quarta-feira, 30 de abril de 2014

DE LOBO PARA LOBO

                                                            foto de Luís Cardoso

Ocorreu ontem o lançamento de dois livros meus, com apresentação do texto do Luís Carlos Patraquim. Mas como ainda não tenho o belíssimo texto com que o Patraquim me honrou, aqui vou deixando o meu e o poema que a seguir foi lido:


Às vezes perguntam-me porque escrevo e costumo dizer que o faço porque em minha casa havia muitos lápis. A minha tia surda, que connosco morava, e me levava à missa, introduzindo-me logo ali nos mistérios de distribuição da fé, trabalhava na minha meninice no armazém de uma grande papelaria e de vez em quando, com a inocência de quem não ouve as censuras alheias, fazia uns desvios supimpas de uns lápis e de uns cadernos para o seu Toninho, que era eu.
Era muito difícil falar com ela porque além de surda ela como diria o Mia encompridava as poucas palavras que articulava, pelo que o seu carinho manifestava-se em abraços calosos e em plumbaginas (- um extraordinário sinónimo para lápis). Centenas. Todas por afiar.
Um dia, achando-me finalmente apto para fazer-lhe a pergunta que me assaltava as meninges, fui às três gavetas da escrivaninha que se abarrotavam de grafitas, tirei um e perguntei: para que serve isto? E a minha tia, sem uma palavra de permeio, sacou de um canivete que tinha na mala e descascou-me ali o lápis, isto é afiou-o.
Soube depois que a minha tia também fazia colecção de canivetes, o que me empurraria para outras derivas, que não vêm agora ao caso. Para o que interessa, a minha tia foi buscar um caderno a uma outra gaveta da escrivaninha, e rabiscou numa página um peixe que depois apagaria para desenhar um burro, cujas linhas dorsais  apagaria também, parcialmente, para desenhar nesses intervalos duas bossas, transformando o burro naquilo que ela mesmo designou: um ca-ca-meeelo, pois, como já disse, ela encompridava as palavras.
Esta capacidade de com um lápis e uma borracha transformar uma figura noutra ou encandear as palavras umas nas noutras, como pescadinhas de rabo na boca, encantou-me. E por isso dispus-me a aprender a ler um bocadinho mais cedo que as outras crianças para ver como na página podia transformar a palavra mar em amêndoa amarga. Sem saber tinha descoberto que as palavras são como as matrioskas, uma boneca contendo outra, e inaugurei o método de escavar na linguagem.
Esta faculdade que os lápis tinham de poder escrever outra coisa na mesma linha que acabara de ser apagada estendi-a às paredes onde passei a renomear as coisas. Numa parede cega escrevia janela, ou sobre a tinta azul bebé do meu quarto taxei amarelo, e passei a chamar borboleta preta ao choco que me obriagvam a comer, até o meu pai me dar um grande carolo e ordenar, pára lá com esses jogos parvos.
Os jogos parvos passaram à clandestinidade e descobri então que as palavras
despertavam acções, como os beijos das raparigas, ou até promessas nupciais, desde que eu adornasse as frases com brilhos espampanantes. Foi a minha primeira noção de estilo e este foi um período de muitas promessas e um período muito feliz.
De tal modo, que me fui inteirando que, para além do seu efeito prático, me interessavam tanto as palavras como as saias das raparigas, tendo intuitivamente deduzido aí que o meu futuro me destinava a ser um intelectual, visto que outros ânimos me entusiasmavam tanto ou mais do que o sexo.
Mais tarde descobri que as palavras, e dado que sou ateu, me proporcionavam um território de extrema liberdade mas sulcado por uma espécie de saudade de Deus, que é uma forma de rastrear através da diferença e do múltiplo uma relação espiritual que nos funde.  Porque não devemos limitar-nos a ser só seres históricos e seres materiais mas devemos sondar algo da natureza da luz, território onde acontece essa troca de olhares que nos liga ao mundo e aos outros e faz de nós seres de fidelidades. A esta rede de olhares que nos sustenta e religa chamou o filósofo Merleau-Ponty «a carne do mundo», território onde me sinto em casa.
Eis porque me considero um toxicodepente da palavra.
Fiquei pior quando percebi que o grego Heráclito sustentava que "à alma pertence uma expressão que acresce a si mesma".
Que raio queria dizer o magano, interrogava-me. Bebi muitos cafés e alguns suplementos a matutar no grego. Achei a resposta já trintão no Oriente, na Índia, pois lá ensina-se que o espaço mental de cada um é elástico, é como um balão que se enche e cresce consoante o nosso fôlego. E que pode mirrar, se o nosso sentido de responsabilidade sobre os meios que arquitectam o nosso espaço mental, a palavra e o silêncio, forem nulos.
Ou seja, compreendi nessa viagem que a alma é como a caixa preta dos aviões um lugar que pode estar extremamente vago ou cheinho de vozes e de partilhas, uma memória que pode anular-se ou pode dilatar-se e que afinal a tal expressão da alma que acresce a si mesma traduz-se numa fórmula simples: a alma não é uma coisa que se tenha mas que se ganha.
Antes de se ganhar é apenas um vestígio, uma possibilidade – daí que as igrejas se preocupem tanto com o baptismo.
Exultava com esta minha descoberta quando a vi ilustrada num romance da Agustina Bessa Luís, O Bicho da Terra.
Fiquei furioso porque ela me tinha subtraído os direitos de autor, mas senti-me em convergência e em companhia. E aí deixei de querer ser original à força.
Desde que quis deixar de ser original à força sou vítima duma espécie de rio subterrâneo que me faz escrever o dobro.
É de tal forma que ando já à cata de algumas ideias originais que estanquem este derrame. Porque quando tenho ideias originais só leio e estudo, não escrevo uma linha. Sento-me e sou gratamente aturdido, como a galinha que vê a manhã nascer e deixa para o estulto do galo o canto.
Enquanto as ideias originais não me chegam aí vos deixo dois livros. Um livro de poesia, em sonetos, imagine-se, é certo que nem todos engravatados, mas que não pretendem ter quinze linhas.
Porquê Bagagem não Reclamada? É simples, como dizia o Octavio Paz, a poesia é o fruto da colaboração ou do choque entre a metade obscura e a metade lúcida do homem, e uma parte substancial destes poemas eu não os programei escrever, eles impuseram-se ou desceram sobre mim como uma dádiva. Eu não os reclamei, portanto.
Para se perceber o processo vou falar-vos do último poema que fiz um poema de amor.
Eram seis da manhã e passava os olhos por uma antologia de poemas portugueses do século XX sobre o Oriente, que tinha recebido de Portugal. E aí redescobri o bulbul, uma ave canora da Índia, cujo nome tem ressonâncias fonéticas fantásticas. No mesmo exactíssimo momento ouço que no terraço é despejado um balde de água. A junção do bulbul com o barulho do balde despejou-me de imediato este poema de amor:


