segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O FECHO DO BOMBARDIER

pobre Prometeu




A poesia pode ser política e ser boa? Julgo que sim. Para além do Brecht e do Heiner Muller, dou o Enzensberger como bom exemplo. Ou o Dalton Roque, um salvadorenho que em 1975 foi liquidado numa triste purga entre revolucionários. Ou os inexcedível Attila József, um húngaro, e Yannis Ritsos, um grego. Ou em Espanha o Celaya e o Jorge Riechmann, por exemplo. Como em todos os “géneros”, há é sobretudo gente mais preguiçosa e condescendente do que outra.
Escrevi alguns poemas que se enquadram nessa linhagem. Aqui deixo dois ciclos: o inédito «O Fecho do Bombardier», inspirado no fecho da fábrica com o mesmo nome (que fabricava componentes para comboios e cujo fecho atirou para o desemprego milhares de trabalhadores), e que fazia parte do espectáculo «Dona Inês de Portugal foi ao Cabeleireiro», que nunca consegui pôr em cena, e outro que editei no livro «Carta de Ventos e Naufrágios», motivado pela entrada de Portugal no Euro.


 O FECHO DO BOMBARDIER

1                    (didascália)
A comprida língua do cão espaneja
a fonte santa. Num incessante
regateio, dobram sinos,
transbordam ribeiras, gorjeios...

na boca desfazem-se areias.
Recosto dominical, atenta na tv
à matança das focas. De paulada
em paulada se dá folga à estatística.

Em golfos rubros. Num frémito,
aperta a cabeça do terrier
para que não veja a morte

catódica, enquanto
na sua Ponta de Ouro
pipilam as vogais da carne.


2

Pára. O primeiro-ministro debita.
Tem o raciocínio entaramelado
pela lembrança de ter sido corvo,
e capacito-me da crueldade do bem.
De miúda, o ensejo de conhecer os comboios
por dentro, de subsistir no que se evita
quando a locomotiva talha
as trevas na charneca e a esperança
infecta um olho à criança atada
ao cepo da pobreza, ao aviltamento
da mãe que se vende aos espanhóis
para comprar a fiado. Esta gente,
pelas mil abcissas do trovão,
quer impor imposto ao grito.


3

Tinha atirado com a toalha ao chão,
a ulcerada chapa de ferro
que jazia junto ao poço. E
aos seus desapontados buracos
acudia o verde, tufos de ervas
feias e raquíticas. E assim intuí:
“os comboios não são eternos.”
O que lhes dá um hálito humano,
a fanada loquacidade do galo
capão.  Poucos anos depois
li no jornal que havia vagas
no Bombardier e pus a mãe
no asilo. Há escolha entre
o que amamos e quem amamos?


4

Um noivo na aldeia, ria a bandeiras
despregadas c’o colega de trabalho.
Foi o que me tramou – os santos,
a pílula. Dez anos a montar janelas
em chapas que serão velozes.
Também eu fui um bebé
recoberto d’ ouro, estúpida papoila
que as galochas de um cauteleiro
pisaram. Será invisível o ópio
que nos aveluda as veias? O sinistro
perseguia-me, comprei um cão.
Por cicatrizes penso, assopradas
no zinco, vidro e ar condicionado.
O maquinista devia ser ministro.


5

Mensalmente, envernizam-me a cólera
com o subsídio do desemprego.
Cheira a mijo prensado, a neura, há
tanto que não mudo a roupa da cama.
Minguo, dois maços por dia p’ra
três salchichas e um ovo, é fado
com desrima no pulmão, não ganha
pr’á vidinha nem se compromete.
Revejo imagens de minha mãe
a entrar em pranto nos penhores,
ou a jogar ao prego c’ os espanhóis.
Que emoção quando feríamos
um dedo e o calor do sangue
devolvia uma vida pujante.


6

Dezoito meses d’ ecos à procura
de autor. De uma voz coriácea
e fidedigna ao espelho;
de um amo... mesmo desprovido
de beleza, de quem se possa comentar
os filhos ou como esquece
o panamá no café. Dezoito
meses pelados por um governo implume.
Desabrochará, o primeiro dia após
o subsídio, numa queimadura de 1º
grau que já se move, sorridente.
Peludo, como as partes, será o fogo
e fora de si, extasiados, os orifícios
do meu corpo planarão sem brevet.


7

A vantagem dum cão é que não tem
fachada, promissórias românticas.
Nem a morte, cravado o gume
até ao cabo, lhe revela dissimetrias.
Pude então fazê-lo sem a custódia
duma lágrima. A pele, o desosso.
Comovi-me por afinal não ter
mais carne que um coelho – moída
só dava para almôndegas. Parecia
que voltava à cantina do Bombardier.
Convidei dois antigos colegas.
E vinho à discrição. Adoraram.
Foi uma risada quando sugeri
que comíamos os tomates do ministro.



