terça-feira, 14 de maio de 2013

DENTRO DO ELEVADOR E OUTRAS MINUDÊNCIAS

                                                     o mosquito, de manuel san payo

E o elevador parou. Sem esganiçar um cabo, um ronco de sobreaviso. Parou. Entre dois andares. E abriu a porta para que eu me visse nas entranhas, diante duma parede cega e encardida. E se já não havia espanto em mim, voltou a aflorar. Primeiro vociferei, merda! Imaginando quantas horas ia ficar naquilo, pus-me a adivinhar o botão de alarme, que nesta velha carcaça não está assinalado. Qual deles? E vieram-me, de supetão, os pequenos sustos e as apreensões maiores. E de coração suspenso jorraram-se as lamentações, merda, nunca irei a Veneza, não vou ter dois meses para ler exclusivamente e de cabo a rabo Os Cantos de Pound, nem de reler a Divina Comédia, lá se me vai a integral da filmografia do Godard, não vou conhecer os próximos livros de Christian Bobin, ou, não irei ao Japão  seguir as pistas do Dogen, o meu segundo sonho mais entranhado, merda, lá se me vai a oportunidade de voltar ao Prado e às salas do Goya, e ainda nem cumpri a promessa de passar uma semana só a ouvir as sinfonias do Mahler… um minuto e meio de lava lamentosa e torturada, em que não me veio à cabeça a tristeza de deixar de ver as paisagens ou o sol, ou o mar… em mim, afinal, necessidades secundaríssimas. Dentro de um elevador fechado só penso na cultura. Não sei de facto o que faço em África. A vida tem destes desnortes. De repente noto que o elevador está cheio de mosquitos...

 
Queria ocupar um lugar mínimo neste mundo mas tive cinco filhas, e fui inconstante como o raio que adivinhando a força do seu próprio trovão se desvia, na esperança de não rebentar com os tímpanos.
Quem teve culpa dos meus cinco rebentos suponho ter sido a orgia de leituras nocturnas que tem sido a minha vida. E algum mimetismo: eu sou um homem de admirações e admiro o Jorge de Sena e o Assis Pacheco, oito e nove filhos, respectivamente – se bem me lembro. Bom, a cabotinice de os imitar foi minha, aí sofri a passividade emocional, de que fala o Espinosa. Mas concluo que em metade do que fazemos – macaqueamos. Podíamos era ter consciência disto um bocadinho mais cedo, para desviarmos o alvo.   

 

A orgia de leitura desta noite foi em torno de Espinosa. Julgo ter achado a porta de entrada que me levará a ler de rajada várias coisas de e em torno de Espinosa - o livro que lhe dedica Roger Scruton, onde entre outras gemas se lê:
«Espinosa, assim como Pascal, viu que a nova ciência inevitavelmente "desencanta" o mundo. Tomando a verdade como o nosso critério, desentocamos de seus antigos domicílios o miraculoso, o sagrado e o santo. O perigo, no entanto, não é o fato de seguirmos esse critério - pois não temos outro, mas o de só o seguirmos até o ponto em que perdemos a nossa fé, e não longe o suficiente para que a recuperemos. Livramos o mundo de superstições úteis, sem que o vejamos como um todo. Oprimidos pela sua falta de significado, nós então sucumbimos a ilusões novas e menos úteis, superstições nascidas do desencantamento, que são tão mais perigosas por tomar o homem, e não Deus, como o seu objeto.
O remédio, conforme nos lembra Espinosa, não é retroceder para a visão do mundo pré-científico, mas o de seguir mais além no caminho do desencantamento. Perdendo tanto as velhas quanto as novas superstições, descobrimos finalmente um significado na verdade em si. Pelo mesmo pensamento que desencanta o mundo, chegaremos a um novo encantamento, reconhecendo Deus em tudo, e amando as suas obras no acto mesmo em que as conhecemos».
Não sei se Deus (o da tradição juadaico-cristã) me interessa nesta equação, mas o sagrado sim.
Como eu gostaria de ler isto aos meus alunos.

 
Alguns canteiros catados num caderno:

A cada morto o universo contrai-se, faz-te saber que o amanhã não está contido na palavra «hoje» - e o gato come o teu sorriso.

Nunca nos saturaremos,
Nós os dois.

Temos tantas coisas
Para não dizer.

É como o mar
E as marés.

 
Convém-me muito, esta de Séneca, «náufrago fui, antes de ser marinheiro».

 
A bondade não é um selo que se meta numa carta
– é rara, mesmo entre os nossos.
Tão rara como a carta que vem de alhures.

(Que raio queria eu dizer com os nossos?)

Calhou-me a mesa que fica debaixo da televisão. Uma cerveja média, como sempre. Vinte fixam o ecrã, quatro observam-me – sou para eles um objecto de faiança. Os restantes estão presos aos quanta da electricidade estática. A vida está ao lado, etc., etc.

 O falcão alisa o azul ou eriça-o?

 

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

CRISTAIS FLUIDOS/ JORGE SOUSA BRAGA

                                                                       Noé Sendas

Estou a ler um clássico que navega no território do haiku, Fourmis sans ombre/le livre du haiku, de Maurice Coyaud, que o autor, com graça dedica A Diogène, à ses chiens, mas o que atrai de imediato é o haiku em epígrafe, que justifica o título.

