quinta-feira, 20 de março de 2014

AS FLORES DO NAÚFRAGO

                                                                       hokusai


Acabei um livro de poesia, As Flores do Náufrago, que reúne algum do material que fui escrevendo em 2013/2014, e resolvi fechar a loja. Não quero dizer que dentro de portas não continue a ebulição, não estará é exposta na montra. E por isso se diz na nota final:
«Deixo na gaveta dois livros inéditos, que, curiosamente, são os mais ambiciosos e os que mais estimo – As Feridas de Heitor, de 2008, e Epílogo Sobre a Morte dos Oceanos, de 2010, e estão na gaveta em trabalhos de plaina e lima e a ver se resistem à traça (se não, nada se perdeu) –, e um livro no prelo, Harpo Marx na Cova dos Leões, que sairá pela Abysmo.
Este, As Flores do Naúfrago, é o último livro de poesia que organizarei,  pelo menos no próximo lustro. 
Agora chegou o momento da prosa que, como eu a entendo, tem afluentes poéticos que se farta. A poesia fica muito bem entregue – há gente magnífica e novas hidrografias a romper.
Se deste meu golpe de rins nada resultar, sempre podemos dizer como o Nemésio: “A corça virou-lhe as ancas/ E tudo o mais é destino”.»

Aqui deixo os poemas com que abro o primeiro capítulo e o segundo e o poema que fecha o livro:

de ERRATAS

onde se lê
CREIA QUEM LÊ, DIZIA:

Este verso não garante escolta,
tão pouco é a pousada espanhola
onde os hóspedes trocam por mortadela
a chuva que traziam na bagagem.

Nesta quadra, ervada pela profunda
desconfiança que o zen tem
pela palavra, o bolor
alastra, canino, rectifica.

Este terceto não é de Dante
nem nele um albatroz manco, toc
toc, se alapa na retina de Baudelaire.

Pobre soneto temperado no gume
da pequena espada wakisahi,
prenhe na hemorragia dos bambus.

leia-se:
CORPOS DE VERÃO, CORVOS DE INVERNO

A brecha entre as nuvens,
duas brechas entre nuvens,
o azul que flui pleno
como um cetáceo,

uma nuvem isolada
e a esgarçar-se,
mais grisalha
que uma lágrima:

tantos adereços que o tempo
mobiliza para ser.

Corpos de verão,
corvos de inverno:
só o ar admite a corporeidade.

Entretanto, o pior de tudo
é não habitar
num mundo físico.



de
OS DETRITOS DE POMPEIA

Janela roubada, a minha vida -
eu que em miúdo assoava
o nariz aos navios. Agora,

imagina-te empenhado num duelo
de esgrima. Se no tinir das espadas
te assalta a dúvida, Terei regado
esta manhã as begónias, a resposta
não chegará a tempo de impedir
o ferro de te atravessar as tripas.

O bosque alça-se em negro fundo,
a meio perla-se o prado -
enquanto a minha cabeça
se descasca para dentro.

Importa saber se mantens intacta,
ferina e imediata, a confiança na intuição.
Tantas coisas que te atormentam são
a montanha russa com que os teus fantasmas
se divertem, os que gratos
pela insistência com que familiarizas
no mundo a tua irrealidade, te cedem 
fotogramas com os detritos 
de Pompeia - que nunca viste.

Se bem que inestimáveis aras
do desejo, para mim, para ti, 
estes calendários têm o ar 
dum tempo que já passou.
Nem pestanejo, meto-os no lixo.

Como estes versos que aqui deixo.





SHORT LIST?
                     
para o Cotrim, o Valério, a Inês, a Joana, a Teresa e o Helder Macedo, pelas razões que eles conhecem

Sentir o cansaço nos ossos:
a linha divisória,
o momento de passar à sabotagem
e de me abster de aliviar
Deus do tédio.
Novo rubor e desígnio.

