terça-feira, 7 de agosto de 2012

ONDE ESTÁ O PÊNDULO?


Recomecei as aulas. Estou entusiasmado pelo programa que arranjei para o semestre de Dramaturgia, onde vamos trabalhar em torno de duas tragédias de Shakespeare, Coriolano e Macbeth, e duma tradução colectiva de Robert Zucco, de Koltés.
Desta vez, se acaso os alunos não forem receptivos (espero que sim), a preparação das aulas servirá também para escrever uma série de notas sobre o bardo que talvez possa depois desenvolver num texto (- eis a grande liberdade dos 50, já nos permitimos o descaro de dizer que se calhar podemos escrever qualquer coisinha sobre o bardo sem desfalecer imediatamente de vergonha), o que me poupará a qualquer perda de tempo ou estímulo, fazendo-me sobrevoar uma eventual reciprocidade ou o menor afinco dos estudantes.
A adaptação fílmica de Ralph Fiennes de Coriolano é o catalisador que autorizará desdobrar os diversos tipos de abordagem:
- análise da adaptação de Shakespeare em relação ao texto de Plutarco;
- análise da adaptação do filme em relação à peça de Shakespeare, que traslada a acção para a actualidade;
- análise da découpage e das marcações cinematográficas em relação ao ethos das personagens.
Como somos cinco, eu, a monitora, e três alunos, isso proporcionará um espaço de concentração e uma maior dedicação aos exercícios.
Estou decidido a esgotar um leque razoável de referências bibliográficas possíveis sobre as peças, e a produzir depois qualquer coisa. É a única forma de me entusiasmar e de não me sentir insatisfeito no fim, pois dar aulas é-me cada vez mais penoso.
Preciso agora de um plano extra, igualmente sugestivo, para as aulas de Guionismo, onde, alunos ainda menos empenhados em estudar, se deleitarão em tanger na minha voz rouca o canto do cisne.



Escreve Northrop Frye, na sua introdução ao seu livro Shakespeare e o Seu Teatro: « É-nos permissível pensar que, se tivéssemos sido Shakespeare, não teríamos escrito uma peça anti-semita como o Mercador de Veneza, nem uma peça sexista como A Megera Domada, nem uma farsa grosseira como As Alegres Comadres de Windsor, nem um melodrama brutal como Titus Andronicus; o que equivale a dizer que nós teríamos utilizado o teatro para fins mais altos e nobres. Uma das primeiras coisas que é preciso compreender é que Shakespeare não utilizou o teatro: ele tomou-o tal como era na sua época e aceitou-lhe todas as condições. É um pouco por causa disso que nós o consideramos agora como um tão grande poeta.»  
Ontem mesmo tinha lido uma observação similar de Mário Faustino sobre Jorge de Lima, um poeta brasileiro extraordinário que no monumento barroco A Invenção de Orfeu atinge um dos picos da língua portuguesa e um dos poucos livros de poemas do século XX que tem a medida e o tom do epos.
Cita Faustino um excerto de um poema de Lima:

«Então Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventrílocos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido…»

E escreve depois:
«Note-se que mão é bem a intenção do poeta, nesses versos fazer humor. A intenção é séria – e ingénua. Repetimos: sem essa délivrance do grotesco, sem essa intimidade com o absurdo, sem essa ingenuidade no approach do convencionalmente ridículo, Jorge de Lima não teria chegado ao plano livre, à ampla medida, ao “barroco” da Invenção. São preços que alguns poetas estão dispostos a pagar, outros não…».
Quer dizer que a Grande Arte admite a contradição, a incongruência, o mau-gosto, o doce e o amargo, os desequilíbrios interiores, como estratos na bebinka da obra. Há uma medida em que se está para lá do “bom gosto”, como “para além do bem e do mal”, desenhando outro tipo de arquitecturas, nas quais a audácia e o comedimento não podem emparelhar pois um engaste e um cavalo de corrida não são comparáveis e acionam pontos de vista muito distintos.