E NA AMURADA CANTA O BULBUL

Alguém despeja um balde de água no terraço.
Quem, cansado do sol, pode querer  
manhã dentro os pés frescos como juncos?
Abnegadamente teu, hesito – para quê
arejá-los, se me esbraseia o resto
do corpo ao teu contacto? Quem
acrescenta assim a amenidade de um jorro
ao orvalho que a alba ainda escolta?
Eu encosto os meus pés aos dela -
valoriza sim, o meu amor, o pequeno
istmo que faltava carbonizar
no seu fogo. Um balde despeja um coração
abúlico no chão frio do terraço,
e na amurada canta o bulbul.

Os Elevadores… é um livro de pequenos ensaios que afloram a literatura mas é sobretudo um livro de admirações, sobre alguma poesia alheia. E onde há bastante poesia moçambicana mas sempre num diálogo, num reenvio, à poesia do mundo, posta a condição que descobri: somos em arquipélago e a identidade isolada é quase sempre o trampolim para os maiores disparates.
Mesmo que seja atractiva eu sei, e eu a busque apaixonadamente para finalmente deixar de escrever, sentado sobre a tremenda originalidade do meu silêncio. Desejem-me sorte.



Lido o texto a actriz Josefina Massango declamou o seguinte poema inédito:


DE LOBO PARA LOBO

Há dois lobos que lutam
no coração de todos os homens.
                   Um deles é o amor.

Olho a tua nudez (a mão
precipita o musgo
onde a fonte parecia
                           áfona)
e pergunto-me:
que terei eu feito
para merecer esta feliz morada
                   do esquecimento?

