso permanecem indefiníveis, e emboram sejam os elementos que magnificam a vida, que tornam por assim dizer habitável o inferno, há que encará-los como probalidades, como os combustíveis desejáveis, e não como estados de ser. Assim parece dizê-lo o seguinte poema:

«quem é essa bela mulher que carregas
às costas?
é uma viola soterrada e
dois pangaios

e porque sangras e estás escangalhado
por tão pouco?
não é por eles que sangro
mas é pela música e pelo vinho
que há na poesia?»

Quem define o vinho, quem pode definir a música? Ninguém. Mas ambos ilustram que a vida e a nossa compreensão dela estão sempre em mudança, em trânsito, são um decorrer com flutuações, pelo que a nossa verdadeira morada se localiza na intermitência, na consciência da precaridade em que nos situamos. Aqui o amor e o poema funcionarão como os instrumentos, mesmo que fugazes, daquele que não renuncia a dar um nome às coisas. A singularidade de um nome é o que nos salva do anonimato da morte, da ventania do aleatório. Daí que escreva o poeta num dos mais profundos poemas do livro:

«depois de certa idade
há no amor
a mesma urgência em ficar
que um cadáver tem
dentro da morte

depois de certa idade
como frutos apodrecidos nas árvores
teimamos em não partir
quando de nós há muito se apartou
o amor.»

É assim mesmo, Mbate Pedro, e teimamos em não partir porque às vezes se reacende o amor se não esquecermos de o renomear; sendo este o poder das palavras, o mais desinteressado dos poderes.
O Mbate Pedro herdou duas características da melhor poesia do século XX e que explora de livro para livro com habilidade crescente.
A primeira é a de ser um lírico envergonhado. Os poetas mais sérios do século XX tornaram-se líricos envergonhados porque se sentiam sempre em dívida com o seu dever moral face aos horrores que presenciaram. Assim é o Mbate, como o foram o José Gomes Ferreira e o Alexandre O’Neill em Portugal, pois tem uma verdadeira veia lírica num país cujos desiquilíbrios sociais e as patologias políticas autorizam pouco as elegias, e por isso contra si mesmo diz e desdiz, continuamente, como neste poema:

«escrevo no poema
o teu peito rosado
como os frutos

agora
os pássaros vêm debicá-lo»

O Mbate, como se vê às vezes usa o humor para isso, e não resiste a erguer o canto e depois a desmanchá-lo, numa verdadeira “dialéctica da suspeita”.
E isso leva-nos à segunda característica, e que se pode resumir com uma frase do poeta francês Alain Bosquet: «Um poema que não fala do labor do poema é para mim um texto ao qual falta qualquer coisa».
O Mbate comunga desta fé e por isso em tantos poemas seus aparece o poema como entidade ou personagem, ao modo de um terceiro incluído, e aqui convoco a psicanálise que nos ensinou que na cama somos sempre três: eu, ela e o fantasma. Aqui o fantasma é o poema, daí que o livro, na primeira leitura, a cronólogica, comece por dizer:

«Chegam ao poema
Pelas primeiras horas da manhã
(...)
As palavras
Chegam de braços caídos
Não as precede fragor algum... etc. Etc.»

