sábado, 15 de dezembro de 2012

PELO GRITO GALGAM ÁRVORES


Salvador Espriu é um poeta catalão que sempre admirei, desde que, adolescente, li A Pele do Touro, e que releio periodicamente. Hoje voltei a fazê-lo e traduzi estes canteiros, fragmentos de vários poemas, que juntei, numa ordenação nova. A edição que me serviu de pano de fundo é a Antologia Lirica da Catedra, uma antologia bilingue editada por José Batlló.

1

Pelo grito galgam árvores.

 
2

Cada manhã contemplo
dois pés de vencido dentro
de sapatos que riem.

 
3

Voavam falcões
sobre a certeza

da minha morte.

 
4

Contar-te o medo
que me dá a chuva nos cristais!

 
5

Navio serenado pelo mármore.

6

A lenta ferida do rio
e o incêndio do céu.

 
7

Derrama-se o sangue pouco a pouco pelos socalcos da rocha
e assusto-me ao sentir-me sonhado, no vento,

pela impassível luz das altas montanhas.

 
8

Como me rodeia o bosque!
Esconde-me das árvores

do meu medo.

 

9

Reminiscência do sândalo,

tão aveludado.

Oh, a saudosa neve

de umas mãos.

 
10

Que é a verdade?
A solidão do homem

e o seu secreto espanto:

só, talvez, este homem,

o teu esconderijo.

O poder sentencia

um rei de mãos atadas.

Longinquamente, na noite externa,

ouvimos como cantam galos.

Alastra um rumor de matracas

 as luzes murcham.

 
11

Que é a verdade?
Quem sabe se tu, talvez tu

ou também tu. Talvez ninguém.

Entretanto ventos e lobos baixam dos ermos

onde reina erguida sobre o gelo

a negra torre, medida, dedo

ilimitado do que é finito,

e a faixa se converte exacta num ponto

e dentro, sepulto, o tempo defunto.

Não há começo, descanso, nem quem

vença o nu espanto do caminho.

Arco escuro, alçado olho da noite:

na clausura do vazio, falho de sentido.

 
12

As palavras são
forcas onde aos poucos

penduro a razão.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

DO CORPO COMO MOEDA ÚNICA

 
a Europa com o ar de quem já está a pensar noutro
 
Em 1997 publiquei no livro Carta de Ventos e Naufrágios este ciclo de poemas que posto em baixo e que agora me parecem sinistramente actuais:


a)

 

Sobrava-me tanto de corpo que perdi

em trocos e arrabaldes o esplendor

 

da solidão. Hoje sustenta-me este magro

pecúlio do silêncio a expulsar os dentes,

 

a moeda única do riso alheio, es-

quecido de que uma só cicatriz

 

é dado seguir às criaturas, de que

a própria libra tem reveses. Es-

 

braseiam agora os ossos sob o aluvião,

vêm como ouriços acenar à boca

 

E estou mais maduro mais rombo.

 

 

 

b)

 

O Euro? Óbulo ainda verde

no ramo que desaperra os melros.

 

O Euro, unidade de transis-

torização do pólen, onerou

 

a confiança no escudo e situou

a terraplanagem: «Coelho

 

bravo do mato? Coalho no prato!»

Igual ao Euro nem Eros, a erva

 

em celibato na boca das urnas.

Stress, stress, o Euro enluva

 

a treva e mastiga holdings

nações trombas de água.

 

 

c)

 

Hoje reconheço no Euro

o grande agrimensor. Decadência

 

da literatura francesa, fraqueza

da divisa americana? Matéria reservada

 

aos espíritas. Por mim, tenho

um armário cheio de ossos a dividir -

 

-me o quarto: de um lado brame

o mar enquanto o outro escuta.

 

Mas do andar de cima vem e de-

calca-se na insónia a Valquiria

 

travestizada - a com Tomáz sintonia

da Marcelo & Gutierrez, Limitada:

 

riso alvar de um país que toma a hérnia

por subsídio. O  Euro não é bem

 

O Mal: sim a térmite, o eucalipto.

