quinta-feira, 16 de maio de 2013

AS MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTÓNIO CABRITA

             
                                                    mapplethorpe: saudades de um corpo

Há três ou quatro dias, fiquei preso no elevador. Derramou-se-me este conto lá dentro, ou vazou-mo o crânio, à velocidade que a mente nos catapulta nessas situações. Escrevi-o entre ontem e hoje. Aqui fica. Dedico-o ao Helder Macedo:

 
A ranhosice una e indivisível: falo do elevador do meu prédio que estacou de repente, sem ter esganiçado um cabo, sem um ronco de sobreaviso. Simplesmente parou, como o dentista que suspende o alicate ao ser tomado de uma excruciante empatia. Entre dois andares. Parou e abriu a porta para que, corrida a cortina, eu me visse diante do espectáculo das entranhas, face a uma parede cega e encardida.
Se já não havia espanto em mim, voltou a aflorar. Primeiro vociferei, merda, imaginando quantas horas ia ficar fechado naquele féretro de caca & alumínio, e pus-me a adivinhar o botão de alarme. Qual deles, entre tanta rasura? E chegaram-me, de supetão, os pequenos sustos e as apreensões maiores. Jorraram então as lamentações, foda-se, nunca irei a Veneza, não vou ter dois meses para ler exclusivamente e de cabo a rabo Os Cantos de Pound, nem para reler a Divina Comédia, não vou conhecer os próximos livros de Christian Bobin, ou, não irei ao Japão seguir as pistas do Dogen, o meu segundo sonho mais renhido, porra, lá se me vai a oportunidade de voltar ao Prado e às salas do Goya, e ainda nem cumpri a promessa de passar uma semana só a ouvir as sinfonias do Mahler… um minuto e meio de lava lamentosa e torturada, em que não me veio à cabeça a tristeza de deixar de ver as paisagens de dunas e palmares, ou o sol, ou o mar… afinal, necessidades secundaríssimas em mim.
Não sei de facto o que faço em África, bolçei. A vida tem destes desnortes. Comecei então a notar como a caixa do elevador estava cheia de mosquitos. Poisei o computador e, calmamente, entretive-me a estalar um por um, só para passar o tempo… esse fio de tempo que se quebrou num átimo, num apagão, mal dei como…
Acordei quatrocentos anos depois e vi, decomposto aos pés do laptop, o meu esqueleto. Não compreendi de imediato, parecia-me um daqueles artifícios que só o cinema manobra habilmente, um efeito-especial que me secara de carnes o cálcio exposto. O laptop, entretanto, estava oxidado, mas quase incólume, lembrando-me a virgem que envelheceu manca de relâmpagos, enquanto na minha alma, esta que vos fala, e que por um inesperado oblívio permaneceu grudada à caixa soterrada por quatrocentos anos de escombros, não havia um nexo que pudesse encaixar na feição das coisas. Não estava preparado. No Tratado do Estilo, escreveu Aragon: «A precisão é de si mesma que brota, não tem autor». Eu olhava os meus ossos, a sua precisão, e não havia modo de poder dizer como eu me sentia mijado, descoroçoado de todo, em decréscimo. E por que não conseguia eu sair dali?
Finalmente, a horrenda aventura acabou, não saberia precisar quanto tempo depois. Mas aliviou-me a insónia que já me tingia de roxo a puta da alma (perdoem-me a imprecisão do verbo) ver-me num prostíbulo, onde, acompanhada, podia finalmente relaxar um pouco de pernas cruzadas: havia outras alminhas comigo. Quer dizer, outros corpos, suponho que com uma alma a tiracolo, embora para mim estas fossem invisíveis. O que importa é que me retiraram da caixa do elevador, ou antes, que a descoberta do laptop foi considerada tão preciosa, um achado de tal alto valor científico, que ao levarem o aparelho me arrastaram com ele, preso ao écran por um invisível, nunca imaginado, cordão umbilical. Afinal…- balbuciei.
Deu para olhar em volta e num relance perceber que crescera um matagal no lugar da antiga cidade de Maputo, depois fez-se-me negro: desmaiei.
Levei mais de um mês a reconstituir a história do que acontecera. Fui nisso ajudado pelas conversas do ser que se dedicou a desencriptar os PDF e o Word do meu laptop (para eles a tecnologia era tão antiga que a tarefa se revelou um bico de obra) com outros que o visitavam; as narrações com que “outros especialistas” o foram enquadrando, completaram-me o puzzle.
15 de Outubro de 2014: Israel lançou um míssil nuclear sobre uma base militar do Irão, que ripostou com três mísseis sobre a Turquia, que não se conteve e encheu de gás sarim Teerão, tendo-se o regime iraniano desforrado com uma bomba de neutrões (onde fora aquela gente buscar aquilo?) sobre Lahore; o Paquistão, por sua vez, gastou os últimos mísseis a rebentar com Delhi, tendo a Índia replicado com três tiros num porta-aviões da Coreia do Norte, que não esteve com meias medidas e apontou toda a artilharia ao Japão, que viu nisso a mão sinistra da China e fez voar doze ogivas nucleares rumo ao Império do Meio, o qual, tendo descortinado aí manobra do Tio Sam, pulverizou Seattle e a Califórnia; os EUA, por seu turno, entenderam de imediato que Putin estava na sala de comando de tudo aquilo e bombardearam Moscovo, Caracas, Cuba e Coreia do Norte, tudo à vez, e o presidente desta, Kim Jong-Un,  antes de sucumbir adquiriu uma bomba nuclear