«O tempo com o seu pêndulo de oceano»: um admirável verso de Jorge Lima que escrevi no quadro hoje, na primeira aula, deixando a charada aos alunos: onde está o pêndulo?

domingo, 5 de agosto de 2012

A LITERATURA CONFESSIONAL E AS PISCINAS PRIVADAS

                                                            FRANCISCO BRONZE

«Tenho uma memória autodestrutiva. Suprimo à medida que é preciso os elementos da minha vida pessoal e profissional. E não chego, por conseguinte, a reconstituir os factos…», diz Levi-Strauss. Eu sou igual, sem tirar nem pôr, talvez por isso uma boa fatia dos livros que escrevo incidem na memória, que tenho que reinventar - pois todos temos necessidade de algo que contrarie a nossa propensão dissipativa, não é?
Por isso farto-me de rir quando dizem que os meus livros de ficção são autobiográficos.
Na contracapa de As Cinzas de Maria Callas avisei que os contos haviam sido escritos sob influência do Amarcord – que recriam atmosferas da infância e do meio social em que estava inserido, a periferia de Lisboa na década e meia antes do 25 de Abril e logo após, para entrar em grandes delírios de fantasia.
Isto é, 90% do que lá está não se passou, foi inventado, e só 10% é que parte do vivido, ainda que transfigurado.
Contudo, foi recebido por amigos e familiares como se estivesse a trair algo que, na verdade, nunca se passou.
Aparentemente, o facto de me ter atribuído o papel de suposto arauto, ou testemunha, imprimindo uma narrativa a uma infância vivida nas mesmas circunstância ou permeada por acontecimentos sociais comuns, criou um efeito de verosimilhança por cujo crivo os meus conhecidos – que na generalidade nem aparecem, ou se sim, com nomes distintos e alterações caracterológicas - se sentiram julgados. Imaginemos todos aqueles professores figurados no Amarcord a meterem em tribunal o Fellini por se sentirem caricaturizados.
Outra hipótese é de facto os meus conhecidos não se lembrarem de todo da sua infância ou terem sobre ela tal inconvencimento que se agarram ao plausível como verdadeiro, a ser reivindicado.
Mas no essencial, para espanto meu, muitos, demais em meu parco entender, acreditaram que naquele feixe de histórias se reflectia a minha história pessoal.
Isto, para explicar que nunca sabemos como vamos ser lidos, o que a leitura desperta nas pessoas. 
Em 1893, escrevia a baronesa Staffe: «É por generosidade que se deve evitar falar de si, ainda que seja para falar mal. Deve-se impedir o máximo possível a intervenção do seu eu, pois este é quase sempre um assunto que incomoda ou entedia os outros». Cita-a Philippe Lejeune num clássico sobre a “literatura confessional”, Le Pacte Autobiographique. O livro da baronesa era um desses manuais de bons modos que hoje voltaram a ter êxito, e a sua asserção é o exemplo dum decoro e duma hipocrisia que fez regra demasiado tempo. Falar de si (como se houvesse outro lugar de onde falar, como se a psicanálise não iluminasse pelo negativo o que cada um cala de si) era sintoma de mau gosto. Até na minha infância de garoto pobre, numa periferia de Lisboa, isso era lei. Felizmente que o 25 de Abril rompeu com essa tirania dos bons modos. 
Em mim, os bons modos (graças a Deus, que é herege) foram destruídos pela leitura de Henry Miller, Céline e Michel Leiris.
O segundo passo foi descobrir que o Miller contava os mesmos episódios em vários livros sob ângulos absolutamente diferentes, como se a sua captura do passado só fosse possível à medida que o inventava. Nunca mais consegui traçar uma fiável linha de fronteira entre a fantasia no Borges e o confessionalismo em Ruben A. e a única coisa que me importa é o modo como está narrado.
O que distingue a prosa de Miller da de Bukowski, por exemplo, é a galvanização devaneadora, polifónica, do primeiro contra a funcional pobreza narrativa do segundo; de resto ambos trabalham a partir dos possíveis que a leitura do quotidiano proporciona. Encontra-se o mesmo declínio ao compararmos Cabrera Infante com Gutiérrez: a imaginação do primeiro conhece o seu pastiche no segundo e nada mais.
Ou seja, a única coisa que por vezes me cansa na “literatura confessional” é a patente preguiça de muitos autores, que fazem da auto-complacência piscina privada.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

