quinta-feira, 20 de junho de 2013

COM A MORTE EMBUTIDA, SAIU À RUA




O Minie morreu. O hamster das minhas filhas. Tão feio e estúpido como um pingo de sorvete de chocolate numa camisa vermelha. Elas ficam num pranto diante daquela carcaça de pernitas cruzadas, que parece ter descoberto a oração. Está bizarramente espalmado o bicho, é caso para perguntar se lhe extraíram a caixa torácica, viro-o de um lado e de outro à procura de um furo. Nada. Um enigma que talvez justificasse uma autópsia.
Há duas horas estava vivo, lacrimeja a Jade. Há uma hora estava vivo, reforça a Luna. Estava vivo há meia-hora, confirma a empregada e acentua, até vi que não tinha água.
Agora está embutido, as patitas em prece, o hamster das minhas filhas, que nunca viu Bruges como o hamster de Hugo Claus, mas que era mais mexidinho que os céus de Hans Memling e agora é o hirto selo de uma carta que ninguém quis escrever.
Coube-me enterrá-lo. Peguei numa folha onde a Jade havia desenhado um barco à vela e fiz dela uma mortalha. Acomodou-se no bolso do casaco. Saí.
Hoje vou de tchopela, o Minie merece a deferência, pensei, antes de, num impulso me atirar para dentro de um chapa. Com o que poupo bebo cinco copos de cerveja em sua homenagem…

Cá estou na Garajinha com os amigos, na verdade vim buscar um toner na loja de informática do prédio ao lado mas aproveito para cavaquear  um pouco com aquela trupe de homens curtidos pela febre e o álcool e uma gama de sonhos represos. E talvez aparelhar o barco à vela com um corpo embutido no porão, pois o Zé Tomás é capitão da marinha. É o que me dá pretexto para abrir o sudário e depositar “o presente” a meio da mesa - o que desencadeia comentários e risos.
Foda-se! – clama um deles – Este gajo é louco!
Explico que é o Minie, o seu fermento no humor das crianças,  e faço-lhe a crónica biográfica:
O gajo mais cagão que vi na vida, assim que ia para a mão delas, era um ver se te avias, bolinhas pequeninas, felizmente inodoras…  
O da minha filha, ela deixou-o cair da janela do nono andar, duas horas depois de o ter recebido… - atalhou o Tucha.  
Não consigo sentir nada diante de um rato morto… - atira o Zé Cabral, com um ademane que endereça ao bicho defunto.
Nem asco dá… - retorquiu o Rui.
Também não é preciso exagerar...- ameniza o Cabral - isto é uma escória, nem chega a ser um rato a sério… Lembram-se daquele conto muito bonito da Carson MacCullers, «Uma Pedra, uma Árvore, uma Nuvem»? Lindíssimo na literatura, nunca fui capaz de amar uma pedra… nem um rato. Nunca cheguei aí, fico-me pelas pessoas…
É como eu… - reiteira o Zé Tomás - Razão tinha o Kok quando dizia que preferia fazer retratos a paisagens porque uma nuvem não ri…
Até onde nos leva um rato morto… - diz o Rui, divertido, enquanto a palma da sua mão desenha espirais ascendentes.
Hum, emenda o Cabral, é só por causa das tuas filhas, para mim um rato morto é igual a outro rato morto, isto é nada… ainda por cima este era feiote, nem para decoração servia…
Também um rato não é um abajour...- contrapõe o Tucha.