DO CORPO COMO MOEDA ÚNICA

a)

Sobrava-me tanto de corpo que perdi
em trocos e arrabaldes o esplendor

da solidão. Hoje sustenta-me este magro
pecúlio do silêncio a expulsar os dentes,

a moeda única do riso alheio, es-
quecido de que uma só cicatriz

é dado seguir às criaturas, de que
a própria libra tem reveses. Es-

braseiam agora os ossos sob o aluvião,
vêm como ouriços acenar à boca

E estou mais maduro mais rombo.



b)

O Euro? Óbulo ainda verde
no ramo que desaperra os melros.

O Euro, unidade de transis-
torização do pólen, onerou

a confiança no escudo e situou
a terraplanagem: «Coelho

bravo do mato? Coalho no prato!»
Igual ao Euro nem Eros, a erva

em celibato na boca das urnas.
Stress, stress, o Euro enluva

a treva e mastiga holdings
nações trombas de água.


c)

Hoje reconheço no Euro
o grande agrimensor. Decadência

da literatura francesa, fraqueza
da divisa americana? Matéria reservada

aos espíritas. Por mim, tenho
um armário cheio de ossos a dividir -

-me o quarto: de um lado brame
o mar enquanto o outro escuta.

Mas do andar de cima vem e de-
calca-se na insónia a Valquiria

travestizada - a com Tomáz sintonia
da Marcelo & Gutierrez, Limitada:

riso alvar de um país que toma a hérnia
por subsídio. O  Euro não é bem

O Mal: sim a térmite, o eucalipto.


d)

Não interessa ao Euro. Que um manto
de penas amortalhe a garoupa-de-pedra,

não interessa à finança. A inutilidade
das metáforas corrói as estatísticas, o zelo

com que homens extremamente fiáveis
renunciam aos domingos a férias

aos altos índices de trufas no sangue.
Apesar do lucro com que a morte mantém

estáveis as características do subsolo.


 e)

Não reconhecer num cortejo de moscas
os adornos da luxúria e cair sobre

o mundo a cor do sono, o arraiar
dos escudos: eis a morte, um pé

extraviado no sapato de outro.
Deito-me na relva, os pulmões,

coados pelo nevoeiro, cambam.
Há coisas sei cosas choses

things que transcendem o câmbio
nominal: um abraço impossível

de perdoar, a bebedeira que ilha
as despedidas, a amêndoa amarga.

Mas deitado sobre o mais lacunar
dos nevoeiros, com o Marco a especular

Março acima, no “isque”, nas salsichas
na ira de Gunter Grass e com a devoluta

cabeça a noventa por cento de humidade
vou lá eu adivinhar o produto interno bruto


f)

Não é coisa que se recomende. Algo
no meu rasto alimenta-se do débito

dos amigos e do abafo das insónias.
Vai esconder-se no lintel das portas

e acorda quando eu passo. Piora
em noites de uma emoção citrina

quando a solidão se deita gafosa
com o fôlego de uma concertina

que mãos alheias desacreditaram,
trocando nervos por miúdos. E

será possível ensinar a um bávaro
que a idade se sacia no derrame

embora o Euro reprove o sexo
com turcos centauros e talheres?

E não é bonito pendurar um homem
dessangrado no gancho dos versos.


g)

Oito anos suspenso pela indolor
constância do atrito, rendido

à mágoa anónima de uma direita
baixa. Oito anos e muito abono

às trompas uterinas e mais janelas
friáveis de permeio. Os versos vinham

rebentar aos pés e voltavam ao mar,
indivisos. Oito anos com um armário

de ossos a dividir-me o quarto. Nada
pode ser mais simples do que esta arte

mecânica de morrer sem o repouso
de um chamamento, com o crédito

(ainda o Euro não roía até à alma)
muito abaixo das lamejinhas.


 h)

E tudo ainda me revolve: este céu
fiel ao afã do tira-olhos, os valores

da Bolsa qu' estampam na pele
a insidiosa paz dos herbários,

o amor de costas para a teleobjectiva,
o esforço do anão a medir caixões.

Ainda tudo me revolve: a mesma
privação o cerco tarde ou nunca

do que cala, os bolsos fundos onde
as mãos desabafam refractadas.

Ao dólar -  esse cão de três patas
que abocanhou as moscas russas

e que fermenta a massa dos síndicos
e dos ministros que nunca se sentam

de costas para uma porta - sorve-lo
agora um caixão Made in Japan.

Só o amor lembrado (distante como
os bicos de uma tesoura aberta),

as afasias, o ciúme - câmbios
que têm no dever incumprido

resíduo inevitável - desafogam o lucro.


i)

A alba traz consigo deuses novos
e aposentações. Se a ressaca da noite

fez sobrar a cabeça e o corpo juntou
outro nome à livre ventilação dos nervos

deixa-te a solidão o atraso e novas
prestações. Aí o melhor é destrançar

os pulsos, privá-los. Que sémen
esquírolas e flashes comem

à mesa da usura. Cresça o futuro entre
ienes e euros: comem-te as carnes

e deixam-te as sobras. Sentemo-nos pois
na perigosa berma do saké, no sulco

fundo onde uma cabeça descalcifica.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BEAUTIFUL PEOPLE