QUATRO EM CINCO E A SÍNDROME POULIDOR

                                                            os intoleráveis tigres


Mais um “quatro estrelas em cinco” foi atribuído a um livro meu, na curta mas bem dominada crítica de Hugo Pinto Santos ao meu livrinho de contos Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba. Pode ler-se aqui http://noticiasilhas.wordpress.com/2012/08/02/uma-noite-de-arromba-na-time-out/.
O que importa registar é que com tal acumulação de “quatro em cinco” nos últimos anos eu devia viver na Califórnia e ter dois dobermans no jardim.
Prescindo bem da Califórnia. Mas já mói o que Hugo Pinto Santos repara no seu texto: «Poeta, ficcionista, ensaísta, António Cabrita editou (só em 2011) um título em cada uma das áreas, respectivamente Não se Emenda a Chuva, o Branco das Sombras Chinesas (outro “quatro estrelas em cinco”), e Respiro. (faltaria aqui o meu romance no Brasil, nomeado para finalista da Telecom, e que vai ser editado pela AbYsmo) Que essa produção tenha sido acolhida com um silêncio quase total, eis o que se pode lamentar ou tentar inverter.»
Não há nada a inverter. Não creio que Portugal possa ser um país menos mesquinho, menos desatento, menos cretino, mais justo do que é. Vejo as dificuldades com que o Carlos Alberto Machado vive no Pico, sendo talvez o dramaturgo da sua geração, e com a gaveta cheia de excelentes inéditos de ficção que não consegue colocar, vejo como rebolam todos agora diante do Rentes de Carvalho quando o silenciaram durante décadas e só porque felizmente agora o Rentes agora publica numa editora que conquistou uma boa relação com os media (se os “mesmos livros” do Rentes saíssem, por exemplo, na Afrontamento permaneciam no mais absoluto limbo), vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha por isso, vejo como o Manuel da Silva Ramos, uma das maiores imaginações-em -acto que conheci na vida (e já conheci algumas) continua a ser menosprezado, vejo como o Paulo José Miranda, o primeiro Prémio Saramago, e um talento total, tem tido uma carreira absolutamente acidentada apenas porque editou os primeiros livros na Cotovia, editora que nunca acolheu as preferências dos media apesar dos bons livros que editava, vejo como o Henrique Fialho continua sem editora para a sua produção profícua e inteligentíssima – e sei: nada há a esperar de um país cujos azimutes são subterrâneos.
Até ao fim de ano tenho mais dois livros para sair, dois em Moçambique: «Para que Servem os Elevadores e outras indagações literárias», ensaios, pela Alcance, e «Inventário de Todos os Passos em Falso», uma antologia poética, também pela Alcance. E preparo, com essa excelência oficinal que o Hugo Pinto Santos me atribui, e cito: «Estas ficções de ambiência moçambicana, com personagens de carne e osso, distinguem-se pela disciplina da frase e pela boa gestão dos recursos à disposição – “O mar é o grampo que segura aquela casa de madeira à duna”. Dir-se que “grampo” é a palavra chave mas a chave deste como de outros achados de António Cabrita está antes na solidez da sua oficina, e não em qualquer truque isolado». Fico contente que ele note, que por detrás da transparência da escrita as articulações sejam sólidas. Ainda que pense que esta mesma solidez seja o que assusta quem prefere silenciar-me. Não tem mal, com a consciência oficinal que adquiri e a certeza de uma grande disciplina no trabalho sei que preparo para o ano que vem uma fornada de “cinco em cinco”, porque quando se persiste e não se deixa o talento à deriva é natural que as coisas cresçam.
Vai ser tudo publicado no Brasil. Portugal que se foda.
Entretanto, chama-me a Jade da banheira: «Bela Adormecida, chaleira…» (em Moçambique não é líquido que os elevadores ou os termo-acumuladores funcionem), e repisa, visto que não lhe respondo logo, «… então, Bela Adormecida, a chaleira…». Tenho uma filha de cinco anos que me chama – por carinho, não por desrespeito – Bela Adormecida. Melhor coisa não há… é isto e a escrita.

