domingo, 10 de maio de 2015

PEREIRA & ALCESTE, LIMITADA / AS SOBRAS DE ´´ÉTER"

                                                      a despedida de admeto e alceste

«Tenho mais prazer em dormir com o teu caixão do que contigo, ao menos não transpira!».

PEREIRA OBSERVOU OS MÓVEIS ANTIGOS, um sedimento profundo e encantado, que o presente não esfumara, e suspirou. Já a sua mãe os herdara da avó e, trazendo-as da Beira Baixa, deles tinha cuidado, não permitindo que lhes chegasse bicho. Maior desvelo não havia. Pereira tinha empilhado em dois quartos esses trastes velhos, como lhes chamava Rosânia, a brasileira que desposara o seu irmão mais velho, Nicolau, que agora se propunha vender tudo para lhe salvar a face.
Pereira tinha estoirado com o negócio da família, uma funerária, o único negócio que a par das farmácias é impossível falir, repetia incrédulo Nicolau que, fiado nisso, lhe deixara o comando nas mãos, zarpando para Valença onde era sócio de uma próspera firma de ar condicionado. Mas a desordem dos vivos pode atingir velocidades que cilindram a moléstia da morte e amantes e filhos sucessivos baratinaram o que parecia fácil; tendo o sucesso garantido à partida volvido um fóssil de nenhuma licitação nos leilões.
A fim de pagar pensões, escolas, vícios próprios e alheios, Pereira começou a não pagar a fornecedores e dispensou os melhores cangalheiros, recrutando ocasionalmente para gatos-pingados brutamontes arredios ao banho lustral que os enlutados exigem – mesuras e decoro. Foi como ter acoplado buzinas de ambulância sobre a carlinga de uma emoção que se quer embargada.
Descobrir que a Cátia, a sua quarta mulher em oito anos, o enganava com um zulu de Torre Eifel tatuada no peito esquerdo foi um pormenor tão inútil como escorar um trovão com uma empena: o clarão do relâmpago já fizera estragos.