 

 

d)

 

Não interessa ao Euro. Que um manto

de penas amortalhe a garoupa-de-pedra,

 

não interessa à finança. A inutilidade

das metáforas corrói as estatísticas, o zelo

 

com que homens extremamente fiáveis

renunciam aos domingos a férias

 

aos altos índices de trufas no sangue.

Apesar do lucro com que a morte mantém

 

estáveis as características do subsolo.

 

 

e)

 

Não reconhecer num cortejo de moscas

os adornos da luxúria e cair sobre

 

o mundo a cor do sono, o arraiar

dos escudos: eis a morte, um pé

 

extraviado no sapato de outro.

Deito-me na relva, os pulmões,

 

coados pelo nevoeiro, cambam.

Há coisas sei cosas choses

 

things que transcendem o câmbio

nominal: um abraço impossível

 

de perdoar, a bebedeira que ilha

as despedidas, a amêndoa amarga.

 

Mas deitado sobre o mais lacunar

dos nevoeiros, com o Marco a especular

 

Março acima, no “isque”, nas salsichas

na ira de Gunter Grass e com a devoluta

 

cabeça a noventa por cento de humidade

vou lá eu adivinhar o produto interno bruto

 

 

f)

 

Não é coisa que se recomende. Algo

no meu rasto alimenta-se do débito

 

dos amigos e do abafo das insónias.

Vai esconder-se no lintel das portas

 

e acorda quando eu passo. Piora

em noites de uma emoção citrina

 

quando a solidão se deita gafosa

com o fôlego de uma concertina

 

que mãos alheias desacreditaram,

trocando nervos por miúdos. E

 

será possível ensinar a um bávaro

que a idade se sacia no derrame

 

embora o Euro reprove o sexo

com turcos centauros e talheres?

 

E não é bonito pendurar um homem

dessangrado no gancho dos versos.

 

 

g)

 

Oito anos suspenso pela indolor

constância do atrito, rendido

 

à mágoa anónima de uma direita

baixa. Oito anos e muito abono

 

às trompas uterinas e mais janelas

friáveis de permeio. Os versos vinham

 

rebentar aos pés e voltavam ao mar,

indivisos. Oito anos com um armário

 

de ossos a dividir-me o quarto. Nada

pode ser mais simples do que esta arte

 

mecânica de morrer sem o repouso

de um chamamento, com o crédito

 

(ainda o Euro não roía até à alma)

muito abaixo das lamejinhas.

 

 

h)

 

E tudo ainda me revolve: este céu

fiel ao afã do tira-olhos, os valores

 

da Bolsa qu' estampam na pele

a insidiosa paz dos herbários,

 

o amor de costas para a teleobjectiva,

o esforço do anão a medir caixões.

 

Ainda tudo me revolve: a mesma

privação o cerco tarde ou nunca

 

do que cala, os bolsos fundos onde

as mãos desabafam refractadas.

 

Ao dólar -  esse cão de três patas

que abocanhou as moscas russas

 

e que fermenta a massa dos síndicos

e dos ministros que nunca se sentam

 

de costas para uma porta - sorve-lo

agora um caixão Made in Japan.

 

Só o amor lembrado (distante como

os bicos de uma tesoura aberta),

 

as afasias, o ciúme - câmbios

que têm no dever incumprido

 

resíduo inevitável - desafogam o lucro.

 

 

i)

 

A alba traz consigo deuses novos

e aposentações. Se a ressaca da noite

 

fez sobrar a cabeça e o corpo juntou

outro nome à livre ventilação dos nervos

 

deixa-te a solidão o atraso e novas

prestações. Aí o melhor é destrançar

 

os pulsos, privá-los. Que sémen

esquírolas e flashes comem

 

à mesa da usura. Cresça o futuro entre

ienes e euros: comem-te as carnes

 

e deixam-te as sobras. Sentemo-nos pois

na perigosa berma do saké, no sulco

 

fundo onde uma cabeça descalcifica.