Julgar que a serenidade busca os clamores
da «luz absoluta» é uma tola ideia fixa
que tem de ser banida,
como a de cavalgar o crocodilo.
Preferia cavalgar o Shakespeare,
que mongo cavalga a besta
para demonstrar que tipo de sangue
lhe corre nas veias e um rudimento
de magia lhe veda  os furos?

Quando muito, supor que em cada fissura
da realidade nasce um lírio,
a culminância do limo,
esse sim, pioneiro,
e que o negativo de Deus
é unicamente outro Deus em gestação.

Abdiquei de ser um homem de armas
por odiar os colectivos,
sou mais da dança, da espontaneidade
sem remoto controle, a sós
ou com a breve nata
do amor batida em castelo.

Escorregar no limo
e bater com as costas na pedra
é que promete o lírio.
Um rio com um kilt escocês.
Fino como este copo que me entranha.








quarta-feira, 5 de março de 2014

REFLEXÃO SOBRE DEUS NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


 
Deus é todo o imortal que se desenfia

a pontapé nestas missangas compradas,

na ilha que foi nossa e dossel dos mitos,

 
imortal que se suspendeu pelo calcanhar
do tempo, cativo como Aquiles de narração
que o diga. A escala irracional do Hospital

 
da ilha, colunatas e pavilhões neoclássicos
onde hoje só lagartos e musgo remoem

contristados os arrazoados de Job sobre

 
os não-sentidos de lamentar qualquer dor,
é um modelo da loucura de conceber por Arquitecto
um mui grão apreciador de babas de caracol.

 
Deus em cujo selvagem apetite
se engendrou o esquecimento

de ser incriado – magnífica

 
a moça que me acena, mas sem ‘msuri

que lhe colaria ao rosto as máscaras

duma beleza que não esmorece –

 
é poderoso ainda – sucede serem

contagiantes os narradores – não obstante

lhe falecer o gosto de ser inominável.

 
(Parentesis para nos impressionar a lisura

da ilha, passada a ferro, como se

fossem palmeiras os túmidos pêlos

 
púbicos de um corpo na horizontal.

Percebe-se que tenha conhecido aqui

Bocage os descaminhos da sua sombra.)

 
A nenhum Deus que persista em sê-lo

– irá para que Islândia a carta que esta ruiva
´
exibe, na sua quase nudez, na praia da Fortaleza? –

 
galvaniza a idolatria de se adorar um nome

ou não fora superior na salamandra

a necessidade de mergulhar no fogo

 
à de escolher um avatar. O drama

é, inelutável, a invariável solidão –

a de não ter fiéis e permanecer mudo

 
o chamamento que foi pressentido,

ou a de ter finalmente um quarto medieval,

cama românica, e nenhuma dama disposta

 
a devotar-nos a sua vassalagem;

drama é o labirinto a que não se descortina

fundo, labirinto de uma atracção velhaca

 
porque não dá esperança, como esta ilha

que o Lowry escolheria para plateau

de uma sequela de Debaixo do Vulcão,

 
embora mantenha incólume o mistério

duma vitalidade que não foi refractada

pelo peso da História, sendo a sua decadência

 
tão saborosa como o siri-siri,
algas que não desmereciam ser

o último manjar dum condenado. Deus



é o labirinto anterior à sua designação,

que só sabe conjugar-se no presente, como a trama

da Penélope macua que tem lulas na vagina

 
que se fazem e desfazem, engenhosa

lábia e só igual à dos efebos que se oferecem

como guias, em visitas às despovoadas ilhotas

 
adjacentes e aos prazeres do sexo invisível

a olhares pios, gregos e troianos, que não dançam

como Zorba. E quer Deus, neste enredo

 
de mikuti, que o canto seja coral, energia

amplificada, radiante, que lhe permite sorver

a melancolia de haver sido

 
aquele que suprime o Tempo

- ridícula a estátua verde de Camões,

num aperaltamento de musas tangidas

 
pla gonorreia, e que será certamente posterior

aos versos em que Sena pôs o vate

a defecar sobre as moralidades vindouras

 
e sobre o Índico que tudo lava,
da garoupa vermelha à unha suja

com que esta mulher nos serve o pão.


