terça-feira, 5 de novembro de 2013

STORYTELLING E AS GAFAS DE GIMFERRER




STORYTELLING

                   
                                            para o Henrique Fialho, com um abraço ao Corvo

1


‘aparquei no soneto, decidido

a depilar a algazarra,

a cagança e o descaro –

que um trocadilho entre

garça e graça já passe

por poema. gosto da secura

dos indigentes a cismar

nas melhoras beatas, do acinte

janota com que enrolam

as mortalhas, num renovo:

vejo aí as qualidades da terra.

e o que arde desafecta…’, pre -

cisou ao riscar o fósforo

com que floresceu no petróleo.



 

2



tocava uma trompete fantasma. feminina

comme il faut. as suas cordas vocais imitavam

o instrumento, enfim, os pistões comme il faut

excursionavam num ataque d’asma de má sina

ou por desafinadas notas agudas felizardas

por explodir. canoras silvas de saliva

que bastavam para colorir uma narça

colectiva. ‘papagaios é o que a tua mãe guarda

na cona, fosse mais cedo era o Victor Hugo!’,

atirava se o picavam por derrota do Benfica.

o mar há muito não presta e não passa de peúga

rota, só lá me enfiei lá dentro, comme il faut,

para achar os sons do homem-orquestra:

glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glô…



 

3



tinha um filtro irónico e reinadio, por isso

afluía de natural a uma vidinha de raposo

gingão: mulherio, assaltos

(nunca aos vizinhos), dissipação.

sabia a Bíblia de fio a pavio

e chamava ao sexo a espada

de Salomão. deixou três ramelosos

rebentos, duas mulheres, um rio

de livros e permutas. ‘o hiv,

como um planctôn daninho, presta-se

a papar o Leviatã’, e mostrou-me o Vi-

agra, numa gargalhada impoluta,

antes de, atraído à Cloaca Mãe,

abraçar a Grande Puta.



 

4



tão magro, de alcunha o Entremez,

o mínimo flato era nele

um sismo de grau três. palavras

leva-os o vento, repetia, naquele

triste embaraço depois da Rosa

o ter trocado plo retalhista.

‘a rapariga afligia-se de te

ver a alpista’, atirou acintosa

uma amiga. ‘eu não

emagreço por gosto

mas por vocação,

eu simplesmente ouso – si

labou - concentrar-me

n-o o-s-s-o.’



 

5



o barra em jogos florais

a meio da queda constatou:

não distinguia nos estratos

da falésia aliterações

de rimas sonantes.

sem se deter (e onde?)

um melro cruzou

o desamparo do seu corpo.

quis detê-lo,

trocar com o dele

o seu aparato.

chamou-o, como se parido

naquele momento,

a ferros: m-e-l-r...



 

6



‘os pretos são todos iguais mas

nos pormenores são só idênticos’,

gracejava, escarafunchando a cicatriz

no braço, do último acidente nas obras.

um dia a serra eléctrica, numa guinada,

deixou-lhe a mão pendurada por um fio.

arrancou-a. queria uma de ferro. vira

na televisão, disse nos bombeiros.

não lha deram. ‘com uma mão

assento o tijolo mas não lhe coloco

o cimento’. era de Santiago onde o eco

é iletrado e ninguém lhe respondia

às cartas. partiu a garrafa, mordeu

o cepo, e trilhou o casco no pescoço.



 

7 (a última carta do futebolista)



entrava no balneário, a suar em bica, da jogatana,

e ao molhar-me, reflectindo-me no cromado

das torneiras, sentia-me culpado. em criança

só havia torneiras de cobre em casa. e só

aos dez anos, numa deslocação da família

ao campo me dei conta que a água caía,

nas mãos da minha mãe que me esfregava

a cara, de uma torneira amarelada e fosca.



até aí o opaco não entrara na minha vida.

olhava a torneira e ela não espelhava a minha cara

deformada. mudou tudo quando fiquei famoso,

as torneiras cromadas fizeram-me pensar que todos

os objectos foram criados para me reflectir.

que me perdoem, não foi isto que me ensinaram.



 

8 (o meu mestre)



para que mantinha aquele cacifo

há dez anos na estação

de Santa Apolónia ninguém

sabia. todo ele um mistério,

calibrado em frases soltas

e sibilinas: «só o insensato orgulho

do homem o leva a conceber

deus como um ladrão de cinzas?»,

anotei uma vez, à socapa,

porque Ele não gostava de perder

tempo a olhar para trás.

‘depois cortas-me a cabeça e

guardas-ma no cacifo’, instruiu-

-me no dia anterior ao ocorrido.



 

 
9



o amigo tem horas?

e, ele, célere, puxava

da naifa e desmoralizava

as tripas do inquiridor.

recai-se quando se fala

do tempo e nos desconec-

tamos do seu fluxo: o

tempo é uma mandala

na areia, reflecte tudo,

se a unha risca o padrão

o vento começa a ficar feio,

disse na polícia. à terceira ini-

ciaram-no nos electro-choques:

morreu de barriga cheio.



 

10



em menino, pedi um penico e caguei

um galo: o meu primeiro prodígio.

inventei depois, tendo em vista os litígios

dos casais – os meus avós, pais, tios… –,

a faca que se desenrola como a língua

do camaleão. a minha terceira

invenção foi o pára-quedas que amua

e não abre quando transporta um pária,

ou um desses borjeços que se pelam

por um trocadilho à Zé do Pipo:

‘eh pá, não é hamlet, é omolete!’

admiram-se se fui à televisão

e encharquei de gasolina o tipo

do execrável Compre Você Mesmo?




11



há deslizes mais venturosos que outros,

figueiras que no devido tempo

cospem o figo aos pés do mestre,

sílabas de uma só dentadura: o espelho

da sua vida. nasceu pobre, morreu

endividado – chamar-se-se-ia a tal,

nos velhos tempos da política, coerência.

alimentou dois projectos, aquela cabeça

a que num assomo de auto-estima

chamava "o meu torresmo": escrever

uma ficção que seria uma "tradução

das partes gagas"e um manual

de título ‘Kamasutra para Rouxinóis’.

o drama é que toda a vida confundiu

kamasutra com kamikazes e o 11 com o 13.



 

AS GAFAS DE GIMFERRER                             
 


Não se lembra se foi nas reuniões de tupperware

a que a mãe o arrastava, ou da vez que foi às putas,

no rasto de colegiais que o desagravaram com absinto.

Na certeza porosa, inebriaram-no os estames

da genesíaca flor carnívora e extraviou o número

de ouro, a divina proporção que piratearia

em riso a sua flagrante auto-estima. Areiam-se-lhe

as gafas num gafado espelho de Deus? Ou são

o ecrã em que revê - no mesmíssimo transe

da esposa, que a seu lado mergulha

os morangos nas natas – as pernas

de Marlene Dietrich? Não admira

que a ponta do nariz lhe ressalte como

cornija em saudoso apelo d’andorinhas.

 

 

 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ELUCIDAÇÃO DOS VENTOS SOLARES

                                                 a mensagem das baleias, alice w r




 
1

Cabeças expectantes como carvões
a quem ventila
a chaga da memória

e que só pela mutação têm repouso,
no mínimo viável que antecede

a elucidação
dos ventos solares,

uma ambulância azul
e sem um vinco por fora,
à imagem do céu,

enquanto
por dentro ardem
sementes dum amor
irrestrito

como o primeiro piri-
piri na língua
quando até a água foge

do Deus que s’esconde.

 

 

2

Sonhemos com as coisas imperfeitas,

a uva num pires quando nos abre a porta
a vulva, no canapé,
that

o amor na vulnerabilidade
dos que não se admitem ensimesmados
that

o pasmo na ausência qu’
inebria as ruínas,

não receemos as coisas imperfeitas,
o ar rarefeito da montanha
expande o olhar

descasco-te a laranja?

a fuga que lucilou
nos teus olhos perdeu o horário
do comboio
sob os ulmeiros.
do you remember?