 

 


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

FALA DO BENITE

                                             JOSE HERNANDÉZ, DESPRENDIMENTO

Morreu o Joaquim Benite
     nunca fomos unha com carne e tivemos até pequenas picardias, mas era um homem que eu respeitava.
As pessoas não calculam que pacóvia era a cidade de Almada, antes dele lá se ter instalado com o grupo de Campolide, e furado, furado, até à construção do Teatro Azul e a edificação de um dos maiores festivais de teatro europeu. Em trinta e tal anos mudou tudo. A ele se deve.
Nunca consegui trabalhar com ele. Tentámos uma revista cultural, que ele produziria e eu editaria, mas apesar das suas promessas, ele não conseguiu evadir-se da tentação de meter-se nas minhas decisões e rompi, antes que o caldo entornasse.
Depois, quis que eu editasse peças de teatro mas nunca chegámos a concretizar nada; ainda ficou entusiasmado com o espectáculo que escrevi com a Maria Velho da Costa sobre o Camilo Castelo Branco, Inferno, mas na tropelia do tempo também se gorou esse projecto. E eu pus-me a colaborar com o S. João e o Ricardo Pais e depois fiz duas peças em Almada com dissidentes dele, e fomo-nos “distanciando”.
Mas sempre colaborei com o Teatro quando me foi solicitado, escrevi textos, assisti a ensaios gerais e fiz reportagens sobre vários espectáculos do grupo, mantive-me disponível quando me era pedido, porque, apesar de alguma incompatibilidade de carácter nos separar, sempre admirei a capacidade dele para puxar a carroça, mesmo quando parecia impossível, e o que ele realizou em três décadas - a muitos títulos excelente.
Em Almada, a terceira cidade do teatro em Portugal (em muitos períodos a segunda, e claramente a primeira durante o Festival anual), como em todos os lugares de alguma efervescência política as coisas extremavam-se: ou se estava com o Benite ou contra ele. Gerações inteiras de actores e agentes culturais cresceram neste braço de ferro. Levou muito tempo até que apareceu uma terceira postura: nim.  Era o meu caso, e de outra gente.
Mas o que importa realçar é que a estratégia do Benite obrigou ao diálogo, a posicionamentos, fez subir exponencialmente as intensidades do debate intelectual na cidade e habituou várias gerações a uma qualidade estética no trabalho teatral que mudou claramente a paisagem intelectual de toda a zona sul.
Temo que as coisas não sejam mais as mesmas.
À Teresa Gafeiro e ao Vitor Gonçalves o meu abraço.

 
Ψ

Ulisses talhou o seu leito matrimonial.
Aí está uma informação que dá mais sentido à fidelidade de Penélope. Nenhum dos pretendentes se propôs ao mesmo e, pelo contrário, nem se importaria de dormir no leito montado e gravado pelo rei de Ítaca. Erro fatal.
Substituir a cama seria o primeiro passo para o substituir na cama. Antes disso estariam sempre sob influência gramatical – como explicaria Nietzsche.       

 
Ψ

Tinha um rabo de elefante para vender.


Ψ

FALA DO BENITE
                                                   para o Vitor
A veia impura: o mais certo
penhor. Não esqueci

os deuses, no plural,

nem as mulheres, no singular.


Dois tumultos sem lisonjas,
que não raro se entrechocam
na via rápida. Graças

à extrema mobilidade com que


se entremeiam. Ah, regada
a Quinta da Bacalhoa! 

Tudo devemos ao que o mundo

nos empresta, devemos ao duplo

 
o que ele em nós divaga;
devemos  à música,

que nos dissolve nas veias

o caricato do ódio. Devemos

 
ao rio o fanatismo da foz.
Não esqueças, à las cinco

en punto! Que a farra

da solidão nos delapide!
                  

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A LOUCURA BRANCA/ JAIME ROCHA