Há paralelamente nesta presença permanente do poema no próprio acto de figurar-se (funcionando o poema como um poema ao espelho) um toque brechitiano e uma evocação da sua teoria sobre a “distanciação” no acto de representar. Mbate quer que o leitor nunca se esqueça de que está diante de um poema, e do seu jogo de possíveis, e não diante de um pronunciamento a que se possa acrescentar um carácter de verdade, ou reinvidicar para ele “um efeito de verdade”. No meu entender, esta é uma escolha sabiamente política, e Mbate defende-se aqui da própria demagogia que pode haver na poesia. Esta opção é um acto moral que atesta a honestidade do poeta.
Agora, o que é que se torna inteligível, o que é que vem à luz, que diferenças se levantam nas três leituras possíveis deste livro? Isto é já do domínio da arqueologia e é o trabalho de casa de cada leitor, e por isso não vos vou revelar. E em meu abono diga-se que este é um texto de apresentação do livro, que deve ser breve, e não um texto exegético. Só vos digo que há diversos tipos de hulha no livro, e que cada tipo de carvão, ilumina evidentemente de forma diferente o nosso habitat.
Por último gostaria de lançar um desafio ao Mbate.  O Mbate começou bem, com um livro curioso, O Mel Amargo, subiu de nível com o seu segundo livro, Minarete de Medos, que desenvolveu e melhorou as características já presentes no primeiro, e volta a subir a fasquia e a confirmar neste terceiro que é um autor com uma voz própria e que sabe expandir os seus recursos, limites e qualidades, o que faz dele a meu ver o melhor poeta da sua geração. Melhor simplesmente porque foi aquele que escavou mais habilmente no chão pobre dos seus materiais iniciais e soube transformar isso num particular tipo de visão, num estilo próprio e inconfundível. O que é evidentemente muito bom, mas não chega. Agora começa para o Mbate o tempo da responsabilidade.
No jogo que ele oferece para o engajamento do leitor desenha-se a necessidade ou a vontade de deixar de ser um poeta de pequenos poemas, avulsos, contingentes, para passar ao poema longo, e ao desassossego discursivo daquilo que é mais temperado e exige uma estrutura.
Mbate, atreve-te, o país precisa de quem o narre, e de quem saiba dosear as brasas líricas e mais subjectivas com o fôlego discursivo de quem confunde a sua voz com o ethos comunitário. Só tu, neste panorama, me pareces reunir ao mesmo tempo a capacidade da elegia e o distanciamento crítico para que esta tarefa possa ser feita de um modo digno, que só sirva a poesia e o país, sem ser servil a qualquer poder.
Por isso repito o convite, atreve-te.    
    



segunda-feira, 8 de junho de 2015

UM DIÁRIO AFRICANO / 4


                                                                 Soutter, "il est sanglante!"


08/06

Tenho de fazer uma mesa pé-de-galo para perguntar ao meu pai como se enlouquece. Seria um conforto tão grande. Eu que estive tão próximo aos 19, 20 anos, por causa das drogas, preso a um ramo de paranóia que alucinava o que se dizia à minha volta, mas salvo in extremis pelo declarar-se da loucura dele, e pelo amor da Alice, a quem eu nunca tive a coragem de contar o meu estado, e que apesar de estranhar certos comportamentos em mim manteve a sua confiança e fidelidade. Depois rebentou a paranóia dele, uma coisa aracnídia, uma estrela negra – e sugou tudo. Sugou também as minhas crostas em ferida, obrigando-me a reagir. Não podia haver duas estrelas negras na mesma casa. Às vezes pergunto-me se ele não enlouqueceu para me salvar, se o amor de um pai chega a isso. Conseguiria eu enlouquecer no lugar de uma filha? Espero que sim, gostaria de ter a dignidade disso. Mas não sei, sinto-me tão vulnerável e cobarde.


Vou dar teste aos alunos de Filosofia de Arte. Estou muito curioso em ver como se vão desenvencilhar na segunda pergunta: «Escreve Alain Badiou, na página 24 do ensaio que teve de ler: “Defenderei mesmo de bom grado, que a obra de arte é, de facto, a única coisa finita que existe. Que a arte é criação da finitude.” Interprete.». Acho extraordinário esta concepção da arte como “bonsai”. O contrário da sublimidade romântica, dos mitos da glória e da arte “maior do que a vida”. Apenas uma janela para a singularidade. Pequena, mas fulcral.
O que tentei dizer neste poema, inédito:

O QUE SOBROU AO FIM DO MUNDO

Assim que me livrei, como lastro,
dos brilhos, precipitou-se sobre mim,
anelada, fulgurante, a noite.
Sobejam ainda pequenas vaidades
e um drama insolúvel para um lerdo animal
de carga: não tenho a memória na ponta da língua.
Daí que, quando, na senda do que respiro,
a imaginação me afunda no seu lençol
freático, tenha que me certificar se não nado
como um coentro, pois a morte é a granel,
não escolhe os filhos. Eis o farnel
de prudências que retive.
Do mais me desfiz: sinais de identidade,
amores aparatosos, palavras
que fulgem como isqueiros. O importante
na mão é a sua leveza, abrir-se
para dar, abrir-se para receber.
É o que o pulso e o ninho têm em comum:
o vento. E agora, mal fecho as pálpebras,
uma infância tropeça nas escadas,
uma galinhola, em pleno voo,
tomba de joelhos, um prego
finalmente respira fundo.
É uma vigília que não cessa  
a fadiga de ser prodigaliza a sede
de ser outro e a fome de outra
pele descarrila a minha.