Desde miúdo que Pereira não estava fadado para aquele negócio. Tinha vergonha, na escola, de contar que o pai era funerário e a mãe maquilhava os cadáveres. E que dizer do costume da família que sempre o perturbara? Em nascendo mais um membro familiar - e depois dele viera uma irmã e dois primos – iam ao Barreiro consultar uma indiana que lançava as cartas do Tarot e anunciava a provável data da morte. Consoante a sorte, arranjava-se de imediato um caixão, que era inaugurado em festa de família, partindo-se uma garrafa de champanhe num dos vértices, como se fosse um navio.
A irmã tratou de obedecer ao ditame e faleceu aos doze anos, com o corpo requerido ao esquife escolhido. Pereira vomitou durante dois dias e toda a gente se sensibilizou com “a dor do mano”, embora a verdade fosse mais mesquinha: Pereira começou aí a rejeitar o seu destino. Tinha dezassete anos quando este inopinado facto lhe convulsionou as tripas. Decidiu-se – não nasce da lama, a flor de lótus? Tornou-se um bom garfo, um garfo tão glutão que transportá-lo exigia uma mochila. E aos dezanove já pesava cento e vinte quilos, para um metro e setenta de altura, e excedia a largura física do seu caixão.
Nos estudos ia mal, repetiu três vezes o 12º ano no Liceu Camões, onde ganhou a alcunha do Triple C (aixão).
Só se interessava pelo teatro, mas pouco. Comprou na Feira da Ladra A Cantora Careca, do Ionesco (por causa do título), peça que o animou, dizia, por ser “completamente crazy”; e embalado, uns meses depois adquiriu, também na rua, um volume encardido que reunia várias peças de Eurípedes. Então vidrou-se por Alceste e Medeia, que recitava em casa até ao cansaço das suas vítimas. Sobre Alcestes, embora a história lhe fosse absolutamente desconhecida antes do filho a azucrinar com semelhantes disparates, a mãe ainda entendia o fascínio de Pereira, agora a atracção por Medeia deixava-a apreensiva sobre a educação que dera à cria. E mortificava-a o gozo com que Pereira narrava, à mesa, ao seu cansado pai, o episódio de Ioclos, quando Medeia convence as filhas do rei Pélias a cozerem o pai num caldeirão, com ervas mágicas, para que ele recupere a juventude. 
O pai não se ficava e a mutação do filho, dantes franzino, em continente, segundo expressão sua, trouxe o conflito às refeições familiares. O velho Pereira era de uma moral estrita que não autorizava recuo nos fundamentos que arbitram a ordem duma casa. Fora o que o que lhe resguardara o negócio da manápula socialista, garantia: ter contraposto a preceitos tão redutores, e sem vacilar, uma conduta igualmente rigorosa valera-lhe o respeito dos comissários políticos. Já Pereira suportava estoicamente as resmunguices paternas – e refocilava nas terrinas de arroz, no leitão ou nas costeletas de novilho, nos rojões e feijoadas, no leite-creme, nas trouxas-de-ovos, nos chocolates com que nunca mais deixou de abarrotar os bolsos.
Quebrou mais cedo o pai, levado por um enfarte múltiplo ao ver imagens de um tsunami em Bornéus. Balbuciou “tantos mortos sem sepultura!” e pôs-se de borco. Coube à justa no seu caixão, pois a briga com o filho provocou-lhe um descontrole hormonal de litigiosos contornos. Dir-se-ia que, no fundo, se dera ao trabalho de morrer para dar uma lição de disciplina ao filho, insinuou o Padre Oliveira no elogio final enquanto desfechava soslaios acerados sobre “O Continente” Pereira. Contudo, à imagem de Medeia, Pereira já ouvia os outros, como à pedra ou à onda do mar: estava-se nas tintas.
A tia Irina, um espeto de nariz adunco que já enterrara três maridos, mercê, asseguravam na Leitaria Primavera, pegada à Funerária, duma voracidade… (e aqui a malícia aflorava aos rostos) de flor carnívora, foi a última a não o poupar aos remoques, perguntando-lhe de chofre como é que aos vinte anos se podia carregar um corpo que afundaria um batelão.
Circunstância atenuadora: tal não foi sequer objecto de reparo de Nicolau, o irmão mais velho, que vindo do Valência, travou com ele várias conversas de homem para homem, barrando-lhe muito pragmaticamente a massa gelatinosa com untuosas instruções. Sobre a sua obesidade, não foi gasta uma sílaba. Pediu-lhe apenas que aparasse o cabelo, passou-lhe uma procuração e deixou-o no comando do negócio de família. 
Teve Pereira de mandar cortar e fazer três casacos a três quartos, negro & cinza, num alfaiate da Baixa, nas lojas já não se encontravam fatos à sua medida, e, contra o conselho do irmão, que era por um desbaste radical na sua comprida trunfa, manteve-a, passando a untá-la com gel e apanhando-a num rabo-de-cavalo pouco ortodoxo para a classe de que doravante fazia parte. Inclusive, sentindo-se autorizado pela confiança do irmão, encomendou igualmente três casacos assertoados e dois ternos de fantasia, que ornamentava com gravatas berrantes, passando a ser uma presença colorida no Urban onde, entre os matraquilhos e uma por outra linha de coca, adoptou o nome de guerra de Olivier Style. Era o hílare Olivier à noite e o sóbrio Pereira no compungimento dos escritórios da funerária.
Pode um gato gordo ser tão ágil como um gato magro? É duvidoso. Contudo, o raio do dinheiro muda o ângulo sobre o pólipo mais insípido e puxar carinhosamente pelos suspensórios de um gordo pode recair num vício que rapidamente desperta a arte da dissimulação no sorriso que se julgava cândido. E Olivier queria crer, pelo menos tanto como elas. Elas, passada a incredulidade inicial – como são que ainda ninguém lhe dissera que um rabo-de-cavalo só assenta bem numa magreza com carácter? –, superado o repúdio e a jura antecipada, começavam a tropeçar na sua persistência e na desconcertante lenga-lenga de “um cobarde que procura uma Alceste”, e, ainda que pouco lhes importasse os clássicos, não eram indiferentes ao provimento das ofertas. Cativadas pelo humor, acabavam por lhes aceitar o laço - e não prometia o nutricionista do Sheraton, White do ‘Ite, transfigurar a massapão em massa folhada?
Ao fim de meses de conjugalidade sobrevinha o arrependimento, o divertido Olivier das noitadas não compensava a maçada de aturar o Pereira dos enterros, e ele só sabia ser uma coisa ou outra, e não uma coisa e outra. Mesmo no leito, ele revelava-se um sorumbático, e, destituído da mínima sombra do humor que prometera, Pereira oscilava entre a oportunidade de emudecer como um toucinho ou de desatar a arfar em decibéis que matavam as microtonalidades, a languidez do prazer; encurralando as mulheres na recordação de experiências de outra adequação, na doce souplesse das carícias sem peso de ex-namorados.
A coisa piorava depois de grávidas. Normalmente pariam e dois meses depois desatavam a trai-lo com o contabilista, com o primo massagista do Belenenses, ou a primeira jovem viúva de olhos verdes e lábios de cereja que lhes falasse em Safo. Ele, circunspecto, cerimonioso, na missa do sétimo dia, fechava as pálpebras, sonhando brunir as orelhas no latim do padre e elas, latindo nos bastidores, alunavam.
Corolariamente, nos processos de divórcio como podiam elas portar-se senão como lobas ávidas pela conservação de privilégios adquiridos - duas linhas de coca, diárias, e outros mimos? Pereira que, no mais fundo de si temia a crueldade de Medeia, dispunha-se a ceder para calar a humilhação.
Ao cabo de três rombos patrimoniais, quando Pereira apresentou Karina a sua mãe - e esta detectou no olhar da candidata um vinco de lubricidade que sobrepujava em muito o pulmão do filho -, dona Marieta embarcou num caudal de xamaxs e lorenis que lhe precipitaram o fim. No quarto, sozinha, sentia-se torturada - num medo itimorato, absolutamente infundado - pela maldita frase de Medeia: «Ó filhos malditos de mãe odiosa, perecei com vosso pai, e a casa caia toda em ruínas.», e soluçava inconsolável: “Perecei Pereiras!”. Meses a fio. Uma noite levantou-se do capitoné em que via a telenovela queixou-se duma moinha, deu boa-noite e foi deitar-se, apagando-se no leito como a borbulha no acne adolescente. Vitória, a empregada, entrou sigilosamente no quarto, de manhã, para lhe deixar uma carta da irmã Raquel (a sua favorita, que casara com Cristo) na mesa-de-cabeceira e achou a senhora ‘bonita, repousada’; só indo certificar-se depois de em vão a chamarem três vezes para o pequeno-almoço.
Nicolau não faltou ao enterro da mãe e aproveitou para ensaboar Pereira, prevenindo-o de que lhe retiraria o comando do negócio familiar se ele não deixasse de ser um estouvado. Pereira concedeu, andava a meter o pé na argola e como sinal de assentimento cortou a trunfa rente, o que deixou Nicolau satisfeito. Mas o coração não muda à mesma velocidade da cabeça e, manejando as gravatas estampadas que lhe comprava, Karina engarrafou-o com vários nós de marinheiro. Um deles, os gémeos Tião e Tiago.
Quando dois anos depois Nicolau aterrou em Lisboa para observar, em friso, na escadaria da igreja (e porquê na igreja, meu Deus, agora metia igreja!), os quatro filhos do irmão, os caríssimos vestidos das ex., e reconhecer de imediato na esfuziante Cátia, a nova noiva, outra caça-dotes, percebeu que tinha de tomar rapidamente as rédeas do negócio ou então rogar que acontecesse em Lisboa o primeiro terramoto de grau 9.
Pereira foi salvo de não chegar da lua-de-mel para uma prateleira à parte de quaisquer circuitos decisórios na empresa por uma chamada do sócio de Nicolau, a quem fora diagnosticado Alzheimer e que ameaçava suicidar-se. Indo no socorro do sócio e amigo, Nicolau reservou para mais tarde as acções a tomar quanto ao património familiar.