 
Ainda era o Jaime Rocha um escritor a que não se ligava peva quando eu decidi reeditar-lhe A Loucura Branca. Fiz então o prefácio que vai abaixo e que julgava perdido. Aqui fica, doze anos depois, tendo o Rui/o Jaime, entretanto, se alcandorado à atenção que merece:  
A tremenda afasia das sextas. Ter de acabar o posfácio a uma sexta, sem poder gozar a preguiça, as hesitações, a frondosa irresolução dos sábados e domingos, enrodilha à volta do seu âmago perfurado a inteira agonia do corpo. Resolvo tomar um banho de imersão, meio-frio, procurar no choque da temperatura a faísca.
E à primeira submersão da cabeça distrai-me o que ouço: o latido distante de um martelo, um motor não identificável, a vizinha de cima a queixar-se à filha da vizinha de baixo, o chuchar de um bebé no pé de uma boneca de plástico, o matraquear de uns dedos num teclado. A água amplifica os sons, dá-lhes recorte e detalhe – os canos viajam, ubíquos.
E então ocorre-me: a escrita de Jaime Rocha é a de quem anda pelas ruas com a cabeça submersa nos rumores do mundo, nas suas dimensões dúplices, ocultas, cifradas, afastando da sua frente, com gestos de nadador, as cortinas do aparente.
Dizia Goethe: «Não se morre. Apodrece-se em certos lugares, amadurece-se noutros». Se Goethe se referisse à ambivalência das paisagens projectadas num corpo esta sua formulação podia reportar-se àqueles conhecidos e bizarros corpos medievais com rostos errantes, que deixavam de se alojar na cabeça para deambular por outros lugares do corpo, em busca de um lugar onde: homologador.
Vítor, a personagem de A Loucura Branca, está diante da mesma inquietação ulcerada: onde firmar os olhos, no/ do corpo, se a memória – ponte levadiça – não tem um fosso que a salvaguarde da melancolia? Cabe-lhe assim vaguear, sofregamente, no torpor de quem não queria mas foi posto de vigília, mercê de um conjunto de circunstâncias que ilumina as dimensões ocultas, cifradas, do real.
 
Para Aristóteles, a melancolia tinha dois pólos: a loucura e as úlceras. Victor, após o inexplicável suicídio de um amigo fica num estado catapléctico, enfermiço. Vomita. Tumor, anuncia o médico, diante daquela manifesta desobediência do corpo. E onde? Algures, pelo meridiano das úlceras. Esta “erupção” de um “corpo estranho” no corpo que a rotina conformara a um molde amorfo, de uma cartilaginosa repetição formal, fá-lo afrontar pela primeira vez a realidade e reconhecer a sua presença informe, incogniscível. Vítor, durante o repouso a que a doença o obriga, descobre que nunca conheceu verdadeiramente a casa onde habita - «Vítor ia olhando para os objectos com espanto. Nunca tinha dado por um crucifixo no quarto, nem reparara que os reposteiros estavam decorados com formas de árvores de fruto.» -; sequer reconhece a relação espacial entre os objectos que a mobilam, e, pior, que a sutura do seu corpo se desdobra numa sutura óptica, pois à medida que, pela primeira vez, vê as coisas como elas são, espalmadas à sua frente, mais se aproxima de uma fractura ontológica, de uma espécie de terror praesentis que tudo transfigura.
 