No respeito pela morte pago uma rodada, fazemos uma libação, batemos os copos e brindamos em uníssono:
Ressuscita, cabrão!
Porém, o rato que, com o transe embutido, pela primeira vez saiu à rua, permanece impávido, determinado.
Mesmo à distância ouvimos o pranto das miúdas e todos eles, à vez, lhes telefonam com palavras de circunstância, as únicas que conseguem cerzir os mantos rotos da emoção.
O Rui quer sacudir-lhes a tristeza com uma piada de ocasião e diz:
Olha, olha… um canito a rir e um elefante a chorar… - alusões que as ofendem. Teremos agora de marcar uma cerimónia de reconciliação com o tio.
E bebemos mais uma em silêncio, a mirar a estranha simetria daquelas patitas em prece.
Já chega, não? – casquina o Cabral, antes de se levantar, pegando no cadáver – Dá cá esta merda… - encaminha-se para a casa de banho e enfia-o pela banda móvel do caixote de alumínio que se dispõe debaixo da bacia, ao lado da porta.
Assim não… - protesto, quando ele se volta a sentar…
Que queres tu, queres embrulhá-lo de novo no papel e que escrevamos Minie adoro-te, antes de assinarmos todos? Ainda não bebi o suficiente para tanta ternura… - reage o Cabral.
Isso não… mas podíamos ao menos depositar uma flor… - sugiro, vendo pela montra que se aproxima um vendedor de rosas.
Isso resolve-se… - diz o Zé Tomás que vai imediatamente lá fora comprar uma rosa vermelha, que obriga o jovem vendedor a borrifar - Estás-me a dever vinte paus… - atira quando entra, encaminhando-se no acto para o caixote de alumínio, em cuja banda enfia a haste da rosa… - Está bem assim?
É bonita a rosa, é grande… - anui o Cabral.
Digna de um Alexandre Minie… - completa o Rui, sorrindo.
O Zé Tomás senta-se, dá um golo na cerveja, antes de sentenciar:
A mim lembra-me uma couve…
A conversa inclina-se perigosamente para a facilidade com que a vida põe um pé na pedra musgosa e cada um quer atropelar o episódio de uma morte macaca com uma história ainda mais improvável, numa galhofa a cujo pico naturalmente se sucede um momento de laconismo.
É aí que entra o pintas. O fato preto às riscas cinzentas e uma camisa rosa choque, de colarinhos largos sob um bigodinho aparado.  Pede um café ao balcão e vai para o espelho que adorna a parede da bacia aparar o cabelo, acachapar arestas na cabeleira redonda, encarapinhada.
Toca o telefone e ele atende enquanto, com os dedos molhados, amacia o bigode. Fala em voz alta, incapaz de conter-se:
Minha dama, saudade… Ainda ontem pensei em ti… Onde estou? Estou no job… Mas se a minha dama precisa, falo com o chefe… nem preciso, o man sabe que sem mim nada anda… Nice… - alteia a voz – nice, então daqui a meia-hora em tua casa… Darling…
Bebe o café num sorvo ao balcão, e é então que repara na rosa. Paga o café e nem hesita, vai apanhar a rosa, parte-lhe o pé num gesto e encaixa a rosa no bolso do lenço no casaco – o sorriso tão fragrante como o vermelho contra o rosa. E sai triunfante, atirando-nos uma langorosa Boa tarde.
O Zé pergunta, inquieto:
Vocês viram? Tinha uma gota de sangue no espinho do caule…
Ficámos transidos, pois víramos todos.   
Foi nessa altura que o Tucha nos tirou aquela foto.





quinta-feira, 13 de junho de 2013

DE ADONIS: UM CHEIRINHO



Um dos projectos que desenvolverei nos próximos tempos é uma (duas?) antologia de poesia africana. Do Magrebe à África do Sul. Por isso em algumas navegações na net deparei com um número da Courrier, da Unesco, com um entrevista a Tahar Ben Jelloun, que será um dos poetas que traduzirei. Mas o que li surpreendeu-me. Dizia ele, a propósito de grandes nomes da poesia árabe, que não aderia muito à poesia de Adonis, sírio, porque lhe parecia demasiado racional. Os homens nunca deixarão de me espantar. Seremos sempre os literatos de alguém, de vera incandescência romântica.

Bom, de Adonis recebi, por mão amiga, a antologia que dele saiu no Brasil, traduzida por Michel Sleiman (Companhia das Letras, 2012), que achei boa. Adonis, de quem tenho, felizmente, vários volumes, foi sempre um poeta que quis traduzir. Enquanto não o faço aqui deponho fragmentos e alguns poemas provindos desta antologia brasileira.

Atentem na extraordinária Celebração de Beirute, 1982.

Entretanto, para quem ainda não tiver percebido que, apesar dos media e da internet,  existem vários mundos de facto diferentíssimos, e como a queda da Europa pode trazer-nos (a todos) mais dissabores do que aleluias, transcrevo o que aconteceu a Adonis em Amã, em 1990, durante uma celebração duma Intifada palestina, onde leu um poema: «foi acusado por estudantes universitários de cometer blasfémia ao ler os versos “não sabe que deus e o poeta /são dois meninos e dormem na face das pedras”». E dali saiu vivo por pouco.

 
                                       (fragmento)

Nasci e nasceu comigo o deus do amor
- que fará o amor quando eu me for?

 

 CANÇÕES PARA A MORTE

1

 
A morte quando passa por mim é como se
o silêncio a abafasse
é como se dormisse quando eu dormisse.