O coração tem dois lobos
que se disputam.
Um deles é o amor.

               Anda,
devolve-me ao sangue
que todos vertemos,
restitui-me ao cunho
das palavras em desuso,
                como desejo
ou néon.
Se quiseres quebrar
o velório,
eu alinho.

Saudades de amoras.

Saudades de ler Cortázar na cama,
a dois, sublinhando
           “dói negar uma colher,
negar uma porta,
negar tudo o que o hábito seduz
            com suavidade satisfatória,
e não há nada de mal em que as coisas
nos não vejam mudar”.

Dói a saudade de surpreender
      na tua mão
      o espesso corrimento
                  e de que um dente
bata no meu
                  - praguejando
contra as línguas mortas.

Tudo o mais é a poça
           onde estrelas se inquinam
coalhadas pelos hábitos
      que engessam
                          nos sonhos
barcas e barcas de mortos.

Porém amanhece,
tudo tem a precisão do que amanhece,

a sombra é agora o lobo
necessário, aquele que no seu coração
entrelaçará
     o teu passo,
                 a claudicação
                           do teu salto
no piso arrombado da cidade
       sob o suculento fogo das acácias,

enquanto
nos teus olhos se deslaçará o passado,
              vagas só as do mar.

Não há aqui sentimentos à deriva –

assim que sorris
       sei que a tua função
                 é tornar-me imortal,
dessa imortalidade que se mede a pulso
                            nas torneiras
e se auto-intitula:
“A que mantém a água na boca!”

Sem tréguas, quem dança?
                 Talvez os cubanos.
E os homens de ocupação rara,
como os toureiros.

E o sol que quando pranteia
              faz vicejar o pólen.

              E as tuas ancas
no jogo do arame
quando a noite nos perde finalmente
para lá do último candeeiro
e a si mesmo se perde
na escarpa do amor

enquanto dois lobos
             se lambem, convalescentes.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

TEOREMAS POÉTICOS

matta
 
 Vários Teoremas Poéticos de Basarab Nicolescu, físico quântico e “apóstolo” do Terceiro Secretamente Incluído. As traduções são minhas.
 
Estou de acordo com Raymond Ledruc: não pode despertar qualquer sentido sem o encontro prévio entre uma presença e uma ausência. É a relação contraditória presença-ausência que engendra o sentido. Sem a presença interior não pode despontar o sentido. A experiência interior revela a presença da ausência.
 
Os poetas são os físicos do sentido. Eles tomam as palavras por instrumento de investigação do que ocorre para lá para das palavras – natureza universal de qual o universo físico não passa de uma das facetas.
 
Uma das significações possíveis da alquimia: transformar a estrutura binária do contrasenso numa estrutura ternária do sentido.
 
A transdisciplinariedade é uma tentativa para reencontrar um equilíbrio entre o saber e o ser.
 
No culminar da especialização: a incompetência. As diferentes disciplinas não são portas para o desconhecido, mas antes territórios ciosamente guardados. O viajante do desconhecido deve devotar-se ao estreito caminho que não pertence a nenhum desses territórios. Sob a ameaça dos guardiões de todos esses territórios. 
 
O imaginário quântico é a circulação energética entre dois ou mais níveis de Realidade cerzidos pela descontinuidade. A inspiração poética é a percepção da respiração solidária entre diferentes níveis da realidade.
 
A matéria poética é a energia da unidade cósmica. Assim, a mais humilde poesia tem uma dimensão cósmica. Como o grão de areia, que contém o universo todo inteiro.
 
Tudo na vida é relação de forças. Salvo a poesia, que é a força das proporções.
 
Uma palavra não é feita para ser dita, mas para ser pensada, sentida e olhada. Como quem diz, uma palavra dita é uma palavra maldita.
 
A estupidez está para lá do bem e do mal: ela procura fazer-nos crer na existência de um só nível da Realidade. Há uma grande diferença entre a estupidez e a inteligência: a estupidez é terrestre enquanto a inteligência é universal.
 
A confusão entre o mal e a estupidez é perniciosa: o mal não é senão uma das múltiplas faces da estupidez.
 
A Natureza é um pré-texto. E a livro da Natureza não se lê, sobretudo escreve-se.
 
O amor é uma ressonância energética. É por isso que há tantos amores como qualidades xde energia.
 