    

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

JOGOS OLÍMPICOS: O SUL E O NORTE

                                                           assoando a bela adormecida    

E ontem havia o boxe, nos Jogos Olímpicos.
Na TVM anunciaram que iríamos assistir ao combate entre um atleta moçambicano, Júnior, “A Máquina”, e um atleta búlgaro de nome impronunciável. Esperei meia-hora, salpicando os olhos no livro de Catherine Clément sobre o Lévi-Strauss e o seu «inventário dos campos mentais», enquanto o meu corpo, em vigilância súbita, espera o combate. Sinto-me um galo, de crista e músculos retesados, prestes a lançar a fúria dos meus excrementos à face da humanidade. Respingo com o tempo que não passa, bebo um copo de vinho para me acalmar.
A Máquina entra no corredor para o ringue. É um alfinete que ginga da esquerda para a direita, à procura do lugar onde lhe esconderam os ombros. Nunca havia visto uma alma tracejada em osso, o crânio seco, as pernas como duas penas de pato. Não quero acreditar que tenham atirado às feras um xamã raquítico, com braços mais frágeis que os cabides de arame onde penduro as camisas.
Entra o búlgaro, um físico habituado a derrubar uma pedreira à marretada antes do pequeno-almoço, os músculos bem torneados, pura música temperada em aço, as pernas são duas camadas geológicas que sustentam em cima uma paisagem de robles centenários.
Começa o combate. A Máquina atira os seus palpos para o ar, são pequenos palpos de aranha e não braços pois estão sempre dobrados ou nunca atingem o seu adversário - socam, socam, socam, socam o ar… e por detrás deste o búlgaro limita-se a controlar as distâncias e a disparar um jab ocasional que invariavelmente acerta e faz estremecer o capacete da Máquina.
Ouço o comentador especializado dizer que a Máquina é um talento natural, bruto, mas que só treina, treina, treina no ginásio, que a federação ou o manager não lhe arranjaram qualquer combate, antes. Interrogo-me se este não será o seu primeiro combate e não lhe faltará aprender que os braços se esticam e nos uppercuts desfazem os ângulos. Debate-se como um cego, esmurrando, perfurando o ar… em torno, entre, acima… magrinho como o cão que se esquece de comer só de pensar na sua cadela.
O búlgaro bate, amassa, com a gravidade de quem embeleza um morto.
No final, tentando justificar a fatalidade, ouço o comentador contar que nos recentes Jogos Africanos também tudo tinha corrido mal aos boxeurs moçambicanos porque a federação só distribuíra as luvas oficiais aos atletas na véspera dos combates e que estas pesavam o dobro daquelas com que costumavam treinar.
Percebo então o drama do Máquina-de-murros-a-meia-haste: ele não podia com as luvas. Vou à varanda fumar sorrir com as desgraças dum desporto entregues a Federações mais tesas que a minha conta bancária. E no ínterim nocturno vejo passar os cadillacs.   

terça-feira, 31 de julho de 2012

CRÓNICA DE UM AMOR DESAVINDO ENTRE UM BOER E UMA MACUA, OUVIDA NUM QUIOSQUE DE RUA

                                                                           andré masson

Ele tem - de resto.

A nuvem enlameada passou

e felizmente não deixou rasto.

Ela não tem - de facto.


O white gosta de nesquik
e às vezes a perua do amor
dá o mais triste fado.