 
2

Ó mãos da morte, alonguem meu caminho
meu coração é presa do desconhecido,

alonguem meu caminho

quem sabe descubro a essência do impossível

e vejo o mundo ao meu redor.

 

 
CAMINHO

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas
até seu próximo amanhã

o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço

amortecem meus passos, avivam meu sangue.

 
Não iniciei a trilha, ainda

não vejo nenhum jazigo

caminho até mim mesmo, até

meu próximo amanhã

caminho e atrás de mim caminham as estrelas.

 

ESPELHO DO SÉCULO XX

Caixão revestido com rosto de menino
livro escrito nas entranhas de um corvo

fera que avança levando uma flor

rocha que respira nos pulmões de um louco

assim é

o século xx.

 
CELEBRAÇÃO DE BEIRUTE, 1982

 
O tempo avança,

na mão um cajado de ossos.

 
A lâmina da insónia
marca o pescoço da noite.

 
Crânios – uns servem sangue
outros se embriagam e deliram.

 
O fogo se suja?

O vento se infla?

 
Fumaça é nuvens.

Nuvens com a forma de cabeças.

 
Letras caídas

são impressões dispersas no chão

- pedaços de corpos.

 
Hoje o horizonte recomendou a seu filho

o vento que não saísse.

 
Como não se cansam as pedras do caminho?




Nem mesmo o sol consegue

iluminar este corpo que sangra sombra.

 
Dias cobertos de pó

têm feições de velhos.

 
Mariposas queimam

subindo a escada do sono.

 
A cinza, princesa,

toma assento e recebe as honras.

 
O míssil, rei,

arrasta a cauda

sobre os corpos dos súbditos.

 
Será a vida um erro

que a matança corrige?

 
Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?

e o buraco que acolherá a alma?

 
A coisa elimina a coisa.

 
Não terá outro seio´

este céu?

 
Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?

Está sempre lendo seu amor.

 
O dia tem medo do dia

e a noite se esconde da noite.

 
Agradeço

ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,

ao intervalo entre uma bomba e outra,

ao piso que sempre aguenta meus passos,

agradeço às pedras que ensinam a paciência.

 
Apagou-se a luz.

vou acender a estrela dos meus sonhos.

 
Leva-me, amor,

e me mantém trancado.

 


GUIA PARA VIAJAR PELAS FLORESTAS DO SENTIDO

                                                                      (fragmento)

 

 

O que é a árvore?
           lagoa verde cujas ondas são o vento.

 

O que é o vento?
            alma que não quer
            habitar o corpo.

       

 

O que é a onda?
           imagens em movimento
           na tela do mar.

 

O que é a praia?
           travesseiro para descanso da onda.

 

O que é o negrume?
             útero grávido de sol.

 

O que é a lágrima?
            guerra perdida pelo corpo.

 

O que é o leito?
           noite dentro da noite.

 

O que é o absoluto?
            mênstruo na cabeça.

 

O que é a história?
            cego a tocar tambor.

 
O que é a criação?

           selo na mão da coincidência.

 

O que é o abraço?
           terceiro de dois.

                                          

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A REGIÃO CEGA

                                          um homem que nunca perdeu a sua região cega


Essa região cega:
tudo o que resta.

 
Porque crescer é um jogo
mas envelhecer galvaniza a morte,

e antes entalar um dedo na porta

do que não ter boca para o grito,

a essa região cega,

urge voltar.

 
Antes do luto,

antes do chassis da dor,

antes do amor me atingir

como uma pedrada no olho,

onde se escondia a região cega

que nos pode salvar?

 
O amor faz-nos ver demais,

o luto faz-nos ver de menos,

e a dor põe-nos a polir o osso -

onde se extraviou

a região cega

que nos entusiasmava?

 
Procura-se ruína em Maputo,

leio num anúncio,

raios me partam

se isto não é um eufemismo.

 
A essa região

de antes da memória

muito para lá do esquecimento,

inolvidável escada rolante

da infância,

havemos de voltar.