Os três infinitos – o infinitamente grande, o infinitamente pequenio e o infinitamente consciente - definem o sistema de referência da Natureza.
 
Pela sua própria natureza, o mental não pode compreender a linguagem do terceiro secretamente incluído. É por isso que ele oproclama a sua inexistência.
 
A lógica do terceiro excluído está adaptada à descrição de um só nível da Realidade. Ela é então necessária e útil: ela faz-nos sobreviver. Mas ao mesmo tempo impede-nos de viver.
 
O vazio é pleno, o pleno é vazio. Entre os dois – o nosso olhar.
 
 

quinta-feira, 20 de março de 2014

AS FLORES DO NAÚFRAGO

                                                                       hokusai


Acabei um livro de poesia, As Flores do Náufrago, que reúne algum do material que fui escrevendo em 2013/2014, e resolvi fechar a loja. Não quero dizer que dentro de portas não continue a ebulição, não estará é exposta na montra. E por isso se diz na nota final:
«Deixo na gaveta dois livros inéditos, que, curiosamente, são os mais ambiciosos e os que mais estimo – As Feridas de Heitor, de 2008, e Epílogo Sobre a Morte dos Oceanos, de 2010, e estão na gaveta em trabalhos de plaina e lima e a ver se resistem à traça (se não, nada se perdeu) –, e um livro no prelo, Harpo Marx na Cova dos Leões, que sairá pela Abysmo.
Este, As Flores do Naúfrago, é o último livro de poesia que organizarei,  pelo menos no próximo lustro. 
Agora chegou o momento da prosa que, como eu a entendo, tem afluentes poéticos que se farta. A poesia fica muito bem entregue – há gente magnífica e novas hidrografias a romper.
Se deste meu golpe de rins nada resultar, sempre podemos dizer como o Nemésio: “A corça virou-lhe as ancas/ E tudo o mais é destino”.»

Aqui deixo os poemas com que abro o primeiro capítulo e o segundo e o poema que fecha o livro:

de ERRATAS

onde se lê
CREIA QUEM LÊ, DIZIA:

Este verso não garante escolta,
tão pouco é a pousada espanhola
onde os hóspedes trocam por mortadela
a chuva que traziam na bagagem.

Nesta quadra, ervada pela profunda
desconfiança que o zen tem
pela palavra, o bolor
alastra, canino, rectifica.

Este terceto não é de Dante
nem nele um albatroz manco, toc
toc, se alapa na retina de Baudelaire.

Pobre soneto temperado no gume
da pequena espada wakisahi,
prenhe na hemorragia dos bambus.

leia-se:
CORPOS DE VERÃO, CORVOS DE INVERNO

A brecha entre as nuvens,
duas brechas entre nuvens,
o azul que flui pleno
como um cetáceo,

uma nuvem isolada
e a esgarçar-se,
mais grisalha
que uma lágrima:

tantos adereços que o tempo
mobiliza para ser.

Corpos de verão,
corvos de inverno:
só o ar admite a corporeidade.

Entretanto, o pior de tudo
é não habitar
num mundo físico.



de
OS DETRITOS DE POMPEIA

Janela roubada, a minha vida -
eu que em miúdo assoava
o nariz aos navios. Agora,

imagina-te empenhado num duelo
de esgrima. Se no tinir das espadas
te assalta a dúvida, Terei regado
esta manhã as begónias, a resposta
não chegará a tempo de impedir
o ferro de te atravessar as tripas.

O bosque alça-se em negro fundo,
a meio perla-se o prado -
enquanto a minha cabeça
se descasca para dentro.

Importa saber se mantens intacta,
ferina e imediata, a confiança na intuição.
Tantas coisas que te atormentam são
a montanha russa com que os teus fantasmas
se divertem, os que gratos
pela insistência com que familiarizas
no mundo a tua irrealidade, te cedem 
fotogramas com os detritos 
de Pompeia - que nunca viste.

Se bem que inestimáveis aras
do desejo, para mim, para ti, 
estes calendários têm o ar 
dum tempo que já passou.
Nem pestanejo, meto-os no lixo.

Como estes versos que aqui deixo.