Ao fim da tarde do dia em que descobriu, não seriam mais que umas 11h30, a mulher a escalar a Torre Eifel; depois de ter desabafado em tragos longos nas barracas do bairro a sua infelicidade com as mulheres e a sua impotência para as rejeitar, Pereira entrou em casa decidido a ir ao quarto dos fundos – onde se guardavam os caixões reservados para si e o irmão – coloquiar com o seu esquife sobre as linhas tortas em que a sua vida capotara, desde que experimentara fintar a sina. Se Pereira, nessa manhã, tivesse lido atentamente o artigo sobre estratégia que se estampava nas centrais da revista Visão, que folheara apressadamente ao chegar ao escritório, teria compreendido que aquilo que há anos a sua obesidade reclamava era o direito a afirmar que o mapa não é o território. Não importa, facto é que decidira enfrentar o mal de frente, Pereira queria meditar, face a face ao esquife, ou à asa-delta da alma, como se quiser, na decepção da sua vida. 
Assim que abriu a porta do quarto teve uma desagradável surpresa. Cátia dormia dentro do seu caixão aberto. O seu vestido azul claro, de decote drapeado, raiava contra o fundo vermelho da seda. Descansava aí do pleito amoroso com o titã, e a sua pele morena resplendia uma luz interior como Pereira nunca despertara nela. A seda, garantia ela, augurava bons sonhos.
Não era a primeira vez. O carinho com que a princípio ela brincava com as suas superstições degenerara nos últimos meses em escárnio, e provocações. Por várias vezes, à noite, se escapara ao seu assédio amoroso, na cama, para ir dormir ‘sossegada’ ao lugar de todos os seus terrores, e chegara ao ponto de não dispensar a estocada cruel: «Tenho mais prazer em dormir com o teu caixão do que contigo, ao menos não transpira!».
Ainda namoravam quando, num rasgo de entusiasmo, ele lhe contou a história de Alceste, o amor com que se ofereceu à Morte para trocar de lugar com o marido, o que lhe valeu a admiração dos deuses e o resgate autorizado da sua alma ao Hades, por Hércules, enquanto ela numa frívola espontaneidade lhe chamava tolo, oferecendo-se para ir dormir ao caixão. Ele ficara sentido mas ela disfarçou e deu-lhe a volta. Agora, era cada vez mais frequente ela preferir o esquife porque sabia que ele não se aproximaria de si. Estava há vários meses ciente de que este casamento teria o mesmo fim dos anteriores e agora até duvidava que o feto de três meses que ela carregava fosse seu.
Se ela soubesse que eu sei, que eu vi, não dormiria tão descansada, pensou Pereira, deplorando a sua cobardia por de manhã não ter interrompido a injúria. E se eu fechasse o caixão e a mandasse mesmo no meu lugar? Num impulso fechou o esquife. Mas o seu coração pontapeou-o, não estava na sua índole. E reabriu-o. Ela permanecia indemne, como se a inocência lhe pulsasse da carne e lhe volvesse mais branda a respiração. Cabra, Alceste ofereceu-se para a morte, tu ofereceste-te para me enganar. E mordeu a língua, ao dar-se conta de que não seria capaz de deixar de a amar.
Saiu pela porta de rompante e meteu pelo corredor, comprido. A casa estava quase esvaziada; os seus móveis e electrodomésticos haviam sido vendidos por Rosânia para pagar dívidas, com excepção dos trastes velhos que a sua cunhada autorizara que empilhasse em dois quartos, até serem trasladados para o armazém do Prior Velho, onde estava determinado que Pereira doravante viveria, num exílio forçado. Pereira era estroina mas bem formado e por isso, há três semanas atrás desabafara com o irmão ao telefone e este percebera que o estado das coisas exigia um pulso de ferro, enviando a mulher no seu lugar. Esta providenciava a venda da casa familiar e Pereira, obediente e desmoralizado, encaixava.
Cátia estava demasiado ocupada para se pôr com guerras com a cunhada e a relativa indiferença dela ao que se estava a passar é que colocou Pereira de sobreaviso.
Pereira soluçava quando dobrou o cotovelo do corredor e entrou de impulso na primeira porta à direita, atirando-se para cima da velha cama de mogno da mãe, que fedia a naftalina. A luz do dia foi baixando os véus sobre a fronha bordada e os painéis em cruz do pesado armário que Pereira entalara entre a cama e a parede, sem espaço para alguém passar de permeio; e os símbolos das cartas – ouro, copas, espadas, paus - em marfim marchetados na cabeceira da cama foram ficando baços.
Que horas seriam quando deu conta de que a casa transpirava? Não era um problema de canos, naquela parede não passavam canos. E a casa nunca tivera humidade, nem pensar, a mãe era asmática (felizmente Pereira não lhe herdara o gene) e os pais haviam migrado de morada em morada até conseguirem um domicílio que lhes garantisse a secura do grés nas veredas da Virgem.
A parede exsudava, perlada como a testa de um lutador de boxe. Levantou-se e foi verificar. Havia quatro finos sulcos de água, que desciam do tecto, e engrossavam na ponta, numa gota. Encostou o indicador à parede e a gota trepou-lhe o dedo. Encostou a língua à gota. Era mais do que água. Voltou a prová-la. Sim, a gota despertava-lhe o gosto a chá de camomila, a bebida exclusiva de Nicole, a francesa que o bisavô Jaime, combatente voluntário nas forças dos Aliados, na II Guerra, tinha trazido de Paris. Passou à gota do lado. Provou. Sabia a asfódelos. Como a sua avó, segundo ela mesma dizia, apesar dos sabonetes e perfumes com que esfregava a pele; a única lamúria que se lhe ouvia da profissão, impressão que nunca foi desmentida pelo pai. Era a sua mãe. Trémulo com a revelação, estendeu o dedo para o terceiro sulco de água. Voltou a passar com a língua pelo dedo. Não havia dúvidas, sabia a aguardente. Algo de profundamente residual do seu avô Custódio, homem de sermões e muita aguardente, encarnara naquela gota. Sentou-se na cama, sem coragem para testar a quarta gota, numa ligeira quebra de tensão.
Os mortos regressavam. O quarto estava pejado dos seus fantasmas. Estavam ali por ele, naquele momento de sofrimento, ou haviam estado sempre? Não sabia lidar com a descoberta. Que o assustava, tremendamente: os mortos voltam, afinal não partem para sempre. Estão em nosso redor; no mais insignificante recanto, em todas as casas, uma superfície perla; membrana líquida que conecta memória e actualidade.
As ideias encadeavam-se dentro dele: não há razão para fugir à morte, ou para a delegar noutrém, porque o fito do espírito é regressar, acompanhar todos os elos da cadeia, até ao molde final; compreendia agora o que insistentemente lhe balbuciava o avô Custódio, em dias de muita água de fogo: ‘rapaz, para que nasça a abóbora é preciso que a semente morra!’; e o que é uma abóbora - para além da sopa, deliciosa - senão um paiol de sementes? Pereira julgou compreender: há deperecimento mas não há desaparecimento final, e, como diz o verso de Pessoa, morrer é unicamente deixar de ser visto. Pelo que deixa de haver necessidade de alguém morrer no nosso lugar, concluiu aliviado.
Pereira, nos últimos anos, viciara-se na ideia de que o dinheiro compra tudo. Num flash, viu, há coisas que vêm por si, apesar ou para além dos aparatos. A morte vem por si, independentemente das agulhas que quisemos semear nos seus carris. O amor terá de vir por si…
Pereira suspirou e deixou-se cair para trás na cama. Sentia-se em paz, absolutamente esvaziado de ansiedades. Passou-lhe levemente pela cabeça a ideia de dormitar um pouco. Mas sentia os bolsos pesados. Despejou-os, do chaveiro, um verdadeiro trambolho, e de dois chocolates. Um deles licoroso, por abrir. Ainda os ergueu à boca mas só o cheiro enjoou-o. Abriu a mesa-de-cabeceira e enfiou-os lá para dentro, certo de que nunca mais lhes tocaria.
Deitou a cabeça, descontraidamente. Fechou os olhos. Via o florão de estuque no tecto, através das pálpebras. Percebeu então que, se os mortos voltam, ele não se importaria que Cátia fosse, não no lugar dele, mas no seu e próprio.
Levantou-se de um pulo, saiu pela porta, dobrou o cotovelo do corredor e encaminhou-se para a porta do fundo.
  