 
Sem fixar nada lá atr
ás
só ter futuro
ou um ecrã cego

que cinco dedos sujam

de compota

ou lume.



sábado, 8 de junho de 2013

MON AMI AMADEUS


Ganhou o Amadeu Baptista mais um prémio.
O Amadeu é o meu brutamontes. Uma vez tinha-o deixado na sexta-feira ao almoço deprimido como o raio e na terça telefonou-me absolutamente excitado. Lá fui ter com ele ao António e mandámos vir rojões e um jarro de vinho. E ele saca um manuscrito da mala e passa-mo: um poema de 90 páginas, escrito de sexta para segunda-feira.
Isto irrita muita gente.
De outra vez, já eu estava em Moçambique e fui a Portugal e visitei-o em Viseu. E ele diz-me, comecei um ciclo de poemas em torno de quadros do século XX. Preciso que me vejas isso. E eu disse-lhe, tá bem, manda-me depois por mail. E ele assim fez-me e íamos dialogando sobre os poemas, e em três meses fez quinhentos. Quinhentos, ponto.
Isto faz-me lembrar uma história do dramaturgo Dias Gomes, que era também um bisonte de concentração. Uma empresária de teatro encomenda-lhe uma peça de teatro numa sexta-feira. Sábado, ele levanta-se às 6h da manhã e começa a trabalhar, domingo dá a peça por encerrada. Na segunda telefona a alguns amigos dramaturgos: “pá, quanto tempo é que levas a escrever uma peça de teatro, dois meses, três, seis? Tive uma encomenda na sexta e não posso entregar já a coisa senão a senhora pensa que lhe estou a dar material refugado que tinha na gaveta…”
O Amadeu ganhou mais um prémio, na Galiza.
Há quem o deteste por isso. Por ganhar prémios. Todas as gerações têm um certo preconceito em relação a poetas que ganhem prémios. Eu também tinha. Na minha geração, a nossa besta de estimação era o José Jorge Letria.
Todos nós puros, ele impuro, porque fazia da escrita comércio – era assim que pensávamos. Não tenho a menor ideia do quanto éramos injustos ou não porque raramente o li, e sentir-me-ia um cavalo se fizesse um juízo sobre a poesia que um certo preconceito me impediu de ler. Mas que o Jorge sofreu de ostracismo, é evidente.
Havia muita arrogância camuflada nesta atitude.
Hoje sei que era um preconceito idiota e um dia destes pegarei num livro do Jorge, simplesmente para o ler como é, sem sobrepor de antemão juízos. Pode ser mau, pode ser bom, não sei.
Com a mesma soberba, várias vezes tendo manuscritos inéditos, e apesar de andar teso como um cão, desdenhei participar em algum concurso.
Já participei em alguns, empurrado por desesperadas razões económicas. É o único factor que me empurra a participar, quando participo. Felizmente, quando precisava mesmo, ganhei.
Embora, enfim, tivesse preferido que me convidassem para escrever um livro erótico – sempre me divertia. Aliás já o propus, uma história erótico-pornográfica escrita em alexandrinos, por ser essa a medida mais próxima do pénis, mas o editor não se decidiu a desembrulhar o adiantamento.
Evito falar dos prémios que ganhei, para mim não têm importância alguma e não avalio o que escrevo à lupa de nenhum prémio, mas do ponto de vista do desafogo económico em alturas de aperto foram vitais.
Uma vez ganhei o prémio Cesário Verde (com um livro, soube depois, que um dos elementos do júri considerou herético) e a concurso estava o então muito jovem José Luís Tavares. Mais tarde ele procurou-me para me dizer que também tinha um livro a concurso mas que o meu era muito melhor. Gente de qualidade é assim que procede, e o José Luis Tavares viria a revelar-se um poeta muito sólido, hoje absolutamente firmado.
Também ele fora a concurso porque precisava, na altura vivia num bairro de lata. Tenho a certeza que muitos achariam preferível que ele continuasse a viver num bairro de lata do que que vê-lo como vencedor de um concurso que lhe aliviasse a precaridade.   
Entretanto, o tipo que me instigou a concorrer, contra ele, porque “tinha um livro imbatível”, deixou de me falar, assim que foi anunciado que perdera. Foram dois os motivos porque concorri, estava com 4000 euros de dívidas e tinha aquele paspalho à minha frente que todos os dias me telefonava para me dissuadir de participar, visto que ele ia participar. Nem sequer pensava nisso, e achava a insistência dele irritante, mas no dia do fecho do concurso, depois dele voltar a espicaçar-me ao telefone (nunca percebi donde lhe vinha a sanha daquela competição comigo) à última hora enviei os manuscritos da estação dos Restauradores (eram 17h45) e papei-lhe o prémio. Parece que o livro dele não era tão herético como o meu. Ainda lhe telefonei a convidá-lo para jantar mas ele não me atendeu mais o telefone, cortou comigo, pelo mesmos insondáveis motivos porque se tinha tornado meu amigo.