O poema é de Seishi e reza assim:
No jarro de água flutua
Uma formiga
Sem sombra

É impossível condensar melhor o que a vida é, os seus limites e o que nela cede ou não cede
ao espírito do tempo. Está morta, a formiga, e não tem sombra. Uma vida que é vida tem traço, imprime um resgate pessoal e uma responsabilidade social: não entrega a sua sombra.
Se de um golpe falece é uma palha na água, inerte, em distraída glaciação.
É agora pura matéria, mas fantasmeou a sombra. Biologicamente, caiu da árvore, e não passa da ruína do nome que atribuímos à sua aparência, até nos esquecermos de o proferir.
Por que, perdurará o nome formiga para além da morte da última formiga na terra?
Condolências. Estamos sós. A vida está só, tirita de solidão, aquém dos nomes, no âmago da tempestade com que os elementos combatem entre si.
Por enquanto, há uma quietação na água que sustenta o cadáver da formiga, mas é temporária, um intervalo. Que serve para a morte passear nas artérias daquele corpo, que já incarnou o pulsar de uma energia que permaneceu para ele um mistério. Afinal, se a morte nos desfere o seu golpe é porque não acedemos à chave da vida, não é?

Soberbo, o haiku.
Acabei de estalar entre as palmas da mão a fuselagem de um mosquito. Outro para quem a vida era só um domínio fugaz mas não uma inerência.

Mas voltando aos haikus, que me fascinam e ao mesmo tempo me desesperam, a sua clareza não é inata mas um resultado do processo de se entrelaçar (verticalmente – de momento, não o sei definir de outro modo) em três linhas vários níveis de realidade e de significação. Vejamos este exemplo:

Todo o mundo dorme
Ninguém entre
A lua e eu.

Seifujo

Várias coisas diferentes, ainda que concomitantes, se entretecem aqui:
- o sujeito do poema vive num mundo em que é difícil estar só, ou, pelo menos, a sua condição social não lhe permite estar só e atento à escuta do mundo
- não existe separação entre homem e natureza, uma dualidade falsa e forjada que se desmancha assim que ficamos finalmente a sós
- que alguém nos pode estar a sonhar, “único” estado não-dual
Etc., etc.

O que eu gostaria de discutir estas coisas com o Jorge Sousa Braga, um dos poucos que pode saber algo do que pressinto por aqui e que aprofundou, com as suas traduções das coisas orientais (ou mesmo de poetas ocidentais, como o polaco Zbigniew, que praticam no poema um mesmo tipo de recorte/costura cirúrgica entre vários níveis de realidade) o que em si, desde a primeira hora, era já nele uma intuição: a clareza e a “simplicidade-confluente”, exigem um trabalho extenuante, uma sedimentação de estratos que vai cozendo uma síntese, para se manifestar de súbito como um relâmpago.
Vejamos o exemplo do seu famosíssimo Poema de Amor:

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo.

O que parece um poema-piada - e é - ganha de súbito outra relevância porque intercepta dois níveis, um macro e micro, levando a que uma mera anedota humana se extrapole num assunto cósmico - o que “não é” mas “é” como todo o amor que se preze -, dando um alcance, uma ambivalência, um modo reverso, ao poema que ele parecia destinado a não ter. Eis como o simples é motivado pelo complexo.
Acertar uma vez na piada da coisa pode acontecer, mas que o recurso se repita e multiplique com propriedade (e não como mero tique para o trocadilho) é que já sinaliza um ponto-de-vista personalizado num padrão. Este trabalho não tem que ser consciente, mas está nos antípodas das fáceis traduções com que se dá azo a impressões fugidias, retinianas, sendo antes uma “visão” que se vai impondo, a partir de dentro. Agora, por que raio não se quer entender que o humor em Sousa Braga (sendo-o), como o humor nos koan, é uma forma de contornar as aporias e de apontar o horizonte de outras coisas?  

Como quem não quer a coisa, o Jorge Sousa Braga tem feito a sua obra à margem de tudo. Acusa ainda outro “defeito”: é diferente. “Esse é diferente…” – concorda-se – e toda a gente sorri quando se menciona o Sousa Braga, mas julgo que a evidente “ternura” que ele concita (que verbo notarial, ó Jorge…) e o seu humor têm impedido a sua leitura com a atenção requerida. E ele prossegue, tranquilo, nas tintas. Faz muitíssimo bem. E ainda não será desta vez que ele terá a devida exegese, mas não quero ter falta de comparência e quero assinalar para já (prometo voltar ao livro) o imenso prazer que me deu a leitura de Novíssimo Testamento e outros poemas. O gozo bruto.
Como estou longe não sei se houve artigos sobre o livro, eu simplesmente não o vi em nenhuma lista dos melhores livros de 2012. Ora aqui começa a porca a torcer o rabo: devia estar. Não porque fosse o 4º, ou o 7º, o 9º, ou 13º melhor livro de poesia portuguesa do ano, o Jorge não trabalha para os rankings ou a premiação… mas simplesmente porque o livro não trai a diferença que autonomizou a sua voz e antes a potencia, como um cristal fluido – operação que é para raros.

Desde Poeta a Nu que não lia o Jorge, e por isso recebi o seu livro com uma expectativa redobrada. O primeiro poema serenou-me de imediato, depois confirmei: este livro é um golfo – sendo indiscutivelmente um dos poucos livros que gostaria de ter escrito na última década, arrancando-me da tagarelice em que me atolo.
Infelizmente, o Jorge tem mais de cinquenta anos, o que, para uma certa “camada dirigente” ainda em voga é um pecado maior; tem, contudo, o seu livro a energia de quem começou agora e impõe ao vento um fio-de-prumo.
Não vou estar com análises, vou simplesmente citar dois poemas, como estímulo para que comprem o livro, o primeiro:

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO

Para acabar de vez com os direitos humanos
                                                                                                                      e restaurar os direitos divinos

 Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
                                    galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
— quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
cantar —
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
                                  pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto…
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões de
                                                                                                     ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
                                                                                           do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
— Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir —
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas  
— e essa vingança será terrível —
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
— e esse sangue é da cor do alcatrão —
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração

e este outro, extraordinário, singularíssimo, que pode ler-se, à vez, como um poema unitário ou como um colar de haikus (autónomos) com uma chave (absolutamente) desconstrutora:

EPÍSTOLA SOBRE O MAR

Que luta é esta
com que noite e dia
o mar se digladia?