terça-feira, 28 de abril de 2015

SETE FACETAS DO TEMPO ENTRE OS CORSÁRIOS DA MACANETA




Do livro Não se emenda. a chuva, escrito para comemorar os meus cinquenta anos e lançado em 2011, numa edição reduzida e praticamente invisível, este ciclo de poemas que redigi na praia da Macaneta, meu habitual refúgio, a 40 km de Maputo


                                                                                                 para o José Capão e a Isa

1
É nítido: as ondas antes de rebentarem espreguiçam
as suas malhas de leopardo.
Segue-se um plaino onde em borbotões correm
os mantos de água para a praia.

Aí me sento, corsário aposentado, rebolando-me,
consoante a força das correntes, enquanto, sondando
sob a areia o filão das amêijoas, as mãos apagam
as linhas da vida.

Como se exaure macio, o tempo, neste ajuste 
de ombros e quadris à espuma,
esquecido de si mesmo. 
Os bivales são escassos 
(iniciada tarde a colheita),
comparados com o ventre líquido dos felinos.


2 (madrugada de 1 de Janeiro de 2010)

Já era assim quando fui cão.
E hoje cheira-me que volto a transigir em solo
desconhecido: amo, é tudo,
ainda que o decoro com que revisto a brutalidade
duma tal decisão
(muda-se o ano, muda-se a vontade),
possa anunciar excelsa a vigota do temor.

E se o tempo me volta a desenganar?
Alça a perna, urina contra a casuarina. O frescor
da manhã nas partes gagas é ciência certa.