359*

Não faço a menor ideia porque é que esta belíssima foto de Alice WR me inspirou o pequeno conto que corre em baixo e que escrevi em Março de 2014, em Nacala, quando filmava com o cineasta Fábio Ribeiro, a quem dediquei a narrativa, que daria um filme durinho:


«Tomé estava longe de ter planeado entrar na cabina do chapa e de zarpar com a viatura quando a viu estacionar à porta da barraca Trinitá e o motorista a esgueirar-se - o sequestro de uma mija arrepanhava-lhe a fronha - para as traseiras. O apagão que logo a seguir detonou na rua é que lhe ondulou na cabeça e aí mais nada fez senão obedecer ao impulso.
Entrou na cabina, confirmou que a chave estava na ignição, e rodou-a. Suavemente, como faca na manteiga, fez deslizar a carrinha por entre os volumes enegrecidos (houve tempo para experimentar os óculos raban que se encontravam no tablier), e só no fim da rua acelerou. Estava no papo.
Não havia mais que quatro ou cinco passageiros mergulhados no bréu, mansas criaturas amodorradas pelo bréu, e ninguém dera pela troca do motorista. Deixou-se seguir sem acender as luzes interiores, sem o tinir duma sílaba de protesto - gado bom de ordenhar.
A música que o leitor de dvds emitia era estranha, uma toada electrónica que lhe parecia velha como o mundo. Ouvia-a e vinha-lhe à cabeça o refrão: há quantos anos deixei de usar ganga? Não sabia se achar mais bizarro o gosto daquele motorista se o modo como as frases lhe despontavam no cérebro, cometas chegados de nenhures para um destino inadivinhável. Há quantos anos deixara de usar ganga? Que tinha uma coisa a ver com a outra? Deixou a música tocar, a ver onde aquilo ia.
Conhecia a rota como a palma da mão e levou a viatura sem custo até ao seu término. Aí encheu o carro de people que se acotovelava como botões que desesperassem por regressar a casa. Aproveitou para descobrir que música era aquela. Neu! Hallogallo. Era quase gala-gala, mas não, não conhecia. Voltou a colocar o disco. Algas com ferrugem num mar electrónico - vira uma vez na Costa do Sol. Com o carro já cheio, só aí se apercebeu que o chapa andava sem cobrador - melhor, cobrou ele logo à cabeça.
Era vinte e duas horas e o apagão alastrara a sua tinta de polvo por toda a cidade.
Ladeava o muro da lixeira do Zimpeto quando puxou da pistola com silenciador que havia comprado ao china e, sem se virar, atirou ao acaso por detrás do pescoço, visando duas vezes à esquerda e três à direita. O silenciador funcionava, não fazia mais barulho que um peido de formiga. O escuro, a surpresa, a sua rapidez ajudaram.
O alarido só rebentou quando numa guinada parou o chapa à beira do muro e, gozando o prato, acendeu as luzes virando-se para trás, de pistola em riste. Os passageiros olhavam estarrecidos as vítimas de cabeça pendida. Atingira em cheio um olho, um coração, uma testa, um cotovelo que guinchava e um pescoço que gorgolejava. Uma mulher olhou o sangue na sua mão e gritou, pela última vez na sua vida. Foi remédio santo para os demais. Disse-lhes:
- Passem-me tudo o que têm nos bolsos.
Depositaram tudo no lugar vazio ao seu lado. Moedas, notas, telemóveis, porta-chaves. Até perservativos. Encheu os bolsos. Depois articulou, pausadamente:
- Vamos sair, calmamente, e pôr os mortos onde devem estar...
Não se apercebia de como aos ouvidos dos seus acagaçados passageiros a sua voz soava mais metálica que aquela música que, esgravatando o miolo do escuro, pastoreava estrelas. Desciam do chapa atrasando o passo, mais enfiados que esterco no rabo do cabrito. Veio-lhe ao nariz sinais de que um gordo se borrara, literalmente. Atrás dele desceu um madala (1) com umas calças de ganga. Há quantos anos deixara de usar ganga? Donde raio lhe chegava aquilo? Desligou a música. Alinhou-os contra o muro. Aproveitando o estupor em que estavam, na rapidez que lhe dera o treino de comandos, mudou o carregador da arma. Contou-os. eram treze. Abateu o gordo. Explicou:
- Não gosto do treze e este já fedia...
Uma mulher soluçou. Baixinho, o que lhe valeu. Apesar do escuro, ouvia as grossas bátegas de calafrio entrechocando-se como seixos na testa dos homens. Ao redor, os grilos faziam de segundos violinos. Vivalma. Noite de trevas, muito ao longe acenava o farol dum carro, mais solitário que o lenço de mulher esquecida. O gordo gemia. Um balázio na cabeça serenou-o. Tomé suspirou, entediado, e observou:
- Escarumba é assim mesmo, vive da bacela (2) do seu medo. Vamos ao que interessa. Quatro a quatro, peguem nos corpos e atirem-nos por cima do muro. Sempre que falharem abato um dos quatro...
Os homens superam-se. Tomé viu como um a um os cadávares foram balanceados à justa. Impulsão feita à medida. O quarto corpo elevou-se um pouco mais, deu uma reviravolta sobre si e pairou um momento no ar antes do ombro ir embater no topo do muro fazendo-o rodar para o outro lado. Borbulhou o alívio que tem um pneu furado. Não ficaria mal aqui a ratinice dum corvo, se um corvo fosse capaz de se interrogar, há quantos anos deixei eu de usar ganga. Porém, Tomé congelara a música dos alemães Neu!
Ao baque do último corpo no outro lado do muro, Tomé gabou:
- Somos melhores que os mambas(3)... os moçambicanos só precisam de uma motivação... - e atirou para o ar - Alguém guia?
Um rapaz novo, hesitante, receoso, levantou a mão. Tomé - deu-lhe um súbito cansaço - deixou cair a arma, olhou para ele e sugeriu, meigamente:
- Leva-os daqui... - sorriu, antegozando a ideia - E para os jornais digam que foi um comando da Renamo...
Num ápice, viu-os desaparecer. Foram no encalço de um velho Mercedes que passou, tossicando.
Tudo tinha corrido pelo melhor. O apagão, o avançado da hora, a pouca afluência de carros, não ter havido um passageiro que se julgasse com estofo de herói... até a piada final lhe saíra a primor. Além disso, Tomé que, como o seu xará bíblico, gostava de ver para crer, era obrigado a reconhecer que os chineses, afinal, não têm à venda só a fancaria das lojas de trezentos, tinham do bom.
Encaminhou-se para casa, vivia ali perto. A mulher esperava-o. No dia seguinte podia comprar-lhe um micro-ondas, tão prático para durante a noite se aquecer o biberão do bebé. E os óculos raban ficavam-lhe a matar.»