 
Nesta ilha sente-se que Deus é um fantasma

que nos vendeu ao pataco de uma

estória, pela alusão de uma melodia

 
em cujo refrão se vendem os baús de Venús.

Os fortes ventos das entranhas da terra

(bom-dia Kafka), não esqueceram a ilha,

 
pelo menos neste dia de um bafo

espesso e quente que não oferece evasão,

isentando qualquer gotejar da culpa.

 
Ah sim, aqui aceita-se o terror da existência,
cambiada em carne a esmo, e lenta como a desova

das tartarugas. E no interim insista-se

 
na fidelidade com que Deus nos faz chegar

como objects trouées e nos muda em trouvés,

objectos de desejo e partilha, corações

 
dum ápice bifurcados, a quem o medo, o próprio,

ilude mas singulariza: algoritmos, aprovaria

um matemático. E nesse transe de auxiliar

 
Deus a voltar a agir como o intratável pirata

há que premir, a meio da sua presença,

o interruptor do tangível, de forma

 
a que um curto-circuito o desperte,

ou nos desperte – gemidos de cobre

sob uma fina filigrana em ouro.

 
Beatiful, a Semente, a recepcionista

do hotel: que poeta, antes de mim,

a nomeou assim, mesmo antes de saber

 
se tem lulas? Fora, é nítido – ainda
que esteja a ser generoso – que Deus lateja

nas figueiras de benguela, centenas,

 
com as suas barbas de Leviatã a confiar-nos

que não passamos de hóspedes em terra.

Ah, ser-com é tudo o que se pede

 
nesta ilha: que, realinhado o tear da História,

na ruptura da sintaxe, revelemos uma inédita

conjectura intrigante ou apenas o desejo

 
de sermos mais do aquilo que somos

capazes de vender. Como Deus, suponho,

que anseia sempre por cerejas

 
onde não as fez brotar, e com isso reaproxima
as regiões distantes. Sim, Tu, meu mestre,

meu senhor e guia, vê como renasce no teu âmago

 
a necessidade de despedir-nos. E a Semente

à espera, e eu mula, isto é, nada –

ou seja, nauta do nada que é tudo.


NOTA
Lulas: assim chamam as mulheres macuas aos pequenos e grandes lábios vaginais que, ritualmente, puxam e deformam, dando uma forma diferente à sua genitália

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PORTRAIT OF A ROMANTIC

Portrait of a Romantic, foto de Alice W R


Shirley Temple, a actriz que soube retirar-se
antes de se tornar uma criança malsã
e de Hollywood a clonar como a febre dos fenos,
feneceu hoje, fanada pedra de isqueiro.
Lembro-me de a ver sapatear a preto
e branco e dos olhos envidraçados
da minha mãe, assim que no pequeno ecrã
acudiam os seus cachos de caracóis
que para dona Isabel seriam dourados.
Ele via na pequena estrela americana a infância
que lhe foi roubada, e hoje sobre a campa
de minha mãe florescerão os miosótis.
Vou compondo este poema estrada fora
enquanto a tempestade me segue há duas horas
com maligna perseverança e o coração
se me aclimata, diferido, melancólico.
As colunas, depois dum festival de didjeridu,
que me fez vibrar no sangue aborígena
a pulsação das estrelas, derramam agora
Portrait of a romantic, de John Surman.
O passado é o futuro que me esculpe,
na estrada que as sombras do presente incandescem.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O COELHO EM VISITA