Levei décadas a libertar-me dos “brilhos”, das “palavras
que fulgem como isqueiros”. E foi este gesto que muitos não entenderam nos últimos Herberto.



A Jade gosta de ir ao “tira-dentes”, está radiante. Até nisto é única. (Horas depois) Desta vez doeu-lhe, e visto o dente arrancado percebe-se, a raíz parece um bico de corvo, enorme e rubicundo. Meto-me com ela, Hum, não vais querer ir mais ao dentista. Resposta pragmática, Não sei porquê, só volto daqui a seis meses.  



Interessante a pergunta de Jean Clair, em A responsabilidade dos Artistas: «Como é possível que entre todas as ideologias do nosso século (século XX) seja a vanguarda a única que não soube afrontar a crítica?». E é uma questão fulcral. Durante décadas, os movimentos de vanguarda sucederam-se sem tréguas (um contra o outro, ou considerando-se o avatar que superava o anterior) e sem verdadeiro debate ou crítica – não se concedia tempo para o sedimento, a espessura da reflexão. A doxa vanguardista convidava o artista a “encarnar” o novo espírito, não “a tornar-se” ou ”a “evoluir de uma postura antecedente para”... era exigido um salto quântico e que se acatasse unilateralmente as novas regras, sob pena de se cair no rol dos caducados, dos dispensáveis. A forma intolerante e fanática com que Breton expulsava os “funcionários” do seu “clube”, ilustra este tique de vanguarda.
O século XX e a história fratricida das vanguardas lembra-me a frivolidade com que em Moçambique se pratica a poligamia. Um homem, desde que tenha meios materiais (e no campo nem isso) e o cenáculo das mulheres o ature, tem duas, três, quatro mulheres. E está com cada uma enquanto não surge um atrito – ao menor sinal de desconforto, zás, muda de lar. É um conforto. Mas com nenhuma acaba por criar "uma intimidade", pois esta nasce do equilíbrio possível entre os momentos de prazer e os momentos de resiliência gerados pelo casal, quando enfrenta as decepções mútuas e se reinventa nisso. Ou seja, noventa por cento dos polígamos (não quero dizer que seja com todos a mesma nódoa) tem o comportamento próprio de um campeão olímpico do sexo destituído da menor vontade para cultivar a inteligência emocional ou relacional.    
Claro que caricaturo, da mesma forma que envolvidos nas vanguardas havia muita gente capaz de dialogar e de afrontar a crítica, mas como esquema geral é o que fica, e as caricaturas não são fumo sem fogo.

domingo, 7 de junho de 2015

SÓCRATES, DE SATIE




Ao soutiã de Sócrates
não o herdou Alcibíades.

Aros quebrados pelo uso
de fatigados rios
que já não aguentariam
uma truta desaustinada

quanto mais amantes
de cabelos cacheados
e de inapetecíveis apelidos
como Escambónidas.

Amar para situar a tristeza
das elipses, o fruste
clamor dos deuses
que desovam no mar,

sobre a carapaça d’
uma distraída tartaruga
que se  aparta,
é vã fortuna.

O soutiã de Sócrates,
a célula 44 no presídio
da sua alma, espera
talvez pelo primeiro-ministro

do Luxemburgo. Qu’
os pomos de Alcibíades
não lhe faziam jus.
Nem por sombras.

Menos ingrato, mais
descansado fiquei
pois nunca correr eu quis
com os calções de Carlos Lopes.

A cada um os seus
fadários.  Sangue seco de batalhas.
Torpe me contento numa visita
à Feira da Ladra

em passo de lesma,
com taberna pelo meio
para no manso beberico dum tinto
espreitar a primeira edição

comprada a um tanso.
Uma vez troquei
um canivete suiço
pelo Sócrates de Satie,

onde o músico abandona
os ginásios e arma-se
ao pingarelho.
Acontece aos mais míopes

quanto mais aos menos.
E ao soutiã, quem no leiloa?