quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PORTRAIT OF A ROMANTIC

Portrait of a Romantic, foto de Alice W R


Shirley Temple, a actriz que soube retirar-se
antes de se tornar uma criança malsã
e de Hollywood a clonar como a febre dos fenos,
feneceu hoje, fanada pedra de isqueiro.
Lembro-me de a ver sapatear a preto
e branco e dos olhos envidraçados
da minha mãe, assim que no pequeno ecrã
acudiam os seus cachos de caracóis
que para dona Isabel seriam dourados.
Ele via na pequena estrela americana a infância
que lhe foi roubada, e hoje sobre a campa
de minha mãe florescerão os miosótis.
Vou compondo este poema estrada fora
enquanto a tempestade me segue há duas horas
com maligna perseverança e o coração
se me aclimata, diferido, melancólico.
As colunas, depois dum festival de didjeridu,
que me fez vibrar no sangue aborígena
a pulsação das estrelas, derramam agora
Portrait of a romantic, de John Surman.
O passado é o futuro que me esculpe,
na estrada que as sombras do presente incandescem.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O COELHO EM VISITA


Nem sei se vos diga se vos conte – o melhor é fazer figas e esperar que o tempo passe, suado como  o dorso do cavalo que viu o d. José ao fundo. Mas a vidinha está assim, a época está assim: conformada.
Com um braço inerte e caído, enquanto o outro punheteia o espectro das utopias que faliram. Daí que a estupidez avance e a sua irrelevância também.
O fito era o homenagear o Mandela e os poderes da terra mandaram fazer uma estátua de bronze de nove metros em dois dias. E ainda por cima, prepotentes, avisaram os autores que não a podiam assinar.
Eles comeram e calaram, que o dinheirinho faz falta a todos. Fizeram um mamarracho que só tem equivalente no naufrágio de Trafalgar.
E como a sua vaidade ficou chamuscada com a impossibilidade de assinar mediocridade tão distinta, resolveram vingar-se. Ou antes, ser traquinas. E esculpiram um coelho no pavilhão da orelha esquerda (ou direita) da estátua.



Que só muitos dias depois da inauguração foi descoberto. A oito metros e meio de altura. Suponho que algum miúdo com mais humor deixou no sopé da estátua um saco com cenouras. Ou talvez porque um desses detectives que com pundonor fotografam os adúlteros em linguados e ademanes deu conta de que num canto obscuro do enquadramento havia um coelho em visita.
O certo é que o intruso foi descoberto e agora as autoridades estão em brasa e querem-no dali para fora. Vai um charivari lá para as bandas de Boers e Zulus, Lda.
O coelho manhoso (como o das fábulas africanas, embora aqui seja mais a lebre enquanto o putativo roedor da polémica infiltrada na orelha do ícone tenha um ar mais doméstico e terno, de coelho)... – é até um quiduxo!
Que falta de tomatada!
Compare-se a coisa com o herético caracol, na Anunciação de Francesco del Cossa (1470-72). É um pormenor arrepiante, inesperado, espetado na carne do sagrado como uma verruga . O anjo anuncia a Maria Aquilo que não autoriza diferimento – a sua prenhez abençoada – e que supostamente mudará o mundo, e indiferente a esta ordem dee uma Necessidade Inelutável o caracol avança, absorto na sua baba terrena, nas tintas para a arquitectura da conveniência. É um argueiro no olho beato, que só vê coisinha santa.


Nesta altura em que as ofensas a Deus eram tomadas a sério, este era realmente um atrevimento do artista, uma blasfémia.
Agora, os traquinas fazem coelhos.

Morremos do amontoado da irrelevância que nos capa. Mas, ah!, como somos paródicos!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PROCURA-SE FOTÓGRAFO E SETE NOTAS PARA DIÁLOGO

                                                                   mary bauermeister


BALADA DO ADÚLTERO


Seja o amor um pomar reservado
e meigo, embora transigente

no ornato: pomo com bicho,

reinadia malandrice, afluentes

que à letra do leito angular
trazem novas, prósperas, imagens
e o sismo que adoça a pontualidade.

Que o amor se alce

e, animal com mais pêlo
na venta que simetria, não desatenda

a ilusão de cirúrgicos desvios,

trocar portas por janelas

- uma deleitosa intercessão.
E porque o amor não invalida

o calafrio, e sede há

de sermos vários, de antemão

injecte no miolo da confiança o perdão
e um por outro verso desmaiado,

à ombreira da decisão de tornar

a casa, de coda entre as pernas.


A EMPREGADA DO BAR

Tem as unhas violeta

que terá o candelabro

que das suas lágrimas

se esqueceu.

As sobrancelhas estão ao osso.
Lábios espetados em vê,
detonados

em duas narinas

de longo curso.