à Al Quaeda que fez saltar Sydney pelos ares; não sem que depois a Austrália deixasse de reduzir a cinzas o cão Indonésio, que foi desencantar uma armada para invadir Madagáscar, tendo os concidadãos deste país procurado safar-se num êxodo continuado para o continente, para Pemba, num fluxo de milhares de botes, kayaks, cruzetas, barcos à vela, navios de carga, ou simplesmente em passo de corrida sobre o dorso dos imensos milhões que insensatamente procuravam nadar a caminho da costa, tantos e tão empastelados numa enorme massa natatória que Pretória, entrevendo ali o enxame de terroristas que iria visar o seu sistema militar e económico, procurou encurtar razões recebendo-os com uma ogiva nuclear que pelo capricho de uma trovoada das boas foi atingido na sua trajectória por dois raios que o desviaram para Maputo, onde deflagrou oito segundos depois de eu ter entrado no elevador.
Fora um mistério eu não ter sido reduzido a poeira cósmica, como praticamente toda a cidade, e a cápsula do elevador haver-se mantido quase incólume num vão entre escombros, ao invés de colapsar, esmagada, podendo então o meu cadáver sofrer a deterioração natural que apraz ao extravio da vontade.
Grave, mais grave, muito mais grave, foi contudo a catadupa de insanidades que se seguiu e o alastramento da violência que provocou uma quase extinção de espécie em três meses e uma nuvem radioactiva e castanha que durante três séculos cobriu o planeta como uma barra de chocolate. A hecatombe atingiu uma desmedida, uma brutalidade, que em poucos meses apagou a mínima réstia de registos: cidades comprimidas em detritos, bibliotecas reduzidas a cinzas, cinematecas convertidas em linóleo, arquivos prensados como torresmo, dvds, flashes e drives fundidos pela combustão; dossiers, livros, papéis e jornais devorados por milhões de ratos linguarudos e cegos, mutantes, que assomaram dos escombros e desataram a alimentar-se da memória dos homens e depois, à míngua, se entredevoraram. Nada sobrou à loquacidade daquele inferno. Não sobrou uma letra, um dente de rato, uma listagem que fosse.
Daí a importância do meu laptop, tratado como uma pegada do yeti.
O meu decriptador, não sei designar doutro modo esta estranha criatura, ficou contentíssimo com os milhares de pdfs que encontrou no disco duro, embora simultaneamente o assustasse o volume de trabalho de tradução que tal subentende. Procedeu a uma inventariação do que encontrou, o que lhe permitiu assinalar repetições e áreas temáticas, que, duma forma muito generalizada, digo eu, o fizeram ensaiar algumas classificações. Confundiram-no mais os words, os meus documentos, e, nestes, sobretudo os meus contos e romances, que não sabia em que género situar, pois, suspeito, nem a noção de género reconhece. Mas aquilo que o intriga, inexoravelmente, são certas passagens de ficção que a rainha Vitória - sim, essa das cataratas e da macilenta, obtusa, moral estampada em tantos selos de época - classificaria de indecorosas. Aí não sabe como mover-se, definitivamente, o que pensar, como traduzir ou aceder a um mínimo sentido em relação ao que lê. E eu não deslindo como socorrer às íris abismadas da criatura, que, estranhamente, nunca piscam, e se contraem ou encolhem numa resolução vítrea que me lembra a do alienígena Jeff Bridges em Starman, de Carpenter, naquela sua sôfrega e desfasada aprendizagem do espaço sensorial dos humanos. Porém o que me lixa são as suas traduções, que truncam, transformam ou retorcem parágrafos inteiros.
Não julguem que imagino coisas, vou dar exemplos. Onde eu escrevi,
«Ela gostava de tudo em mim mas gostava sobretudo da minha língua. Chupava-a, puxando por ela até doer-me. Não era a primeira que adorava este meu órgão esponjoso, maleável, que dobro em barquinho e comando com manifesto controle, desde que um acidente em miúdo me cortou o freio e passei a expô-la mais extensamente que o normal. Gostava que eu a mexesse como era preciso.
Desde miúdo, depois do estúpido acidente de viação a caminho da Macaneta que fez a ponta do guarda-sol enterrar-se-me na boca sob a língua, decepando-me o freio, quando a minha prima me fazia entortar os olhos e imitar o camaleão percebi que podia converter a minha amputação num trunfo, num atractivo, como outros aprendem a tocar guitarra,  se tornam craques na capoeira. Habituei-me a tratar este meu meigo e túmido músculo bocal como uma espécie de mascote com a sua vida própria mas anichado na minha boca por conveniência e lealdade mútuas.
Na praia em grupo, quando elas aproximavam da minha boca o sorvete e perguntavam ´queres?’ era para verem a minha língua rodeando em 180 graus o gelado e servindo-se como uma concha da sopa. Seguia-se à primeira oportunidade, já cansados de mergulhos e voleibol, a exibição do costume. O que eu adoraria ser um artista de circo que se pusesse a ler o jornal enquanto a ponta da língua lhe desviava a franja dos olhos. Mas não chegava a tanto. O meu rosado promontório coçava o sinal que tenho sob o queixo ou, pondo-a bicuda, levantava-lhe a ponta na vertical como uma naja a sair do cesto, antes de desfazer o efeito desenhando um degrau, a minha habilidade mais requestada. As raparigas dividiam-se, umas achavam nojenta “a minha arte” e algumas ficavam secretamente excitadas.