(1) um homem já maduro
(2) um pequeno brinde numa compra informal, compra-se seis maçãs e a vendedora dá uma sétima, por exemplo
(3) o nome que se dá à equipa de futebol moçambicano, que na semana anterior à escrita do conto havia desiludido mais uma vez num confronto internacional 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

UI, POMPEIA! NOVAS DE OZO


Escreveu-me Ozo. Está em Katmandu. Enviou-me os poemas que edito em baixo. Em cima o postal que há uns meses me mandou de Pompeia.


                                                                           para o António Claudio Zamagna


1

Mais honrados os dias
em que o amor
nos levava à cicuta.
Agora já nem a adaga do sémen
mata, 
          Oh Lord,
nem o cavalo excitado
      escoceia,
                   até se julgar na Escócia,
o clítoris renitente.


2

Não confies no seio
que se entregar
                     solitário.
                     É avarenta
a sensibilidade em oferenda
que não dê como penhor
a própria sombra.


3

Julgas tu
que a batota
te aumenta o valor
             no penico?


4

Se escrevia: OVO,
ou se lia a palavra,
via logo dois seios e um decote,
e nem ler a Bíblia
lhe emendava a erecção.

Aprendeu a meditar
esvaziando os vês
ou trocando-os pelos bês,
até para evitar o colesterol.



5

Tinha mais pregas
       no olho do cu
              que serrilhas tem um selo
        pra Katmandu –
E lâminas lhe nasciam
do olhar
de lambisgóia.
  
Mas nunca o seu transe
me caiu no goto,
              nem, sendo Helena,
           alguma vez se descaiu
com o preço duma passagem
para Tróia.

Por isso quando aparecia
eu ocupava-me com Las Moradas
de Santa Teresa de Jésus.



6

Tocava ferrinhos na filarmónica.
Eu mostrei-lhe o Contos
da Loucura Normal,
                   com a Ornella Mutti
nua à janela
e depois
          hic et nunc
                    o veludo do meu ferrinho
vibrou no seu triângulo
a pé-coxinho.



7

Não capriches tanto.
Tanta pimenta e colorau
tira a pica
          ao mais pintado.
A rigor, basta a nu,
              talvez uma pitada de louro
e alho
            mas sem fritar demasiado
os grelos.
A cultura, ah sim, quer-se cozida
mas quanto mais profissional
o pau
            mais cru se solicita.


8

A inveja que lhe tinha,
dava o cu e pronto.
Não havia dedais entre ele
e os dedos.

Ganhar a vida honradamente
é um longo processo de demolição,
como sabia Fitzgerald
que foi cornudo
cem vezes
e sem aspas.

Ah, foder com os dentes do siso
sem nos anilhar
a epifania do amor:
dar a piça ou dar o cu
com a prontidão
de quem não conhece
relógio de ponto,

eis a filosofia
que me apraz
ensinar ao esterco
dos meus alunos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O QUE SOBROU AOS ANJOS VINGADORES


Tinha dezanove anos. Quem editou e fez a capa e arranjo grafico foi o Al Berto. Em 2005 um editor pediu/me que reunisse toda a poesia que havia escrito e entao fiz esta manobra de salvacao ao livrinho, reduzindo o poema a um terco, mas ele ficou alarmado com o meu prefacio que se impugnava contra a melancolia (que eu considerava um verdadeiro pecado original) e como se considerava um arauto da dita, nao acertamos as agulhas (escrevo isto num teclado sem acentos). Felizmente, nada aconteceu, teria sido prematuro. Hoje, num disco antigo, achei o texto. Fica no blogue, de onde nao saira para livro, pois esta bem assim, reduzido ao gabinete das curiosidades.