Julgar um livro por ter tido ou não um prémio é absolutamente idiota. Ou é um preconceito de classe. Quem não necessita dos direitos de autor para ter alguma margem de equilíbrio que lhe permita continuar a escrever sem estrangulamento faz boca fina.
Não entendo porque podiam viver os Dickens e Camilo de folhetins e um poeta hoje não pode concorrer a prémios que lhe tragam maior conforto à sua frugalidade. Se a grande parte dos editores não paga os direitos (e às vezes não pode mesmo, sobretudo as pequenas e médias editoras) porque não há-de o escritor tentar safar-se, sobretudo se não tem outros meios de provento?
Foi assim que se safou o Bolano. E fez muito bem. O que lhe salvaguardou o tempo que necessitava para escrever algumas obras assombrosas. Que interessa agora os prémios menores que foram necessários para isso?
Outra coisa é escrever para os prémios.
Nunca foi o caso. Nem o do Amadeu, este meu brutamontes que quando ri silencia os carrilhões de Mafra, que simplesmente não consegue deixar de escrever.
Um dia, o Amadeu ficou desempregado de um dia para o outro e eu, que lhe conhecia a produção caudalosa e a muita qualidade de algumas das suas produções, fui um dos que mais o incitei a tentar viver da escrita. Disse-lhe, meu caro ficas proibido de buscar outras servidões … chega de patrões!
E até o quis empurrar para a prosa, passo que ele tem hesitado em dar. Não me arrependo nada. E ele hoje ainda tem as gavetas da secretária repleta de inéditos. Se há um prémio e ele necessita de assegurar sustento para os meses que se seguirão ele pega num manuscrito qualquer que escreveu há anos e envia-o. Mas não tem mais patrões.
O ano passado fui nomeado semifinalista do Prémio Telecom, no Brasil. Como o Gastão Cruz ou o João Rasteiro ou o Hugo-Mãe. Foi o editor que me enviei o livro, ele sabia que eu em direitos receberia pouco e então pensou, eu gosto do livro, pode ser… e enviou. Eu agradeci-lhe o gesto porque o meu carro está podre.
Mas desse prémio, ninguém desdenha porque se é nomeado para ele. Contudo, por isso mesmo, por à cabeça se conhecer os nomes dos candidatos pode ser mais permeável a influências e a uma certa inércia aurática que pode desvirtuar a verdade quanto ao texto.
Nos prémios mais periféricos, de que nunca se fala, há uma clareza maior nos critérios: só vale o que o texto vale, em anonimato. O manuscrito é lido pelo que é e não por estar associado a este ou aquele nome. Podem ocorrer evidentemente enormidades, basta lembrar o caso de Pessoa com a Mensagem, mas na maior parte dos casos ganha mesmo o melhor manuscrito em presença.
O Amadeu é imensamente prolixo, tem coisas muito boas e outras de que gosto menos, como é natural, mas há nele um labor operário e uma energia que devem ser respeitados e que são, nele, signos de dignidade.   
Entre a nova geração conheço também quem não o leia também por ser "vaidoso".
As pessoas confundem o ser vaidoso com o ser-se orgulhoso do que se fez e se construiu, contra todas as condições e possibilidades.
É espantoso que o Octavio Paz o tenha considerado suficientemente bom para lhe dar o Prémio Internacional que a sua revista dava todos os anos, mas que em Portugal seja menosprezado por alguns.
O Amadeu subiu a pulso, dos becos mais tenebrosos, da condição mais precária; dum meio onde não se lia e era proibitivo cultivar-se. Não é isso que faz dele um bom poeta, isso seria apenas um dado sociológico interessante. O que faz dele um “caso” é que quando acerta é muito bom e o fôlego absolutamente atordoador que ele tem – que para muitos, inexplicavelmente, é um defeito.
Que ele manifeste orgulho disso - é o seu direito. Algo que só entende quem, como eu e ele, veio do nada, sem apelidos, heranças ou truques.
Ele bebe pouco, não se droga, não tem igrejas – a sua religião sem mestre é a poesia, onde insiste e insiste sentado à secretária horas a fio, diariamente.
Quem trabalha menos do que ele, é evidente que torce o nariz.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