Nos seus seios a réstia
do mais intratável pagão
se crucificaria em Cristo.

Com um guardanapo limpa
a transpiração que lhe lajeia

os braços.

Fala com se anoitecesse
papoilas que nunca viu.

Chama-se Esperança.

Não é?


ABC DA POLIGAMIA

“falou que hoje não conseguiu
o dinheiro para me importar

e que por isso me exportava

pra casa de minha mãe...”

 Ouvi à desfeiteada, curioso
por conhecer o génio dos afectos

que assim gere a economia dos (g)la(cia)res

- deuses, como é sabido, em deflacção.




- Não bebe, mas já vem com ela nos cornos.



- Disse-lhe sempre que era bela,  o que era verdade, mas nunca que a amei, o que não era mentira... não sei onde ela me achou falso.


- Era tímida, como se tivesse vergonha por não ter segredos

- Aquele? É tipo papagaio sem freio. Todos os homens papagueiam um bocado mas estar todo o dia com uma gralha dá taquicardia...

- A moléstia é sempre pouca quando é mole.
- Moléstia?

- A arrelia que é mole como a merda...

- Não te percebo...

- Isso é pior que a nhanha, é acostumação...


- Só vivi a vida que foi intencional...


- Quem não chora não mama!
Atira-lhe ele, que chega ao pé dela na esplanada.

- Quem não mama, não chora...

Replica ela, ufana.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

REI MORTO, REI POSTO

                                                   PONTA DO OURO, CAFE DEL MAR

Relato da minha circunspecta passagem do ano. Num lugar bonito, mas num lodge algo manhoso, circunstância a que voltarei, chamando as coisas pelos nomes.