Nem sei se vos diga se vos conte – o melhor é fazer figas e esperar que o tempo passe, suado como  o dorso do cavalo que viu o d. José ao fundo. Mas a vidinha está assim, a época está assim: conformada.
Com um braço inerte e caído, enquanto o outro punheteia o espectro das utopias que faliram. Daí que a estupidez avance e a sua irrelevância também.
O fito era o homenagear o Mandela e os poderes da terra mandaram fazer uma estátua de bronze de nove metros em dois dias. E ainda por cima, prepotentes, avisaram os autores que não a podiam assinar.
Eles comeram e calaram, que o dinheirinho faz falta a todos. Fizeram um mamarracho que só tem equivalente no naufrágio de Trafalgar.
E como a sua vaidade ficou chamuscada com a impossibilidade de assinar mediocridade tão distinta, resolveram vingar-se. Ou antes, ser traquinas. E esculpiram um coelho no pavilhão da orelha esquerda (ou direita) da estátua.



Que só muitos dias depois da inauguração foi descoberto. A oito metros e meio de altura. Suponho que algum miúdo com mais humor deixou no sopé da estátua um saco com cenouras. Ou talvez porque um desses detectives que com pundonor fotografam os adúlteros em linguados e ademanes deu conta de que num canto obscuro do enquadramento havia um coelho em visita.
O certo é que o intruso foi descoberto e agora as autoridades estão em brasa e querem-no dali para fora. Vai um charivari lá para as bandas de Boers e Zulus, Lda.
O coelho manhoso (como o das fábulas africanas, embora aqui seja mais a lebre enquanto o putativo roedor da polémica infiltrada na orelha do ícone tenha um ar mais doméstico e terno, de coelho)... – é até um quiduxo!
Que falta de tomatada!
Compare-se a coisa com o herético caracol, na Anunciação de Francesco del Cossa (1470-72). É um pormenor arrepiante, inesperado, espetado na carne do sagrado como uma verruga . O anjo anuncia a Maria Aquilo que não autoriza diferimento – a sua prenhez abençoada – e que supostamente mudará o mundo, e indiferente a esta ordem dee uma Necessidade Inelutável o caracol avança, absorto na sua baba terrena, nas tintas para a arquitectura da conveniência. É um argueiro no olho beato, que só vê coisinha santa.


Nesta altura em que as ofensas a Deus eram tomadas a sério, este era realmente um atrevimento do artista, uma blasfémia.
Agora, os traquinas fazem coelhos.

Morremos do amontoado da irrelevância que nos capa. Mas, ah!, como somos paródicos!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PROCURA-SE FOTÓGRAFO E SETE NOTAS PARA DIÁLOGO

                                                                   mary bauermeister


BALADA DO ADÚLTERO


Seja o amor um pomar reservado
e meigo, embora transigente

no ornato: pomo com bicho,

reinadia malandrice, afluentes

que à letra do leito angular
trazem novas, prósperas, imagens
e o sismo que adoça a pontualidade.

Que o amor se alce

e, animal com mais pêlo
na venta que simetria, não desatenda

a ilusão de cirúrgicos desvios,

trocar portas por janelas

- uma deleitosa intercessão.
E porque o amor não invalida

o calafrio, e sede há

de sermos vários, de antemão

injecte no miolo da confiança o perdão
e um por outro verso desmaiado,

à ombreira da decisão de tornar

a casa, de coda entre as pernas.


A EMPREGADA DO BAR

Tem as unhas violeta

que terá o candelabro

que das suas lágrimas

se esqueceu.

As sobrancelhas estão ao osso.
Lábios espetados em vê,
detonados

em duas narinas

de longo curso.

Nos seus seios a réstia
do mais intratável pagão
se crucificaria em Cristo.

Com um guardanapo limpa
a transpiração que lhe lajeia

os braços.

Fala com se anoitecesse
papoilas que nunca viu.

Chama-se Esperança.

Não é?


ABC DA POLIGAMIA

“falou que hoje não conseguiu
o dinheiro para me importar

e que por isso me exportava

pra casa de minha mãe...”

 Ouvi à desfeiteada, curioso
por conhecer o génio dos afectos

que assim gere a economia dos (g)la(cia)res

- deuses, como é sabido, em deflacção.