Ninguém é tão avesso
a margens
como o mar

O coração do mar
é um cemitério
de navios e de luar

 
Também o mar
gosta por vezes
de dançar

Não é tão difícil
como parece caminhar
sobre as águas do mar

 
Por vezes o mar
arrasta tudo
com ondas de veludo


Maresia:
o coração dum peixe
enche-se de alegria

 
Só os meus pés
conhecem o ritmo
das marés

O mar brama:
dum peixe desprende-se
uma pequena escama

 
Noite de breu:
onde acaba o mar
e começa o céu?


(nota: espaçamentos todos errados, esta merda do blogger não me obedece)


Duma coisa tenho a certeza: o Sousa Braga faz parte (como eu, a suplente) de um Clube dos Reis Magos que não pretendem chegar a Belém e que adoram rir e escanhoar-se, e cujos membros mantém uma única certeza: a morte há-de dignificá-los (o que quer que isso signifique)! Que a Guerra do Gosto lhe seja benéfica, já que a sua ética não tem desvio.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

CINCO PERCEBEIJOS

                                                                rapemos, pois!

Escreve Stendhal, em Memóires d´un touriste: «Não é por egotismo que digo “eu”; é apenas porque não há outro meio de contar a vida». Como pode um simples lugar-comum ter atraído tantas incompreensões, tantos e tão espalhafatosos nhurros.

Por muito que pensasse não conseguia descortinar onde se tiravam os passaportes para poder visitar o passado. Disseram-lhe que talvez cumprindo uma de duas condições: não ler Saramago ou ser Presidente da República. Escolheu as duas. Quem é, quem é?

O seu maior sonho era dar os peidos de Gide e de Simenon. Como não estava a conseguir, contratou um detective.

«A glória assemelha-se à cama de Luis XIV em Versailles,
É magnífica e está à pinha de percevejos.»
Victor Hugo

 
CONJUGAÇÃO DO PRESENTE DO INDICATIVO DO VERBO P(ER)S(I)D(URAR)

Eu percevejo,
tu perceves,
ele percebe,
nós per si duramos,
vós perseverais,
eles percebeijam…

segunda-feira, 6 de maio de 2013

POLINIZAÇÃO DO TEMPO

                                                                          hogarth

O meu amigo Ricardo Martinho Gaspar levou-me a refletir sobre o tempo. Que importância é que isto tem? Nenhuma. Nem eu nem ele pretendemos que tenha outro significado. Mas agrada-me que seja uma forma diferente de uso do FB: a instigação. 

Anular o tempo é o desejo de todos nós, não é, Ricardo?
Também julgo ser o nosso maior erro.
Nós podemos criar o nosso tempo. Não temos de anular nada. Só temos de o multiplicar.
Não falo, evidentemente, do tempo físico, nem do intervalo psicológico em que pomos entre comas a sua duração, mas do “trespasse” que podemos cometer no seu caudal, propiciando a génese de uma nova hidrografia, de outro ritmo, doutra foz - inclusive.
Por exemplo, a antecipação psicológica no dentista, quando estamos à beira de nos ser arrancado um dente, precipita-nos num ritmo ao qual nós não dominamos a cadência – é a dor, a sua sensação, medo ou iminência, quem nos dá a medida do ritmo.
Aí queremos suspendê-lo, anulá-lo – estamos em conflito com os marcadores do ritmo.
Nós queremos anular sempre o que nos é desagradável, como se isso fosse desejável. Acontece que não é, e se falei antes em antecipação é porque não existe o tempo sem a “expectativa ou a antecipação” – dois marcadores de ritmo.
O tempo, tal como o experimentamos, é muitas vezes um corolário destes.
Veja-se, por exemplo, o tempo político. Pode funcionar por ciclos ideológicos ou por unidades entrópicas, mas é também ele dependente de expectativas e antecipações – confundindo-se aqui igualmente com os seus marcadores. Contudo, o panorama só muda realmente quando se intromete no estado de coisas uma “exterioridade” que rompe o fluxo e as suas cadências e impõe o inesperado. Foi o que aconteceu com o 25 de Abril ou com o Maio de 68 – a natureza do que se passou ultrapassou em muito os limiares do expectável. Por isso foram acontecimentos, não meros efeitos de algo anterior.
Neste caso, o tempo muda, ou antes, multiplica-se: ramificou-se. E criou outros ritmos.   
Sempre que estamos desconfortáveis com um ritmo queremos mudar – aí desejamos suspender o tempo, mas este passo não é ainda o salto decisivo, pois estamos ainda na órbitra do ritmo que nos domina.
Por isso me parece empobrecedora esta época em que vivemos: apesar da crise as pessoas ainda raciocinam, agem, actuam, nos mesmos moldes políticos, como se se tratasse apenas de mudar um marcador por outro, quando se trata de pensar como mudar a natureza e os mecanismos do poder – o que está muito para além da ingénua bipolarização “esquerda/direita”.
Não é apenas o aspecto agónico que nos leva a cindir ou a suspender o tempo.
Podemos igualmente dizer assim: a arte suspende o tempo. A música, uma boa peça ou filme a que assistimos, uma leitura que nos coloca entre comas, suspende o tempo, suspende os seus limites. E isso é bom.
Porém, aqui ainda não impusemos outro ritmo. Suspendemos o tempo, enquanto consumidores das possibilidades que nos oferece o seu ritmo. Não fizemos a sua “revolução”, como a da pintura abstracta, que aboliu tudo o que estava para trás e apresentou uma nova figuração, outro ritmo.
É o que nos ensina a parábola da figueira: atingir o “káiros”, fundirmo-nos na sincronicidade, pode não ser bastante.
Creio que o tempo não passa da propagação dos seus marcadores no nosso corpo.
E que no gesto criativo há por vezes vislumbres que nos impelem a passar para lá da “terra suspensa” na direcção duma outra geografia, doutros limiares, que nos fazem romper qualquer hábito.
Aqui abrimos um novo escaninho para o tempo, e dá-se, creio, aquilo a que Heidegger chamava o “fazer-se mundo”.
Quando estamos ainda no encalço de um ritmo estamos ainda reféns – ainda que prazenteiramente. Nós agimos e comportamo-nos como consumidores do tempo e não como seus criadores.
Nunca se viu suficientemente o que andou a fazer Penélope com a tapeçaria que desmanchava todas as noites. Se ela voltasse ao mesmo padrão, e desenhasse o mesmo motivo no dia seguinte, tornar-se-ia notado que algo não avançava – e em breve haveria revolta
entre os pretendentes. Se eles não notaram que ela desmanchava de noite o que havia
desenhado de dia era porque ela os confrontava diariamente com um desenho novo, o que não lhes permitia avaliar em que passo ia ela na composição.
Ela nunca pretendeu suspender ou adiar o tempo, para não adiar a decisão: ela criou novas sendas para o tempo, e pôde ser fiel porque reinventou a memória como um avesso do novo que ela todos dias tinha que mostrar.
Do mesmo modo, pensar tem pouco a ver com o raciocínio, com as suas operações lógicas e o curso das opiniões. Esta é uma função menor da mente. Pensar é romper, e por isso acontece raramente.