Ela ficava lasciva assim que me via lamber os lábios e num ápice caía-lhe uma gota de transpiração dos seios para o umbigo. Não sei como é que ela fazia aquilo. Punha-me doido só de pensar nisso.»
ele reduziu os quatro parágrafos ao seguinte:
«Ela ficava recreativa assim que me via lamber os lábios e num ápice isso parecia preencher-lhe as abóbadas de paramnésias. O que invariavelmente me fazia recordar os deveres que ainda tenho por cumprir esta tarde…».
Abóbadas? Que abóbadas? Paramnésias? Deveres?
Eu escrevi:
«Abordo directamente o assunto, há alguma crise de cama entre ti e o teu marido? Ela tartamudeia e então ele percebe: ela finge. Como fingiu quase sempre, até se terem conhecido e ela se ter fundido nele. Ainda hoje ele não sabe porquê? Nada fez de especial, nunca se gabou de ser um ás na cama. Mas ao seu contacto a vagina dela deixou de ser um cabebal hirto e seco para amolecer como o polvo que foi previamente batido e se desfaz em água na boca. E gozou. Pela primeira vez».
E ele teve a ousadia de traduzir:
«Platão assegurou que a linguagem é extremamente enganadora, ela aparenta ser precisa, exacta, mas de facto não é mais exacta do que a pintura ou o desenho..., perambulei eu, para depois atalhar, o teu marido engana-te? Ela olhou a chuva pela janela, poisou um dedo no rebordo do copo e contornou-o, antes de perguntar-me, Emprestas-me o teu Aristóteles?»
Não me excita nem me comove ser lido no século XXIV desta maneira falsa, rebuscada e sem um mínimo de veracidade em relação ao pouco brilho que terei emprestado às narrativas. E que bizarro retorno do humano é este, de volta aos princípios mais retrógados, à moral mais bacoca e restritiva, ao corpo-a-prestações?  
Fiquei numa fúria quando espreitei a tradução seguinte. Pertencia a um livro meu quase esvaziado de sexo, a um ponto que quando o lancei ironizei, os meus fão vão ficar desapontados com este livro porque nele quase não se descrevem actos de volúpia e quando isso acontece são deceptivos, ganhando aí uma outra legitimidade diegética. Qual quê, ele submeteu-me a um regime que me desengajava de todo, muito para lá do elíptico. Eu havia escrito:
«Litos penetra-a e entrança-lhe o corpo nos braços e Argentina ouve a bola de basquete no piso de cimento do campo de treinos, nas traseiras da casa. Argentina agarra-se ao sincopado ritmo da corrida dos miúdos, aos seus gritos, ao sorvo de ar na trajetória da bola, ao repique da bola, saltitante, suspensivo, no arco do cesto. Argentina procura adivinhar o posicionamento dos jogadores, a sua evolução no campo, a natureza das faltas, o jogo das mãos no despique do esférico, enquanto Litos a embucha poro a poro, nem reparando que ela está meio seca, tão seca como o baque da bola quando rebenta»
e o meu tradutor trasladou:
«Ao invés de tomar o cavalo imediatamente, Litos segura o cavalo com o rei a fim de dar ao seu rei uma casa em d8. Apesar de o rei preto usar 2 jogadas para alcançar d8 depois de 8...fxe6 9.Bg6+ Ke7, a dama preta pode ser colocada na casa superior c7… etc., etc.»
Seria um mau intérprete? Seriam os nossos contextos mutuamente intraduzíveis? Seria apenas uma questão cultural, um tão sistemático diferimento dos conteúdos sempre que o texto roçava o corpo ou lhe pronunciava a dança e os apetites, ou tratava-se de uma censura pessoal, associada a qualquer tipo de crença que depreciava a presença e o papel do corpo nas relações humanas? Em dois mil e quatrocentos? E que língua era aquela para o qual ele traduzia, tão próximo do cirílico, e que eu entendia por habilidade inata aos mortos, que entendem todos os idiomas?
Senti-me logrado. A posteridade não me servia o prato da glória e tratava-me como um pónei esgotado em ignotos hipódromos, a quem, com minúcia, se nega o rol dos seus poucos triunfos, o esclarecimento sobre o seu lugar no ranking das apostas. Tantos quilómetros de treino em vão, tantas canchas extraviadas em dissolutas ferraduras, via a vaidade desenlaçar-se como a cebola que nem aos desertos arranca lágrimas… Nas mãos deste assassino não passo de uma quimera, do marasmado fantasma do centauro que após séculos em fuga é capturado pelo zelo do intérprete que o quer converter em castrati. De que me serve o reconhecimento dos vindouros, se sem as pitadas de sexo ninguém desenjoar das baboseiras que lhes servi?
Estou nesta bruma há quanto tempo, entre o trauma e a insuperação? Liga-me um inquebrável cordão umbilical ao laptop e não sei como livrar-me da tortura duma armadilha - está visto - que em mim próprio enxertei.
Foi então que vi, num breve intervalo do trabalho, o meu tradutor baixar as calças de licra (se não é, parece) e abrir-se-lhe uma ranhura na pélvis onde introduziu um pequeno disco, suponho que uma bateria, fechando-a sobre coisa nenhuma, sobre nada: era despojado de membro, pilão ou salsicha. Uma janela cega. Nem mais. É um cyborg, o meu tradutor. Este já não é o meu mundo.
Há horas - em quantas horas se defenestra a eternidade? – que procuro recordar-me de como se fecha o programa nº5, nas máquinas de lavar loiça.