3
«Ao fim de catorze anos de casamento, entregamo-
nos como duas crianças envergonhadas pelas suas
faltas e talvez por isso nos amemos…», leio
- como isto fala de nós, meu amor.

Descrever-te os pássaros na Macaneta?
Precisaria de ser o flautista de Hamelin,
que pelo sopro arrastou ratos,
crianças, chaminés e soldadinhos de chumbo.
Mas olha, tinhas razão, devia ser proibido adormecer
sem ter o mar por fundo.
Noutras condições parece-me sempre o amor modesto.


4
A ideia de que o tempo pudesse ser massa folhada:
uma ideia de garoto,
competia ainda o mil-folhas de domingo com o
reclamo do primeiro beijo,
sonho fatídico, onde me transmuto ainda.

Não se retalia. Pode-se até esquecê-lo, emprestar-
lhe a sinusite, deixá-lo a debulhar lágrimas
com a fotografia, à beira da catástrofe
onde um morto lacera, de olhos verdes.
Mas, incessante, sinuoso como o pulmão que
sincroniza um bando de flamingos, hás-de voltar a ele
como ao pobre nome que percutes
contra os dentes, ansiando por tertúlia.

Não se retalia, ao tempo não se retalia. Pois
quem vive de travões emprestados? Como eu,
nessa noite especial, ondulante,
em que forcei a insónia para ouvir pela rádio o
último round entre Ali e Frazier
– dois lençóis friáticos treinados para ficarem
num fiapo muito antes de lhes chegar traça –

eu, um miúdo ainda de todo alheio
aos knock-outs de Cortázar, à malsã
auto-piedade do Sísifo de Camus, às laranjas azuis
de Éluard, criança ainda de todo inepta
para deduzir que contra os relógios só o alho porro
e, sobretudo, não picar com a mesma faca amor e ciúme.

E disposto a confiar nele como na vitalidade do nariz que pinga,
e a incutir: você é quem sabe, você faz o preço!
E o tempo, sorna, de sorriso a tiracolo, a descarnar-
me as gengivas, a enrodilhar-me nas suas veias de lobo
(- a sua pata de papelão não perdia de vista
o meu mealheiro sobre o frigorífico),
enquanto Ali - grafitos indeléveis no céu
de Órion - ginga ao canto, furtando-se
ao amasso de Frazier, e resiste,
uma e outra vez, dando enlace e realce
ao delicado equilíbrio das estrelas ascendentes.


                                                       foto de paulo oliveira


5
Napoleão tinha um belo chapéu mas a sua maçã
de Adão não cabia no colarinho da paciência e no labéu
de Santa Helena esqueceu que ver é separar.

Foi o que o ensandeceu: tomar a baba do tempo
por aves de passagem.

Largo a revista de generalidades onde me inteirei
das adversas flutuações da história e vou ao quarto buscar
Os Sofistas, de W.C. Guthrie, para o debicar deitado
na rede enquanto num soslaio espreito o coreto
do mar, nas árvores.

Mas, ao lado do alpendre, nas minhas costas,
A Isa de sacho, desbasta raízes e pedras,
num canteiro de solo tumultuado, agreste,
(a construção é recente) e pergunto,
tens instrumento para que te ajude.
Eis-me de ancinho a puxar o manto de areia branca,
a brita, os inóspitos bezouros de cimento, até que
assome 15 centímetros abaixo
a terra vermelha - ver é separar.

Martelo com afinco o escopro para rebentar as
línguas de betão que o cansaço
e o desleixo dos operários
deixaram escorridas no bordo da casa,
e depois volto a puxar a areia prenhe
de pólipos rijos como cobras,
a fim de restituir à superfície a terra macia,
ávida de augúrios e sementes.

Hora e meia nessa tarefa, até os músculos
se estilhaçarem como pirex.
Tomo um merecido duche e enceto finalmente a
leitura, na rede, o mar alto a rebate nas árvores.
E descubro-me mais focado e atento ao recorte
das palavras, à irradiação ou à sua amolgada sombra.
Mais certo do que jurava Rilke: uma metáfora exige
quilómetros de caminhada, o faro
apura-se no esforço físico.

E ao ver a Isa - ver é separar – a desbastar as raízes,
uma hora depois de, derreado, me ter acostado,
sei que Protágoras mentia:
a existência dos deuses não
é suposição indemonstrável, pois afinal
quem mais lhe poderia acender nos braços luzeiros
de tal energia? Intuo: só o amanhar
da terra, penteá-la com ancinho,
esfiapa o tempo.


6
Mais meia-hora da carga valente que caiu e podia
apresentar às miúdas o general Custer.
A Luna dançou à chuva, a Jade
adormeceu no fulcro
da tempestade.
Eu, dado o adiantado da água temi que o dragão
sem freio do tempo nos mergulhasse,
a mim e à amada, nas comportas do amor para
nos cuspir depois nas suas margens
já sem o escalpe da memória.
O Capão, depois de examinar no tecto a qualidade
da construção – nem uma gota digna de um dedal –,
mais tranquilo, explica à Isa as manobras
do seu exercício de Sudoku.
Encho a fornilho do cachimbo com o tabaco
que me trouxe Sitting Bull, de tudo aliviado.