SETE SONHOS DE JONAS
EM NINÍVE
Retroversão de “Obliqua visão num gomo de laranja...”

1979/2005



A BORBOLETA MARSUPIAL

No chão, comporta que se esqueceram de fechar:
a crisálida. Nela virá recolher-se o bicho-de-conta,
antes que os tecidos se dissolvam na chuva,
nos açoites com que o vento abre buracos no tempo.
Progride, a borboleta. Titubeia, mas devora
a sua primeira cápsula de ar. Na bolsa
abdominal transporta a harpa – só auras
a poderão tanger. Ao lusco-fusco,
estas mansas criaturas (viandante e paisagem:
garganta e sede na mesma boca) sossegam
as fogueiras, ou, mudadas em plantas fesceninas,
atraem a morte, desarmarmando-a num transe
aquoso. E mesmo depois de exauridas, de en-
trançadas no húmus, as suas leves antenas titilam
como as flautas que compõem a sombra de Hamelin.




FÁBULA DAS LARANJAS ANÃS

Laranjas anãs, tocadas pelas chamas,
acotovelam-se numa toalha de xadrez.
A mulher, envolta num xaile de jasmins,
e varada pelo mais misterioso impulso
palpa na minha carne, com os polegares,
o lugar da profecia. Da janela avista-se
um açude que as trutas sobrevoam, abrindo
a boca, como as palavras que buscam
o seu tiro de precisão. Chegámos
crianças, trazíamos nos ouvidos
a cançoneta dos choupos e o gorgolejo
das abelhas dentro da cana. Nada sabíamos
de sinais, de clivagens, tudo era adiante:
o passado assemelhava-se à areia soprada
numa mesa de vidro. Entusiasmados
ainda pela obscura e infatigável fantasia
que malhando embora com a cabeça nas poldras
torna o amor conciliável com os sentidos
triunfais. Nada sei do que vai tricotando
as sensações aos esporos mas, no interior
do seu xaile, suspeito de uma ausência
que azougada a possui. A mulher pede:
fala-me da água que perdeu a tua pele,
desde que nasceste até que a lua secou
no seu prumo. Fito-a e pressinto
que o futuro é amiúde a estratégia doce
com que adiamos o medo, enquanto,
interior como um rio que arboresce
e ascende nos ramos até ao cimo
da copa, o espírito dela
me trespassa depositando no sangue
um anjo de sal, um sedimento louco
sobre o qual nunca terei domínio.
Acordo e permaneço em vigília,
no interior das laranjas.


AMPLIAÇÃO DE UM PORO

A Sombra puxa-me para si. Tem a decisão dos limos
em casco novo e desempena-me o  brilho nos olhos,
o inúmero. Pode o fascínio ser mútuo? O mar afunda
navios para se distrair com os sinos da popa. Diz-me:

«O corpo é a empena do espírito, não adivinha
o claustro interior, as três naves, os arcos ogivados,
a abóbada, o lampejo dos castiçais, o desbordado anjo
do altar - surdo ao que irriga de entusiasmo a luz».

Cala-se e desperto num vitral, no acto de libar.
Alumiado, ofereço à terra a beberagem verde, o hálito
dos dragões, o doce castigo com que a terra dessedenta
os defuntos, plantando-lhes nos olhos a coroação do mundo.

Que luz é esta em que pernoito? Que luz me aniquila,
extensa e me chapinha nos ossos, de alegria.
Remiro os contornos da Sombra até ao cabo e de nítidos
o sangue sai-me às golfadas, infunde-se no ar, incorruptível.

Envolta num xaile de jasmins, como a golpada de ar
à beira do penhasco ou a planície que demora no talhe
de um boi, a Sombra encharca-me de estrelas. Fecho
as pálpebras, extasiado: sou um ocelo no flagelo de Deus.


NÃO TER TEMPO PARA TER PRESSA

A presença, amiúde significa: apenas ruínas.
E eu moribundo, com o sopor do granito a debater-se
contra a velocíssima agitação da pleura.

Só acontece um corpo onde os lugares se dão a mão?
A paixão irrompia das sombras dos salgueiros
ou de entre remordidos tapumes de madeira e cal.
O silêncio dos astros era o acudimento dos poros.

Ela toca-me e é um manancial, mas que tributo
oferecer quando se é já um eco? E qual a absolvição
de quem, contido, alucinou no útero transmutor?
Envolta num xaile de jasmim, ela ata os desígnios.

Uma panorâmica de seus braços queimaria
todo o oxigénio e, contudo, é no seu látego
que os meus vagos braços se refazem:
em pedra ou luva. Assim me tatua a insónia

no sacro diadema de suas coxas, ave
que não avista costa e não tem rumo
mas gosta do balanço, do balaço do mar.