Tanto em A Loucura Branca, como no posterior Os Dias de um Excursionista, Jaime Rocha expõe universos de um concretismo diabólico, que fazem resvalar objectos e gestos triviais para a sobrenaturalidade: «Vítor pediu um café, estendeu a mão por cima do balcão, viu os dedos suados que se mexeram uns contra os outros. Nunca antes observara esta posição dos dedos, ora aproximando-se, ora afastando-se, para depois se fecharem e desaparecerem na palma da mão. A chávena do café ficara encostada ao polegar. Num dos dedos tinham nascido cabelos finos e noutro ressaltava uma pequena borbulha arroxeada parecida com um confeite. Pela primeira vez sentia que possuía uma mão, mas não conseguia mexer os dedos. Via-os mexer, sabia que era a sua mão, mas era como se os dedos pertencessem a outro corpo, como se a mão continuasse por um braço artificial que se tivesse colocado atrás de si e se houvesse colado ao seu ombro.»
Ambas as novelas se podem ler como figuras cristalográficas onde – o que é intrínseco às narrativas fantásticas – a potencialidade visionária da mente humana intensifica os recortes patológicos, refractando sombras e mergulhando o mundo das coisas simples em ameaças e suspeitas. Funda-se aqui o drama ou o pasmo das personagens de Jaime Rocha: estão sideradas pelos segredos ou pelo inadmissível que irrompe atrás das portas que tantas e tantas vezes atravessaram, como se debaixo do tapete da realidade houvesse não apenas a sujidade acumulada por descuidadas mulheres-a-dias mas sobretudo o rol de temores e mistérios para que não estávamos aptos, para o qual nunca ficaremos aptos. Diz o narrador, em A Loucura Branca: «Teme-se o que se desconhece, por isso, apesar de ter nascido naquela paisagem o seu temor deveria vir de outros segredos que só agora experimentava».
Em Os Cadernos de Malte Brigge, Rilke dedica meia página à observação do andar de um transeunte a quem domina um estranho tique, que o obriga a dar um saltinho com meia-volta da perna a cada três passadas. Era uma criatura dominada pelo que queria ocultar. Jaime Rocha levanta nas suas novelas uma galeria de personagens cuja característica comum é exactamente a de estarem sempre a inventar cenários para ocultar os seus tiques e obsessões aos olhos dos outros.
O tique de cada um é a sua inconfessável forma de desvio, de resistência ao social, mas o risco de a pouco e pouco o seu carácter se ir sobrepondo ao do seu portador faz sobrevir o pânico da segregação social. Esta contradição tece uma rede de gestos impensados, irracionais, que (n)os conduzem. Apurando a sonda, Jaime Rocha mostra esse manto de inconsciência que recobre os comportamentos e governa o quotidiano: «O barulhos dos pés em cima do oleado enervava-o. Só naquele dia compreendeu a razão porque colocara uns chinelos no começo do corredor, que só serviam para atravessar o oleado»; a consciência dos actos é sempre posterior ao seu acontecer, o que instala uma dimensão oculta por onde se vão disseminando as metástases da “loucura normal”.
Num movimento contrário, Inês, a falsa-cega que a dado momento o salva de ser internado, cede à compulsão de penetrar em casas alheias, não pelo fito de roubar mas à cata de indícios (um extraviado bilhete de cinema, uma conta de supermercado, um bilhete postal) que somados possam recensear os movimentos da verdadeira vida dos locatários – muito diferente da vida que estes relatam, na sua desbordante fantasia. Esta “loucura”, presente nos mais irrelevantes sinais, é delatada por Jaime Rocha com o sentido de humor de um Tati, um humor em surdina, subtil, que realça na ordem do trivial a sua enlouquecida natureza cómica: «Quando o médico saiu é que Victor verificou que era coxo. Ninguém mais dera por isso. A todos pareceu que ele saltava por cima do gato.»; «Vítor ouviu a rapariga com atenção, tinha uns grandes olhos castanhos, um sorriso cândido, com um dente molar dourado que se destacava do resto da dentadura. Reparou que ela ostentava um broche com o feitio de um pão caseiro, que devia ser o emblema da editora».
 