 
Não sei como a coisa aconteceu, em que teclas terei eu tocado para me aparecer de súbito no ecrã do computador uma antologia de um poeta que desconhecia ter ou de que não me lembrava. Mas fiquei imediatamente agarrado a este poema, de que fiz a versão, e, que por acaso também incide sobre o tempo:

 
TESTAMENTO 

Tendo chegado o tempo em que
a penumbra já não me consola
e só me diminuem os seus diminutos presságios;

tendo eu chegado a este tempo, 

e dado que agora as borras do café

abrem de imediato, para mim,

as suas redondas bocas amargas; 

tendo eu chegado a este tempo, 

perdida já toda a esperança de 

alguma merecida promoção, e de 

observar, serenamente, o alastrar da sombra; 


e não possuindo mais do que este tempo, 


não possuindo, finalmente, mais

do que a minha memória das noites e 

a sua vibrante, imensa, delicadeza; 

 não tendo eu mais,
entre céu e terra que 

a minha memória, que este tempo, 

decido fazer o meu testamento. 

É este: 

deixo-vos 
o tempo, todo o tempo. 

sábado, 4 de maio de 2013

LEITURAS NA RETRETE


Filipe Branquinho

Leio esta tradução de Paulo Vizioli de A Deserção dos Animais do Circo, de Yeats (Companhia das Letras, 2001):
«1

Busquei um tema que não foi achado;
Por seis semanas procurei, ou mais.
Talvez eu pare enfim, velho e alquebrado,
Mesmo sabendo que meus animais,
Verão e inverno, até chegar a idade,
Tenham estado todos em cartaz:
Jovens pomposos, reluzente biga,
O leão e a mulher, e Deus que o diga.»

 E fico com a sensação de que está tudo correctinho, o poema é que está morto.
O tradutor quis ser tão respeitoso, ser tão atilado na rima e na métrica que engomou o Yeats a um ponto que o torna em objecto museológico. Pouco me sensibiliza este Yeats. Gosto muitíssimo mais do prefácio do livro, esclarecedor, bem informado, que das traduções. É definitivamente muito difícil traduzir os clássicos.
Na sala de aulas a indagar passeio», assim começa outro poema, que é para rimar com recreio, ao terceiro verso, e eu fecho o livro.

 
 
A interdição da escrita, entre os celtas, «é explicada por César com muita clareza: os druidas não querem que a sua doutrina seja divulgada a qualquer um, e a escrita torna as pessoas preguiçosas. Com efeito, o facto de escrever suprime a função da memória…», lembra Markele, um especialista da cultura celta.
De facto verificamos isso na comunicação: quanto mais somos invadidos pela comunicação mais se instala um eterno presente, que nos petrifica. De igual modo, interrogo, se este afã de nos derramarmos em partilhas, opiniões e pronunciamentos no FB, não conterá em si o desejo profundo de esquecimento, que a descarga nos pacifique, secretamente. Porque a faculdade de pensar não se atinge pelo assédio, não é?