A LUZ: A SUA MATÉRIA IGNOTA

Aguentaria o cupido com o peso de tantas setas
se o amor insistisse no sulco da palavra?
Antes o perfume violento que exorbita,
o fogo que cauteriza o fogo, leve como
o oxigénio que oxida as jugulares.
A despedida deve ser breve, um «até logo
vou experimentar a velocidade
que abre as nuvens ao débito do azul,
habitar o parêntesis ». Falamos
de algo que estanca o tempo, da seiva
que sobe na haste e empurra
o tecto ao céu, abrindo uma corola
como quem fecha à chave um mistério.
Eu avanço lenta e segura com um xaile
de sacerdotisa. As laranjas ardem, anãs,
 numa toalha aos quadrados. Na mão
 levo um punhal  -  vibra, do punho ao extremo
acerado a luz canta a sua matéria ignota.



OS SÍTIOS MUDAM

Não perguntes quem chora nas tábuas empenadas,
num dia de borrasca, ervas e palha açoitadas pelo granizo,
num dia em que os cipestres lacrimejam os dedos
que apontam o cemitério de cinzas. Não custa morrer,
basta sonhar o avesso, escutar as estátuas
latejantes, dar crédito às narrativas angelicais.
A memória é um império que pouco fraqueja, repara:
na pedra, corroída pelo sol, que acena à espuma marítima
breve se aninharão as algas. Num plano intermédio,
alguém comerá sem remorsos enquanto à sua frente
se joga a roleta russa. Sorrir, tornar-se massa de pão,
ante o rolar indócil do tambor: o único indulto.
Outros dançam à volta de um oráculo, ou bebem.
Há quem leia, e coma azeitonas, e quem escreva
para confundir vida e literatura e sondar, na lenta travessia
dos meandros, um domínio para a inocência. Cidade
de becos onde ao fundo uma cartola espera pelo seu mágico
pois tudo desde o princípio retorna, só o princípio
não acusa o fim. Talvez a loucura agite o nervo,
seja a dentada que rechaçe a nostalgia, abrindo as portas
à falésia que nos separa do etéreo. Mas a queda tem de ser risonha,
nimbada de uma ironia doce, pois este animal que observa detalhadamente
a abóbada uterina crê na Sombra exterior que o chama.
Os sítios mudam: os passos perecerão os mesmos?




COMO O CAVALO QUE CORRE

Escrever, refrigerando a mais ígnea
das desordens, é o mal menor, o murmúrio
quase inaudível do naufrágio
num cais enevoado. Como o cavalo

que sorve no curso da corrida
a laranja e a toalha de xadrez
que o incandesciam, a palavra
talha o vento, escruta o roçagar

do xaile de jasmins na pele
do amor. Os melros povoarão
a ruína com janela para o rio
de setecentas trutas, e trocarão

trinados sobre a partilha e a dissolução
Aí onde um efebo adormeceu, embalado
nos vapores da terra, aguardando
por dilúvio ou que a harpia

que tece a neblina matinal
rompa os véus que o cobrem,
expondo-lhe o sexo indefinido e frágil

como o trajecto do pólen na angra enevoada.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O IMPLANTE DE PÉLVIS E AS CRIANÇAS-BOMBA

oleiras, silva dunduro

Certas vezes, África faz-me lembrar a anedota contada por Marie Darrieussecq numa das suas novelas: um marinheiro pergunta ao capitão se uma coisa está perdida quando se sabe onde está; claro que não, diz o capitão; então o seu cachimbo não está perdido, está no fundo do mar.
África existe algures ao fundo do mar de imagens que a desapropriam de uma comoção inaugural. É o que faz o seu fascínio e o seu drama: ninguém acredita que ainda existe. Mesmo os autóctones tendem a duvidar. E percebe-se porquê: são-crianças-soldado, crianças-bomba a quem roubaram os sonhos e que só podem duvidar do chão que pisam.



Uma das duas avós que me crivaram a infância de histórias – uma desbragada de uma fantasia lapidarmente histérica e outra prenhe de superstições –, impaciente por eu, em vez de engolir a sopa de letras, me entusiasmar a contar um espectáculo de sombras chinesas que fora à escola, interrompeu-me, seca: «se não olhares bem para as letras do prato e se aí não vires centenas de sombras chinesas, eu faço-te um implante de pélvis!» (queria dizer «pele» - tinha lido no Notícias desse dia sobre um operação plástica feita a um bombeiro e estava realmente impressionada com as possibilidades da cirurgia plástica – mas a impropriedade que a caracterizava soprou-lhe a variante). Deslize que faço meu!
De implantes de pélvis – enxerto platónico para um país de enxovia – é do que andamos precisados.