Amemos as coisas imperfeitas;

quem perde a vida lubrifica-a
na discrepância
that

 

3

Não supunha que pudesse crescer
para dentro, colarinho
no pescoço
de outros nomes,

afinal, nem só a pele
descartável da cobra
pesponta
no vazio,

desassossegando luas
entre os áugures.

Quem envereda p’los sismos
do amor
encaracola
na liberdade,
dorme na esteira.

Não supunha.

Ou que albino,
o vento, me assarapantasse o guarda-
-chuva
e soassem clamores

o desejo da tua língua
na vara
             líquida que
torna habitável o inferno.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DIFÍCIL É VOAR

                                                            WHY WHY, by Alice W R



Difícil é voar e não depende do balanço
mas do lastro de ar que irrejeitável

nos erga a prumo, como se deus
- uma garrafa de oxigénio entupida de génios

verdes – nos tivesse concedido uma audição.
Sequer depende da atracção do firmamento

já que tantas daquelas luzes são urnas.
Difícil é voar porque uma intrincada porção

de carne entope como betão os poros
que abriam ao vento o corpo – e dele, galáxia

natal, faziam via rápida. E quem arrisca
agora a pele se, inumana, a ascenção

inflama em todo o metacarpo o ferro?
Não há cão crestado que não queira sair

do sol. Contudo, é vero, o carvão sobe
descendo em si mesmo, até ao brilho

da gema, e não se desvalida a gravidade
à primeira oportunidade, se até as ossadas

sob a neves s’abstraem da mensuração
da discórdia e, confundidas no branco,

ganham asas - estrelas em floco?
Só o homem, amassado pelas wastes lands

que no coração laminou, não se inspira
a sair de si próprio e abraça-se às moscas,

pubescentes e gris, do realismo para furtar-
-se às transformações silenciosas

que tumultuam as marés ou
levam o pigmeu à flexão do medo,

ebriedade com que mata o elefante,
aparentando-se finalmente ao homem.

 
nota:
"galáxia natal" é de Wallace Stevens

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O LANÇAMENTO DE A MALDIÇÃO DE ONDINA EM LISBOA


                                                               

E lá aconteceu ontem o lançamento de A Maldição de Ondina. Eu li o texto em baixo, citando o José Teixeira Pimentel. O do António-Pedro Vasconcelos será publicado na imprensa. Foi uma festa porreira, onde reencontrei vários amigos. A todos eles grato, etc.



«O tempo tem destas coisas, desníveis e curvas de nível, e hoje apresentou-se chocho e pôs-me melancólico, pelo menos às sete da manhã deste dia 25, quando redigi este apontamento, sob o espectro da certeza de que preferia voltar atrás e ter sido guarda das pimentas d’el-rei dom Manuel de Portugal ou, em último recurso, ter sido amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, a ter perdido dois anos com A Maldição de Ondina – um remédio que aliás nem me aliviou da gota.

Para já a relação teria sido muito mais rápida, por muito magnésio que eu pusesse nas mãos a enguia teria escapado. Depois a despedida seria de uma vez só, não era este enredo a conta-gotas que me faz sentir um amante póstumo.

Não creio que um amante póstumo tenha grande proveito.

Cansaços.

No dia em que fiz cinquenta e um – estava a acabar a Ondina -  tive uma estranha epifania: senti que quando fosse meia-noite me iria transformar numa abóbora. Uma coisa estapafúrdia para um cinquentão.

Comentei o meu desconforto com a minha filha mais nova, a Jade, e ela, do alto dos seus seis anos, respondeu-me:

Pai, uma abóbora não ressona.

E então compreendi que o meu desejo mais secreto aos 51 anos era não adormecer para não incomodar os outros com a minha apneia.

Ímpeto cristão, só me falta o baptismo.

Mas isso é na vida.

Os romances, pelo contrário devem ressonar, e fortemente - não transigir.

Incomodar pelos motivos que evocam, pela insónia em que colocam o leitor mesmo que não saiba porquê.

Como escreveu um amigo que leu a Maldição, uma frase que acho antológica: «Nunca gostei tanto de um livro de que discordasse tanto».

É este pacto que procuro traduzir na escrita, não o sentimento da fusão mas o do ligeiro incómodo que nos leva a prosseguir. Só neste intervalo entre uma impossível adesão ao que está a ser dito e o transe eléctrico da leitura é que pode acontecer algo novo, quando tudo, no dizer do velho Heraclito, «fica governado pelo relâmpago».

Não conheço outras leis para a escrita.

Nem para o tempo.

Por isso me fascinou este outro mistério que descobri esta noite na net e que me abysmou em reflexões que me tiraram o sono:

o pai de Rousseau, o Isaac Rousseau, foi relojoeiro num harém, em Constantinopla.

Relojoeiro num harém – eis tarefa para uma vida. E uma tarefa tão material, dado o tempo ser «a morte no trabalho» como dizia do cinema o Godard, como imensamente obscura.

Mas viu-se o pai de Rosseau obrigado a regressar a Genebra por insistência da mulher, Suzanne – de quem se dizia ser bonita e espirituosa a um ponto que teve um corrupio de pretendentes semelhante ao de Penélope -, e fez-lhe um último filho, para depois assistir ao sobressalto de vê-la falecer no parto de um – veja-se a ironia – bebé enfezado e doentio. O próprio Jean-Jacques.

Dizem os relatos que ambos ficaram nostálgicos, o bebé e o pai, e que dedicados ao culto da ausente Suzanne, se entregaram à leitura, devorando a grande colecção de romances que ela deixara – acumulada durante a estada de Isaac no harém oriental. AS coisas impensáveis a que podem levar as badanas de um harém.

Quando esgotaram esta biblioteca, bulímicos, concentraram-se na do avô materno, onde o muito jovem Rousseau virou, como se fossem líquidos, todas as páginas dos autores da sua época e os da antiguidade.

Mas suspeito que este jovem educado um pouco ao deus dará e com um pai que só lhe presta atenção por saudades da falecida, há-de ter chegado à adolescência e, numa noite de luar, talvez no esplendor da descoberta do seu corpo, embatido com o seu primeiro mistério metafísico: o que faz um relojoeiro num harém?

Qual é natureza exacta do seu trabalho? E qual é o verdadeiro marcador de tempo no serralho? E por fim, talvez a mais vertiginosa das perguntas: um relojoeiro num harém não se sente afogar numa espécie de infinito, de coalho que impede qualquer regularidade na medida?

Que podia o embaralhado Rousseau imaginar, para se safar a tal vertigem, senão «um bom selvagem», uma pulsão-em-flor que escape ao controle dos ritos e das regras “civilizacionais” – que permita, enfim, evadir-se de tudo o que dava sentido ao cumprimento das horas e à necessidade de um relojoeiro.

Pressinto que Jean-Jacques Rousseau, de repente, contra o pai, aspirou à hipótese de no futuro, e unilateralmente, vir a ser amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, e nunca por nunca relojoeiro.

É aqui que nos encontramos e que eu deslindo outro princípio para a arte: encontrar mais que foi perdido (Elias Canetti), como só pode acontecer em Eros.

Mas enquanto ninguém me manda o contacto da Eva Mendes, só me resta escrever outro libro, para me salvar desta dupla maldição.