 
                                                

quarta-feira, 15 de maio de 2013

UM PALERMA EM ABERTO: O CONATUS DE ESPINOZA

                               eu com a minha instrutura de dança, ainda no vibrato da música


Eis uma bela manhã:

reler das sete às oito e meia a Mãe Coragem do Brecht, rindo-me às gargalhadas com a ladinice inicial da senhora, e depois observar a Jade a colocar a Amy Winehouse no dvd e a pôr-se a dançar, com tal energia que me contagia, acabando por aderir à pista de dança.

Dez minutos de cabriolas, e desenhamos passos e figuras que deveriam ser fotografados para vender aos coreógrafos mais desinspirados. Na sequência deste surto de polinização interior, descida à rua para comprar um jornal e beber um café e entreter-me na esplanada com o Espinoza de Deleuze e o seu apetite para a alegria.

E nem é preciso esforçar-me para persistir no meu ser: estou para o conatus como o iogurte para a sua embalagem. Teso, mas danadamente mole, perdão, feliz. Pelo menos, esta manhã.

No ponto para chegar a casa e escrever o conto que me fatiga as sinapses há três ou quatro dias.

É bom chegar aos 54 anos e sentir que só tenho males concretos, males de dinheiro, que, no mais tendo a realizar-me pois já não vivo do acaso dos encontros e cheguei a uma relativa unidade que me alimenta e estrutura, sem necessidade de mais transições ou passagens, apesar de me manter num estado mais líquido – ou seja, fluído e sensível às flutuações da luz – do que sólido (fechado em si/mim).

Sou finalmente um “palerma em aberto”.

A beatitude? Ter-me esquecido do jornal no café, sem o ter aberto.

PS – Julgo que o Espinoza sabia o português suficiente para não ter ruborizado quando inventou o conceito de conatus. Eis a liberdade.

E pelos terceiro eis me fico.

terça-feira, 14 de maio de 2013

DENTRO DO ELEVADOR E OUTRAS MINUDÊNCIAS

                                                     o mosquito, de manuel san payo

E o elevador parou. Sem esganiçar um cabo, um ronco de sobreaviso. Parou. Entre dois andares. E abriu a porta para que eu me visse nas entranhas, diante duma parede cega e encardida. E se já não havia espanto em mim, voltou a aflorar. Primeiro vociferei, merda! Imaginando quantas horas ia ficar naquilo, pus-me a adivinhar o botão de alarme, que nesta velha carcaça não está assinalado. Qual deles? E vieram-me, de supetão, os pequenos sustos e as apreensões maiores. E de coração suspenso jorraram-se as lamentações, merda, nunca irei a Veneza, não vou ter dois meses para ler exclusivamente e de cabo a rabo Os Cantos de Pound, nem de reler a Divina Comédia, lá se me vai a integral da filmografia do Godard, não vou conhecer os próximos livros de Christian Bobin, ou, não irei ao Japão  seguir as pistas do Dogen, o meu segundo sonho mais entranhado, merda, lá se me vai a oportunidade de voltar ao Prado e às salas do Goya, e ainda nem cumpri a promessa de passar uma semana só a ouvir as sinfonias do Mahler… um minuto e meio de lava lamentosa e torturada, em que não me veio à cabeça a tristeza de deixar de ver as paisagens ou o sol, ou o mar… em mim, afinal, necessidades secundaríssimas. Dentro de um elevador fechado só penso na cultura. Não sei de facto o que faço em África. A vida tem destes desnortes. De repente noto que o elevador está cheio de mosquitos...

 
Queria ocupar um lugar mínimo neste mundo mas tive cinco filhas, e fui inconstante como o raio que adivinhando a força do seu próprio trovão se desvia, na esperança de não rebentar com os tímpanos.
Quem teve culpa dos meus cinco rebentos suponho ter sido a orgia de leituras nocturnas que tem sido a minha vida. E algum mimetismo: eu sou um homem de admirações e admiro o Jorge de Sena e o Assis Pacheco, oito e nove filhos, respectivamente – se bem me lembro. Bom, a cabotinice de os imitar foi minha, aí sofri a passividade emocional, de que fala o Espinosa. Mas concluo que em metade do que fazemos – macaqueamos. Podíamos era ter consciência disto um bocadinho mais cedo, para desviarmos o alvo.   