O meu primeiro texto diarístico escrito em Maputo,10 de Janeiro 2005
Eis-me, encafuado com mais trinta, no curto cubículo do secretariado dos armazéns do aeroporto, onde tento levantar a minha bagagem sem passageiro.
Há meia hora que pedincho uma palavra, que algum daqueles dez funcionários que acomodam os quadris basálticos nas suas cadeiras redondas profira uma frase. Cansado de esbarrar num calado tão profundo, ouso perguntar:
Há algum problema, para não sermos informados de nada?
Ela nem olhou para mim. Uma funcionária macambúzia com, adivinha-se no seu acentuado estrabismo, uma espessa resistência ao mundo. A sua resposta, imponderável, ribombou no ar:
Se o senhor fizer perguntas, eu não consigo trabalhar…,
Esboço um sorriso, enquanto o largo balcão de jambire, sob pressão dos de trás, se encastoa no meu esterno.
De facto, não compreendo nada do que ela apelida de trabalho. Neste aquário (4 por 7 metros) aboletado, dispõem-se uma dezena de secretárias do tempo colonial, em cujos tampos se amontoam maços de papéis, provectas máquinas de escrever, furadores, agrafos, e braços que se movem ao ralenti; vinte braços transpirados que manuseiam, na celeridade comum às algas, os novos processos. Cada funcionário conta, uma a uma, as folhas de cada processo (quando se engana, torna à folha de rosto, o que é frequente), e depois carimba-o, página a página, após o que – ah, a arte do devagar! - o passa a outro, que repete a mesma operação. Cumprido o circuito tortuoso, vegetal, por todos eles, o chefe de secção acolhe os processos com um pigarro, e começa a assiná-los.
Alto, que a esferográfica não escreve! Fricciona-a nas palmas da mão, para que o seu bico fique quente, e sopra-lhe depois na ponta (respiração boca a boca?), para afastar as impurezas, antes de tentar de novo. A lapiseira mostra-se mais seca que Sara, a mulher de Abraão - um fanico pegado. O chefe, num gesto teatral, deixa-a então cair, num baque surdo, sem remorso, no cesto de papéis que lhe coroa os pés. Pede uma lapiseira emprestada ao seu subordinado mais próximo, põe a postura condizente, e a sua assinatura começa finalmente a sua ronda. É um coral azul que suspende as respirações no aquário e flui como maná.
Tudo em silêncio. Bom, algo borbulha, em shangana ou ronga.
Por fim, esmolados quarenta minutos em profusa paciência, o processo é depositado na prancheta, junto à porta do gabinete. Há que rezar para estar incluído nessa primeira vaga de processos. Mas o que é isso para quem perguntou ao catecista se a dentadura de Deus tinha dentes de ouro? Eis-nos no passo seguinte: a caminho da tesouraria para pagar o que aí foi averbado.
Seguem-se vinte minutos de espera, agora, pelo menos, sentado, na sala da alfândega. Reconheço a minha caixa ao fundo, devido ao desenho colorido com que a minha sobrinha embelezou uma das faces. A minha mão segura firme o recibo que identifica a bagagem. Com raiva, empapa o papel. Os olhos ainda vidrados pelos cinco minutos de discussão no guichet da tesouraria. «Vá pedir o troco ao Estado!», sugeriu o f. de p., num sorriso triunfante, perante os meus protestos. Espero agora que um funcionário traga o meu processo, munido do carimbo do tesoureiro, aos serviços de fiscalização da alfândega, onde o mesmo voltará a ser manuseado de trás para a frente por mais quatro funcionários, antes de anteporem o seu carimbo no recibo.
Ocorre-me em jeito de eureka, a burocracia é uma forma de empregar as pessoas: investi-las de carimbo. É o Graal da acção social.
Quando me sentei, um dos quatro carimbadores profissionais desta secção dormia a sono solto sobre o tampo da secretária. Ressonava. Se calhar também dorme, o funcionário que faz a ligação entre a tesouraria e a fiscalização. Escrutino uns cartazes contra a corrupção, colados na vitrina do gabinete que acomoda os polícias das alfândegas. Suspiro, eu pagaria de boa vontade por debaixo da secretária, para me despachar num ápice. Passa a cinquenta minutos, a espera.
Certificada a carga (há que despertar o carimbo dorminhoco, que, apesar da sonolência, foi o mais lesto), os humores da mulher-polícia da alfândega não estão pelos ajustes. Rudemente (é até bonita mas a sua descorçoada má educação deita tudo a perder) obriga-me a abrir a caixa:
O senhor só pode mentir, não é possível que uma caixa de 20 quilos só contenha livros!
A sua cruzada terá na mira um bacalhau, que possa confiscar?
Não escondeu o seu desagrado ao verificar que a caixa só continha livros.   
Quase duas horas depois de ter iniciado o meu baptismo de fogo, alço a caixa com os malditos livros para a carrinha da minha cunhada. Chegado.