 Esta cronica sai directamente da sala de partos, numa lufada de langores marítimos, mas não se espere encontrar aqui ocasionais encontros com  golfinhos ou opulentas descrições de comes e bebes a bordo de qualquer iate. É contudo habitada por uma alma penada, a do ano que terminou.
Continuemos, a noite escaldava, oleada pelos odores que a transpiração reata, na espessa monotonia tropical. A algaraviada das cigarras - um piar de ave nocturna trazia um pé de aniz à noite – sobrepunha-se à batida de distantes ritmos electrónicos, vinda da praia, quando dois assobios e um colar de onomatopeias fenderam a proximidade. Resolvi levantar-me – estávamos sozinhos no lodge, há mais de duas horas que haviam rebentado os últimos foguetes de celebração da passagem do ano e que os jeeps e motos de areia na estrada pareciam ter sossegado.
Fui ao alpendre e vi o guarda a levantar um sacho na berma da piscina. Desferia um golpe sobre uma sombra coleante. Percebi que a cobra nos visitara no paraíso perdido que nos fora vendido ao telefone. Era bicho para um metro e picos. Observei ao guarda:
- Coitado, quem resiste, numa noite de fim de ano, a meio metro de água verde, pútrida, e cacheada de batráquios?
Ele encolheu os ombros em changana e eu anui:
Boa noite.
Voltei à cama.
A minha mulher perguntou ansiosa:
Que era?
Uma víbora que nos visitou.
Brincas?
Não, o guarda acabou de matá-la. Vinha à picanha, na piscina.
Só nos faltava esta. Pagámos o preço duma casa com piscina e ao fim de uma semana só temos sapos, mosquitos e uma víbora... já viste que podia meter-se no quarto das miúdas?
Essa  hipótese gorou-se, conversa com o Altíssimo...
Vais lá ver se elas estão bem.
Depois...- pisquei-lhe o olho mais lúbrico - voltaram-me os apetites.
Estás danadinho…– há um raiar dourado nas mulheres indianas, pelo menos quando sorriem e umas escleróticas muito brancas acendem um candelabro.
Serenei-a:
É do fim de ano... em Janeiro prometo acalmar-me.
Replicou decidida:
Vê lá as miudas, depois conto-te uma historia para tu adormeceres...
Voltei a sair do quarto, atravessei a kitchnet aberta que confinava com o alpendre e empurrei a porta devagarinho, mas não evitei que ela caísse de costas sobre os beliches.
Pai, censurou a Luna, tinhas de ser tu...
Estás acordada?
Acordaste-me, com a porta...
Mau, fui eu ou a porta?
Foste tu, que empurraste a porta...
A porta devia abrir-se sobre os gonzos...
Não gozes, pai, esta porta é a fingir, não tem gonzos... Pai... – gritou alarmada.
Que é?
Entraram dois mosquitos.
Vou já dar cabo deles.
Emarinhei em gestos circenses pelos beliches até acordar a outra, que afinal ferrava pouco, e ter matado cinco mosquitos. Um deles de bojo mais cheio que a caverna de Ali Babá. Depois para as adormecer tive de lhes contar uma longa história. Quando voltei ao quarto ela dormia. Era a história da minha vida. Tornei ao alpendre e sentei-me na mesa comprida, munido de cerveja. Rebentou um petardo isolado, com estrelinhas azuis e prata. Eis um procastinador, como eu, pensei e fiz-lhe uma saúde. O guarda, sentado à borda da piscina, esfolava a cobra com uma faca de mato.
As outras casas do lodge estavam mergulhadas na escuridão. Estaria toda a gente na praia, tal como a nossa filha mais velha, uma adolescente de 17 anos, e as suas quatro amigas, onde milhares de pessoas pulavam ao som de uma batida house, que se assemelhava ao alastramento do deserto nos tímpanos. Negras à cata de brancos, boers à cata de negras, ou fingindo entre si que está tudo bem. Os moçambicanos imaginando que uma praia em meia lua pode ser Veneza. Ponta do Ouro, a que se chega depois de uma picada de três horas por um batatal que naufragaria navios de alto bordo.
A mole embalava-se numa euforia conquistada a um ano que se despedia com muitas apreensões: a guerra civil retomara, a inflação estava descontrolada, as manifestações de racismo haviam-se tornado quotidianas, os raptos a quem não fosse bantu sucediam-se... ( - esperem, afinal, uma moto de areia peida-se quantas vezes em cada cem metros?). A gente do lodge - cinco casas em torno de uma piscina que precisava de uma operação de respiração boca a boca, quereria esquecer a banhada que nos calhara a todos em sorte: havia a mesma concordância, entre as condicões que nos foram apresentadas à chegada e as das fotos que se viam no site do lodge, à que existe entre um melro careca e uma avestruz. Da piscina népias, era um pântano onde zuniam esquadrões de mosquitos vindas de um estágio em Guantanamano, as duas suites e o quarto que nos foram prometidos resumiam-se a dois quartitos com o forro do telhado exposto e sem portas na casa de banho que convergiam para um corredor mais largo onde se arrumava uma kitchnet de pouca serventia porque a geleira estava avariada, as fichas eléctricas eram de três buracos (à sul-africana), e não havia adaptadores. As suites, que tinham dois contraplacados desencaixados a fazer de portas, eram servidas por um jogo de lencóis (éramos nove, supostamente a ser distribuidos por três quartos) e as almofadas, foi-nos anunciado à chegada, tinham sido roubadas; uma das sanitas não funcionava e a outra rapidamente comecou a verter águas por baixo. Também não havia talheres suficientes e metade de nós comia com colheres. A duas das casas faltou subitamente a energia e depois de averiguadas as causas constatou-se que o crédito no credilec havia acabado, tendo sido os hóspedes quem tiveram de carregar o sistema. No meio dos impropérios sucessivos e lubrificados por muito álcool, seis criancas clamavam três vezes ao dia pelo direito à piscina e depois de mais um telefonema proverbial para o dono era garantido que no máximo nas três horas seguintes o problema estaria resolvido, cansaco que se tornou rotina. As empregadas chegavam pela manhã e ciciavam, Tudo bom, e você aí? Tudo isto pela módica quantia de 250 euros diários.

Coube-me ir ao pão. Estaria a padaria aberta no dia 1? A manhã escamava o sol, em brutais incidências sobre o mais exíguo quadriculado de pele. Lomba e lomba, num passo plangente, enquanto as motas de areia se sucediam como escaravelhos montados em petardos. Depois a descida, e o troço com o canavial  que rogava, como nós, por brisa. À direita, em cordas bambas, dispunham-se as capulanas e as t-shirts com cores berrantes e os motivos locais: os mesmos crocodilos, máscaras, palmeiras e tambores que se encontram no continente inteiro. Há sempre quem compre mais um colar de missangas. Soslaios, carapinhas pintadas de gema de ovo, um pintas passeia a auto-estima do seu piercing ao canto da boca, Boss, boss... chama o de óculos em barda, dos joelhos ao peito lembra um elmo de lentes e hastes. Um chapeiro pára a viatura e explica o estado de navegação no batatal a outro condutor amigo: a estrada tá um doce. Espraiar de legumes e frutas em bancas de madeira enferrujada. Após curva e contracurva em irregulares degraus de concreto, entro na padaria.
O tipo da caixa, inusitadamente, agarra-me na mão com as suas unhas pintadas. Bate-me as pestanas. Um panilas, interrogo. Sai-lhe uma voz em compactado veludo:
Do you mean?
I’m a simple man... mas fala-me em português...
Ah, mas parece holandês... olho verde...
Atalho seco:
É o olho a pau com o troco...
Retrai-se, largando-me a mão:
Nunca o vi por aqui... – muda o tempo verbal – tás onde?
Respondo-lhe à maneira:
Na rua da polícia, perto do farolinho...
E tás contente com o lugar?
Resolvo entrar no jogo. Ponho um ar contristado:
Olhe, nem por isso...
Por menos cinquenta dólares, arranjo casa com ar condicionado e piscina... Nice, nice...
Hum... para nove pessoas?
Tem uma cara de espanto que desmancha num meneio:
Nove? Que horror!!
Meninas são cinco, à beira dos dezoito.
Bate-me com a mão no ombro, afectado, e mete-se comigo:
... a simple man! Não é?
Five catorzinhas... – sublinho com a mão aberta.
Que horror! – muda rapidamente de tom – E as meninas acampam? Piscina, ar condicionado e tenda... e menos cinquenta dólares. Que te parece? Nice, nice...
No regresso, rindo-me com a parvoíce da conversa, enfileiro no passo indolente do tipo que vai à minha frente, com um estojo de viola nas costas e uma crista no cabelo à índio iroquês. Tem uma voz lamentosa de quem nasceu para cantar blues e diz ao telefone:
Brada, tou mal, o job saiu furado... já cantei em três bares e pagam-me 250 rands, cada um diz que a cena tá mal, tem crise e muita despesa, e que no outro bar me podem dar mais... e nenhum deles deu dormida como dizias, ando a dormir na praia, como é que combinaste esta cena, meu?