 

A orgia de leitura desta noite foi em torno de Espinosa. Julgo ter achado a porta de entrada que me levará a ler de rajada várias coisas de e em torno de Espinosa - o livro que lhe dedica Roger Scruton, onde entre outras gemas se lê:
«Espinosa, assim como Pascal, viu que a nova ciência inevitavelmente "desencanta" o mundo. Tomando a verdade como o nosso critério, desentocamos de seus antigos domicílios o miraculoso, o sagrado e o santo. O perigo, no entanto, não é o fato de seguirmos esse critério - pois não temos outro, mas o de só o seguirmos até o ponto em que perdemos a nossa fé, e não longe o suficiente para que a recuperemos. Livramos o mundo de superstições úteis, sem que o vejamos como um todo. Oprimidos pela sua falta de significado, nós então sucumbimos a ilusões novas e menos úteis, superstições nascidas do desencantamento, que são tão mais perigosas por tomar o homem, e não Deus, como o seu objeto.
O remédio, conforme nos lembra Espinosa, não é retroceder para a visão do mundo pré-científico, mas o de seguir mais além no caminho do desencantamento. Perdendo tanto as velhas quanto as novas superstições, descobrimos finalmente um significado na verdade em si. Pelo mesmo pensamento que desencanta o mundo, chegaremos a um novo encantamento, reconhecendo Deus em tudo, e amando as suas obras no acto mesmo em que as conhecemos».
Não sei se Deus (o da tradição juadaico-cristã) me interessa nesta equação, mas o sagrado sim.
Como eu gostaria de ler isto aos meus alunos.

 
Alguns canteiros catados num caderno:

A cada morto o universo contrai-se, faz-te saber que o amanhã não está contido na palavra «hoje» - e o gato come o teu sorriso.

Nunca nos saturaremos,
Nós os dois.

Temos tantas coisas
Para não dizer.

É como o mar
E as marés.

 
Convém-me muito, esta de Séneca, «náufrago fui, antes de ser marinheiro».

 
A bondade não é um selo que se meta numa carta
– é rara, mesmo entre os nossos.
Tão rara como a carta que vem de alhures.

(Que raio queria eu dizer com os nossos?)

Calhou-me a mesa que fica debaixo da televisão. Uma cerveja média, como sempre. Vinte fixam o ecrã, quatro observam-me – sou para eles um objecto de faiança. Os restantes estão presos aos quanta da electricidade estática. A vida está ao lado, etc., etc.

 O falcão alisa o azul ou eriça-o?

 

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

CRISTAIS FLUIDOS/ JORGE SOUSA BRAGA

                                                                       Noé Sendas

Estou a ler um clássico que navega no território do haiku, Fourmis sans ombre/le livre du haiku, de Maurice Coyaud, que o autor, com graça dedica A Diogène, à ses chiens, mas o que atrai de imediato é o haiku em epígrafe, que justifica o título.

O poema é de Seishi e reza assim:
No jarro de água flutua
Uma formiga
Sem sombra

É impossível condensar melhor o que a vida é, os seus limites e o que nela cede ou não cede
ao espírito do tempo. Está morta, a formiga, e não tem sombra. Uma vida que é vida tem traço, imprime um resgate pessoal e uma responsabilidade social: não entrega a sua sombra.
Se de um golpe falece é uma palha na água, inerte, em distraída glaciação.
É agora pura matéria, mas fantasmeou a sombra. Biologicamente, caiu da árvore, e não passa da ruína do nome que atribuímos à sua aparência, até nos esquecermos de o proferir.
Por que, perdurará o nome formiga para além da morte da última formiga na terra?
Condolências. Estamos sós. A vida está só, tirita de solidão, aquém dos nomes, no âmago da tempestade com que os elementos combatem entre si.
Por enquanto, há uma quietação na água que sustenta o cadáver da formiga, mas é temporária, um intervalo. Que serve para a morte passear nas artérias daquele corpo, que já incarnou o pulsar de uma energia que permaneceu para ele um mistério. Afinal, se a morte nos desfere o seu golpe é porque não acedemos à chave da vida, não é?

Soberbo, o haiku.
Acabei de estalar entre as palmas da mão a fuselagem de um mosquito. Outro para quem a vida era só um domínio fugaz mas não uma inerência.

Mas voltando aos haikus, que me fascinam e ao mesmo tempo me desesperam, a sua clareza não é inata mas um resultado do processo de se entrelaçar (verticalmente – de momento, não o sei definir de outro modo) em três linhas vários níveis de realidade e de significação. Vejamos este exemplo:

Todo o mundo dorme
Ninguém entre
A lua e eu.

Seifujo

Várias coisas diferentes, ainda que concomitantes, se entretecem aqui:
- o sujeito do poema vive num mundo em que é difícil estar só, ou, pelo menos, a sua condição social não lhe permite estar só e atento à escuta do mundo
- não existe separação entre homem e natureza, uma dualidade falsa e forjada que se desmancha assim que ficamos finalmente a sós
- que alguém nos pode estar a sonhar, “único” estado não-dual
Etc., etc.

O que eu gostaria de discutir estas coisas com o Jorge Sousa Braga, um dos poucos que pode saber algo do que pressinto por aqui e que aprofundou, com as suas traduções das coisas orientais (ou mesmo de poetas ocidentais, como o polaco Zbigniew, que praticam no poema um mesmo tipo de recorte/costura cirúrgica entre vários níveis de realidade) o que em si, desde a primeira hora, era já nele uma intuição: a clareza e a “simplicidade-confluente”, exigem um trabalho extenuante, uma sedimentação de estratos que vai cozendo uma síntese, para se manifestar de súbito como um relâmpago.
Vejamos o exemplo do seu famosíssimo Poema de Amor:

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo.