7
No meio dos raios e coriscos da hirsuta moita
que desbasta, lembra o Capitão Haddoc,
a indómita alegria com que cachimba e soluça num «hips».
Tomado pela mesma tenacidade expande o José Capão
a sua sombra nesta duna, onde desfaz nós e refrigera
uma vida de disputas; ora com a tesoura de poda,
ora traçando os caminhos da laje,
ou inquirindo se mantém ou elimina
a enorme teia de aranha que envolve em núpcias
e promessas metade da laranjeira, ora
fechando uma pálpebra por outra na rede,
enquanto o mar da Macaneta
craveja na carne das estrelas o esvoaçar das borboletas.
O que me faz suspeitar que o tempo
por vezes rende as intempéries.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

ZAMAGNA E OS RAIOS DE SEU JUCA



Tudo devia ser mais rápido na vida. Tudo. Se um feto ultrapassa o tempo ideal (os três meses) para ser extirpado por um aborto devia forçar o seu nascimento de imediato, ressurrecto dir-se-ia.
Para quê suportar o trauma de nascer apenas nove meses depois da gestação, com a sensação de que o nosso restaurante favorito fechou para obras?
Talvez por isso, numa postura simétrica, de combate, me tenha negado nove meses a falar – do quê, se eu próprio me traía à primeira oportunidade – mas à posterior concedo que afinal não foi consolo.
O problema é que sou claudicante, um verdadeiro Tônio-Toco-A-Conta-Gota, que até da hipótese do plural se cansa.
Isto para explicar que recebi um livro maravilhoso e de que quero falar há dois meses e que tenho andado para aqui mula, sem saber como lhe pegar, quando afinal é só agarrá-lo pela crina e deixar que ele nos marque o trote.
O livro é this one, autor,

SEU JUCA SEM FIO

título:

ELES ANDARÃO... EU ANDORINHA!»

O título como explica no excelente prefácio Marcantonio Costa parte do trocadilho que montava dois versos do famoso “Poeminha do Contra” de Mário Quintana, onde se lê:

«Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão...
Eu passarinho.»

Este poema conheceu a sua variação paródica em Evandro Sousa Gomes, que grafou:

«Todos aqueles que por aí vão
No caminho jogando pedrinha
Eles andarão... Eu andorinha!»

Terceto que serve de epígrafe ao livro de Seu Juca Sem Fio e que justifica o título.
Quem é afinal este simpático anónimo sem fios com nome de alcunha?

Um poeta-andarilho, eterno vagabundo que só tem de seu os vaga-lumes do caminho e que até de ser “guardador de rebanhos” abdicou, pois como explica num haiku, «TODA ESTRADA FINDA/ ANTES DO FIM, SE PERGUNTAS/ AONDE TE LEVA»..
Este poeta-andarilho é um seriíssimo companheiro de travesseiro (que não de sonhos, aí cada um tem os seus) do humorista, poeta e ilustrador Tuca Zagmana.
Tão sério que já não sei qual é a fonte e qual o encanado, entre Tuca e Juca, sendo apenas certo que ambos gostam de andar pelados, como duas torneiras em flor, cientes de que «ÁGUAS PASSADAS NÃO PERDEM O VINCO». 
Seu Juca é um trânsfuga, da natureza que ele mesmo retrata noutro haiku: «EU SOU ESSE MENDIGO/ QUE VAI PASSANDO POR MIM/ SEM PEDIR ESMOLA.»

Tuca – que toda a vida foi um polinizador de mitos e um sabotador de paisagens de licra, inventou “gente” e mil pronunciamentos impossíveis (sem saber li-o centenas de vezes na MAD brasileira), num fermento que não cessa e que hoje se pode apalpar, trincar, saborear e interpelar (já que ele é também um generoso aglutinador de afectos) no seu blogue Desinformação Selectiva (tucazamagna.blogspot.com) – resolveu aos sessentinhas (ele que como eu parece ter trintinhas) começar a publicar a sua obra literária.
Numa douda e delirante entrevista em 2012 (http://roxo violeta.blogspot.com/2011/12/os-humoristas-sao-as-pessoas-mais.html ), explicou-se o autor:

«Minha cabeça é uma verdadeira cabeça-de-porco, com mais de 30 pessoas amontoadas dentro. São elas – além do blogueiro Tuca Zamagna, do jornalista, cronista e humorista Antonio Claudio Zamagna, do humorista Tutuca, do ceramista Tuca Z. e do roterista televisivo Zamagna, o compositor e letrista Aranha, o humorista e cronista Pedro Brás, o sexólogo Dr. Eustáquio Pinça, ex-editor da revista erótica Eros, cuja equipe era formada por mais cinco pessoas, entre elas os gêmeos El Zamagna (roteirista de pornofotonovelas) e Elza Magna (astróloga responsável pelo Eróscopo – e hoje minha parceira de blog),
Há também o arquivista e etimólogo BUARQUE, Vando (autor da coluna Aquivocabuloso); a redatora de necrológios Carola de Athaúde, o cronista social Paulo Peroba Grande, que assinava a coluna Perobão, na revista Mad; o crítico musical e saxofonista de rock-melequeira Lambrecão; o fabulista portugárabe Falabu Bulafa Lafabu, autor do livro “!ALBUFAS SAFUBLA! – Fabulas Bufalas”; o canalha do bem Teophanio Lambroso, vulgo Teopha... e mais uma 14 ou 15 figuras, inclusive Anga Maz, que assinou os meus primeiros textos publicados, aos 16 anos, e há dois anos virou a minha parceira de blog Anga Mazle, deixando de ser anagrama de Zamagna para ser anagrama de Elza Magna e  El Zamagna.
Já ia me esquecendo do Caio Julius Caesar, o Cesinha, um vira-lata poeta (e não um poeta vira-lata, como eu), autor do livro “Poemas de um cão sem dono”.»