 

A magnífica fotografia de Filipe Branquinho em cima leva-me a este capítulo de A Maldição de Ondina, onde precisamente um outro dos frescos do hotel Central, na Rua do Bagamaio (ex-Rua Araújo, a institucionalizada rua da prostituição em Maputo), faz parte da acção:
 «Há quantos anos não entrava no Luso, a rainha das boîtes da ex-Rua Araújo, caudaloso rio de putas e de fogosas venalidades? Doze anos, quinze? As constantes idas e voltas entre Moçambique e Portugal foram-lhe alterando os ritmos e aos poucos a noite deixou de ter atractivos para César; deixara de enternecer-se com as pessoas, reduzindo-as a existências de papel, a «personagens» da série policial que o projectou como escritor. O casamento com Beatriz constituiu a machadada final na sua outrora afamada compulsão noctívaga, paralela ao seu entrosamento profissional na escrita, que o acondicionou no sótão dos artefactos literários: muita disciplina e contrita emoção.
No entanto, recebera a encomenda de um conto para uma revista de Barcelona e o tema era a vida nocturna das cidades, o que o obrigava a espiolhar sob o manto da ilusão e da sordidez nocturna algumas sílabas de néon, sede & sexo, a compassividade que inspira.
Pediu um uísque duplo. Habituava-se ao ritmo sincopado das luzes e ao anacronismo dos seus tímpanos aturarem Boney M - um funky corcunda e bicado pelo abutre do disco sound - trinta anos depois do prazo de validade, quando uma multidão de unhas pintadas de vermelho, suavemente, lhe coloriu o ombro.
- Darling, do you looking for us?
Duas calmeironas de mini-saia e olhar de gasolina. A de cabeleira loura, atestava-o os gestos soltos e o brilho da esclerótica, estava ligeiramente tocada. Rodearam a mesa e sentaram-se, sem cerimónias. César sentia-se uma plataforma petrolífera a atrair os tubarões – sempre o incomodara naquele ambiente o cheiro a carniça, a sangue. A mais sóbria exibia uma estampa no incisivo esquerdo, onde se via um velho marinheiro a fumar cachimbo enquanto uma sereia lhe apalpava o músculo do outro braço. Uma moda chegada de Captown, que pegara como brasa no mato.
- Quanto tempo dura essa estampa, perguntou César.
- Três meses, vai sumindo.
- Empalidece.
- Darling, isso é português?
- Oh yes, indeed!
- Nice, como é que se diz, lindo?
- Em-pa-li-de-ce: fica pálido…
- Ah, yah, gramo demais esta profissão, todos os dias aprendo uma palavra nova.
- As posições é que são sempre as mesmas… - Provocou a ‘loura’ 
- Não é? – Reforça a amiga, sacudindo o peito numa gargalhada intempestiva. Depois recompõe-se, olha César num desafio e atira:
- Tu, darling, o que é que gostas no amor?
- Do silêncio que se segue…
A resposta dele suspendeu-lhes os gestos. A ‘loura’ é a primeira a reagir:
Nice… - E retorque – Mas eu estou sempre muito ocupada em dar à sola…
- Não lhe ligues… - Ameniza a outra – a minha amiga ‘tá muito revoltada porque o namorado a deixou, ‘tá magoada… pagas-lhe um baileys?
César encolheu os ombros ao mesmo tempo que a cabeça anuía. A luz baixou e a música do streap invadiu a cena, impondo o silêncio.
- Gramo dele…- Confidenciou para a outra a da cabeleira loura, ao mesmo tempo que poisava a sua mão em cima da de César.
A famosa Silver Girl, vinda em tournée directamente de Brazaville[1], ocupou o centro da pista de dança. Segundo os relatos, abria o clítoris eriçado como uma navalheira.
César saca do bolso do casaco o seu pequeno caderno de apontamentos e escreve, indiferente ao streap:
 
«À entrada do Hotel Central, os baixos-relevos não enganam: a festa vai ser de foder até partir. É um hotel para quem a tem segura. Como a do John O’Connor que, cansado da vaca loura que tem em casa, meteu prego a fundo e duas horas depois franqueia a porta do Luso, uma boate à moda antiga, com streapers e mulas boas, como ele diz, na ex-Rua Araújo, a mais afamada babilónia das noites laurentinas. 
O’Connor veio ao que todos os boers vêm: meter-se em cima de uma preta como quem baldeia de água fria o motor que escalda.
Era nova a miúda, nunca a tinha visto. Ainda bem, O’Connor não gosta de repetir os pratos. E a Laurinda ainda tem aquele recato das novas.
Laurinda viveu sete anos na África do Sul e compreende o afrikânder mas não lhe diz, visto a delicadeza nele não ser o forte.
Combinam o preço e vão para o Hotel, a 50 m da boate.
À entrada do Hotel Central, ele, que lhe tinha posto o braço sobre o ombro, mete-lhe a mão na mama, a imitar o baixo-relevo e solta uma gargalhada alarve. Laurinda sabe que tem de o despachar, antes que a sua brutalidade se torne pesada.
No quarto, despem-se e depois de dois mimos grosseiros, ele ordena:
- Faz-me um bico. 
Ela não está ali para ser relutante.
A meio do serviço toca o telemóvel dele. A mão esquerda de O’Connor afaga a cabeça dela e a outra ampara o telemóvel, e barafusta:
- Foda-se, a vaca não me larga, nem às duas da manhã.
Fala da mulher. Ela quer interromper mas a mão dele impede-a:
- Don’t stop… - E põe o telemóvel no altifalante…
- Estás a telefonar-me para quê? Aconteceu alguma coisa ao Peter?  - É o filho.
- Porco brochista…- responde-lhe do outro lado uma voz embriagada - passaste-me o AIDS, filho da puta.
- Apanhas-te-a com o Iorg, minha puta…
- Tu é que inventas essas histórias para te justificares. Aposto que estás em Maputo, com as tuas pretas.
- Sabes por quê? Mamam como tu nunca soubeste fazer, minha vaca podre.
Amparando a cabeça de Laurinda, a sua mão continua a pontuar o ritmo do broche. Responde a mulher:
- Já lhe disseste que tens AIDS?
- Não se fala com um naco de carne…
- Fascista!
- Fascista é o caralho do teu pai…
É aí que Laurinda é sacudida por um vómito provindo do fundo dalguma mina e que, para se aguentar, num esforço incontrolável, fecha os dentes. Estava fora de si, garantiu.
Oito da manhã. A caminho da tipografia, atravesso como sempre a Rua Araújo, e à esquina encontro uma multidão rumorejante e O´Connor a sair em maca, desacordado, do Hotel Central.
Na esplanada do Café Rossio, defronte das varandas laterais do Hotel Central, uma rapariga ri e chora com o sucedido à amiga. É ela que me conta o ocorrido, depois de o ouvir de Laurinda.
A polícia já passou no hotel mas nenhuma colega de ofício delatou o nome da amiga. E se melhor gente, como Osíris, perdeu a pila, por que não O’Connor?».