Por isso, meus caros, até mais logo.«

 







sábado, 21 de setembro de 2013

REVISITAÇÃO DE HELDER MACEDO & UM PROBLEMA

 O problema com o Mal é que sob a sua filigrana já lá não respira ninguém, um outro. Não que o não “pareça”, ostensivo, importuno, omnipresente. Mas os seus modelos estão de tal forma saturados que já não trazem o pavor que os tornava indescritíveis.
Já não consentimos imaginar o Mal para além do que nos é oferecido. Estamos reféns das imagens que os seus modelos reproduzem. Ei-los mensuráveis, colados como selos às cartas endereçadas ao bem-que-nos-pariu.
E eis-nos abarrotados, até ao infinito, de cabidela, de vampiros, de espelhos que se vingam retroactivamente, de ogres & aliens, de democratas que mentem ruidosamente e de tiranos de viscosas mentes que florescem sob o bolor dos Hannibals desta vida, de putaria baixa & escarninha.
Como insistir na perfídia que já só se repete, extenuada, e já não afigura ser mais do que uma sobra?
Ser sacana, maldoso, ímpio, perverso, f. da p. qb, enrabar os anjos, engessados ou não, que intensidades traz agora, quando os massacres se sucedem indiferentes, em directo, e em Chicago escalpar bebés é o divertimento?
Lady Macbeth boceja e nós, depois de todo o bem cariado, chegámos ao mal sem sombra.
Para abusar de dois versos de Helder Macedo, o mal “telefona-me às vezes depois da meia-noite/quando o silêncio raspa o vidro da janela” – e, foda-se, mal damos por esse “penetra” na nossa festa.
E suspeito que depois da “naturalização” do mal começaremos a perceber que o silêncio foi perfurado. 
Quanto tempo precisaremos para compreender que perfurado não quer dizer perfumado?
“E eu nem sequer estarei aqui a dar por isso/ por termos ficado todos tão parecidos” – volta a escrever o Helder Macedo, um poeta absolutamente a redescobrir
e mais uma voz que confirma a minha intuição de que há décadas que confundimos a literatura com o turismo de massas, cabendo-nos a obrigação de corrigir o tiro.
 
 
Ladrilhos emprestados a “POEMAS NOVOS E VELHOS” de Helder Macedo, Presença, 2011, livro a que voltarei:
 
 
De VIAGEM DE INVERNO
 
2
Um salto de raposa sobre a estrada
último sol à beira da fronteira.
depois somente a sombra
duma luz diurna
a câmara dos ecos
e círculos de corvos sobre a neve
(…)
 
3
Na encruzilhada
vi-me reunido
restituído ao corpo que previra
despedido
na bifurcada ausência
da estrada sem regresso
ou transgredido
na transparência nua
da pele em que te teço
ou reconheço
nessa rasgada lua
nesse mar vão de sangue reflectido.
 
9
(…)
Mas os olhos que eu vi ainda eram negros
da cor da primavera.
 
10
A esquina estava lá
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a avenida sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.
 
18
O laranjal coberto de limões
 
no corpo suculento da memória
 
(…)
 
De O LAGO BLOQUEADO
 
Não há mistérios
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos
 
não há não há mistério
 
e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber
 
há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida
 
por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
 
mas não falo já de mim nem para ti
porque não és o corpo
que reflicto
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
 
sossega meu amor
não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.
 
 
De O SETE
 
 
(…)
pra cama pra cama
e basta de prosa
quem fica de fora
não sofre nem goza
 
e arrunfa tafunfa
menina cachuncha
e trica larica
na pita catita
 
(…)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

HARPO MARX NA JAULA DOS LEÕES


Revistas as provas finais do meu livro «Harpo Marx na Jaula do Leão», que sairá ilustrada com cinco belíssimos desenhos do Manuel San Payo.
É um livro de poesia que não sei classificar e que, pressinto, dividirá os leitores, tão à míngua de um lirismo de que, neste livro, me sinto algo arredado, ainda que termine com um longo poema de amor; o qual os que tendem a querer catar emoções nos versos acharão frio.
Um livro algo conceptual, em que o satírico alterna com alguns momentos de uma melancolia expansiva e em que o discursivo e o narrativo se sucedem, aqui e ali, armadilhados por elipses.
Será o meu segundo livro depois dos 50, e julgo que com  o anterior«Não se Emenda, a Chuva», constituirá o momento mais maduro da minha produção. Neles abandonei os malabarismos da metáfora e da linguagem, numa mescla de construção e coloquialidade.
Aqui deixo o poema de entrada do ciclo que dá nome ao livro:


HARPO MARX NA JAULA DO LEÃO
                                                     para o João Paulo Cotrim
1

Lembro-me duma jaula abelhuda
que não desgruda do desassossego de uma veia
e de Harpo Marx lá dentro, com um leão
vagamente adormecido —
a buzina, emaranhada na juba,
muda — e dele
com o indicador nos pedir «shiu».

Ou talvez confunda
com outra jaula num comboio
e outra indubitável fera fulva
em Some Like it Hot , de Billy Wilder.
O sniper que me ajusta a mira da memória
é que não me deixa mentir:
era felino o rosto de Harpo.

Glória de um homem talhado
para reinar, ainda que só
entre crisântemos, harpas e mimos,
tendo por ministros particulares
os poucos anjos
que – às primeiras, roazes, feiras
do Verão –, inebriados
pelo vento de nortada que tatua
o desejo nos pomares, não se evadem.

E ainda que vasto seja o sobrevoo
(a imaginação dos adultos sempre pinga),
nunca será o desfecho previsível,
se, em troca de uma língua-de-gato,
em criança nos inquirem
                                       o que
queres ser quando fores grande…
por isso, sem aparato, foi esse
o meu segredo
mais bem guardado na inflamável
fortaleza das amígdalas.

Queixava-se o Borges, eu que tantos
fui não fui o patusco que enxugou
na sua ínsua maledetta o profuso estuário
da Ava Gardner (não era esta a Eva dele,
mas a que mais me aflui à infância
do desejo): retórica pura — 
em matéria de sexo, só os toureiros
e as condessas descalças sabem da poda.

Eu queria ter sido simplesmente
o Harpo Marx das pontas
que ficaram por montar, a sua mudez
presciente, posto serem as palavras
barcos que partem, encadeados
por desavisados destinos.


E, asseguro-vos, a vergonha
que tinha valia por doze sarapitolas,
enchia oito frascos de compota.