Agora, peço ao leitor que esqueça todas estas facetas referidas, este caudal de humor sôfrego e melancólico e que mata em surdina, que esqueça o ecletismo e as suspeitas que sempre provoca, e encomende este livro,
dado que é absolutamente um marco na actual poesia brasileira.
Seu Juca é o anti-brega, e tem neles fundidos o cinzelar rigoroso de Melo Neto e a veia aforística do argentino Antônio Porchia, o famoso autor de “Voces”.
Há poetas que têm cisma, poetas que têm cisco, e poetas que vêem coriscos – Seu Juca reune os três, e daí que o livro explore três veios, o haiku, o poema livre (reticentemente lírico), e os aforismos.
Deve dizer que em língua portuguesa neste momento só conheço um cultor de haicais à altura de seu Juca, Jorge Sousa Braga, pois estes são lapidares e inolvidáveis. Vamos a exemplos:

«SOMBRA

Sou de entrar em ostra
pra pedir em casamento
a sombra da pérola.

CARROÇA

Basta o carroceiro
desatrelar os cavalos
pra carroça voar.

ESTRELAS

Nada sei da noite
senão o nome de estrelas
que já se apagaram

CONSELHOS

Não ando até o mar
para admirá-lo ou me banhar,
só pra ouvir conselhos.

NÃO

Mundo, insano pasto;
passa boi, passa boiada,
só não passa a fome.

AVE!

Ave, matemática!
de uma andorinha se fazem
quantas avestruzes?

CAVALO

Eu tive um cavalo
que só pastava a contento
se montado em mim.»

Cada um inventa o Alberto Caeiro que pode, se para tal tiver dentes, uma espécie de reserva moral, a partir do qual um espírito pode corrigir a vida e soltar os seus afluentes.
E gratos devemos nós ficar, pois SEU JUCA SEM FIOS não oferece uma gordurinha, um lugar-comum, é um tratado de contenção e de (sobreleve-se o paradoxo) desprendimento.
Como diz Marcantonio «na poesia de seu Juca as palavras não enlouquecem (...), não dançam como bacantes nem deliram ou desmaiam (...) O ritmo é evidente (...) O poeta está no comando da condução, não como um pastor árcade, mas um andarilho que se observa enquanto anda, compondo um diário afectivo suas andanças em imagens».
Não há descuidos, antes uma tensão oficinal esmeradíssima como em Melo Neto,embora ao mesmo tempo no verso/texto resplenda a grande liberdade que advém da sageza e daí referir-me a Porchia, nestes artefactos poéticos que armam uma espécie de anti-poética, como Nicanor Parra a trilhou (- seu Juca repudiaria tanta biblioteca, mas como eu ainda tenho fios...).
Junte-se a este caldo o Cioran, mas desta vez no humor buñueliano que o autor aprecia e teremos o tom dos aforismos, dos quais só posso transcrever alguns dos mais curtos:

«Durante o coito, o pênis é um órgão que pertence aos dois amantes.

A palavra escrita é a palavra falada vestida de um silêncio justo e decotado.

Tenho sido religioso muitas vezes na vida. Mas só quando bebo mal. (Certa vez, durante um porre atravessado, me vi entre Deus e o Diabo – os três tentando fazer um quatro e se estabacando de cara no limbo infecto de um banheiro de boteco).

O pior cego é aquele que não lê as entrelinhas em braille.

Certas pessoas só encontram a pessoa certa quando escolhem errado.

Pensar é como montar certinho todas as peças de um quebra-cabeças. Pensar bem é montar da melhor forma possível um quebra-cabeças no qual faltam peças.

A moda, felizmente, é como a passadeira e a uva desidratada: passa.

Os olhos são capazes de fazer tudo o que a boca faz, menos ficar em silêncio.

O que eu mais quero na vida? Ficar invisível. (Por enquanto, o mais próximo disso a que cheguei foi me esconder dentro de mim).

Quatro coisas íntimas que sei slobre os bichos: 1)  a bôta bota chifres no boto com seus botões; 2) tamanduá t’amando a tamanduá, 3) se rola rolo amoroso, o tatubola desenrola a rola, 4) o reto da galinha é oval.

Se alguém te chama de animal não retruques. Que sentido tem discutir com um vegetal ou mineral?

A poesia é meu deus. O diabo são as palavras. »

São cento e trinta páginas de uma factura que nunca relaxa ou desmerece e coerente do princípio ao fim, o que mostra bem como Seu Juca Sem Fio é um heterónimo de mão cheia, nascido de um espírito dispersivo e neo-dada.
O livro encontra-se à venda na net. No próprio site do Tuca. Não deixe de comprar que o fruto da venda servirá para o Tuca Zamagna, o ortónimo, poder editar os seus “Contos de Réis”, tarefa urgentíssima.
Não falte à chamada... e senhores editores (portugueses), menos distracção, por favor.   
    




domingo, 26 de abril de 2015

KENNETH WHITE, UM POETA ANDARILHO, EM HONG-KONG


Traduções minhas de um poeta, que me fascinou desde a leitura de A Estrada Azul, e de quem fui coleccionando livros no sonho de um dia lhe traduzir poemas, até que finalmente me atrevi 


CENAS DO MUNDO FLUTUANTE
                                             para o Paulo José Miranda, que conhece este mundo

1
Fiapos de bruma, brancos e pegajosos, retocam a baía
e um velho junco acomoda-se
pesadamente ao seu caminho –
dava tudo para não perturbar esta mansidão…
mas já o dia alça consigo as gruas giratórias,
as pessoas apressam-se e tossem, os motores
e as sirenes afogam o ring-ring dos telefones
- Hong-Kong desperta para o rodopio das moedas