Fecha o caderno e guarda-o.
A mais sóbria das miúdas, está intrigada:
- Darling, nem viste a baby!
César esboçou um sorriso triste. Pediu-lhes nova rodada. Releu rapidamente o que tinha escrito. Uma trampa repleta de clichés, mas era o realismo sujo, nonchalant, cínico, que esperavam dele. Na verdade, pensa César, o estilo do escritor resume-se à expressão que menos o assusta, desde que descobriu em miúdo que até o triciclo lhe provocava vertigens. Onde é que li isto?
César engoliu o seu Passport num sorvo e levantou o copo a pedir outro. Varria a sala, à procura da empregada, quando o viu. Parecia uma fotografia desfocada no meio de duas enguias que lhe disputavam a atenção. Teria mesmo aquela tonalidade sépia? Estava, no mínimo, tão desinteressado pelo ambiente como César, mas – confirmá-lo-ia a caminho do banheiro, ao entreolharem-se – verdadeiramente insólito era o seu olhar metálico, insondável, de quem desde tempos imemoriais já só tem passado.»

    



 


sexta-feira, 3 de maio de 2013

A REALIDADE É O CÃO QUE MORDE A CAUDA

                                      Bruno Bourel, roubado à minha amiga Lourdes Sendas
O sr. António convidou-me para participar num filme. Fiquei feliz. Fui ao casting. Mas cheguei lá e deram-me o papel da rapariga que está ao balcão no bar, a servir bêbados e gente porca. Nunca me senti tão humilhada…” - recrimina-me a empregada da tasca a que vou habitualmente, onde é tão despachada a servir bêbados e gente porca.
E não é que tem razão? Demos-lhe um plinto para um sonho onde, afinal, tudo se repete como na comezinha, triste, sórdida realidade. Como lhe explicar que a vida às vezes se diverte com estas ironias e que talvez não seja culpado do papel que lhe deram?
Ai, António, António, não serves para nada…
- Dá-me lá uma!
- Esta vai ter de pagar, sr. António.
Não me esquecer de fazer um conto. Dedico-lho, ou achará que me divirto a retratar o seu sétimo círculo do inferno?
 


O entrelaçado, a dissertação:
O gato lambe o rabo do cão
E o cão julga que atrás de si cantam rouxinóis.



 Uma estereofonia, há anos que não ouvia a palavra. Como as palavras vão e vêm e vaporizam-se, afogadas na onda que se segue. Queiramos ou não a língua percute no seu tambor as sensibilidades epocais, a cada momento novos desenhos para o ritmo. Micro-variações na macro-estrutura.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

TRÊS RETRATOS A CARVÃO

                                                          Maria Velho da Costa

Catando em coisas velhas achei estes três retratos a oarvão que fiz há uns anitos bons para os jornais. Ainda não me apavora a sua azelhice, por isso aqui os posto:


A GEOGRAFIA INSURRECTA: HENRI MICHAUX

 
DIZIA Valéry: «O escritor verdadeiro é um homem que não encontra as suas palavras. Então procura-as.» Socorrendo-se do autor de La Jeune Parque, José António Marina tenta elaborar uma teoria da inteligência criadora e conclui que grande parte desta ingente tarefa consiste numa hábil gestão das restrições. Em nenhuma página do seu ensaio, que até é brilhante e sedutor, Marina cita Michaux. E percebe-se: Michaux é o antónimo de Valery - um homem sem restrições espaciais, geográficas, rítmicas e linguísticas. Incatalogável, como o classifica Ernesto Sampaio, no oposto do espírito da geometria.

Henri Michaux sobrevoa todos os aparelhos de medida e, insurrecto xamã, seria o melhor corrector para a célebre aposta entre Alice e a Rainha de Copas sobre o número de quantas coisas impossíveis será possível imaginar antes do pequeno-almoço.

Com Michaux é seguro: nele, os pequenos-almoços são ainda remanescências do sonho, périplos onde as viagens da memória desenganam coordenadas para se tornarem trajectos da metamorfose, prodígios à velocidade do pensamento, sobretudo do inabordável. Não se trata de um paradoxo mas de uma celebração do contágio, de um efeito de plasma.

«Terá sido a China que me transformou?», interroga-se Michaux em Um Bárbaro na Ásia. «Sempre tive um fraco pelo tigre. Quando via algum, alguma coisa mexia comigo, sentia-me logo em consonância com ele.» Em consonância, isto é: derramado na forma do outro, encarnado no ritmo que a sua velocidade interior opera. Por isso, no mesmo livro, lê-se a dado momento: «Menos alguém é abordável, mais vida interior possui.» Com Michaux não há uma cicatriz ontológica - o sismo, ainda que satisfatório, é uma ferida na água, um centro desenfreado e inúmero...