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

ENTREVISTA A UM POMBO CORREIO SOBRE O MUNDO MINERAL

Em 1012 o Diogo Vaz Pinto e a Inês Dias dirigiram-me uma série de perguntas sobre “poesia e crítica” – perdi o enunciado que me enviaram – para um volume que incidiria precisamente sobre a relação entre esses dois patamares do universo da escrita, mas cuja publicação se gorou. Aqui ficam as minhas respostas.
1
Eu apareci cedo mas amadureci tarde, o que condicionou o modo como fui lido.
Fui para muitos um “champignon de route” do Al Berto, editado por ele em 79, e quando publiquei o meu primeiro livro “sério”, em 97, o Al Berto tinha morrido.
Pelo meio, andei pelos jornais, assisti a muitas mudanças, e já toda a gente estava farta do meu nome quando me meti verdadeiramente à estrada.
Daí suspeitar que poucos conhecem realmente o que escrevi. Acresça-se a isto o facto da maioria dos meus livros serem literalmente invisíveis (tenho que ir à bruxa).
Antes de 97 não conheci qualquer “fortunata crítica” e era justo. Mas tinha feito amigos: a Maria Velho da Costa, com quem escrevi vários filmes, o Herberto Helder, o António Barahona, o Grabato Dias, o Fernando Assis Pacheco, o Hélder Moura Pereira (eu andei sempre com os mais velhos), o Virgílio Martinho, entre outros.
O eco deles fez-me insistir na minha «poesia esquisita» (FPA). Só tinha que robustecer. Engordei então 20 quilos e passei a ter uma voz pletórica como a do Orson Welles (brinco).
Quando o António Guerreiro, a Maria João Cantinho, o João Barrento, o Urbano Tavares Rodrigues, o Eduardo Prado Coelho, escreveram sobre mim aí eu já tinha encetado o meu erro, pelo que não tiveram qualquer influência.
2
Só um best-seller pode mensurar os seus efeitos. Além disso vivo fora, literalmente, e nunca estive ligado a grupos ou ao empenho de gerações. O meu percurso tem sido solitário e dividido as opiniões, e já é tarde para me preocupar com isso. Aliás, neste momento há quem goste mais de mim como prosador do que como poeta. Why not?
3
Andei sempre levemente desconectado. Porque só acredito em coisas decantadas. Mas, a partir de 2005 e do livro Piripiri Suite, escrito já em Moçambique, sob o choque de uma erosão sobre homens, paisagens e ideias, como nunca imaginara existir, algo me roeu o luxo das metáforas, e tornou-me mais descritivo, aproximando-me de um certo modo mais próximo ao da geração de 90.
Mas continuo a pensar que preferia ter sido Michaux ou Ted Hughes a Phillip Larkin.
Neste momento, os poetas a que dedico a minha atenção integral são dois indianos: Lokenath Bhattacharya e Sujata Bhatt, um marroquino Abdelatif Laâbi, e um belga flamengo, Hugo Claus.
E acho que, no Brasil, se está a publicar excelente poesia na net. Já deram conta de Maira Parula?
4
Comentar a poesia exige um despojamento descoroçoador. É mais fácil arranjar uma grelha de conceitos e dois ou três tutores, que configurem uma sensibilidade, e, em nome de uma pertinência auto-legitimadora, aplicá-la. Fica meia costeleta fora do prato, nesta técnica de Procrustes, e nota-se um tal cuidado em «não caluniar as aparências» que fica por responder a questão central, a que Sócrates coloca a Fedro: se a verdade viesse de um carvalho, de uma pedra, nós aceitávamo-la?
Terá a poesia pouco a ver com a questão da verdade? Talvez, mas, paradoxalmente, não pode deixar de atender a esta pergunta.
Penso que, na “demanda” crítica, renunciamos demais aos acontecimentos e às singularidades em nome dos afectos, do conforto, da chantagem da “camaradagem”. Raras vezes a crítica não confirma a derrota do humano. Portanto, sim, a crítica é parcial, tendenciosa, protege uns em detrimento de outros por razões que não se prendem à qualidade do texto e, sendo difícil exigir que não seja assim – pois, perguntava Shakespeare, podem com sangue ser os homens diferentes? -, convém que alguma lucidez vá periodicamente corrigindo a mão.
5
O último serviço de pombos-correios que existia no mundo fechou as portas em 2001, na região de Orissa, na Índia. Não sei se ganhámos, se não fomos amputados de um certo tipo de imaginário. O mesmo se coloca com a música, gostar só de música pop, ou rock, e não ouvir música clássica ou erudita, não é uma mera questão de gosto mas de amputação de amplitudes na sensibilidade musical. Nas edições, neste momento, como em tudo, tende-se para a estereotipia – não é só a rejeição da poesia mas também a de um determinado tipo de prosa que se verifica. Hoje o Rabelais, o Sterne ou o Machado de Assis não teriam editores, são excessivamente digressivos e tanto vocabulário ofende a paciência do “leitor médio”. Cabe-nos reagir.   
6     
Estamos submersos numa saturada permuta com “o real” e algum excesso de cinismo e de conformismo recheou de “aporias” o poema. Do que pode resultar que “o grau de realidade” poética se meça pelo grau de trivialidade, de tédio, e vice-versa.
Nestes moldes a poesia servirá pouco o agir humano.
À melancolia, por exemplo, há ainda quem a aguente?
Tão sedutor como improfícuo, o lado de grande bazófia desconstrutora em Wittgenstein que contaminou tudo.
E vale ainda a poesia? Enquanto for capaz de trazer novas inquirições julgo que terá um papel social inigualável pois a poesia para mim é como a fotografia para o Bazin: algo que terá talvez mais a ver com o mundo mineral do que com a cultura humana. E aquilo que assim nos interpela nunca se despede.      
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A SÍRIA E A QUESTÃO DE ADORNO



Não creio que um poeta com um mínimo de seriedade possa, a dado momento, deixar de enfrentar a questão de Adorno.

Qual é a questão de Adorno?

Dizia ele, se admitimos que Auschwitz é o mal absoluto e que a poesia não pode, doravante, estimular a busca de uma beleza ideal, como é que a poesia, depois de um acontecimento que revelou aquilo que havia de mais negro na humanidade, é ainda possível?

Pode o poeta transmitir qualquer coisa que seja - malgrado o inferno com que modelizou a memória - da ordem do "canto lírico", face à violência, face ao aviltamento da indiferença a que uma sobrecarga de informação nos expõe, hoje?

Houve inclusive quem tenha afirmado, "um poeta que, hoje, se queira lírico não passa de um canalha".

Depois do que nos noticiam na Síria, estas questões são de novo actualíssimas.

Foquemo-nos pois no que "pode" a poesia.

A poesia, em meu entender, sendo "apenas" um meio entre outros de contribuir para a felicidade dos homens, como declarou Wallace Stevens, fá-lo resgatando-nos da monotonia a que todo o primado da representação propende, despertando em nós "o caçador de instantes".

Este caçador de instantes (a "figura" caçei-a em Rafael Argullol) é o homem que não admite a imagem de um continuum, seja para o tempo, seja para a vida, e entroniza com uma outra medida da existência, paralela, descontínua, livre, não normativa, em permanente transformação.

Então, a sua energia lírica estilhaça as margens da representação para se ancorar na expressão, essa melodia ou ferida incicatrizável que vivifica a linguagem e altera a nossa relação com a realidade, induzindo-lhe uma mudança.

Ao cantar as "rugosidades do real", a ténue fragilidade do aparente ou a força do gratuito, a poesia contagia a realidade, compromete-a com o contingente, e precisamente, por recriar sucessivamente as suas condições de existência, i.é, de inteligibilidade, desvia-nos da tentação de ficarmos dependentes das coisas ideais.

Ou seja, concebemos a poesia como uma "fuga" para a realidade e não uma fuga dela. Ainda que esta realidade, como a vislumbro, seja dilatada: o realismo é apenas um dos seus braços, e não ao contrário.

Pode então a poesia enfrentar o Mal Absoluto?

Existe, no meu entender, um erro de perspectiva na formulação de Adorno.

É uma falácia querer contrapor ao mal absoluto a inefabilidade de uma beleza ideal ou de um bem perene, que não faleça, pelo motivo mais drástico: toda a aspiração a uma idealidade tende a degenerar rapidamente num Mal Absoluto.

Mesmo que tenha como pretexto a poesia ou uma experiência espiritual ou religiosa.

Neste aspecto, as religiões orientais defendem-se mais do que as Religiões do Livro, ao partirem do princípio de que um estado de budeidade, por exemplo, ou a meditação, são experiências inapelavelmente individuais, nas quais a transmissão do dogma não substitui a prova da experiência. Abre-se aqui o espaço para um segundo nascimento, que independe duma instância suprapessoal, duma mediação impersonalizada. Aquilo que é aceite como experiência comum a alguns, e até como cânone, tem de ser verificado por cada um. É esse o sentido do conselho budista: «Se encontrares Buda, mata-o!».

Pelo contrário, o proselitismo ou o integrismo religioso, de outras esferas religiosas, são Males Absolutos onde somos interceptados pela "heteronomia do valor": agimos "em nome" de uma pura exterioridade, de uma mediação que nos administra os valores e a emoção. Somos então dominados pela patologia do simbólico, a qual reverte o qualitativo no quantitativo.

Nos antípodas disto, a poesia, pelo rigor da porosidade (o poeta é o homem mais "esburacado" do mundo) que a incorpora, o desenho do incriado e a consciência da sua vulnerabilidade histórica, não tolera a massa, a abstração, a obturação do nome.

É plausível mas não aceitável a ideia de um Mal Absoluto para as Massas. Este assemelha-se a uma formação coraligínea sem peixes: um anonimato. O Mal Absoluto é intrinsecamente pessoal, tem um nome, o nome que "eterniza" a vítima.

O erro de Adorno foi ter admitido, legitimado, a abstração, cedendo às relações de força que o fascismo potenciou: um morto apenas repete outro, converte-se num número. Só um nome materializa o lugar da memória.

Se os média não fossem já essa produção maquinal de «incultura informada» (Konstantinos Tsatos) que nos ejecta para a abstração, os mortos da Síria (as crianças, cuja morte escava dentro de nós) tinham todos nomes. Mil e tal mortos não me diz nada, o Francisco, o José, o Joaquim o Ahamad, a Fátima, têm um rosto - interpelam-nos.