O que parece um poema-piada - e é - ganha de súbito outra relevância porque intercepta dois níveis, um macro e micro, levando a que uma mera anedota humana se extrapole num assunto cósmico - o que “não é” mas “é” como todo o amor que se preze -, dando um alcance, uma ambivalência, um modo reverso, ao poema que ele parecia destinado a não ter. Eis como o simples é motivado pelo complexo.
Acertar uma vez na piada da coisa pode acontecer, mas que o recurso se repita e multiplique com propriedade (e não como mero tique para o trocadilho) é que já sinaliza um ponto-de-vista personalizado num padrão. Este trabalho não tem que ser consciente, mas está nos antípodas das fáceis traduções com que se dá azo a impressões fugidias, retinianas, sendo antes uma “visão” que se vai impondo, a partir de dentro. Agora, por que raio não se quer entender que o humor em Sousa Braga (sendo-o), como o humor nos koan, é uma forma de contornar as aporias e de apontar o horizonte de outras coisas?  

Como quem não quer a coisa, o Jorge Sousa Braga tem feito a sua obra à margem de tudo. Acusa ainda outro “defeito”: é diferente. “Esse é diferente…” – concorda-se – e toda a gente sorri quando se menciona o Sousa Braga, mas julgo que a evidente “ternura” que ele concita (que verbo notarial, ó Jorge…) e o seu humor têm impedido a sua leitura com a atenção requerida. E ele prossegue, tranquilo, nas tintas. Faz muitíssimo bem. E ainda não será desta vez que ele terá a devida exegese, mas não quero ter falta de comparência e quero assinalar para já (prometo voltar ao livro) o imenso prazer que me deu a leitura de Novíssimo Testamento e outros poemas. O gozo bruto.
Como estou longe não sei se houve artigos sobre o livro, eu simplesmente não o vi em nenhuma lista dos melhores livros de 2012. Ora aqui começa a porca a torcer o rabo: devia estar. Não porque fosse o 4º, ou o 7º, o 9º, ou 13º melhor livro de poesia portuguesa do ano, o Jorge não trabalha para os rankings ou a premiação… mas simplesmente porque o livro não trai a diferença que autonomizou a sua voz e antes a potencia, como um cristal fluido – operação que é para raros.

Desde Poeta a Nu que não lia o Jorge, e por isso recebi o seu livro com uma expectativa redobrada. O primeiro poema serenou-me de imediato, depois confirmei: este livro é um golfo – sendo indiscutivelmente um dos poucos livros que gostaria de ter escrito na última década, arrancando-me da tagarelice em que me atolo.
Infelizmente, o Jorge tem mais de cinquenta anos, o que, para uma certa “camada dirigente” ainda em voga é um pecado maior; tem, contudo, o seu livro a energia de quem começou agora e impõe ao vento um fio-de-prumo.
Não vou estar com análises, vou simplesmente citar dois poemas, como estímulo para que comprem o livro, o primeiro:

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO

Para acabar de vez com os direitos humanos
                                                                                                                      e restaurar os direitos divinos

 Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
                                    galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
— quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
cantar —
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
                                  pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto…
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões de
                                                                                                     ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
                                                                                           do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
— Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir —
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas  
— e essa vingança será terrível —
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
— e esse sangue é da cor do alcatrão —
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração

e este outro, extraordinário, singularíssimo, que pode ler-se, à vez, como um poema unitário ou como um colar de haikus (autónomos) com uma chave (absolutamente) desconstrutora:

EPÍSTOLA SOBRE O MAR

Que luta é esta
com que noite e dia
o mar se digladia?



Ninguém é tão avesso
a margens
como o mar

O coração do mar
é um cemitério
de navios e de luar

 
Também o mar
gosta por vezes
de dançar

Não é tão difícil
como parece caminhar
sobre as águas do mar

 
Por vezes o mar
arrasta tudo
com ondas de veludo


Maresia:
o coração dum peixe
enche-se de alegria

 
Só os meus pés
conhecem o ritmo
das marés

O mar brama:
dum peixe desprende-se
uma pequena escama

 
Noite de breu:
onde acaba o mar
e começa o céu?


(nota: espaçamentos todos errados, esta merda do blogger não me obedece)


Duma coisa tenho a certeza: o Sousa Braga faz parte (como eu, a suplente) de um Clube dos Reis Magos que não pretendem chegar a Belém e que adoram rir e escanhoar-se, e cujos membros mantém uma única certeza: a morte há-de dignificá-los (o que quer que isso signifique)! Que a Guerra do Gosto lhe seja benéfica, já que a sua ética não tem desvio.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

CINCO PERCEBEIJOS

                                                                rapemos, pois!

Escreve Stendhal, em Memóires d´un touriste: «Não é por egotismo que digo “eu”; é apenas porque não há outro meio de contar a vida». Como pode um simples lugar-comum ter atraído tantas incompreensões, tantos e tão espalhafatosos nhurros.

Por muito que pensasse não conseguia descortinar onde se tiravam os passaportes para poder visitar o passado. Disseram-lhe que talvez cumprindo uma de duas condições: não ler Saramago ou ser Presidente da República. Escolheu as duas. Quem é, quem é?