Uma hora depois desço com a minha mulher para a praia. Ao passar pela Florestinha, um bar-discoteca, conta-me ela:
Ontem, houve tiros aqui...
Tiros?
Sim... Havia uns bêbados que não queriam dispersar e a polícia disparou...
Não foi aqui que veio a tua filha... e as amigas?
Foi... os polícias também estavam embriagados.
Portanto, com umas balas perdidas, a coisa podia ter ser sido bonita...
Não percebes nada... – quis-me ela sossegar com a ironia – em África a polícia só dispara para o ar...
Desembocámos na praia e suspendemos a respiração: a praia é uma mosca a ziguezagear enlouquecida dentro duma garrafa. Duzentos metros para a esquerda, para a direita, em frente até à água, cada metro quadrado aninha uma dúzia de garrafas. Quantas delas partidas, ocultas por uma fina camada de areia?
Tens a certeza que queres ir para a praia? – inquiro.
Hum... Lá para a frente há-de estar melhor...
Tens a certeza?
Tenho.
As certezas da minha mulher aplainam-me sempre as dúvidas. Coisas de vir de um outro continente, onde o Ganges refrigera todo o tipo de fés. Pisamos leve, entrecortadamente, a palma dos pés entre garrafas, na métrica irregular com que o albatroz de Baudelaire aprendeu, nas tábuas da proa, a dançar o tango. O sol, reflectido nas cobras de vidro que enxameam o chão, espanca os olhos. E então veio-me:
Neste país, esgarçado entre o sol e o mar, nada flui...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

POEMA DE NATAL PARA O PAULO MIRANDA E O COTRIM

                                                           miró, cão latindo para a lua


Sente-se de repente a meio duma frase
que estamos em convalescença
e um bosque avança no eco da casa

em sete divisões que a luz decompõe
como se fossem as serrilhas deste selo de Veneza
que martela no coração fatigado uma viagem por fazer

a viagem por fazer,
a vida por achar num caminho desimpedido
de chaminés de mármore preto.

Podia ser verão a meio desta linha
que a vida transformou numa longa carta
esquecida na cómoda que foi a leilão.

Somewhere, o lento processo de decomposição
do outro, tão inábil em admitir
que o lugar dos bolsos era o púbere desejo do mar,

avança, inexorável, mas paralelo à exaltação
quase imperceptível com que o túmulo
mudado em balaustrada sobre a desova dos salmões

se cala para não dispersar a vida -
porque só é irremediável a manhã
em que não fizemos amor.

A meio deste instante recebi um mail
a falar-me duma sombrinha chinesa
esquecida no miolo dum passaporte

roubado e que reapareceu em Curibita,
segundo o informe que recebi da polícia local.
Foi o inédito da sombrinha, assegura

o comandante Matias que os impeliu
a procurar-me num reenvio transatlântico.
Milagres para um gentio

que ao contrário dos reis magos nunca pernoitou
no Hotel de La Vallée, onde, dizem
que uma estrela faz cirurgia a um planeta

já descrente de que haja rapazes de olhos cor-de-rosa.
Por isso me parece a vida mais simples
do que antes: já não sou o guarda da prisão

e a alegria começa no puré de castanha
e nos salpicos de sal a meio de um umbigo
donde despontam petroleiros e uma asa

do mamilo que desenha um fio de sangue
na nossa boca. E já não passa a horas fixas
o comboio mas sei que ele passa

e me transporta aos jardins submarinos
do Niassa e aos rigores da criança que nos vê,
bêbados, e cruelmente mijados de compaixão.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