- Não bebe, mas já vem com ela nos cornos.



- Disse-lhe sempre que era bela,  o que era verdade, mas nunca que a amei, o que não era mentira... não sei onde ela me achou falso.


- Era tímida, como se tivesse vergonha por não ter segredos

- Aquele? É tipo papagaio sem freio. Todos os homens papagueiam um bocado mas estar todo o dia com uma gralha dá taquicardia...

- A moléstia é sempre pouca quando é mole.
- Moléstia?

- A arrelia que é mole como a merda...

- Não te percebo...

- Isso é pior que a nhanha, é acostumação...


- Só vivi a vida que foi intencional...


- Quem não chora não mama!
Atira-lhe ele, que chega ao pé dela na esplanada.

- Quem não mama, não chora...

Replica ela, ufana.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

REI MORTO, REI POSTO

                                                   PONTA DO OURO, CAFE DEL MAR

Relato da minha circunspecta passagem do ano. Num lugar bonito, mas num lodge algo manhoso, circunstância a que voltarei, chamando as coisas pelos nomes.




 Esta cronica sai directamente da sala de partos, numa lufada de langores marítimos, mas não se espere encontrar aqui ocasionais encontros com  golfinhos ou opulentas descrições de comes e bebes a bordo de qualquer iate. É contudo habitada por uma alma penada, a do ano que terminou.
Continuemos, a noite escaldava, oleada pelos odores que a transpiração reata, na espessa monotonia tropical. A algaraviada das cigarras - um piar de ave nocturna trazia um pé de aniz à noite – sobrepunha-se à batida de distantes ritmos electrónicos, vinda da praia, quando dois assobios e um colar de onomatopeias fenderam a proximidade. Resolvi levantar-me – estávamos sozinhos no lodge, há mais de duas horas que haviam rebentado os últimos foguetes de celebração da passagem do ano e que os jeeps e motos de areia na estrada pareciam ter sossegado.
Fui ao alpendre e vi o guarda a levantar um sacho na berma da piscina. Desferia um golpe sobre uma sombra coleante. Percebi que a cobra nos visitara no paraíso perdido que nos fora vendido ao telefone. Era bicho para um metro e picos. Observei ao guarda:
- Coitado, quem resiste, numa noite de fim de ano, a meio metro de água verde, pútrida, e cacheada de batráquios?
Ele encolheu os ombros em changana e eu anui:
Boa noite.
Voltei à cama.
A minha mulher perguntou ansiosa:
Que era?
Uma víbora que nos visitou.
Brincas?
Não, o guarda acabou de matá-la. Vinha à picanha, na piscina.
Só nos faltava esta. Pagámos o preço duma casa com piscina e ao fim de uma semana só temos sapos, mosquitos e uma víbora... já viste que podia meter-se no quarto das miúdas?
Essa  hipótese gorou-se, conversa com o Altíssimo...
Vais lá ver se elas estão bem.
Depois...- pisquei-lhe o olho mais lúbrico - voltaram-me os apetites.
Estás danadinho…– há um raiar dourado nas mulheres indianas, pelo menos quando sorriem e umas escleróticas muito brancas acendem um candelabro.
Serenei-a:
É do fim de ano... em Janeiro prometo acalmar-me.
Replicou decidida:
Vê lá as miudas, depois conto-te uma historia para tu adormeceres...
Voltei a sair do quarto, atravessei a kitchnet aberta que confinava com o alpendre e empurrei a porta devagarinho, mas não evitei que ela caísse de costas sobre os beliches.
Pai, censurou a Luna, tinhas de ser tu...
Estás acordada?
Acordaste-me, com a porta...
Mau, fui eu ou a porta?
Foste tu, que empurraste a porta...
A porta devia abrir-se sobre os gonzos...