O seu maior sonho era dar os peidos de Gide e de Simenon. Como não estava a conseguir, contratou um detective.

«A glória assemelha-se à cama de Luis XIV em Versailles,
É magnífica e está à pinha de percevejos.»
Victor Hugo

 
CONJUGAÇÃO DO PRESENTE DO INDICATIVO DO VERBO P(ER)S(I)D(URAR)

Eu percevejo,
tu perceves,
ele percebe,
nós per si duramos,
vós perseverais,
eles percebeijam…

segunda-feira, 6 de maio de 2013

POLINIZAÇÃO DO TEMPO

                                                                          hogarth

O meu amigo Ricardo Martinho Gaspar levou-me a refletir sobre o tempo. Que importância é que isto tem? Nenhuma. Nem eu nem ele pretendemos que tenha outro significado. Mas agrada-me que seja uma forma diferente de uso do FB: a instigação. 

Anular o tempo é o desejo de todos nós, não é, Ricardo?
Também julgo ser o nosso maior erro.
Nós podemos criar o nosso tempo. Não temos de anular nada. Só temos de o multiplicar.
Não falo, evidentemente, do tempo físico, nem do intervalo psicológico em que pomos entre comas a sua duração, mas do “trespasse” que podemos cometer no seu caudal, propiciando a génese de uma nova hidrografia, de outro ritmo, doutra foz - inclusive.
Por exemplo, a antecipação psicológica no dentista, quando estamos à beira de nos ser arrancado um dente, precipita-nos num ritmo ao qual nós não dominamos a cadência – é a dor, a sua sensação, medo ou iminência, quem nos dá a medida do ritmo.
Aí queremos suspendê-lo, anulá-lo – estamos em conflito com os marcadores do ritmo.
Nós queremos anular sempre o que nos é desagradável, como se isso fosse desejável. Acontece que não é, e se falei antes em antecipação é porque não existe o tempo sem a “expectativa ou a antecipação” – dois marcadores de ritmo.
O tempo, tal como o experimentamos, é muitas vezes um corolário destes.
Veja-se, por exemplo, o tempo político. Pode funcionar por ciclos ideológicos ou por unidades entrópicas, mas é também ele dependente de expectativas e antecipações – confundindo-se aqui igualmente com os seus marcadores. Contudo, o panorama só muda realmente quando se intromete no estado de coisas uma “exterioridade” que rompe o fluxo e as suas cadências e impõe o inesperado. Foi o que aconteceu com o 25 de Abril ou com o Maio de 68 – a natureza do que se passou ultrapassou em muito os limiares do expectável. Por isso foram acontecimentos, não meros efeitos de algo anterior.
Neste caso, o tempo muda, ou antes, multiplica-se: ramificou-se. E criou outros ritmos.   
Sempre que estamos desconfortáveis com um ritmo queremos mudar – aí desejamos suspender o tempo, mas este passo não é ainda o salto decisivo, pois estamos ainda na órbitra do ritmo que nos domina.
Por isso me parece empobrecedora esta época em que vivemos: apesar da crise as pessoas ainda raciocinam, agem, actuam, nos mesmos moldes políticos, como se se tratasse apenas de mudar um marcador por outro, quando se trata de pensar como mudar a natureza e os mecanismos do poder – o que está muito para além da ingénua bipolarização “esquerda/direita”.
Não é apenas o aspecto agónico que nos leva a cindir ou a suspender o tempo.
Podemos igualmente dizer assim: a arte suspende o tempo. A música, uma boa peça ou filme a que assistimos, uma leitura que nos coloca entre comas, suspende o tempo, suspende os seus limites. E isso é bom.
Porém, aqui ainda não impusemos outro ritmo. Suspendemos o tempo, enquanto consumidores das possibilidades que nos oferece o seu ritmo. Não fizemos a sua “revolução”, como a da pintura abstracta, que aboliu tudo o que estava para trás e apresentou uma nova figuração, outro ritmo.
É o que nos ensina a parábola da figueira: atingir o “káiros”, fundirmo-nos na sincronicidade, pode não ser bastante.
Creio que o tempo não passa da propagação dos seus marcadores no nosso corpo.
E que no gesto criativo há por vezes vislumbres que nos impelem a passar para lá da “terra suspensa” na direcção duma outra geografia, doutros limiares, que nos fazem romper qualquer hábito.
Aqui abrimos um novo escaninho para o tempo, e dá-se, creio, aquilo a que Heidegger chamava o “fazer-se mundo”.
Quando estamos ainda no encalço de um ritmo estamos ainda reféns – ainda que prazenteiramente. Nós agimos e comportamo-nos como consumidores do tempo e não como seus criadores.
Nunca se viu suficientemente o que andou a fazer Penélope com a tapeçaria que desmanchava todas as noites. Se ela voltasse ao mesmo padrão, e desenhasse o mesmo motivo no dia seguinte, tornar-se-ia notado que algo não avançava – e em breve haveria revolta
entre os pretendentes. Se eles não notaram que ela desmanchava de noite o que havia
desenhado de dia era porque ela os confrontava diariamente com um desenho novo, o que não lhes permitia avaliar em que passo ia ela na composição.
Ela nunca pretendeu suspender ou adiar o tempo, para não adiar a decisão: ela criou novas sendas para o tempo, e pôde ser fiel porque reinventou a memória como um avesso do novo que ela todos dias tinha que mostrar.
Do mesmo modo, pensar tem pouco a ver com o raciocínio, com as suas operações lógicas e o curso das opiniões. Esta é uma função menor da mente. Pensar é romper, e por isso acontece raramente.