Uma Massa é uma simultaneidade de movimentos em fusão, rapidamente indistintos, cegos.

Ao aceitar nomear a obscenidade de um Mal Absoluto dirigido às Massas, Adorno sem querer polinizou um conceito que torna imagináveis outros genocídios, dado que o Bem, o Mal, ou a Beleza, concebidos como uniformidades, aparentemente têm os ilimites (é sempre possível alargar os seus limites, como a sua actualidade, no caso da Beleza) do mercado da comunicação - estão sempre em expansão, como o universo.

O que os gregos anteciparam com o conceito de hybris (a desmesura).

O que se pretendeu liquidar em Auschwitz? A singularidade. Aquela morte programada, colectiva, ilustrava a crença de que se podia burocratizar – i. é neutralizar – as intensidades humanas, a subjectividade, impersonalizar o fluxo. A vida era ali encarada como o pequeno acidente, a paráfrase, que dá proporcionalidade ao lugar-comum.

A poesia, pelo contrário, desconcerta o lugar-comum, opera nos antípodas dele e ilumina o que escapa à linguagem, ao que a atravessa e ultrapassa, em nome de uma incidência particular, de uma experiência concreta, que só a palavra galvaniza. E dirige-se a cada um.

Por este viés, a beleza não emerge como a cristalização de um ideal, algo embrionário que chegou à sua perfeição, antes se valida como o que harmoniza momentaneamente o caos e desperta um padrão no informe, uma melodia, relevando «um sentido para a existência que estava até aí fora do conceito» (Yves Bonnefoy).

É por isso que a morte não atinge a motricidade da expressão poética e que a questão de Adorno afinal visa um alvo errado ou se concentra na época errada.

Creio que Adorno se dirigia ainda ao poeta épico, enquanto no Eliot de Terra Baldia, por exemplo, já se entrevê um caminho de aporias. A poesia de Terra Baldia é a soma das estrias que foi possível salvar à fragmentação e à incomunicabilidade; já Celan consegue ser fulgurante naquilo que gagueja.

Ou seja, Auschwitz foi a ilustração de uma lei determinista, enquanto a poesia que não se confina ao género – porque também há uma poesia parafrástica, condicionada pela representação - é o que é de todo indeterminado, uma dança que exigisse que estivéssemos atentos aos intervalos do ritmo, pois só aí se recupera a imprevisibilidade do vento.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ELUCIDAÇÃO ÀS FONTES

 
O que parece impossível pode acontecer: na Abysmo reuniram-se uma série de amigos escritores que em vez de rivalizarem entre si dialogam, em vez de competir riem mutuamente, em vez de serem egoístas discutem os livros uns dos outros, na tentativa, muitas vezes ainda em embrião, de que cada um dê o melhor de si na senda do seu projecto. Isto é raro e deve ser mantido, e vale mais que contractos milionários em editoras que só têm para oferecer relações de utilidade.
Pior, estamos todos evidentemente irresignados com as nossas situações pontuais, mas não com o mundo, o que nos leva a todos – e esta é outra característica comum – a afirmar e a agir, em vez de nos confinarmos à energia do ressentimento.
Não somos nem queremos ser “marginais profissionais”, ou “revolucionários façanhudos”, com morais bicudas que não admitem transigir com a ética, unicamente escritores que fazem aquilo em que acreditam, convicta e com o máximo de verdade e persuasão possíveis.
Parece que isto dá azo a todas as interpretações malsãs e equívocos. Paciência.
É engraçada a minha história com o Cotrim e como ela tem dado azo a tantas desembocaduras. 
Não me lembro exactamente do dia em que o conheci e que entrámos imediatamente em empatia. Sei que já convergimos maduros na amizade e que sempre nos divertimos juntos. Fomos cúmplices várias vezes: tentámos vender histórias às televisões, em várias edições que publiquei sobre indicação dele quando tive uma pequena editora, a Íman (olá Vera Tavares, olá Pedro Nora, olá João Chambel, olá Daniel Lopes, olá Jaime Rocha, olá Vicente Franz Cecim, olá Nicodemos Santos, olá Nuno Torres, olá António Rodrigues, olá Vergílio Alberto Vieira, olá José Mário Silva, olá Teresa Aica Barios, olá Diniz Conefrey, olá Ondjaki, olá João Jesus de Paes Loureiro, olá Vasco Baptista Marques, olá Celso Martins, olá Paulo Ramalho, olá Maria Velho da Costa, olá Rui Tavares, olá Helder Moura Pereira, olá José Amaro Dionísio, olá Teresa Noronha, olá Amadeu Baptista, olá José Teófilo Duarte… - meus cúmplices, autores, tradutores, sócios da Íman), em projectos e desânimos vários… mas divertíamo-nos sempre como brutos. E às vezes divertíamo-nos de uma forma tão desproporcionada que um dia o nosso almoço, regado como soía acontecer na corte de Salomão, acabou comigo com a cabeça do úmero esmigalhada.
Em consequência do qual passei um semana no hospital, assistindo a todos os bombardeamentos de Cabul.  De onde saiu um dos meus melhores poemas de sempre (um ribeirinho de dezoito páginas em que endereço uma carta ao poeta sírio Adonis, e que depois seria publicado no livro «Combate de Flautas», pela &etc.).
Não. Não foi um caso de violência doméstica. Eu havia comprado uma ópera brasileira «Guarani», e discutíamos a ópera italiana contra a alemã. Ele queria à viva força levar o CD para gravar, sem eu o ter ouvido, e eu insistia na devida necessidade de eu ter a primazia. E a meio da praceta do Camões ele, de brincadeira, agarra-me no cd e dá-me um piparote com a anca. Eu surpreendido pelo inusitado encosto da nave Apolo 13 dei um mau passo para o lado, tropecei numa pedra da calçada e caí desamparado sobre a caldeira de uma árvore tendo batido com o ombro numa esquina da caldeira.
A única coisa que tenho a lamentar é que nunca ouvi a ópera Guarani.
Portanto, devo ser o único autor no mundo que parte os ossos sempre que almoça com o seu editor.
Isto liga.
Mas isso não me dá direitos de propriedade. Portanto ao contrário do que diz a Isabel Coutinho (por amabilidade, o que me alegra) não sou co-proprietário nem co-editor da Abysmo.
Aquilo é mesmo dele, do má-raça-Cotrim, e nós, os seus amigos e autores, estamos todos interessadíssimos em que resulte, e por isso falamos uns com os outros, mas os livros saem como saem porque é ele quem os faz e porque ele os faz como o poeta que é – o resto são balelas.
Claro que a amizade pode ser uma espécie de proporcionalidade que é indeterminável e que vou tentar arrastá-lo para o casamento da minha irmã (pá, temos gim, grappa, uísque, uma piscina e uma cantoria infindável), mas isso são outras favas por contar.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"LINCHADO POR ENGANO"

foto de josé teixeira
 
Eu não sei se alguma vez estive com o jovem escultor Alexandria, “linchado por engano” (que destino!) num dos bairros periféricos de Maputo, por um povo a quem a indiferença dos políticos anda a deixar colérico. É provável que sim e o luto em que anda a malta da Garajinha, uma das poucas tertúlias que frequento em Maputo, indica-me que sim. Mas fique registado a minha perplexidade e desconsolo. A minha revolta.
Tenho vários amigos artistas que vivem nas periferias e estão todos muito, excessivamente, inquietos com a vaga de violência que nesse momento campeia por lá.
Sobre este assunto, veja-se o excelente texto do José Teixeira no blogue Ma-schamba, aqui. http://networkedblogs.com/O5HTJ. Aqui deixo também uma foto do Pimentel, suponho, com alguns trabalhos daquele que era considerado uma das novas vozes mais originais da arte moçambicana.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