Outro aspecto interessante nos livros de Jaime Rocha é que os comportamentos humanos, apesar de descritos com uma minúcia estonteante, não derivam propriamente de uma mecânica causal -  «A cama já não existe, havia-se partido numa manhã de domingo em que Vítor se sentira mal e vomitara. Adelaide lembra-se desse dia porque um dos filhos tinha atirado um vaso ao chão e uns minutos depois a vizinha tocara à porta a pedir açucar»; padecem antes de uma propensão para se metamorfosearem, adoptando a plasticidade que caracteriza o universo exterior. Tanto A Loucura Branca como Os Dias de Um Excursionista estão impregnados pela ideia de transformação.
Começa pela súbita irrealidade do corpo, que se torna estranho (cf. o segundo excerto citado acima) e acaba pela fusão de objectos exteriores no corpo: um misterioso triângulo de vidro que se funde no corpo de Vítor e lhe provoca uma mutação do seu aparelho perceptivo. É fácil aludirmos a Kafka quando lemos A Loucura Branca mas parece-me mais produtivo remontar a Dante, autor para quem o homem necessitava de uma metamorfose para adquirir noutro mundo uma forma definitiva e eterna.
Para Dante o homem era larva neste mundo, crisálida no outro (sobretudo no Purgatório) e ser completo ou imago no Paraíso. O Inferno correspondia à maldição de estarmos confinados numa identidade, numa memória, reféns de um corpo perecedouro e maldito.
De forma semelhante, em Jaime Rocha o Inferno não está nos outros, como garantia Sartre, mas no pequeno, compulsivo e irrefragável tique que prende cada um à imobilidade e resiste ao fluente devir outro. Porque – e sublinha-se aqui o paradoxo infernal – se por um lado o nosso tique homologa uma forma de resistência privada à alienação no colectivo, por outro sinaliza a nossa impotência para superar as nossas propensões identitárias, o estado larvar.
Só a loucura, electrizada pelo seu naipe de significantes flutuantes, pode então operar a passagem para outra modalidade de ser. Repita-se Goethe: «Não se morre. Apodrece-se em certos lugares, amadurece-se noutros». O ser que evanesce num lugar não encalha no Nada. O Nada deixa de ser negativo para sinalizar unicamente um intervalo entre dois traços, o momento em que uma sincronia entre a realidade exterior e a realidade interior articula uma nova possibilidade, um novo lugar para o despontar do rosto errante. É branca essa loucura porque, nesse instante em que o novo se entroniza, abolindo todas as anteriores hierarquias e dispositivos da percepção, a sua possibilidade abarca o espectro inteiro.
Vítor, que ao princípio vê um caranguejo agonizante na praia, escolhe no fim penetrar no mar, como quem despe uma carapaça exterior (esse esqueleto de crisálida) para se fundir numa totalidade que o engolfa. Ali, só uma variável o separa do crustáceo.
E se isso é um bem ou um mal esta água transparente que (na banheira) me cobre e se infiltra nos furos do meu corpo, desatando as forças, nada me diz. Mas sinto - ironia – que o corpo se apega ainda à caução do medo, às rochas. Levanto-me, sento-me à mesa, retomo o posfácio: «a escrita de Jaime Rocha é a de quem anda pelas ruas com a cabeça submersa nos rumores do mundo, nas suas dimensões dúplices, ocultas, cifradas, afastando da sua frente, com gestos de nadador, as cortinas da aparência. É a escrita de quem dá conta de que os objectos nos lêem, etc... »
 
 
 

domingo, 2 de dezembro de 2012

A NOITE É-LHE PROPÍCIA

pierre soulages
 
«O físico Szilard anuncia um dia ao seu amigo Hans Bethe que havia decidido ter um diário.
- Eu não tenho a intenção de o publicar; vou simplesmente catalogar os factos para que Deus seja informado sobre eles.
- Tu não crês que Deus conhece os factos? – pergunta-lhe Bethe.
- Sim – diz Szilard. Ele conhece os factos, mas ele não conhece esta versão dos factos.»
É Pierre Jacob quem conta, no seu livro L’Empirisme Logique. E é notável este diálogo porque nos dá uma dimensão de Deus a quem se concede respeito e fidelidade mas a quem o homem enriquece acrescentando-lhe algo, uma pequena tecla para que ele possa pensar, ouvir e ver mais; sendo essa a tarefa do homem: ser um dispositivo complementar.
Esta anedota nem nega Deus nem o coloca numa esfera transcendente, intangível, e absconsa.
O olhar de Deus enriquece-se no encontro com o homem.
E isto lembra-me uma das exigências apontadas pelo pedagogo López Quintás para que se efectue um encontro.
Um encontro, diz aquele, não é uma mera proximidade, um encontro exige a compartilha de valores elevados:
«Vejam só, quando você e eu nos dirigimos rumo a algo valioso, unimo-nos entre nós. Para unir-se, o mais importante é fazer o bem em comum, compartilhar algo. Dizia Saint-Exupéry, o autor d’O Pequeno Príncipe, numa outra obra, Terra dos Homens: amar-se não é olhar um para o outro; é olhar juntos na mesma direcção. E eu comento, amar não é tanto um olhar para o outro – pelo prazer de olhar a pessoa amada – mas sim consagrar-se a algo valioso. Quando uma pessoa e outra realizam em comum algo valioso, isto é o que cimenta a união». 
O que vale para o amor, julgo similar ao encontro com Deus: nesse encaixe, Deus e o homem olham juntos em que direcção, compartilham o quê? Qual é o terceiro da relação?
Ψ
Quatro poemas de Jose Agustin Goytisolo, que traduzi em tempos:

A NOITE É-LHE PROPÍCIA

Foi tudo muito simples:
aconteceu que as mãos
                                     que ela amava
tomaram de surpresa
a sua pele e os seus cabelos;
                                     que a língua
descobriu o seu deleite.
Ah, deter o tempo!
                               Ainda que a história      
vá no seu início
e ela saiba que a noite
                                    lhe é propícia
teme que com a alba
venha uma sede
                          igual à de sempre.
Agora, o amor invade-a
uma vez mais. Ó tu,
                                 que bebes!
Apieda-te dela
vê como tem seca a garganta
                                   nem falar pode.
 E escuta a sua condoída
respiração; a agonia
                              de um êxtase
e o rogo: não te vás
não te vás. Façamos pois
                              uma saúde!
 
 
 
Quando a água debaixo do chuveiro
a resgatou ao aturdimento
de olhos fechados crio ver
milhares de gotas apressadas
a salpicar-lhe o manto da infância
como se fosse uma tempestade
de algum longínquo veraneio.
Na estância que os conduz
pelos caminhos da noite
pede “seca-me os cabelos”
como lhe faziam em menina.
Depois vai à janela e encara
de frente o céu assombrado:
estas horas passarão num ápice
chegará o dia e o adeus
e só ficará a ausência.
O frio roça a sua pele húmida.
 
 

O SONO VENCEU-A POR UNS MINUTOS

 
Quem seria por Deus quem era
aquele homem meio abstraído
que olhava a lua cúmplice
o copo sempre atestado
um cigarro caído entre os lábios
e nu como o demónio?
O sono venceu-a por uns minutos
mas ele não se moveu. Observa
o amante, o conhecido de poucas horas,
se bem que ele sim parecia sabê-la de cor
apesar de se terem acabado de encontrar.
Olha o relógio. Pensa na sua casa:
na quietude que a mantém
enquanto ela... patetices!
Com assombro constata agora
que não sente pena ou sobressalto.
Levanta-se para beber:
ele vai ouvi-la e virá ao seu lado
para voltar a estremecê-la.
 

NÃO HÁ RETORNO

 Já terminou o domínio
                                da noite
e um ar macilento
                            surde
detrás dos cristais.
                               Vestiu-se:
recolhidas as suas coisas
                               enrola agora
o último cigarro.
                              Depois, em pontas
dirige-se para a porta:
                                não se vira
ela dormita e contemplá-la
                                           dói.
O seu corpo de luz é
                              desfechado na luz,
e ele esgueira-se tenso:
                                não há retorno,
adivinha que a morte
                                 lhe é propícia,
que há de fundir-se na sombra
                                 mais profunda
e vária. E que nada lhe aliviará
                                a derrota.
 
Ψ
 
À PORTA DOS CORREIOS
À porta dos correios recebi o telegrama de Cupido.
O que senti assim que a vi com uma ninhada de filhos
a arrematar os bordos da saia e que a consciência
me bolçou: pertence sempre a outro, a mulher da nossa vida.
Limitámo-nos a trocar aqueles beijos molhados
que o Kafka enviava por carta a Milena,
carícias inexistentes para quem desconhece
ser o desejo uma locomotiva
adejando em piloto automático.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CRÓNICA DA RUA DO BAGAMOIO, EX-RUA ARAÚJO

CRÓNICA DA RUA DO BAGAMOIO, EX-RUA ARAÚJO
 
A preta perneta tinha uma boceta
mais rapace que o canal de Madagáscar
e era a imodéstia em pessoa, pintava
o carioca, uma cabra pespeneta
 
ou pior, jurava, uma pseudo-freira
mais inflamável que um fogareiro.
Bastava o mais pequeno cometa
acercar-se do seu lascivo salão
 
de varandas serpenteantes, a despeito
do matinal esconjuro da missa
e do péssimo jeito com que a meio
a imagem da madre superior a desligava
 
do furor da piça. Fora-lhe a vida
conduzida por Deus, lá em Manica,
até que uma mina fabricada por ateus
lhe roubou a perna. Deu então a preta
 
perneta um biqueiro na fé e nos Maristas
para abraçar a culpa eterna.
Felizmente que Deus, amenizava o carioca,
não liga a cadelas perfeccionistas.