Beberico numa tosca tasca do Mercado do Povo, com zinco sobre a cabeça, caixas de cerveja e coca-cola na costas e gaiolas com frangos, patos, e pequenos coelhos na frente. Pelo meio circulam as pessoas, pobres, pobres, e remediados – os portadores de uma pobreza que vexa mas não lacera. Os miúdos, às revoadas, tentam vender-me caricas, caixilhos para slides, canetas bic. Atrás das gaiolas alinham-se as bancas de carvão. Erguendo os olhos, à esquerda, sucedem-se os prédios, degradados, e voltam-se a ouvir as buzinas. Se olhar para a direita sobrepõe-se o bramido dos galináceos.
Quantas doenças se apanharão aqui, entre embalagens, restos de comida, e a podridão, o ranço, o suor de gente sem futuro – pensariam oitenta por cento dos jornalistas que conheço, setenta por cento dos antropólogos, noventa por cento dos familiares. Desde que cheguei que me avisam que este foi sempre um lar de bandidos e bacilos, e que hoje é um mercado degradado até no crime. No entanto, que conforto, que paz neste devir anónimo. Ser anónimo face à vida, face à obra, como o cidadão na cidade que se desenvolve organicamente e permite a travessia de microclimas sucessivos, a descoberta de uma hipótese consentida.
Só se adquire este sentimento de estarmos separados do mundo pela mínima espessura de um cabelo quando se nasce desprovido, sem hipóteses à cabeça.
E então leio:
«No bar do teatro, a senhora da estola enrolava a massa na boca e estava ainda indecisa sobre a qualidade do croquete que tinha na mão quando deu conta que o lugar vago a seu lado fora ocupado pelo seu ídolo, o bailarino Nijinsky.
Deixou cair o croquete, e, com os dedos a segurar a ausência do salgado, venceu a sua habitual timidez perguntando ao bailarino:
Como é que faz?
Perdão?
A maior parte das pessoas quando salta no ar vem imediatamente para baixo...
Porque hão-de vir logo para baixo... – replicou Nijinsky – Demorem-se no ar um bocadinho, antes de descerem».



Extraído da Autobiografia, de Zao Wou-Ki, grande pintor chino-francês, presença determinante da Escola de Paris, dos anos 50 e 60, e amigo e Michaux: «(sobre a sua infância)
...os generais decapitavam e colocavam as cabeças à entrada da cidade – cabeças ue pintavam metade em verde,a outra em vermelho. Como todas as crianças qua saíam da escola, empurradas pela multidão ao primeiro tumulto, eu assisti a uma execução. Não se podia recuar, era-se obrigado a olhar. Adormeci durante muito tempo, aterrorizado pela visão dessa cabeça rolando sobre o solo, cujo sangue espirrava de todos os lados.
Esta época foi terível. Havia suicídios entre os mais pobres, que não conseguiam sobreviver e vendiam os seus filhos no caminho da escola. Não eram incomuns os enforcados...»
Depois disto nunca se fará uma pintura realista. Seria absolutamente desumano.


Há um conto do moçambicano Carneiro Gonçalves, O Remo, que sempre me agradou muito e cujo final não esqueço:
«Sabes o que me apetece? Qualquer dia pego num remo e fujo. Mato adiante, só paro quando tropeçar na primeira aldeia. Logo que veja um homem: Sabes o que é isto?, e mostro-lhe o remo. Se ele disser que é um remo continuo a fugir. Juro-te que ninguém me agarra. Fugirei até desentranhar nova aldeia, até que ela me surja, por entre as franjas das árvores mais altas da floresta, limpa como no princípio do mundo. E logo que veja o primeiro homem pergunto: Sabes o que é isto? E se mesmo assim ele disser que é um remo continuarei a fugir. Quando enfim encontrar o homem que for capaz de  dizer que aquilo é uma pá de um moinho, espeto o remo no chão, instalo-me e recomeço a viver.»
Este homem foge dos sentidos únicos, movido pelo espírito de um irrigador de infinitos. O tenaz desejo que o impele à errância preserva, por outro lado, e paradoxalmente, a unicidade da arte, no sentido em que valida atrevidamente nas imagens a ambivalência que as descristaliza, conciliando o singular recorte hidrográfico com a potência do delta.   
É num espírito idêntico que Exúpery desenha a jibóia que faz a digestão de um elefante – o que as pessoas “sensatas” tomam invariavelmente por um desenxabido chapéu. Curioso é que libertação das coisas da cadeia da sua aparência reproduz-se até nos erros da ilustração: Exupery empresta uma peruca verde aos três embondeiros do planeta do Principezinho deixando-nos sem dúvidas quanto ao facto do escritor nunca ter visto tal árvore - contudo, como o narrador confessa terem sido aqueles embondeiros “inspirados por uma grande sensação de urgência” legitima-se que uma certa e inesperada prenhez se estenda à folhagem da árvore, que prolifera, cheia como a motivação ininterrupta.
É mais que um simples jogo: o homem que diz convictamente que um remo é uma pá de um moinho foi “movido” por uma mutação do olhar que abole qualquer ricto estilístico, o que autoriza a que se enterre o remo, fixo, no chão até enflorescer o moinho que um dia levantará voo com o vento, levando o fugitivo dentro.
Porque aquele que aceita em si a semente do devir, da metamorfose, nunca aceitará que esta cesse.
A arte que abre uma janela para o devir é a que mais me interessa, posto que encara o mundo como um mundo imperfeito, portanto, etimologicamente, um mundo inacabado. Talvez nos caiba a nós perfazê-lo, acabá-lo. Para os celtas era esta a missão que Deus deixara aos homens quando se retirara para descansar, no sétimo dia.
Agrada-me este desafio e a sua responsabilidade.



Quiasma: a acrescentar ao meu catálogo de palavras que usarei invariavelmente a contrapêlo. Tão próximo quiasma de quiabo.