O filho de ambos, o pardo


escrevia com gelo na areia
quando veio uma gaivota, mirava

a mãe um sardão amealhado,

obrar-lhe na meia.


Também a madre superior Joana

dos Anjos sobre a mais alta ameia

da fé foi conquistada

pela gana de sete demónios.


Uma verdadeira empreitada

pois cada um tinha o seu estilo

e de nenhum se quis ela alheada.

Disto sabe lá ele, o white!


Mas alardeia, orgulhoso,

sobre a testa já irisada

o transplante da sua amante,

pontas de volume assombroso


- no facebook é uma risada.

Ela prefere à companhia de um cego

qualquer caloteiro e nos seus quentes hornos

coze os pães franceses mais barbinegros,


e um que até é corcunda

quer levá-la ao México, a Tampico,

para a açoitar c’ a funda.

O filho é que não lhe perdoa e virou pico.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

COLÓQUIOS COM A JADE 15

A Jade descobriu que tenho “dentes falsos”. O que espantou muito a desdentada.
Quer que eu mostre à prima.
Eu recuso.
Ela replica:
- Não vais deixar de ser tio dela por ter dentes falsos… é só para ela saber o que conta…
- Saber o que conta, como? – interrogo, intrigado.
- Ela não pode contar às pessoas que o tio tem dentes sem ter, não achas? Se lhe mostrares ela deixa
de mentir…
É loucamente exacta a minha filha.
Tento contornar a coisa:
- Continuas com essa conversa e dou-te uma palmada no rabo por cada ano que tiveres…
- Dás, mas não podes dar mais de cinco, senão fico maluquinha… - responde, pronta.
Retiro-me para rir.
Ouço-a a repisar:

- O meu pai tem dentes falsos, Cathy… mãe, tu sabias?

Gato por lebre.


terça-feira, 24 de julho de 2012

JANTAR COM ESPINOSA E ALGUNS AMIGOS II/ ELIRAZ

                                                                              sean scully

Mais um capítulo do livro Jantar com Espinosa e alguns amigos, de Israel Eliraz, com tradução minha:

III

Alguém toca no quarto do lado



32


Lá ao fundo

paira a música (da qual


não sabemos se ela é

uma mosca do país


ou uma mosca infinita).


A música, para se manifestar

não precisa senão

de si mesmo.


E ondula desabraçada sobre

o continente da mesa


as colinas dos pães, as plantações

de aipo e alface,


o vale do vinho e

o vendaval do mel.


33


mas

a música


que vai e vem

«unicamente com o fogo»


leva-nos a um lugar (a-

colá!) que conheceremos

no momento de lá chegar.


Entretanto, imaginemos uma algibeira

metida para fora


uma talhada de fruta

ébria


uma língua afiada que não passa

de um sistema de ventilação

sem sonho,


etc.


34


dobrada em dois

a música surde

ao fundo do centro desconhecido


como a matéria

inextinguível no fulcro

da lâmpada


e atrai, intenso, um cheiro a açúcar queimado.


Nós velamos a música

cada vez mais

lentamente


ela abre-nos um lugar

de referências:


para saber não tenho necessidade

de saber que sei


35


e quero compreendê-la

quando ela se agarra


às coisas que a contém


como se as vozes

fossem as fibras


duma matéria brutal


onde a alma desabrocha

como o vermelho

no amor.


Como se dissolve a arrogância

do vermelho à beira


de tornar-se a coisa verdadeira


(que é eterna, constante,

inalterável)


36


os sons são objectos infinitos

que se multiplicam e te seguram.


Quando dizes: é preciso ver

as coisas de perto


tu afastas-te para o dizer

(até onde?)


até aparecer uma cidade como

uma taça de tachas

de cobre


e Espinosa, que nos assegura:

pode levar-se acudimento

à tristeza


meramente o vermelho ao fim

da pura cadenza

  
37


é uma sede que se agrava

até ao insuportável:


a coisa verdadeira.