Não gozes, pai, esta porta é a fingir, não tem gonzos... Pai... – gritou alarmada.
Que é?
Entraram dois mosquitos.
Vou já dar cabo deles.
Emarinhei em gestos circenses pelos beliches até acordar a outra, que afinal ferrava pouco, e ter matado cinco mosquitos. Um deles de bojo mais cheio que a caverna de Ali Babá. Depois para as adormecer tive de lhes contar uma longa história. Quando voltei ao quarto ela dormia. Era a história da minha vida. Tornei ao alpendre e sentei-me na mesa comprida, munido de cerveja. Rebentou um petardo isolado, com estrelinhas azuis e prata. Eis um procastinador, como eu, pensei e fiz-lhe uma saúde. O guarda, sentado à borda da piscina, esfolava a cobra com uma faca de mato.
As outras casas do lodge estavam mergulhadas na escuridão. Estaria toda a gente na praia, tal como a nossa filha mais velha, uma adolescente de 17 anos, e as suas quatro amigas, onde milhares de pessoas pulavam ao som de uma batida house, que se assemelhava ao alastramento do deserto nos tímpanos. Negras à cata de brancos, boers à cata de negras, ou fingindo entre si que está tudo bem. Os moçambicanos imaginando que uma praia em meia lua pode ser Veneza. Ponta do Ouro, a que se chega depois de uma picada de três horas por um batatal que naufragaria navios de alto bordo.
A mole embalava-se numa euforia conquistada a um ano que se despedia com muitas apreensões: a guerra civil retomara, a inflação estava descontrolada, as manifestações de racismo haviam-se tornado quotidianas, os raptos a quem não fosse bantu sucediam-se... ( - esperem, afinal, uma moto de areia peida-se quantas vezes em cada cem metros?). A gente do lodge - cinco casas em torno de uma piscina que precisava de uma operação de respiração boca a boca, quereria esquecer a banhada que nos calhara a todos em sorte: havia a mesma concordância, entre as condicões que nos foram apresentadas à chegada e as das fotos que se viam no site do lodge, à que existe entre um melro careca e uma avestruz. Da piscina népias, era um pântano onde zuniam esquadrões de mosquitos vindas de um estágio em Guantanamano, as duas suites e o quarto que nos foram prometidos resumiam-se a dois quartitos com o forro do telhado exposto e sem portas na casa de banho que convergiam para um corredor mais largo onde se arrumava uma kitchnet de pouca serventia porque a geleira estava avariada, as fichas eléctricas eram de três buracos (à sul-africana), e não havia adaptadores. As suites, que tinham dois contraplacados desencaixados a fazer de portas, eram servidas por um jogo de lencóis (éramos nove, supostamente a ser distribuidos por três quartos) e as almofadas, foi-nos anunciado à chegada, tinham sido roubadas; uma das sanitas não funcionava e a outra rapidamente comecou a verter águas por baixo. Também não havia talheres suficientes e metade de nós comia com colheres. A duas das casas faltou subitamente a energia e depois de averiguadas as causas constatou-se que o crédito no credilec havia acabado, tendo sido os hóspedes quem tiveram de carregar o sistema. No meio dos impropérios sucessivos e lubrificados por muito álcool, seis criancas clamavam três vezes ao dia pelo direito à piscina e depois de mais um telefonema proverbial para o dono era garantido que no máximo nas três horas seguintes o problema estaria resolvido, cansaco que se tornou rotina. As empregadas chegavam pela manhã e ciciavam, Tudo bom, e você aí? Tudo isto pela módica quantia de 250 euros diários.