BRAILLE: CATANDO CADERNOS/1

                                                        vasco manhiça, pintor moçambicano

DOS JORNAIS
Mafalala blues: quando viu o puto de onze anos
enforcado na mafurreira das traseiras
foi tocado pelo desespero: afinal, nada, nunca,
mudaria na penúria da sua vida. Até
o secretário do bairro era o mesmo
inútil há trinta anos. Ele vira,
o miúdo topou tudo num relance.
Aquele suicídio confirmava:
tinha a consciência vegetal dum songamonga.


VALA COMUM, SINOPSE:
O estranho plano para férias de Licurgo, o primeiro depois do seu divórcio, aos quarenta e três anos:
- dar a volta à casa, arrumar papéis, livralhada, catar os cadernos velhos (guardava-os desde o ciclo, nunca deitando nada fora), coligindo as cintilações dispersas por mil canteiros (sempre quisera ser escritor mas nunca passara da primeira página nas milhentas histórias que esboçara),
- e dar vazão à curiosidade telefonando para os quinhentos números de telefone que amealhara de nomes que lhe pareciam agora anónimos, mergulhados na vala comum.



Não me lembro donde tirei esta frase mas acho-a magnífica: “o que me arrepia no cristianismo é a ideia desse Deus que poderia amar-me a mim!” De facto, que pobreza de espírito!



A fogueira deitou-se
Para que a noite estrelada
Se pusesse em bicos dos pés.


“Éramos como navios que se saudavam em alto mar, cada qual baixando a sua bandeira”, escreveu Jung, com grande compreensão da alma humana. E o afecto desata-se quando num pequeno escaler os tripulantes se visitam momentaneamente e confirmam: a vida é o amor da vida.



O seu olhar é como o fogo que carcome intimamente todos os campos de trigo que a placidez duma vida amealhou, mas eu já não estou virado para escaqueirar a minha vida num gesto, no gesto. Por isso quando voltou a espetar os mamilos na direcção das minhas íris e insistiu:
         «professor, se eu tiver treze dispensa-me de exame, não dispensa?»
eu atalhei:
        «Não!».



Creio que a evidente racionalidade que fui adquirindo, como uma conquista árdua com mortos e feridos nunca me fará descrer do mistérios, da experiência, infelizmente intermitente, em âmbitos transpessoais.



PARA DISCURSO DE UM POLÍTICO, NUM CONTO:
«o problema em África é que o pobre não é nosso – é de outro. É o pobre do outro. Das organizações humanitárias, dos direitos humanos, da opinião pública ocidental (isto é, dos países que nos colonizaram), da Unesco, não é nosso.
Daí que a minha proposta seja: que cada branco adopte um negro!»



O Museu do Prado apresenta a mais antiga cópia da Mona Lisa. Há que fazer um Museu com as mais novas cópias das telas famosas.



Consideram-se os ossos palustres
Quando acima deles
Ainda sonha a carne.



CRÓNICA SOBRE UM CERTO PASTOR DE INCERTA SURDEZ

A sua esposa pintava as unhas de amarelo
para se lavar da ausência de pecados
e exibia-as ao almoço, ao pôr-lhe a terrina
de arroz à frente dos olhos. Alardes

& Sacrifícios em vão – ele não erguia
os olhos do seu decoro mumificado.
A chuva é um rio que se partiu,
já não lembro onde li,

no caso dele o rio partira-se nos mil
cacos da banheira onde colidira
o meteoro da abstracção.
Ela tentara já outras abordagens,

depilara-se, aprendeu o cha cha cha.
Era inútil saracotear-se como Salomé
na sua presença, só quem acreditasse
na ressurreição ao quarto dia.

Quanto à sombra dele padece de diabetes,
como todas as que se vão fixando
na glabra conversa
do boletim meteorológico.

Por isso bocejam os coretos e os cultos
por onde passa: perpassa-lhe
em cada palavra uma freira seca
como a virilha de um gnu.

Mas todo ele é fé,
da unha ao bolor
que lhe tomam as laranjas
no cesto da cozinha.

Todo ele se desdobra em petições, cego
ao espaço que gota a gota
nos penetra. Ainda que haja
deuses para tudo, e a boca

possa acolher a glória dos temperos,
concluiu finalmente a sua esposa
em casa de Marcolino Tembe
onde fora ver um sacrário de marfim

e surpreendeu um viçoso botão de rosa
a meio dum corpo enxuto: pátrias há,
como o Desejo, que não cabem
na pequenez da carne, e se enlaçam

em pequenas cadeias e sismos. É o escândalo
da semana no meu bairro. E o pastor
repete, alheando-se dos gemidos que ouviu:
«O ouvido é o que mais tende à surdez!»