Do outro lado da cozinha

urdem-se coisas.


Uma realidade sólida em

linhas selvagens


símil à urgência na substância

da palavra.


A música, mão flébil,

espalha os flocos:


sejam bem-vindos

ao lar do fogo.


À parte,


38


alguém toca na divisão vizinha àquela onde alguém toca


39


por um instante ambos parecem executar em uníssono


40


a mesma melodia. Na sua interpretação eu capto a que ponto


41


eles conhecem a forma. Conheço todos os gestos


42


de onde eles extraem esta beleza. Um toca um instrumento


43


que eu identifico, e o outro um instrumento que me escapa


44


eis que a música pára, a luz que alumiava a casa apagou-se há muito


45


eles juntam as suas mãos sem estar sentados lado a lado


46


quando é que eu disse

à musica


traz recitativos sagrados e toca-

-me com um gesto subtil?


Amar-te-ei como teria podido

amar Deus antes dele

ter criado as coisas.


(Que quer dizer aqui coisas?)


Só será o que ela

pode ser


(um rectângulo vermelho assinala

uma liturgia rural)


um saco de imediato no ar

como desfecho


47


o meio do verão fica mesmo

no intervalo de

dois gestos


ou antes de duas poses

numa dança lenta


(Bougaku, talvez).


A ladainha duma canção local.

Litania vaga, um

momento raro.


Naquilo que nós entendemos

passa-se tão pouco


e bloqueia-se na matéria

(guarda-jóias de um enigma)


«a necessidade de capturar»


48


apenas esperar perto

do centro


chamamos-lhe inquietude

ou tristeza


«até a luz se apaga

na boca».


Que é o que nos escapa

e nos vira as costas

na música?


Instrumentos, pesados, entorpecidos, onde

se engendram outros instrumentos

simples, necessários


ponho-os ao lado.

Nada está dito.


49


enredar-se em torno duma pausa

como diante dum feixe de água.

Encontrar


«o tempo forçado duma

marcha ritual».


Esperar e escutar

o tempo tornar-se

cozinha


(azul escuro) onde todos os meus

amigos ficam perto de mim,

sobretudo os mortos.


Aqueles que nós amamos (sem

desfalecimento) amam-nos.


O silêncio, uma espécie de saída


segunda-feira, 23 de julho de 2012

ICEBERG II: OS TRISTES TÓPICOS DA EDUCAÇÃO


É sempre pior do que se calculava. É como se alguém quisesse experimentar de tal modo a elasticidade da rede que o iceberg cai pelo buraco da malha. Instaurou-se uma ordem indubitavelmente demencial na relação entre o lucro e o “saber” nas instituições universitárias, pelo menos em Moçambique, que fez de qualquer ensino uma caricatura.
Sou contratado para dar um semestre intensivo, em 24 horas, porque o professor anterior baldou-se. Nas primeiras três aulas não aparece nenhum aluno. Na quarta aula aparecem dois para combinar comigo outro horário, porque afinal ainda não acabaram o semestre em todas as disciplinas e estão com aulas e exames e, justificam-se, não lhes é possível seguir o ritmo diário que me fora pedido (- que ritmo, se ainda não apareceram a nenhuma aula, pergunto eu). Ficamos em duas aulas por semana. Aparecem três, quatro alunos. Numa aula com seis alunos (uma excepção), meto-os a ver uma excerto de Tempos Modernos, do Chaplin, para lhes explicar o que é conflito, e o que seja uma narrativa cinematográfica e como evolui. Quando acendo a luz, três dormem e os outros têm uma expressão de agonia, incrédulos por terem sido obrigado a ver um filme mudo, a preto e branco. Calculo o que teria sido se os tivesse obrigado a ler Homero.
À oitava aula dou teste. Aparecem 12. Metade não entendeu sequer o enunciado. Mas pedem, porque não dá já o professor as fichas e fazemos o segundo teste e acabamos com isto… Acertámos em fazer um trabalho: eles estão lá para o canudo e não para aprender.
À aula a seguir ao teste, ontem, ninguém compareceu. Estão à espera que eu mande o tema do trabalho para o email da turma para me mandarem depois por correio electrónico o dito cujo, escusando de frequentar as aulas até ao seu termo. Entretanto, os testes estão naturalmente uma nódoa; e os trabalhos não melhorarão o quadro.
Nunca estive numa situação em que tão claramente me sinta um verbo de encher numa rota do transatlântico direita ao iceberg. A esperança deles é que a malha da rede esteja tão lassa que a massa de gelo tenha afundado. Eu não creio nessa virtualidade: deve ser de ter estudado.
No fim pagam-me 500 dólares e lavarei as mãos como Pilatos. Estão a tirar o pipo ao país, quanto mais rico mais idiota, mais vazio. Acho que vou voltar a emigrar, desta vez para o Brasil.