SAGEZA É FICARMOS DE SOBREAVISO

                                                                     Maria Zerobox


 
É incrível que se tenha esquecido e que de novo seja necessário repisar a lição dos antigos. Mas aí vai…

Quando Grabato Dias escrevia, no Lourenço Marques colonial, Guerrilha em Horas Extraordinárias:

 

«A mulherinha estava a pedir pega-me

naquele olhar de corna mansa, e então

fiz das tripas menores um coração

embrulhei-o em luxúria e num béguin

 

impetuoso e urgente, qual salame

perverso a mugir trinca-me glutão

abalei a voar no avião

rotativo daquele olhar. Eu chame-me

 

cão gravata se não valeu a pena!

Ó licor da vingança, ó bruta cena!

Tinha, enfim, sob a espora, sob a mão

 

soba espúrio, soba ex-puro a esposa

grata do chefe, e sob a esposa a musa

ingrata dum tinteiro da nação».

 

ou em Introdução a um pedido de asilo poli ético:

 

«Olho zanaga olhizaino e duro

labrusco joalheiro de praguedo

inventa o oligarca o medo. O medo

guarda o medo, e o escuro esconde o escuro.

 

Apreensão de apóstata prematuro

romeu repeso ansiando o ledo

quieto canto matutino, medo

urna do medo, eis-me (...) ».

 

está a ser muito mais subversivo que o chileno Angel Parra quando escreve em Canção nº3:

 

«Dirijo-me a si, General, que nasceu neste solo,

a si, legítimo filho da puta chileno.

 

A si que se orgulha de ser o Grande Carcereiro,

de ser o grande Traidor, traidor e embusteiro.

 

A si cujas mãos gotejam sangue humano,

a si que tem a vida e a alma condenadas.

 

Porque receia tanto o povo pelas ruas,

os seus passos, o seu ímpeto, o seu grito, o seu canto?

(...)»

 
Porquê? Parra limita-se a dar azo à sua indignação (justa) e serve-se da (imitação da) poesia para tal, enquanto que Grabato transforma a indignação em trabalho da linguagem, em subversão da sintaxe, algo que um tinteiro da nação (leia-se um burocrata, um funcionário colonial ou não), nunca compreenderá. Aliás, o “estilo” de Angel Parra é o de um “tinteiro da nação”, não difere do de um comunicado político.

No segundo poema Grabato vai aos próprios fundamentos da repressão, que se radica no estado normativa da língua, e vira-a do avesso. O miolo do poema está aqui: «O medo guarda o medo, e o escuro esconde o escuro», e alude à repressão (colonial), interiorizada pelo próprio carcereiro. Mas o poema fá-lo de uma forma que se torna socialmente irrecuperável, dado que “os tinteiros da nação” só entendem a linguagem mais chã e patinam como um peru sobre o gelo quando um poema se diz de outra maneira. 

E chegamos aqui ao fulcro do que faz dos poemas de Grabato grandes poemas e do de Angel Parra matéria volátil: o conteúdo do poema deste podia ser veiculado por distintos suportes, não precisava de ser num poema, enquanto os conteúdos de Grabato são indissociáveis da forma em que foram vazados, não existem fora deles.

Grabato não deixou o seu comprometimento como homem por mãos alheias, não podia era trair as exigências que a poesia convoca. Para Grabato uma ética da dicção substantiva uma estética da resistência e Parra fica-se pela metade. É esta a lição que um jovem “poeta” não pode esquecer.

O resto, se a época está de realismos ou de botijas na cama, e o nome do chefe da caravana que conduz momentaneamente homens, camelos e cães naquela rota pelo deserto, é indiferente. Até pelo motivo mais concreto: estamos sempre perdidos. Vem a morte e fará o seu trabalho. Mas convém não esmorecer e atravessar o deserto como a faúlha que não deixa que as brasas se apaguem.

A PRETO E BRANCO

                                                                        saul leiter.
Passou o dia do branco para o preto com uma notícia que recebi. Por isso só me resta "aliviar-me". Alguns tercetos:


A PRETO E BRANCO

Janela roubada, a minha vida
eu que em miúdo assoava
o nariz aos navios.


Os alunos estão a regressar a conta-
gotas. O professor funga, receoso
de que o seu estado líquido seja irreversível.


O bosque alça em negro o fundo,
a meio perla-se o prado -
névoa que me betume nos olhos o branco.


Eclode a rebentação do cimo
mais transparente da vaga
- a minha cabeça descasca-se para dentro.


Dá-se ares o vento e quer-se distante.
mas fecho-o numa caixa
e roubo-lhe a paixão e os aromas...

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O bulbul
deixou de gritar,
névoa e penumbra.