DELEUZE E O IMPODER


Em carta a um amigo japonês, Kuniich Uno, escreveu Deleuze, sobre como se sucedia a sua colaboração com Guattari, com quem urdiu três livros nucleares, O Anti-Édipo, Mille Plateux, e O que é a Filosofia:
«Pouco a pouco, um conceito tomava uma existência autónoma, de modo que por vezes nós continuávamos a compreendê-lo de maneira diferente - por exemplo, nunca compreendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”. Nunca o trabalho a dois tendeu a uma uniformização, sendo mais uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma».
Raramente vimos manifesta uma liberdade tão viva e uma tão expressa paixão pelo múltiplo. Os dois pensadores colaboravam para poderem convergir e divergir, numa pulsação contínua, sem receio de se contradizerem ou necessidade de afinarem os argumentos, até apararem as linhas de fuga.
Nunca lhes passou pela cabeça a disputa ou a necessidade de domínio na relação e, de imediato, prescindiram da supérflua tentação de armar os argumentos para terem ou não ter razão; pelo contrário, sem reservas, numa porosidade em acto, a aventura de penetrarem em espaços desconhecidos (os que “a resistência” do outro abria na escuta de cada um, com a maravilha duma nova perspectiva alargar o âmbito, perspectivar-se na projecção de novos conceitos ou na súbita ambivalência do pensamento que se julgava “fechado”) tornou-se prioritária.
Eis uma colaboração que prescindia de negociação, porque o conflito estava desactivado de antemão, não havia confronto entre forças/opiniões polarizadas, não se tratava de uma dialéctica, mas de estar aberto a um fluxo que faz das suas sombras matéria para, como Deleuze diz, numa exaltante proliferação, modelar o pensamento pela virtualização do múltiplo.
Testemunhamos aqui um verdadeiro “encontro”, que activou a possibilidade de cada um deles - face a face, nesse diálogo que ia tecendo o seu próprio percurso - superar as fronteiras de um pensamento condicionado pela inércia da opinião. O que só pode acontecer quando seguimos as linhas da água e à “vontade” preferimos o “impoder”.
      O contrário do que defende Bertrand de Jouvenel, no seu livro basilar sobre o Poder,  para quem “um homem sente-se mais homem quando se impõe e faz dos outros um instrumento da sua vontade”, atitude que é hoje a mais comum e, lamentavelmente, a única disseminada.
O “impoder”, contudo, esclareçamos, não é um signo de impotência mas um reforço da potência que nasce da liberdade a si mesmo e às marcas de representação. O que talvez explique que Michel Serres tenha dito de Deleuze que era o único caso que conhecia de alguém a quem o pensamento trazia felicidade.
A mesma liberdade também se patenteava no jesuíta Richard Wilhelm, tradutor do «I Ching» para o Ocidente, ilustrada quando afirmou que aquilo que mais se orgulhava na vida fora, em trinta anos de missionarismo na China, nunca ter feito uma conversão ao cristianismo.
É desta grandeza humana que estamos necessitados, da qualidade de gente que se dispõe à luta para “não ter poder”.

terça-feira, 23 de julho de 2013

DEPOIS DE TER REVISTO O TIGRE E A NEVE



Escreveu Mahler à sua mulher: «Eu não sou senão um arqueiro que atira no escuro”. Neste arqueiro cego encontra Salah Stétie a metáfora para falar do poeta.
Também eu me sinto vizinho dessa concepção, o que não nos traz certezas nem futuro mas essa imensa liberdade que nos dá o encontro com algo imemorial. De entre as mitologias em torno do poeta e da poesia é a que prefiro – a de uma escola de ignorâncias, como diria Ramos Rosa.
Também eu, no começo de todos os equívocos, quis ser um poeta maldito. Felizmente a vida pregou-me a partida e deu-me filhos, o que me fez entender que tudo recomeça sempre e em todas as direcções, mesmo o mal recomeça sempre, ainda que refractado.

Um maldito é um homem de um só vinco, que toma a prancha partida da piscina da sua infância por todas as pranchas do mundo e que teima em dizer «não» quando a melhor negação é dizer sim.
Se o vinho nos põe alegres, por que teimar em ter mau vinho? Há por aqui uma enorme pose, uma estapafúrdica falta de sabedoria.

A única forma eficaz da nossa indignação contribuir para uma mudança no mundo é dotá-lo de algo que nos religue e quebre a inércia do tanto que nos quer separar. Da beleza, por exemplo, que é a forma momentânea com que damos uma melodia ao informe.
Esta é com certeza o transe que nos impele à colaboração mais activa, numa realidade que, apesar de nós, se desagrega. E não importa o quanto se desagrega, mas o que fizemos para sair da linha recta e para a olhar duma perspectiva que a re-encantou. Uma vez, na adolescência, dum mau poeta, li uma imagem que nunca mais me esqueci: na cidade que tombou num manto espessíssimo de nevoeiro dois homens aproximam-se. Não se vêem, mas um deles assobia a melodia do Casablanca, e quando cruzam as nubladas ausências, o que ia calado, sem se dar conta, começa também a assobiar a mesma canção. É tudo o que é possível fazer e julgo ser o pequeno estribo que nos salva do ganido dos cínicos.

Também eu lastimo o estado das coisas e me zango e atabalhoadamente me atiro num galope de sentenças e imprecações, de recusas que ziguezagueiam como eu, mas persistir na ira só me daria a impaciência que não me deixa ver. Há que saber que em cada momento o escuro pulsa com uma cadência diferente de modo a conseguirmos orientar a flecha na noite. Para onde ou para quê atiramos, desconhecemos, só intuimos que é nessa direcção. Um poeta maldito, e há muito poucos que o sejam genuinamente, é-o, apesar de si, de relance, e não em preocupada demonstração de zelo. Não fazem profissão.
Uma vez tive um poeta amigo tão furibundo que (dir-se-ia) torcia as colheres só de as olhar. Ficou em apuros. Todas as semanas jogávamos bilhar a dinheiro e eu perdia sempre. Era a única forma de se deixar ajudar. Depois insistia em passar pelo cemitério e em ir mijar nas campas. Percebi com ele que afinal não queria ser um poeta maldito, e que não urinar nas campas não queria dizer que as enchêssemos de licores.

Há uma grande vantagem em não ser um poeta maldito: não sei o que vou rejeitar amanhã, não sei sequer como vai ser amanhã, e o futuro e o passado encadeiam-se num presente discrepante, mas aberto, com sombras e flashes de luz atordoadores. Um homem vário e ondulante, diria o Montaigne, dá quanto muito uma profissão de fé, que é igual a dizer que na mão só se leva o vento, às rabanadas.

Um maldito-de-profissão ainda está na orbe do poder, procura ser um contra-poder, eu prefiro os refractários que, sem muita convicção, apenas porque não conseguem ser de outra maneira, semeiam o “impoder”. Pode até amar o mal, uma certa configuração que lhe dá textura aos tecidos. Desde que ame, que não finja amar. Aí os tigres brilham na neve.     

 
QUATRO OU CINCO TREMOÇOS ACHADOS NUM CADERNO

1
O poeta é o único bombeiro
que apaga o fogo
com um incêndio.

2
A sombra de Argos
desenhou-me no calcanhar
uma elipse
com os caninos
- intuo
que não sou Ulisses?

3
Sempre
que atirava o laço
a corda dava um nó no ar
antes de salpicar
o que quer que fosse.

4
A turquês e o alicate,
um casal inconsútil
dançam um tango
no arco da aorta.

5
Se bem que inestimáveis,
ara do desejo,
aqueles calendários
tinha o ar
do tempo
que já passara.


6

Incoercível
a força com que a corola
impele para o alto
a pélvis azul
do céu.