«Há o homem e há também a omelete…», garantia Lacan.



Braille: um bom nome para um volume que me antologie a poesia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

HOMENAGEM A VIRGÍLIO DE LEMOS EM DOIS ANDAMENTOS

                                                                             tapiès


Um filme que o Virgílio de Lemos adoraria:

1
Com o habitual atraso que me dá “o exílio” vi esta noite L’Amour, de Michael Hanek. Um filme que hoje seria impossível de ser feito nos EUA e que, por reconhecimento dessa vergonha, só poderia ter ganho o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro.
Há claramente um texto a fazer sobre as relações subterrâneas entre este filme e Viagem a Tókio, de Ozu, no que toca a uma idêntica visão do que seja a dignidade de “desaparecer” deixando que o fluxo da vida permaneça intacto - de que a música e a sua persistência pelas “bagatelas” (para glosar a sonata de Beethoven que “enche” o filme) que cada interpretação traz é aqui a metáfora.
Há vários momentos extraordinários neste filme sóbrio e justo, que me faz lembrar uma frase memorável de Camus: "sofrer não te dá direitos", mas quero referir-me a três:
- a cena inicial do concerto musical, onde Hanek nos mostra a plateia em vez do palco, com o casal de idosos protagonistas já anónimos no meio da mole humana, o que imediatamente nos diz que o drama a que vamos assistir é transitivo e há de desencadear-se em cada um de nós, no seu momento próprio;
-  a cena que começa quando o marido num acto de vida esbofeteia a sua acamada mulher que, em querendo morrer, rejeita a água que ele carinhosamente lhe dá, e se desdobra numa sequência de pinturas bucólicas (as que pontuam nas paredes da casa) nos quais a figura humana se vai gradualmente diluindo na paisagem, até se tornar invisível ou rarefeita, como um efémero sinal entre dois infinitos: o da escarpa e o do mar do quadro final;
- a cena do pombo, quando Trintignant no afã de agarrar a vida e de a sentir pulsar entre as mãos, o abafa (com uma manta) como havia feito com a sua mulher (com a almofada) ao dar-lhe a morte (horror que neste filme é uma forma de dádiva), simetria ambígua em que se joga toda a complexidade do amor e da vida.
Três momentos fortes de um filme que merece os encómios de que vem laureado.

 2


O Virgílio de Lemos, homem de naturaleza "leve", matérica, que nunca conheci pessoalmente (- ele em Nantes e eu em Maputo, a falta de taco nunca nos deixou cumprir a vontade profunda de nos conhecermos) mas com quem troquei centenas de emails, alguns divertidíssimos, para concretizarmos a antologia dele que preparámos juntos, A Invenção das Ilhas, era um homem que ria da metafísica para lhe opor os acenos da sensualidade e do riso, e gostava de uma boa irreverência. Por isso, ao arrepio já das solenidades, que ele odiaria, lhe dedico esta pequena narrativa que escrevi ontem:


A LIÇÃO DE HISTÓRIA

Depois de bater uma boa sorna, nada como acordar com a Sónia ao nosso lado a bater-nos uma punheta.
A Sónia tem seis dedos em cada mão, como de resto os teve el-rei dom Sebastião, e é vão querer saber se isso lhe dá uma tactibilidade especial ou se será da fantasia que a sua anomalia provoca em nós, o certo é que somos quatro a testemunhar o mesmo facto: "aprés" uma punheta batida pela Sónia ficam-nos a doer os colhões.
Eu tinha comprado uma rede, em Fortaleza, no Brasil, onde fiz uma exposição de fotografias cuja receptividade foi nula, e habituara-me a bater um choco todas as tardes depois do almoço, não mais do que uma hora para não ficar mole. Ontem, convidei a Sónia para almoçar, preparando-a para a sessão de nus que iríamos fazer no estúdio à tarde. E perguntou-me ela, como me vais pagar isso. Na brincadeira, olhando-lhe as mãos, respondi, com uma pívia. Para surpresa minha, isso provocou-lhe um sorriso mais aberto que a calvície do Yul Brynner. Adoro mostrar os meus dons, justificou.
Do vinho passámos à sonolência, na rede, até que ela, com a precisão de um metrónomo, uma hora depois, quis justificar a fama.
Nunca lhe serei suficientemente grato, ela foi buscar o ouro a 50 m de profundidade, ainda que me tivesse deixado o cavername a zunir. Confirmo o que dela me foi referido pelos três amigos comuns que desfrutaram duma idêntica experiência angular. A quem não acreditar que da associação duma boa sorna com a Sónia possa nascer um deleite que é em si mesmo uma arquitectura da dor, a tais cínicos, lembro o aviso de Jim Harrison: (também) a morte tem para nós a inverosimilhança que terá a realidade da nossa viagem à lua para uma zebra - a morte que, em nosso nome, já faz uma batida.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