É um haiku do japonês Âro.
A arte de desemaranhar imagens.
Mas grita o bulbul? Um pássaro com um nome tão perfeito, grita?
Então, estamos mesmo fodidos




terça-feira, 4 de junho de 2013

DE NOVO A SAGEZA E A LETRA ÉLE

                                                                  Catrin Welt-Stein


Eu tinha escrito:

Tapar todos os buracos de uma vida
Pode custar-nos a vida
E desligar-nos dos breves lampejos
De silêncio em que sob a laje a erva se empolga.

Voltar atrás, fazer entalhes
No remo ao invés de o meter na água,
Torna inúteis as sementes de cravinho
Enfiadas pela criança na fechadura do castelo


O Paulo José Miranda, do seu Brasiu profundo, devolveu-me:

Tapar todos os buracos de uma vida
Custa a vida
Desliga-nos dos breves lampejos
De silêncio
Em que sob a laje a erva se empolga.

Voltar atrás,
Retroceder braços aos remos
Inutiliza as sementes de cravinho
Plantadas pela criança na fechadura do castelo

Estava o Paulo em febres e olhou para o poema com o seu viés metalúrgico forjado em Paio Pires e, truca, e zás, mudou umas peças à engrenagem.

Ficou a coisa muito melhor. Explico porquê:

limpar os verbos compostos melhora sempre; personalizar os infinitivos melhora sempre; enxugar as articulações melhora sempre (que estava ali a fazer o “ao invés?”); com a mudança proposta os primeiros versos tornam-se mais universais e descem depois ao particular com a partícula verbal, vaivém que a versão anterior não tinha; a mudança de “enfiadas” para “plantadas” (chamando as coisas pelos seus nomes) concretiza melhor o absurdo da acção

– enfim, o Paulo poupou-me tempo.

Esta questão do tempo na poesia é importantíssimo, como dizia a Margarida: o tempo esse grande escultor, etc. O tempo reduz as coisas ao que é, dá-lhes o lanho próprio. A ilusão de partilhar as coisas em tempo real – nos blogues, no facebook – não deve retirar-nos a lucidez para compreender que só o tempo actua no tempo e imprime as mudanças que são necessárias a cada talhe.

A velocidade é o maior inimigo da arte.

Podemos é aceitar o outro como acelerador do tempo. Ou nós somos capazes de autoscopia e reduzimos o intervalo de latência entre a feitura do poema e a nosso desafecto emocional, conseguindo então olhá-lo rapidamente com um gume objectivo e topar de imediato onde as articulações rangem –

ou então, uma solução pode ser o olhar de outro, atento.

Não um outro qualquer, um outro em cujo gosto e acerto técnico confiamos.

Uma espécie de guilda.

Para que isto possa acontecer e aqui, sim, a sageza pode ser útil, é necessário que, como me observava ontem o cineasta Sol de Carvalho, que as pessoas deixem de competir umas com as outras, mas compitam antes consigo mesmas, para se melhorarem.

Então, desinteressadamente, estarão em condições de discutir as formas e de aceitar aquilo que interessa para melhorar o que quer que seja que se esteja a fazer – sendo aí o mais importante o texto e não o ego.

Raras pessoas são infelizmente capazes deste diálogo.

Contava-me o (TREMENDO) poeta João Pedro Grabato Dias que uma vez houve um poeta português de renome que lhe perguntou se ele havia gostado de um poema dele ao que o Grabato respondeu, Gostei tanto que já incorporei!, tendo o outro ficado abespinhado. Eu adoraria que o Grabato me incorporasse.

Adorei ser incorporado pelo Paulo.

Entretanto, acabo de desiludir a minha filha Jade, de seis anos, que me pediu, tens de dizer o mais rápido que possas todas as palavras que souberes com a letra éle… o que me deixou de imediato bloqueado (fui sempre lerdo neste tipo de jogos)…

Mas por que raio não me pediu ela, tens de dizer o mais devagar possível todas as palavras com a letra éle?

Aí talvez eu tivesse hipóteses…


A SAGEZA E A POESIA: IMITAÇÕES E DISSONÂNCIA

                                                             Saul Leiter: as três Graças

Escrevi este poema:

Tapar todos os buracos de uma vida
Pode custar-nos a vida
E desligar-nos dos breves lampejos
De silêncio em que sob a laje a erva se empolga.