 

domingo, 21 de julho de 2013

ONDINA, O POSFÁCIO DA EDIÇÃO PORTUGUESA


O Nazir Can, um jovem académico que se graduou em Barcelona e que agora pertence aos quadros da USP de S. Paulo, ainda não tinha desaguado nos 30 quando, há cinco anos, desembarcou um dia em Maputo por causa de uma investigação que o levaria a escrever, um ano depois, uma magnífica tese de doutoramento sobre a obra de João Paulo Borges Coelho, e que neste momento está no prelo, em Portugal e em Moçambique.
Foi um encontro de grande empatia e ficámos amigos e por isso quando se pôs a hipótese de publicar A Maldição de Ondina, disse-lhe que gostaria que fosse ele a escrever um posfácio para Portugal. É o que sai na edição da Abysmo e que aqui divulgo, embora truncando o primeiro parágrafo:

 (…)

Partindo de vivências reais para homenagear as estórias literárias que se fundem nos seus universos mentais, Cabrita congrega e articula, no thriller policial A Maldição de Ondina, diversos saberes: o histórico, antigo, imediato e imaginado, i.e., dos tempos que “foram”, dos que “são” e dos que “poderiam ter sido”; o político-social moçambicano, doente, alvo de contínuo diagnóstico; o cinematográfico, infinito, paixão sempre revisitada; o fotográfico, envolvente, que produz pausas em movimento no relato; o crítico-literário, sedutor, com os seus apelos e aporias; o geográfico, eloquente, respirando história; e até mesmo o gastronómico, metonímico, caracterizando-se pela transformação, deglutição e reaparição. Tudo isso para celebrar, como referimos, o saber literário, melancólico e abrangente, desencantado e desenfadado - o verdadeiro pai de todos os outros.

Este caldeirão de sabores, remexido com uma batuta experimentada, ganha forma por via de uma estética que valoriza o abalo e a provocação, demandando uma reação, cativa pela economia narrativa de alto pendor imagético, casando descrição e reflexão, e fundamenta-se na musicalidade e no estilo, aliando o linguajar oral (de Moçambique e de Portugal) à expressão escrita mais clássica. As epígrafes de Aristóteles e de José Lezama Lima funcionam, pois, como uma pista, uma espécie de índice programático da obra, visto que clamam pelo gesto poético, mesmo quando este se socorre de atos reais e de ações verosímeis, e sintetizam a condição do poeta que o agencia. Isto é, resumem o destino deste ser abandonado que se deixa levar pela condição que lhe calhou em sorte e que, nadando com as mãos amarradas num tonel de vinho, almeja tão-só a raiz das coisas.

O romance relata a história de César, escritor e professor universitário, do seu amigo Raúl, que segue as pistas de um assassino em série (pelos vistos muito letrado), da sua mulher Beatriz, professora universitária e investigadora de literaturas africanas, da sua ex-mulher, a intelectualmente sedutora Argentina, da sua irmã Filipa, médica, e ainda de Aurora, sua cozinheira. A partir desta última personagem, e dos seus amores secretos com o maldito e irresistível malgaxe Jean-Joseph (na própria cama em que o príncipe Ali Khan jurava eternidades à diva do cinema Rita Hayworth, no palácio da Ilha de Moçambique), o romance convoca ainda o fait-divers histórico para, de certo modo, desvirtuá-lo, privilegiando o cariz enérgico e inesperado, sensual e erotizado de um quotidiano que, ao contrário dos discursos sobre a História, não é contido, não sabendo nem querendo domesticar-se.

O autor surpreende o leitor desde a primeira página, sobretudo pela plasticidade de uma linguagem capaz de produzir inopinados vaivéns entre a expressão mais clássica e a mais coloquial. Ao ponto mesmo de torná-las massa da mesma matéria, e de fazer confluir o significante no significado. Tudo isso através de uma rítmica proveniente da poesia: “Não param de manducar, de clamar por bebida, de vasculhar tudo na casa, metediços. A casa de banho ficou ocupada vitaliciamente (descobriu que o mais novo penteia o bigode com a sua escova de dentes), nos intervalos de emporcalharem lençóis, as toalhas de mesa, os sofás, de ranho e merda e vinho e esperma. Mal acorda, ainda enevoada, vê-os a adejar pela casa, sem decoro, os maxilares infatigáveis com que retalham o dia, enquanto plangem guitarras nas marrabentas...” (p. 19). Enquanto estrangeiro em terras que têm o condão de espantar, o autor não se abstém de refletir sobre a diferença cultural. Esta, porém, se mantém onde lhe convém, i.e., precisamente no campo das diferenças: O martelar da música desde o primeiro dia, extravagando indiferente ao silêncio exigível a um luto, ao recolhimento da viúva, punha às escâncaras a intrusão. Mas o quinhão de infortúnio que a cada um é destinado viver é intransmissível, não lhe cabe imiscuir-se” (p. 23). Para descrever a diferença, como se pode observar, o narrador socorre-se de duas máximas sentenciosas, articuladas pelo fio musical: a primeira afirmando a posição de perplexidade e desconforto da personagem estrangeira; a segunda reconhecendo a inutilidade de referida posição num cenário que lhe é diariamente outro.

A dita relativização não envereda, no entanto, pela via fácil e politicamente correta do autor metropolitano que faz ouvidos de mercador quando sobre África escreve. E isto porque Cabrita não tem pejo em denunciar, satirizando, tudo aquilo que rechaça neste recanto do mundo onde se decidiu inspirar: “Quem aterra em África dá conta, nos primeiros dias, de uma descomunal expansão do instante. Uma hora ramifica-se em duas, é como a criança que entrevê o Éden na porta giratória: nem se entra nem se sai (...) Entrasse Ulisses num banco africano antes de regressar a Ítaca, já encontraria Penélope casada” (p. 33). Daí que este romance faça um passeio elegante e eloquente, por vezes mesmo aterrador, pelas insidiosas formas de violência e práticas de poder existentes em Moçambique, esta terra que se transformou com o correr dos tempos num “exército de órfãos” (p. 215): desde a violência de género que atravessa o país de lés a lés, e que é acompanhada pelo desdém político e pelo eterno álibi da tradição (“Devem estar a chupar-lhe tudo, pensa, malditas tradições. Vamos lá a ver se não a violam, à conta do kutchinga” – p. 23), passando pelas estratégias de manipulação da autoridade (e do tal “comportamento de fusão, de irrefletida unanimidade, que é uso na terra” – p. 45) e do cíclico processo do qual esta última é motor e cúmplice activa (“As drogas, o tráfico de toda a ordem, serão negócios dominados por Momade, o qual distribuirá as benesses por capangas, clubes desportivos e Partidos, até que o ímpeto emergente de um rival lhe traga os dissabores que agora administra” – p. 222), culminando nas rupturas familiares mais cruas e inquietantes.

Para estas últimas, Cabrita socorre-se de um arsenal metafórico original, cuja função, para além da vizinhança de sentidos entre realidades díspares que está na origem deste recurso, passa ainda por um roçar, ou mesmo por um escavar, do real mais palpável e sorumbático: “Um mês depois o marido envolveu-se num motim na prisão e foi abatido. Há dez dias. Separada do seu homem há dez dias, por uma bala que lhe engarrafou a alma. Dez dias separam a memória fresca do marido daqueles lábios grossos de sangue coagulado que agora, de viés, pedem, insistentes: – Ma-ma-mã, pe-pe-ço sardinha!” (p. 21). O resultado catastrófico destes esquemas de exceção é sintetizado em sentenças que, esvoaçantes por todo o romance, elucidam a solidão das personagens e da sociedade em geral. Estas máximas constituem-se, além disso, em autênticos achados de estilo e de significado: “É provável que não haja memória para além do sulco das feridas” (p. 60); “É difícil gerir tanta coisa à distância. E pior ainda quando isso implica um sentimento que cava uma distância de nós para nós mesmos” (p. 153); “Os judeus viveram o exílio na diáspora, o negro vive um perpétuo exílio interior porque vive imerso numa imagem que perdeu a referência” (p. 186); “há vários dias que sentia o seu coração esfacelado pelo turbilhão de gaivotas que da sua janela via sobre a lota” (p. 192).