BAGAGEM À VENDA EM LISBOA

 
ESTÁ À VENDA NA GALERIA DA ABYSMO - Rua da Horta Seca, 40 R/C – 1200-221 Lisboa | info@abysmo.pt, A CEM METROS DO CAMÕES.
A PARTIR DA PRÓXIMA SEMANA

domingo, 1 de dezembro de 2013

BAGAGEM NAO RECLAMADA/LADRILHOS 2. O HUMOR

 
 

 
Se em 180 páginas de sonetos não houvesse, para além da marmelada, uma pitada de humor a atenuar tanta meditação sombria, o pataco de um lirismo de malha caída, não sei que vos diga.

Por isso de vez em quando:
 
 

Desabotoada a calça,
o poema relaxa,
como o guarda na guarita
que vê a manhã dourar

lama, folhas, os estalidos
que lhe amotinavam
a noite. Aceita
então de bom grado

um cálice, algo
que o distraia da missão
cumprida. O ventre

descai, engasta-se
no débito da rola:
rô rô rô Rõ (é fêmea…)

Mas aqui vos deixo outros ladrilhos, e vejam lá que a meio até tem blandícias:


 
de «Fala do Efebo/ reminiscência 2»


Onde é esconso

desenha uma baía.

Eu que não fui donzela,

ave ou eucalipto,


sequer a surda sarda

de Empédocles,

fui a Greta de Heraclito.

(…)



Sim, quando

a sílaba de Heraclito

remove a falta, liso, sim,

o fogo encrespa na pele,


lisa como a pantomima

num olho de lúcio. E a onda

que era hirta deflagra

 
em seda – vaivém e

tremula: ou antes ,

vai e goza.


 
(…)
       Outros vinham bêbados,

imprecisos, ele chega lúcido

como a pedra no sapato –

mas tudo que extrai é sem dor.


A volúpia de poder ser

tantos e ser de um

a cereja na orelha,

ramelosa Greta sem Garbo.

π

 

 

O coração tem o desleixo das vizinhas

que penduram roupa empapada de lixívia

sobre os colarinhos quase enxutos, sob

a almas quase despojadas de lascívia.



π

 

 

                            (…) A palavra

conspícua que desabotoou

 
a mini-saia à rapariga num lavabo

do estádio, perdia o Benfica por 3-1,

para que um sáurio desaustinado

lhe arrancasse do sexo a saxífraga.

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O que destilam areias? Com fria malícia

galopam para o mar. Na mira de um vínculo,

talvez de um rabo de sereia (será carne branca

ou vermelha?) que resguarde do vento.


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A vida são as luvas da morte, cismou,

e a mostarda subiu-lhe ao nariz. Espojada

a reputação na erva fria, quis esbofeteá-la,

 
mas o mundo está à pinha de intrusos

que nos distraem. Saiu do café com a sensação

fruste de ser um oráculo naif, se tanto,

um licor fino. Chegado a casa escreveu:

 
«Este verso é mais infalível que o Papa!»

Ah, ser ao menos traduzido em islandês,

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(…)

Na ignorância de que grua seja a fêmea do grou

anela-o a acústica do copo:

se percutido, zumbe. Com vantagem –

ainda que a teia pareça uma bela mandala,


as mandíbulas do predador não dizem om.

Cem por cento pela litania dos telemóveis

nas mãos das raparigas. Vai outra caneca?


Topas a romena? É tramada, mas ,

hóspede da beleza,

nela tudo é fulvo e acontece.

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(…) Nem a faxina

cumpre: vê-se pela enorme teia

que a sediciosa criatura

se ilustrou nos três bichos-de-prata

que roíam a velha edição

de Racine (isto é que é socialismo!).


π

 

 
Lês: «Beijo-a. Aqui

não seria fortuito um eclipse».

E chega dos fundos, na longa avenida

de acácias em sangue,
 

a buzina de uma ambulância.

(…)

 
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Por força do hábito, o sopro muda em zebras a roseira

de Guimarães Rosa. A caminho do baile onde, de fraque,

um aguaceiro noiva um martim-pescador, o vento

ataca os rebites de todos os navios no porto

e num enjoo claro, estagia de binóculo nas partes

do gafanhoto (dezasseis horas de cópula). Chegado à festa,

arma-se em redentor e derruba a mesa das bebidas,

liba as inescrutáveis trombetas da terra.