SHORT LIST?
                     
para o Cotrim, o Valério, a Inês, a Joana, a Teresa e o Helder Macedo, pelas razões que eles conhecem

Sentir o cansaço nos ossos:
a linha divisória,
o momento de passar à sabotagem
e de me abster de aliviar
Deus do tédio.
Novo rubor e desígnio.

Julgar que a serenidade busca os clamores
da «luz absoluta» é uma tola ideia fixa
que tem de ser banida,
como a de cavalgar o crocodilo.
Preferia cavalgar o Shakespeare,
que mongo cavalga a besta
para demonstrar que tipo de sangue
lhe corre nas veias e um rudimento
de magia lhe veda  os furos?

Quando muito, supor que em cada fissura
da realidade nasce um lírio,
a culminância do limo,
esse sim, pioneiro,
e que o negativo de Deus
é unicamente outro Deus em gestação.

Abdiquei de ser um homem de armas
por odiar os colectivos,
sou mais da dança, da espontaneidade
sem remoto controle, a sós
ou com a breve nata
do amor batida em castelo.

Escorregar no limo
e bater com as costas na pedra
é que promete o lírio.
Um rio com um kilt escocês.
Fino como este copo que me entranha.








quarta-feira, 5 de março de 2014

REFLEXÃO SOBRE DEUS NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


 
Deus é todo o imortal que se desenfia

a pontapé nestas missangas compradas,

na ilha que foi nossa e dossel dos mitos,

 
imortal que se suspendeu pelo calcanhar
do tempo, cativo como Aquiles de narração
que o diga. A escala irracional do Hospital

 
da ilha, colunatas e pavilhões neoclássicos
onde hoje só lagartos e musgo remoem

contristados os arrazoados de Job sobre

 
os não-sentidos de lamentar qualquer dor,
é um modelo da loucura de conceber por Arquitecto
um mui grão apreciador de babas de caracol.

 
Deus em cujo selvagem apetite
se engendrou o esquecimento

de ser incriado – magnífica

 
a moça que me acena, mas sem ‘msuri

que lhe colaria ao rosto as máscaras

duma beleza que não esmorece –

 
é poderoso ainda – sucede serem

contagiantes os narradores – não obstante

lhe falecer o gosto de ser inominável.

 
(Parentesis para nos impressionar a lisura

da ilha, passada a ferro, como se

fossem palmeiras os túmidos pêlos

 
púbicos de um corpo na horizontal.

Percebe-se que tenha conhecido aqui

Bocage os descaminhos da sua sombra.)

 
A nenhum Deus que persista em sê-lo

– irá para que Islândia a carta que esta ruiva
´
exibe, na sua quase nudez, na praia da Fortaleza? –

 
galvaniza a idolatria de se adorar um nome

ou não fora superior na salamandra

a necessidade de mergulhar no fogo

 
à de escolher um avatar. O drama

é, inelutável, a invariável solidão –

a de não ter fiéis e permanecer mudo

 
o chamamento que foi pressentido,

ou a de ter finalmente um quarto medieval,

cama românica, e nenhuma dama disposta

 
a devotar-nos a sua vassalagem;

drama é o labirinto a que não se descortina

fundo, labirinto de uma atracção velhaca

 
porque não dá esperança, como esta ilha

que o Lowry escolheria para plateau

de uma sequela de Debaixo do Vulcão,

 
embora mantenha incólume o mistério

duma vitalidade que não foi refractada

pelo peso da História, sendo a sua decadência

 
tão saborosa como o siri-siri,
algas que não desmereciam ser

o último manjar dum condenado. Deus



é o labirinto anterior à sua designação,

que só sabe conjugar-se no presente, como a trama

da Penélope macua que tem lulas na vagina

 
que se fazem e desfazem, engenhosa

lábia e só igual à dos efebos que se oferecem

como guias, em visitas às despovoadas ilhotas

 
adjacentes e aos prazeres do sexo invisível

a olhares pios, gregos e troianos, que não dançam

como Zorba. E quer Deus, neste enredo

 
de mikuti, que o canto seja coral, energia

amplificada, radiante, que lhe permite sorver

a melancolia de haver sido

 
aquele que suprime o Tempo

- ridícula a estátua verde de Camões,

num aperaltamento de musas tangidas

 
pla gonorreia, e que será certamente posterior

aos versos em que Sena pôs o vate

a defecar sobre as moralidades vindouras

 
e sobre o Índico que tudo lava,
da garoupa vermelha à unha suja

com que esta mulher nos serve o pão.