Voltar atrás, fazer entalhes
No remo ao invés de o meter na água,
Torna inúteis as sementes de cravinho
Enfiadas pela criança na fechadura do castelo

Escrevi este poema, ou pelo menos esta pronunciação em forma de verso e hesito no modo de avaliá-lo. Julgo que esta minha hesitação resume todas as minhas dúvidas sobre a sageza.
Adoro os sages, leio-os, cito-os, trago-os no bolso, não vivo sem eles. Mas desejo profundamente estar aquém ou além, não na sageza.
A sageza é muitas vezes apenas a forma redonda de acomodar o mundo num espaço de concordâncias e analogias que o tornam mais confortável. Aí a sageza funciona como uma espécie de plaina sobre as farpas e irregularidades da madeira – dá-nos uma âncora no meio do ciclone. Ora creio, que as âncoras só na água não são decoração, o que lhes acontece no ar, ou na terra, por exemplo.
Ou seja, desconfio que a sageza tenda a fazer da parte apostasia, evadindo-se então de encarar as partes fronteiriças que o real sempre desperta. Há um excesso de sentido na sageza, como se houvesse mais acessos do que limites.
Este poema por exemplo é redondo. Chegar a esta “sageza” – passe a soma de ignorâncias que isto supõe – levou anos, muito.
O que lhe é que lhe falta, para além da eventual carência de expressão poética? A exterioridade do mundo, o curto-cirtuito, uma ventania que abra um poro e escancare uma vista para algo maior – enigmático, inapreensível à minha auto-complacência.
Os orientais preveniam contra isto. Diziam, se encontrares Buda mata-o!, no sentido em que todo o seu itinerário era irreproduzível e o santo só traria consigo o risco da idolatria. Cada um está condenado a fazer a sua própria cartografia e um entrelaçamento próprio num padrão cujo objectivo não é repetir-se mas desenvolver-se. É pura perda de tempo imitar seja o que for, seja o Herberto, seja um patamar mínimo de competência que nos permita exigir uma resposta ou uma certa visão das coisas que nos distinga. Quando chegamos aqui atravessamos como um alfinete o tecido da sageza mas o fito é romper e não sossegar nesse pequeno âmbito que nos serve momentaneamente de patamar.

Há que esgaravatar noutros lados e de estar permeável a que o imponderável penetre no poema e o desaproprie do sentido que julgava encerrar.
Demos um exemplo de um excelente poeta, Paulo José Miranda, que escreveu este poema:

Quantas pessoas que nos pisam são precisas
Até que nos tornemos numa
Não somos nem as uvas nem o vinho
Somos o bem que fica
De todo o mal que nos quiseram

Não há quem fique indiferente ao que o poema ensina. Este é o tipo de poema que brotou de um ramo de sageza. E temos razão para gostar dele. Até porque nos dá conforto: responde-nos. O que o poema não dá é novas perguntas. Vejamos agora outro poema de Paulo José Miranda:

Um cheiro a calças rasgadas
E mãos abrindo mais e mais portas ao vento

Quanto do tempo fica para trás
Naquela árvore frondosa e seca de verão
Onde nenhuma dor
Ou baga de medronho que te atormente
Talvez uma lancheira pequena à beira do leite barro do céu

De outro modo que não
Somente um pombo com chumbos nas asas
E um ramo de crianças
Disputando por essa morte
Que não sabem ver

Explode então um som de campainha
Dedos lá fora no vidro da janela
ver

Explode então um som de campainha
Dedos lá fora no vidro da janela

Este poema tem uma outra voltagem poética, o poema dá a ver processos e não os tenta estabilizar. A própria sintaxe é dissonante. O sentido organiza-se a partir de uma série de imagens que correm em paralelo, sem se concluírem. Nós sentimos o que o poema quer dizer mas este não prescinde das perguntas que ficam no ar, duma ambivalência onde a alegria e o trágico, a finitude e a fuga se geminam sem se lacrarem. Este é o tipo de poema que “ensina” algo ao poeta que ele não sabia de antemão, mas sem fixar o processo deixando-o apenas entrever como um fragmento de vida. Dialogicamente. Como se na casa da sageza uma súbita ventania colocasse de novo cá fora, ao relento toda a mobília… e é esta dinâmica que a sageza apenas imita, pifiamente, mesmo que de forma elegante.
Aqui está o poeta de novo nu.

De outro modo que não
Somente um pombo com chumbos nas asas
E um ramo de crianças
Disputando por essa morte
Que não sabem ver

Explode então um som de campainha
Dedos lá fora no vidro da janela
Por isso me parece o poema magnífico e muito superior aos outros dois.