O vento, afogado na luz até ao pescoço, (…)

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Na lágrima da viúva via-se um velho cisne

que tossicava muito. Ela escamava à bancada,

enganchando a unha na guelra. Lembranças de miúdo,

ainda a alegria trotava no seu pequeno porte exangue.
 

A quem seguir quando «a cidade é um poço inumerável?»

(…)


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(…)

Madagáscar, uma ilha com um trema no cu

e uma paz tão desopilada que vomita ogres.

A dúvida é se lhe tire a frio o pipo,

cisma Deus, ou se a quente lhe quebro os ossos



pela «incúria manifesta dos acontecimentos».

Mas, castigada a ilha, estancará o sangue

nas torneiras do continente? E finalmente a tsé-tsé



dará à luz a freira contra-alto que acorde na vergonha

«uma verdadeira especulação de bofetadas?»

Deus fecha-se em copas , encavalitado nos coqueiros.



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Um dia, num semáforo, bati

porque ruminava distraído num verso

da Primavera Autónoma das Estradas.

(…)

Um dia ofereceram-me um bonsai

que me lembrava o Mário à procura de

ventoinha nos armazéns do Grandela.
 

Um dia escrevi o Mário é imortal como todas

as Marias que calam o trilo de São

Francisco de Assis no corpo do seu soldado.

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FECHOS PARA SONETOS, COMPRADOS NA RETROSARiA

PiERRE DO COLOMBO

iii

Votre silence escreve a esferovite na vidraça

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Um oxímoro por outro papo, tantos não!

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Ter um corpo e não lhe sentir

o cansaço: uma pretensão que avilta.

igual só a literatura armada

em piscina de condomínio privado.

 
O cristal cala o calafrio ou afia-o,

dúvidas de neófito à entrada

do Museu Gongora. Contudo, é

improvável morrer-se na fonte onde

 
se nasce. O "em-si" atrai muito pó,

já viste crica empoeirada?

Num sonho a sombra de Cristo

(…)

π

 

 

Rompeu o silêncio do exame

para indagar, Doutor, o alumínio brilha?

Em que porta estreita

Lhe terá Deus encoberto o espírito?

(…)

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Desta altura da minha vida – um sétimo andar

sem elevador – vejo a minha adolescência a pular

na mesa alemã e enxergo o modo doméstico

com que me fui estatelando ao comprido.

Vem isto de longe, em várias frentes e lugares

(…)

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Uma luz caindo como cal

sobre os ombros em fuga

– porque só o ovo existe,

a galinha é o seu sonho –


conduz-me ao muro

dos teus olhos. (…)

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AUTO-RETRATO NO COMBOiO PARA RESSANO GARCiA

Que homem tão original, pensava a menina

que me enchia de macacos o cabelo,

mucos tenros extraídos das narinas

que a obstipavam (palavra tão bonita!). A mãe
 

não via, a mãe era um caso de cegueira e paciência,

o contrário da petiz que, para regozijo

dos poetas, compensava em ranho verde

a friagem do mundo. Ai o (cobrador!), corou

(…)

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Sem dar azo a mais destrinças,

posta a alma ao lume

(bem ou mal passada?),

a treva encarvoa-se de silêncio.


Vem a alba e lembra-me:

tudo se penetra: (…)

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(…)


Esgarça-se a nuvem, é uma questão

de sintaxe, sem esta

há lá emoção duradoura!,
 

nem seria a cerejeira reminiscência

nas costas da cama que te ouve

em blandícias.

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Procura-se leitor, morto ou vivo,

doze euros de recompensa,

alguém que restitua à letra

o corpo radiante, as mamas

en su sitio, o cuzinho refilão.

Procura-se leitor, morto ou vivo,

que vaze as minhas mãos

na sua espalhafatosa intimidade. (…)

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Não sei o que vos prometeram.

Este poema desapeou as bailarinas.

Chove, e não há outro prato na balança.

Todos os malditos dias, campeão.

É esse o nosso saldo – zero.

(…)

 
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Ir de cana, pintar o sete,

erguer em palafita sobre delgadas patas

de aranha o tabuleiro do medo

ou ir-lhe à rata abocanhar o queijo grié
 

– propósitos que esculpem uma vida

na sua jaula. Há quem prefira o comedimento

ser rato de biblioteca ou a convalescença

da ternura no passo da devastação,

 
a jaula é a mesma. O pão sonha

ser intratável farinha

ao vento. Deseja ter um prego

 
imaginário espetado na cabeça.

Que quando se olhe ao espelho

só se veja o prego.
 
 
A foto é do atelier do Bacon, um tanto parecido com o meu escritório e foi uma das imagens hipotéticas para a capa, hipótese que a editora (influenciada pela minha mulher, tenho a certeza)
rejeitou.

 
rejeitou