CANTEIROS TRESMALHADOS

BOSCH

 
Rascunhos encontrados nas  últimas páginas de livros, canteiros tresmalhados:

O reposteiro desenlaça-se e uma brisa
tépida, rápida, banha-nos os corpos
açoitados pela permissão:
o amor é a carne que ri.


Um gajo que só tem por si a sua juventude, quando se vê em risco de perdê-la fará tudo para que ela pareça perdurar. Mas há que nos prevenirmos também contra a pretensão contrária: a de julgarmos que temos algo que dure mais que a nossa perdida juventude.


- Pai, e se os buracos que estão lá em cima no céu caem em cima de nós?  - e aponta, receosa, o céu estrelado.
- Não caem, sabes porquê? Porque é o teu coração que segura o céu.

O que me agrada nos teus seios é a vidência
com que me atrai aos teus olhos,
o cerco que o plátano faz ao vento.
O que me finca no teu sexo
é o avesso do tempo.

- Basta um babuinha ir assim para dar engarrafamento…
Bela palavra: um babuinha.

O que um corpo é noutro
corpo esquece
pois só no sulco
do desejo tem memória. 

CERVEJARIA ÁGUIA REAL, AO ALTO MAÉ
A empregada deposita a garrafa na mesa e diz, “hei-de vir abrir…”, e volta à sala contígua, onde se dispõe o balcão. Entra um tipo façanhudo, alto, de camisola de alças, o tronco de quem serviria de arquitrave na catedral de Westminster, e vejo-o galgar em dois passos decididos o espaço que a separa dela, ao balcão. E zás, esmurra-a sobre a orelha, um banano que quase a deixa desmaiada. Levanta-se um sururu durante 15 minutos, com dezenas de pessoas a apinharem-se naquela minúscula ágora.
Não há modo de chegar ao balcão para pedir o abre-latas e poder estrear a minha loura geladinha. Lembro-me duma ária de Offenbach em que o refrão é “gluglugluglu…” e quase choro.
O calmeirão de olhos esgrouviados que se senta na mesa ao lado da minha observa a minha aflição e num acto solidário, exclama, “brada…”, e no mesmo acto pega na minha garrafa e descamisa-a com os dentes. A carica rebola no chão, vencida.
Algo me diz que não beba.
Algo me diz que aquele sorriso cariado com herpes labial não admitirá a possibilidade de não me ver dar o primeiro gole. Um longo hausto, que me petrifica o esterno
Ao meu lado uma mulher experimenta sapatos de salto alto, todos os que o vendedor tem na mochila, e depois emparelha-os sobre a mesa, enquanto lá fora uma lufada de vento endemoninha toda a poeira acumulada nos buracos do piso. Pergunta, “quanto queres pelo lote?”. É na avidez dela que me concentro, ao segundo gole forçado.
“Estamos juntos, brada…”, sublinho, aceitando o brinde.



Eis uma coisa que o coração não sente: a lua afasta-se de nós alguns metros por século. Mas que definitivamente explica algumas coisas deste cínico início de século.