Coube-me ir ao pão. Estaria a padaria aberta no dia 1? A manhã escamava o sol, em brutais incidências sobre o mais exíguo quadriculado de pele. Lomba e lomba, num passo plangente, enquanto as motas de areia se sucediam como escaravelhos montados em petardos. Depois a descida, e o troço com o canavial  que rogava, como nós, por brisa. À direita, em cordas bambas, dispunham-se as capulanas e as t-shirts com cores berrantes e os motivos locais: os mesmos crocodilos, máscaras, palmeiras e tambores que se encontram no continente inteiro. Há sempre quem compre mais um colar de missangas. Soslaios, carapinhas pintadas de gema de ovo, um pintas passeia a auto-estima do seu piercing ao canto da boca, Boss, boss... chama o de óculos em barda, dos joelhos ao peito lembra um elmo de lentes e hastes. Um chapeiro pára a viatura e explica o estado de navegação no batatal a outro condutor amigo: a estrada tá um doce. Espraiar de legumes e frutas em bancas de madeira enferrujada. Após curva e contracurva em irregulares degraus de concreto, entro na padaria.
O tipo da caixa, inusitadamente, agarra-me na mão com as suas unhas pintadas. Bate-me as pestanas. Um panilas, interrogo. Sai-lhe uma voz em compactado veludo:
Do you mean?
I’m a simple man... mas fala-me em português...
Ah, mas parece holandês... olho verde...
Atalho seco:
É o olho a pau com o troco...
Retrai-se, largando-me a mão:
Nunca o vi por aqui... – muda o tempo verbal – tás onde?
Respondo-lhe à maneira:
Na rua da polícia, perto do farolinho...
E tás contente com o lugar?
Resolvo entrar no jogo. Ponho um ar contristado:
Olhe, nem por isso...
Por menos cinquenta dólares, arranjo casa com ar condicionado e piscina... Nice, nice...
Hum... para nove pessoas?
Tem uma cara de espanto que desmancha num meneio:
Nove? Que horror!!
Meninas são cinco, à beira dos dezoito.
Bate-me com a mão no ombro, afectado, e mete-se comigo:
... a simple man! Não é?
Five catorzinhas... – sublinho com a mão aberta.
Que horror! – muda rapidamente de tom – E as meninas acampam? Piscina, ar condicionado e tenda... e menos cinquenta dólares. Que te parece? Nice, nice...
No regresso, rindo-me com a parvoíce da conversa, enfileiro no passo indolente do tipo que vai à minha frente, com um estojo de viola nas costas e uma crista no cabelo à índio iroquês. Tem uma voz lamentosa de quem nasceu para cantar blues e diz ao telefone:
Brada, tou mal, o job saiu furado... já cantei em três bares e pagam-me 250 rands, cada um diz que a cena tá mal, tem crise e muita despesa, e que no outro bar me podem dar mais... e nenhum deles deu dormida como dizias, ando a dormir na praia, como é que combinaste esta cena, meu?

Uma hora depois desço com a minha mulher para a praia. Ao passar pela Florestinha, um bar-discoteca, conta-me ela:
Ontem, houve tiros aqui...
Tiros?
Sim... Havia uns bêbados que não queriam dispersar e a polícia disparou...
Não foi aqui que veio a tua filha... e as amigas?
Foi... os polícias também estavam embriagados.
Portanto, com umas balas perdidas, a coisa podia ter ser sido bonita...
Não percebes nada... – quis-me ela sossegar com a ironia – em África a polícia só dispara para o ar...
Desembocámos na praia e suspendemos a respiração: a praia é uma mosca a ziguezagear enlouquecida dentro duma garrafa. Duzentos metros para a esquerda, para a direita, em frente até à água, cada metro quadrado aninha uma dúzia de garrafas. Quantas delas partidas, ocultas por uma fina camada de areia?
Tens a certeza que queres ir para a praia? – inquiro.
Hum... Lá para a frente há-de estar melhor...
Tens a certeza?
Tenho.
As certezas da minha mulher aplainam-me sempre as dúvidas. Coisas de vir de um outro continente, onde o Ganges refrigera todo o tipo de fés. Pisamos leve, entrecortadamente, a palma dos pés entre garrafas, na métrica irregular com que o albatroz de Baudelaire aprendeu, nas tábuas da proa, a dançar o tango. O sol, reflectido nas cobras de vidro que enxameam o chão, espanca os olhos. E então veio-me:
Neste país, esgarçado entre o sol e o mar, nada flui...