 
Nesta ilha sente-se que Deus é um fantasma

que nos vendeu ao pataco de uma

estória, pela alusão de uma melodia

 
em cujo refrão se vendem os baús de Venús.

Os fortes ventos das entranhas da terra

(bom-dia Kafka), não esqueceram a ilha,

 
pelo menos neste dia de um bafo

espesso e quente que não oferece evasão,

isentando qualquer gotejar da culpa.

 
Ah sim, aqui aceita-se o terror da existência,
cambiada em carne a esmo, e lenta como a desova

das tartarugas. E no interim insista-se

 
na fidelidade com que Deus nos faz chegar

como objects trouées e nos muda em trouvés,

objectos de desejo e partilha, corações

 
dum ápice bifurcados, a quem o medo, o próprio,

ilude mas singulariza: algoritmos, aprovaria

um matemático. E nesse transe de auxiliar

 
Deus a voltar a agir como o intratável pirata

há que premir, a meio da sua presença,

o interruptor do tangível, de forma

 
a que um curto-circuito o desperte,

ou nos desperte – gemidos de cobre

sob uma fina filigrana em ouro.

 
Beatiful, a Semente, a recepcionista

do hotel: que poeta, antes de mim,

a nomeou assim, mesmo antes de saber

 
se tem lulas? Fora, é nítido – ainda
que esteja a ser generoso – que Deus lateja

nas figueiras de benguela, centenas,

 
com as suas barbas de Leviatã a confiar-nos

que não passamos de hóspedes em terra.

Ah, ser-com é tudo o que se pede

 
nesta ilha: que, realinhado o tear da História,

na ruptura da sintaxe, revelemos uma inédita

conjectura intrigante ou apenas o desejo

 
de sermos mais do aquilo que somos

capazes de vender. Como Deus, suponho,

que anseia sempre por cerejas

 
onde não as fez brotar, e com isso reaproxima
as regiões distantes. Sim, Tu, meu mestre,

meu senhor e guia, vê como renasce no teu âmago

 
a necessidade de despedir-nos. E a Semente

à espera, e eu mula, isto é, nada –

ou seja, nauta do nada que é tudo.


NOTA
Lulas: assim chamam as mulheres macuas aos pequenos e grandes lábios vaginais que, ritualmente, puxam e deformam, dando uma forma diferente à sua genitália

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PORTRAIT OF A ROMANTIC

Portrait of a Romantic, foto de Alice W R


Shirley Temple, a actriz que soube retirar-se
antes de se tornar uma criança malsã
e de Hollywood a clonar como a febre dos fenos,
feneceu hoje, fanada pedra de isqueiro.
Lembro-me de a ver sapatear a preto
e branco e dos olhos envidraçados
da minha mãe, assim que no pequeno ecrã
acudiam os seus cachos de caracóis
que para dona Isabel seriam dourados.
Ele via na pequena estrela americana a infância
que lhe foi roubada, e hoje sobre a campa
de minha mãe florescerão os miosótis.
Vou compondo este poema estrada fora
enquanto a tempestade me segue há duas horas
com maligna perseverança e o coração
se me aclimata, diferido, melancólico.
As colunas, depois dum festival de didjeridu,
que me fez vibrar no sangue aborígena
a pulsação das estrelas, derramam agora
Portrait of a romantic, de John Surman.
O passado é o futuro que me esculpe,
na estrada que as sombras do presente incandescem.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O COELHO EM VISITA


Nem sei se vos diga se vos conte – o melhor é fazer figas e esperar que o tempo passe, suado como  o dorso do cavalo que viu o d. José ao fundo. Mas a vidinha está assim, a época está assim: conformada.
Com um braço inerte e caído, enquanto o outro punheteia o espectro das utopias que faliram. Daí que a estupidez avance e a sua irrelevância também.
O fito era o homenagear o Mandela e os poderes da terra mandaram fazer uma estátua de bronze de nove metros em dois dias. E ainda por cima, prepotentes, avisaram os autores que não a podiam assinar.
Eles comeram e calaram, que o dinheirinho faz falta a todos. Fizeram um mamarracho que só tem equivalente no naufrágio de Trafalgar.
E como a sua vaidade ficou chamuscada com a impossibilidade de assinar mediocridade tão distinta, resolveram vingar-se. Ou antes, ser traquinas. E esculpiram um coelho no pavilhão da orelha esquerda (ou direita) da estátua.