2
Espreite-se agora o mercado do peixe:
como cintila o sol vermelho
nos olhos bugalhudos, nas carpas, raias,
tubarões, barracudas e serpentes do mar,
enquanto se solta um fumo azulado dos paus de incenso
que pescadores exaustos até ao osso acendem
para agradecer a bondade da Rainha dos Céus
e o seu regresso sãos e salvos ao Cais dos Perfumes


3
Tilinta um vozear cantonês
sobre um amontoado de faces amarelas
(lado Hong-Kong e lado Kowloon),
o ferry-boat aberto aos ventos
atravessa o verde estreito
por entre juncos, chalupas e wallas-wallas:
jornais impressos em vermelho e negro
e expostos às lufadas do mar da China


4
Uma secretária privada
(«privada, a que ponto?», inquietou-se quando lhe deram o trabalho),
de vinte anos, bonita como um óleo (sem o brilho plástico dos posters),
com cerca de três mil dólares (HK) de remuneração ao mês
e um apartamento só dela em Happy Valley,
amante de um próspero médico local,
e que sonha vir a ser estudante no Hawaii
- ei-la, acotovelada no lufa-lufa das horas de ponta,
no ferry-boat da manhã


5
O vetusto e encardido pedinte mongol
desce do seu poleiro
nas colinas de Kowloon,
levado pelo peso do seu longo e escorrido cabelo,
e, rindo sozinho,
calca o passeio com os seus pés nus
deixando atrás de si um rastro de vazio,
uma larga onda de riso e de vazio
que reflui até à Montanha Fria


6
No refrigerado escritório de um arranha-céus
acaba de chegar a uma linha de inventário
um milhar de caixotes com abalones mexicanos
e uma tonelada de coelhos chineses
é expedida noutra – enquanto nas ruelas
reformados movem ruidosamente as peças do Mahjong
por entre um estrelejar de frituras, o fedor
dos legumes apodrecido e o fantasmático odor dos incensos


7
No seu encavalitado gabinete em Mody Street
“Patrão” Wong, aliás Eduardo (Chinês das Maurícias, passaporte inglês)
atende a sua próxima fornada de clientes
e afiambra-se a vender-lhes fatos, relógios, malas
 – «sou um topa-tudo» -
e a propor-lhes a sua famosa viagem-mistério
nos seus barcos-flores e no seu penumbroso expresso
onde se apalpa a rodos uma pequena vizinha nua
todos os cinco minutos


8
Espreguiçado à sua vontade,
coçando as costas contra um pilar do molhe, em Kowloon,
Ken Cameron, vagabundo
abre o South China Morning Post
e lê o discurso que um general inglês
proferiu num jantar do Rottary Club
- passando depois a pente-fino a página de chegadas e largadas
de navios, sonhador, pronto para uma nova aventura


9
Com dois novos scripts sob o braço:
«Os Matadores de Canton» e «Assassinato em Macau»
(sucesso comercial garantido a 100%),
Brooklin Joe, bigode mate e fato branco,
sobe a Nathan Road pelo colarinho azul da tarde
enquanto a sua amiga, nova sensação nas passarelas,
insiste em fumar o cigarro que lhe dá náuseas
(«somos gente de Hong-Kong, nada de política…»)


10
Eis Scott Hawkins, escritor
muito rodado em toda a Ásia,
sentado no seu quarto de hotel em Tsimshatsui,
uma garrafa de uísque ao alcance da mão
e um caderno novo aberto sobre a mesa –
na primeira linha lemos:
«o Rosto do vento do este»
e abaixo desta: «um romance impossível».


11
Ao cair da noite, as ruas são estriadas
pelos reclames em néon, negro
bailado de ideogramas: uma loura holandesa,
numa cave bruxuleante, expõe os seus transpirados seios
aos turistas japoneses; uma jovem filipina faz o mesmo
para marinheiros ianques empanturrados de cerveja;
enquanto um bisonho e mastodôntico homem de negócios britânico
se deixa escoltar por uma grácil, mínima e tímida jovem  de Hong-Kong


12
Um cinema em Kowloon:
no átrio, laranjas descascadas às carradas,
castanhas que fumegam ao ritmo do abanador;
um chiqueiro de miúdos, asas e pés de frango –
na imensa sala
o vizinho fuma como um danado e cospe no chão
enquanto os ossos se quebram e o sangue jorra
e as heroínas gemem no écran gigante



13
No seu apartamento, num décimo andar
dos arrabaldes -
esteiras atapetam o chão, à japonesa,
mas num canto vê-se um pi-pa chinês -
Christopher Cheung
(«não sou um artista, eu sou um ser humano»)
serve-se de um copo de maotai
e sonha com Kyoto


14
No bar, perto das duas horas da manhã, hora de fecho:
Oscar Eberfeld, 46 anos, celibatário,
gala sem esperanças
a baixa empregada de saia fendida
ou segue às vezes uma mulher no passeio
colando os olhos à linha dos slips sob as calças,
depois regressa ao seu quarto, inconsolável
com o seu magazine ilustrado


15
Lá em cima em Aberdeen
um rato lambareiro esgueira-se para o buraco
sob as pranchas de um restaurante do cais
os últimos jogadores bocejam e cospem,
num relance aos rebocadores que reentram no porto, silentes,
enquanto dois juncos maciços, a popa alta,
lavram as águas sombrias da noite
farejando a rota dos antigos lugares de pesca.