Nesta narrativa ambiciosa, composta por micronarrativas que se encaixam no texto-mãe, fazendo-o fluir e outorgando voz, a espaços, a narradores outros, cabe ainda (como não?) a reflexão sobre os processos de escrita: tanto da escrita que se aventura (“Descobrir como imprimir ritmo a uma frase é um transe de que não se recupera e perdê-lo, deixar escorrer entre os dedos esse tônico, faz ressoar um alarme similar ao do atleta que descobre que no seu coração mirra o músculo papilar” – p. 46), quanto daquela que procura, sem encontrar, um porto-seguro: “Agora, falta-me a linha, o posicionamento, o vislumbre de guelra aberta numa frase eficaz e sinto-me um remoinho estéril onde, a verdejar alguma coisa, não se avista cardume” (p. 47); tanto da escrita literária que fica aquém do re-presentado (“words, words, words, refratárias ao mínimo sopro de vida, à imprevisibilidade com que o existente filtra a alma de um fundo amorfo” – p. 59), quanto da escrita dos “intérpretes” literários, que desconhecem a descoberta: “um exegeta literário nunca terá a temeridade dos samurais, que teciam um haiku enquanto praticavam o hara-kiri, nós estamos viciados em experiências diferidas” (p. 202). Obra total, aberta, naquele sentido dado por Eco, i.e., plurissignificativa, dinâmica, com uma estrutura que adapta e sustém as restantes estruturas que emergem no/do seu interior, A Maldição de Ondina põe o mundo à espera e, como compete à boa literatura, nada oferece sem um retorno tácito. Neste audaz exercício meta-literário, realizado minuciosamente por um autor com dotes de equilibrista que defere, i.e., que traz algo de um lugar para outro, o leitor permanece em vigília, sendo também ele convidado, ou forçado, a provar as várias facetas de uma mesma realidade. E a incomodar-se.

Assim, em A Maldição de Ondina, notamos a veia do poeta no músculo do romancista que, também aqui, num género literário distinto, mantém o afã de sentir tudo de todas as maneiras. Veja-se, a título de exemplo, duas manifestações radicalmente opostas do gesto erótico, este acto que, afinal de contas, constitui por excelência a linguagem do corpo. O confuso e eufórico, de Aurora e Jean-Joseph: “Jean-Joseph, abeirou-se pé ante pé, na cozinha, apertou-lhe o seio enquanto a boca lhe roçava o pescoço e a outra mão lhe subia as saias, numa decisão comandada por espíritos. Aurora deslinda dois caminhos convergentes para a pulsação que lhe umedece o sexo: ou grita, denunciando Jean-Joseph, o que era o mesmo que separar a sua sombra a punção e martelo, ou cala, gemido a gemido, despendendo o recato, enquanto da batedeira suspensa o chocolate escorre para o chão” (p. 64); o ritmado e disfórico, de Argentina e Litos: “Litos penetra-a e entrança-lhe o corpo nos braços e Argentina ouve a bola de basquete no piso de cimento do campo de treinos, nas traseiras da casa. Argentina agarra-se ao sincopado ritmo da corrida dos miúdos, aos seus gritos, ao sorvo de ar na trajetória da bola, ao repique da bola, saltitante, suspensivo, no arco do cesto. Argentina procura adivinhar o posicionamento dos jogadores, a sua evolução no campo, a natureza das faltas, o jogo das mãos no despique do esférico, enquanto Litos a embucha poro a poro, nem reparando que ela está meio seca, tão seca como o baque da bola quando rebenta” (p. 141). O denominador comum desta constelação de sensações contrapostas é a expressão, de quilate superior, repleta de imagens (esta “fantasmata” sem a qual, no dizer de Aristóteles, não é possível a memória), de associações (sem as quais não é possível a comunhão de sentido) e de ritmo (sem o qual não é possível a fruição), que criam o contorno necessário para a maceração silenciosa do leitor.

Obra de uma rara riqueza intertextual, capaz de fazer interatuar Baudelaire, Octavio Paz, Camus, Shakespeare, Dickens, Juan Gelman, Cervantes, Melville e Pessoa numa mesma cenografia, onde ainda cabem As Mil e Uma Noites, Charlot, Felini, Mamoulian, Orson Welles, Monet, Brueghel, etc., A Maldição de Ondina caracteriza-se, pois, pelo contato de imaginários aparentemente díspares, pelo ritmo e destreza, pela plasticidade e elegância, e pela crueza na denúncia; fundamenta-se ainda na economia poética, ou seja, numa linguagem capaz de abarcar a riqueza ou a pobreza dos seres e das coisas apenas e tão-só com as palavras necessárias. Neste sentido, um café da capital, que resiste como pode às vicissitudes do tempo, é apresentado da seguinte forma por um narrador cáustico: “Não conhecia os meandros da história do café Continental, mas sempre lhe parecera bizarro que o capitel das colunas fosse ornado de chocalhos e os azulejos tivessem farfalhudas vacas estampadas, como se o dono do lugar quisesse transmitir às pessoas que a sina da vida é condenar-nos ao estábulo, à condição de bestas” (p. 96); já Quelimane, ou melhor, um dos seus bairros, é a testemunha estripada, dezoito anos volvidos, da guerra civil: “Quadriculado convulso, uma cidade que desaprendeu a mansidão, se desdobra aos baldões e se acama em escombros, aquela parte recôndita de Quelimane – enegrecida pelas deficiências da iluminação pública e por casas esventradas pelo desleixo dos homens e a erosão da guerra. O asfalto fora há muito corroído pela lama e urina dos cães, a pontapé naquele canto; tal como as folhas de jornal enlameadas que crianças sujas esgaravatam num afinco inexplicável” (p. 213). Estamos perante lugares relegados, subordinados pela história, e que, por respirarem de maneira diversa, são aqui alvo de uma atenta diagnose; tal como algumas das personagens-figurantes deste romance que, não sendo coral (não visa dar voz a ninguém a não ser a si mesmo), outorga um olhar a tudo o que respira: “verdadeiramente insólito era o seu olhar metálico, insondável, de quem desde tempos imemoriais já só tem passado” (p. 121); “uma mulher de pôr qualquer sentinela às avessas, uma mulata clarinha com sardas na canela, boca carnuda e peitos ideais para vender a fiado” (p. 122); “um homem vestido de marinheiro, com galões de oficial, e sem mais características de nota, além do cabelo extremamente louro e fino, que apertava de têmpora a têmpora a abóbada calva do crânio, e da barba ruiva, flamejante, em contraste com aquele magote de negros combalidos e embrutecidos pela tristeza” (pp. 146-147).

A Maldição de Ondina é um cativante exercício meta-poético, com uma cadência, uma musicalidade e uma seleção do material discursivo a todos os níveis eficaz. O que retemos nestas leituras de Cabrita sobre África e sobre o ser humano em geral é essa sua capacidade em aliar descrição e reflexão sem nunca perder a mão sobre a narração (qualidade que o autor tanto admira em outros escritores, mas que pratica tanto ou mais que os mesmos), essa ausência (clássica) de pudor em sentenciar, atirando harmoniosamente em todas as direcções (inclusivamente na que vai de si para si mesmo), essa experimentação sobre a própria experiência, seja ela mundana ou artística (que, para o autor, como se poderá notar, se alimentam mutuamente), sem contar os divertidos, vivazes e tensos diálogos mantidos entre as personagens. E, claro, como todo bom romance, A Maldição de Ondina não podia deixar de exigir algo ao seu leitor – do leitor ativo, que estabelece um pacto, obviamente; e não tanto daquele que desfruta do dado de borla das eventuais notas de rodapé. Àquele leitor, dizíamos, lhe competirá resolver um espinhoso quebra-cabeças: como prosseguir sem se atulhar no ressentimento e, simultaneamente, sem negar os factos?

       Agudo no seu propósito ético e arguto na dinâmica estética que o entretece, António Cabrita revela neste belo romance – que é simultaneamente localizado e universal, que fala da memória e da impossibilidade de esquecer, das marcas físicas e dos exílios interiores – os inquietantes umbrais de um país que, no mínimo, contagia. E que de tanto contagiar e de ser contaminado se tornou no pano de fundo de uma maldição metamorfoseada que o autor, agora, trata de nos oferecer. Saudemo-la, pois, sem a esquecer. Porque, afinal, “As coisas belas transformam aquilo que em nós está ainda informe” (p. 154).


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