Que só muitos dias depois da inauguração foi descoberto. A oito metros e meio de altura. Suponho que algum miúdo com mais humor deixou no sopé da estátua um saco com cenouras. Ou talvez porque um desses detectives que com pundonor fotografam os adúlteros em linguados e ademanes deu conta de que num canto obscuro do enquadramento havia um coelho em visita.
O certo é que o intruso foi descoberto e agora as autoridades estão em brasa e querem-no dali para fora. Vai um charivari lá para as bandas de Boers e Zulus, Lda.
O coelho manhoso (como o das fábulas africanas, embora aqui seja mais a lebre enquanto o putativo roedor da polémica infiltrada na orelha do ícone tenha um ar mais doméstico e terno, de coelho)... – é até um quiduxo!
Que falta de tomatada!
Compare-se a coisa com o herético caracol, na Anunciação de Francesco del Cossa (1470-72). É um pormenor arrepiante, inesperado, espetado na carne do sagrado como uma verruga . O anjo anuncia a Maria Aquilo que não autoriza diferimento – a sua prenhez abençoada – e que supostamente mudará o mundo, e indiferente a esta ordem dee uma Necessidade Inelutável o caracol avança, absorto na sua baba terrena, nas tintas para a arquitectura da conveniência. É um argueiro no olho beato, que só vê coisinha santa.


Nesta altura em que as ofensas a Deus eram tomadas a sério, este era realmente um atrevimento do artista, uma blasfémia.
Agora, os traquinas fazem coelhos.

Morremos do amontoado da irrelevância que nos capa. Mas, ah!, como somos paródicos!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PROCURA-SE FOTÓGRAFO E SETE NOTAS PARA DIÁLOGO

                                                                   mary bauermeister


BALADA DO ADÚLTERO


Seja o amor um pomar reservado
e meigo, embora transigente

no ornato: pomo com bicho,

reinadia malandrice, afluentes

que à letra do leito angular
trazem novas, prósperas, imagens
e o sismo que adoça a pontualidade.

Que o amor se alce

e, animal com mais pêlo
na venta que simetria, não desatenda

a ilusão de cirúrgicos desvios,

trocar portas por janelas

- uma deleitosa intercessão.
E porque o amor não invalida

o calafrio, e sede há

de sermos vários, de antemão

injecte no miolo da confiança o perdão
e um por outro verso desmaiado,

à ombreira da decisão de tornar

a casa, de coda entre as pernas.


A EMPREGADA DO BAR

Tem as unhas violeta

que terá o candelabro

que das suas lágrimas

se esqueceu.

As sobrancelhas estão ao osso.
Lábios espetados em vê,
detonados

em duas narinas

de longo curso.

Nos seus seios a réstia
do mais intratável pagão
se crucificaria em Cristo.

Com um guardanapo limpa
a transpiração que lhe lajeia

os braços.

Fala com se anoitecesse
papoilas que nunca viu.

Chama-se Esperança.

Não é?


ABC DA POLIGAMIA

“falou que hoje não conseguiu
o dinheiro para me importar

e que por isso me exportava

pra casa de minha mãe...”

 Ouvi à desfeiteada, curioso
por conhecer o génio dos afectos

que assim gere a economia dos (g)la(cia)res

- deuses, como é sabido, em deflacção.




- Não bebe, mas já vem com ela nos cornos.



- Disse-lhe sempre que era bela,  o que era verdade, mas nunca que a amei, o que não era mentira... não sei onde ela me achou falso.


- Era tímida, como se tivesse vergonha por não ter segredos

- Aquele? É tipo papagaio sem freio. Todos os homens papagueiam um bocado mas estar todo o dia com uma gralha dá taquicardia...

- A moléstia é sempre pouca quando é mole.
- Moléstia?

- A arrelia que é mole como a merda...

- Não te percebo...

- Isso é pior que a nhanha, é acostumação...


- Só vivi a vida que foi intencional...


- Quem não chora não mama!
Atira-lhe ele, que chega ao pé dela na esplanada.

- Quem não mama, não chora...

Replica ela, ufana.