Equador, 1929, Um Bárbaro na Ásia, 1933, Voyage en Grand Garabagne, 1936, Au Pays de La Magie, 1941, Ici, Poddema, 1948, La Vie dans les Plies, 1949, ou, noutro registo, Infinito Turbulento, 1957, Les Grandes Épreuves de l'Esprit et les Innombrables Petits, 1966, e Misérable Miracle, 1972, são alguns títulos onde Michaux explora um novo atlas e uma nova descrição da matéria do mundo e dos seus seres. Nos primeiros volumes ainda leva a cabo uma espécie de etnografia imaginária a partir de espaços pré-existentes. Voyage en Grand Garabagne inaugura uma nova etapa: a de um Gulliver que vasculha nas profundidades do sonho para tecer reportagens impossíveis - com a mesma virtuosidade na língua de Raymond Roussell, mas (arrisco) com maior visionarismo e sageza.

Nos últimos livros assinalados, as viagens efectuam-se por dentro, com o espírito soprado pelas drogas até a paranóia das sensações desminar o calcinado território do «eu», essa ilusão que nos lança no «abismo da inconsciência quotidiana». Há, em meu entender, uma particular afinidade entre esses dois modos de viajar, tendo por cicerone uma geografia referenciável ou as drogas. «Para quê viajar quando uma rima faz nivelar uma montanha, quando um adjectivo povoa um país, quando uma assonância faz oscilar a Terra inteira?», interrogava-se Michaux em Passages, 1950.

A vida está aqui inteiramente assumida nas pregas, no trajecto, que é também o da linguagem assombrada. Quando, para os habitantes do Grand Garabagne, é preferível deixar de existir a respirar mal, ou quando o País da Magia é descrito como um sítiorodeado de ilhotas minúsculas que são bóias - «Em cada uma delas há um morto. Este cinturão de bóias protege o País da Magia, serve de sentinela para os seus habitantes e avisa-os quando se aproxima algo estranho» - fala-se no fundo da mesma «inabitabilidade psicológica». A que levou Michaux a encarar a droga como um instrumento para «captar» o mecanismo e a acção do pensamento, para realizar uma espécie de duplificação do que até aí era imperceptível. Talvez porque «este condenado planeta que possui tão pouco de tudo» merece uma gota de infinito.
 

 

MARIA VELHO DA COSTA OU O DUENDE À CAPELA

 

É espanhola a expressão: “tem duende”. É como eu a vejo: um duende que tivesse a paixão do xadrez.

Acabara de sair a Missa in Albis e dispus-me a entrevistá-la. Foi um encontro danado e saí para a rua eufórico, convencido de que uma rara sintonia me havia proporcionado entrevista para o Pulitzer. No dia seguinte instalou-se o pânico: a fita da cassete partira-se e rodara em vão durante toda a conversa. Telefono-lhe, conto-lhe o corrido e digo: “não há tempo para repetirmos, não sei se consigo reproduzir o que disse e como o disse, mas vou tentar repetir o élan, o ritmo, o devaneio...”. E a escritora, sem pestanejar: “avance!”. Acabámos amigos após esta primeira lição: a generosidade.

Depois colaborámos nos guiões de dois filmes: “O Mal” e “Inferno”, ambos para Alberto Seixas Santos. E vi como metia a plaina num texto, a  amplitude do seu radar, numa tergiversação impiedosa que não poupava as “cenas conquistadas”. Como explicar? Quando saiu o meu último livro de poemas felicitou-me uma amiga «é o teu melhor livro porque está cheio de compaixão!», e subiu-me a apreensão ao nariz, pois esse é um terreno minado. Fora a compaixão que provocara o texto ou aquela nascia do tecido verbal? Na literatura são coisas opostas e podem significar o garrote ou a ventilação de um livro.

Com a Maria aprendi que não há piedade possível para o texto, que todas as palavras são ainda poucas para calibrar a expressão, que criar supõe uma inquirição infinita até ao momento em que a escuta enfaixa numa “peça única” desenho e modelo, palavra e coisa. E aqui não há lugar para o apego. Ora, isto implica um despojamento assustador, que leva o escritor a pensar contra si próprio, nas dobras do que mantinha em defeso, situando-o não já diante/fora da paisagem textual mas no seu interior.

Conviver com a antropofagia do texto exige um estômago blindado: não é só a razão que gera monstros.

Segunda lição, a emoção é um efeito do texto que soube despir o escritor do seu vocabulário emocional e a inversa não é verdadeira. Quanto mais o texto mergulhar o escritor no desconhecido mais aquele vibrará aos olhos do seu futuro leitor.

Na literatura da Maria os espelhos são côncavos e convexos, ao mesmo tempo. É uma escritora considerada difícil porque este tempo aceitou de barato a degradação da realidade, que começa sempre pela degradação da linguagem. Na Maria Velho da Costa, pelo contrário, nunca houve cedências, qualquer per-versão expressiva.

De Desescrita a Português, Trabalhador, Doente Mental, de Maina Mendes, a Irene... a eficácia nunca a leva a descurar o duende da linguagem, chamado a pactuar com as leis do xadrez narrativo. Seguir-lhe os livros é caminhar por paisagens muito diversas, onde à seda se segue o tecido rugoso, à clareira o bosque, onde o prazenteiro som da cascata pode ser uma solução de raccord para uma inesperada avalancha. Nunca é igual. Nunca podemos antecipar o que vamos encontrar. Está já para além dos géneros – e há muita poesia nos seus romances, de igual modo que a ficção espreita atrás dos biombos poéticos de Rosa Fixa.

E é esta a terceira lição: uma maior liberdade expressiva imbrica o leitor na responsabilidade de ser livre.



HEMINGWAY: A ALMA SEM LEÕES

 

Durante o enterro de Ernest Hemingway, o padre, após alguma insistência da viúva, Mary Hemingway, e dos seus três filhos, acedeu por fim a ler um versículo da Eclesiastes, que reza assim: «Uma geração passa, uma geração vem, e a terra subsiste sempre». O reverendo teria com certeza preferido uma alocução em que evocasse a humildade do homem e o seu regresso ao útero de Deus, mas fiéis à memória do escritor os familiares escolheram um versículo sucinto que aludia à energia da terra como fonte de vida e à crença na existência - efémera mas reiteradamente física, material.

E estavam no "espírito" do autor de Por Quem os Sinos Dobram. Num dos contos seminais de Hemingway, inserido na recolha In Our Time, de 1924, Hemingway narra o difícil regresso de um jovem soldado, Krebs, à casa de família, depois de participar na frente de combate, e o seu gradual desajustamente ao ritmo e valores da vida pequeno-burguesa que aí se consagrava. Krebs passara por experiências de «desmesura» que, se haviam abalado as categorias emocionais e morais onde a educação o encaixara, o tinham feito conhecer novas sensações de liberdade. E de volta à sua terra natal compreendia que à sombra dos comedimentos e pequenos dramas da sua família nunca voltaria a experimentar essas intensidades. Tornou-se inevitável o seu afastamento da família e um gradual sentimento de "irrealidade".

Krebs, como escreveu Colin Wilson, em The Outsider - um estudo sobre a alienação e a criatividade da sociedade moderna - é um percursor de Mersault de Camus, sendo como este um estrangeiro que confessa secamente à sua mãe «não amo ninguém» e que a choca sobremaneira, quando - ao seu reparo de que Deus reserva a cada um uma tarefa na terra, pois não «há lugar para os ociosos no seu Reino» - replica: ««Eu não pertenço ao Seu Reino». Só a guerra, a luta, lhe haviam dado um vislumbre de sentido e agora era vítima de uma desarmonia fundamental.

Em grande parte dos contos de Hemingway, 78 narrativas agrupadas em vários volumes, abundam as personagens que se debatem com uma percepção de si mesmas que não pode satisfazer-se com o trivial e o não heróico.

A liberdade, para Hemingway, só se manifesta quando se encontra uma forma de agir que exprima essa parte da personalidade. E por isso, os contos ora rondam a memória do heroísmo - procurado em situações de guerra, de de caça, pesca ou toureio - ora são variações em torno do momento da "queda", quando o medo, a cobardia, faz os homens portarem-se como animais («a maior parte dos homens morre como animais e não como homens», lê-se em The Natural History of the Dead).

Como adianta Colin Wilson, a fase inicial da obra de Hemingway até ao conto Noutro País, da recolha intitulada Homens sem Mulheres, 1927, é uma longa meditação sobre a vulnerabilidade humana. Neste conto, um oficial superior defende encolerizado que um homem não se deve casar pois «Se (o homem) tudo perde, não deve meter-se em posição de perder a mulher. Ele nunca deve colocar-se na posição de perder. E deve descobrir coisas impossíveis de perder». Este sentimento de perda e impotência espelha-se de um modo superlativo noutro conto posterior - e um dos seus melhores - Um Lugar Limpo e Bem Iluminado. Relata-se nesta breve narração a regularidade com que um velho rico e bêbado acosta à noite numa determinada mesa de esplanada, para matar a insónia ou afogar - nesse lugar limpo e bem iluminado - os vestígios dos fantasmas com que se debate, o que provoca a irritação do empregado mais novo, recém casado e com sangue na guelra,  e a condescendência do empregado mais velho, já ciente que a vida é «nada e nada e nada e nada». Este trio ilustra a passagem de testemunho entre gerações focado no versículo do Eclesiastes, enquanto a terra persiste, imarscecível.

Depreende-se aqui uma tentação niilista, que Hemingway combate pela figura do herói, na demanda do acto de bravura que torne inolvidáveis os gestos. Neste sentido, quer na vida, como nos temas que procurou, Hemingway procede como o último dos Condottieri. Os condottieri eram chefes de guerra, mercenárias, postos ao serviço dos príncipes italianos e dos Papas da Renascença. Mas como viram Denis de Rougement ou Michel Onfray, por detrás desta espessura guerreira havia uma visão estética e um signo distintivo, a virtú, que comandava a capacidade de realizar uma acção com brio, elegância e eficácia. Como o toureiro, o condottieri, em pleno controle do seu sistema nervoso, faz coincidir o gesto com o momento oportuno, a ocasião. O que supõe doses maciças de audácia e determinação, de uma vontade que transforma a medida do perigo num veículo para o estilo.

As mesmas características que levaram Virginia Woolf, referindo-se elogiosamente a um livro de contos de Hemingway, a ressalvar que as suas qualidades sobressaíam apesar do escritor «deixar que a destreza, como a capa de um toureiro, se interponha entre ele e a realidade». A destreza como marca do domínio (emocional) diante de uma situação que parece exceder os quadros da capacidade humana é o que procuram muitas personagens fundamentais da sua obra: Macomber, que a procura recuperar depois de ter fugido cobardamente diante da arrancada de um leão, em A Hora Triunfal de Francis Macomber, ou Paco, o "torero de salon" de A Capital do Mundo (talvez o mais belo conto de Hemingway); a destreza diante da dor do pugilista Jack Brenan, em Cinquenta Mil Dólares, ou do jogador de pôker do hispânico Cayetano, em O Jogador, a Religiosa e A Rádio. A destreza que nem a morte desembainha e desprovê da memória dos homens.