 
Não sei como a coisa aconteceu, em que teclas terei eu tocado para me aparecer de súbito no ecrã do computador uma antologia de um poeta que desconhecia ter ou de que não me lembrava. Mas fiquei imediatamente agarrado a este poema, de que fiz a versão, e, que por acaso também incide sobre o tempo:

 
TESTAMENTO 

Tendo chegado o tempo em que
a penumbra já não me consola
e só me diminuem os seus diminutos presságios;

tendo eu chegado a este tempo, 

e dado que agora as borras do café

abrem de imediato, para mim,

as suas redondas bocas amargas; 

tendo eu chegado a este tempo, 

perdida já toda a esperança de 

alguma merecida promoção, e de 

observar, serenamente, o alastrar da sombra; 


e não possuindo mais do que este tempo, 


não possuindo, finalmente, mais

do que a minha memória das noites e 

a sua vibrante, imensa, delicadeza; 

 não tendo eu mais,
entre céu e terra que 

a minha memória, que este tempo, 

decido fazer o meu testamento. 

É este: 

deixo-vos 
o tempo, todo o tempo. 

sábado, 4 de maio de 2013

LEITURAS NA RETRETE


Filipe Branquinho

Leio esta tradução de Paulo Vizioli de A Deserção dos Animais do Circo, de Yeats (Companhia das Letras, 2001):
«1

Busquei um tema que não foi achado;
Por seis semanas procurei, ou mais.
Talvez eu pare enfim, velho e alquebrado,
Mesmo sabendo que meus animais,
Verão e inverno, até chegar a idade,
Tenham estado todos em cartaz:
Jovens pomposos, reluzente biga,
O leão e a mulher, e Deus que o diga.»

 E fico com a sensação de que está tudo correctinho, o poema é que está morto.
O tradutor quis ser tão respeitoso, ser tão atilado na rima e na métrica que engomou o Yeats a um ponto que o torna em objecto museológico. Pouco me sensibiliza este Yeats. Gosto muitíssimo mais do prefácio do livro, esclarecedor, bem informado, que das traduções. É definitivamente muito difícil traduzir os clássicos.
Na sala de aulas a indagar passeio», assim começa outro poema, que é para rimar com recreio, ao terceiro verso, e eu fecho o livro.

 
 
A interdição da escrita, entre os celtas, «é explicada por César com muita clareza: os druidas não querem que a sua doutrina seja divulgada a qualquer um, e a escrita torna as pessoas preguiçosas. Com efeito, o facto de escrever suprime a função da memória…», lembra Markele, um especialista da cultura celta.
De facto verificamos isso na comunicação: quanto mais somos invadidos pela comunicação mais se instala um eterno presente, que nos petrifica. De igual modo, interrogo, se este afã de nos derramarmos em partilhas, opiniões e pronunciamentos no FB, não conterá em si o desejo profundo de esquecimento, que a descarga nos pacifique, secretamente. Porque a faculdade de pensar não se atinge pelo assédio, não é?

 

A magnífica fotografia de Filipe Branquinho em cima leva-me a este capítulo de A Maldição de Ondina, onde precisamente um outro dos frescos do hotel Central, na Rua do Bagamaio (ex-Rua Araújo, a institucionalizada rua da prostituição em Maputo), faz parte da acção:
 «Há quantos anos não entrava no Luso, a rainha das boîtes da ex-Rua Araújo, caudaloso rio de putas e de fogosas venalidades? Doze anos, quinze? As constantes idas e voltas entre Moçambique e Portugal foram-lhe alterando os ritmos e aos poucos a noite deixou de ter atractivos para César; deixara de enternecer-se com as pessoas, reduzindo-as a existências de papel, a «personagens» da série policial que o projectou como escritor. O casamento com Beatriz constituiu a machadada final na sua outrora afamada compulsão noctívaga, paralela ao seu entrosamento profissional na escrita, que o acondicionou no sótão dos artefactos literários: muita disciplina e contrita emoção.
No entanto, recebera a encomenda de um conto para uma revista de Barcelona e o tema era a vida nocturna das cidades, o que o obrigava a espiolhar sob o manto da ilusão e da sordidez nocturna algumas sílabas de néon, sede & sexo, a compassividade que inspira.
Pediu um uísque duplo. Habituava-se ao ritmo sincopado das luzes e ao anacronismo dos seus tímpanos aturarem Boney M - um funky corcunda e bicado pelo abutre do disco sound - trinta anos depois do prazo de validade, quando uma multidão de unhas pintadas de vermelho, suavemente, lhe coloriu o ombro.
- Darling, do you looking for us?
Duas calmeironas de mini-saia e olhar de gasolina. A de cabeleira loura, atestava-o os gestos soltos e o brilho da esclerótica, estava ligeiramente tocada. Rodearam a mesa e sentaram-se, sem cerimónias. César sentia-se uma plataforma petrolífera a atrair os tubarões – sempre o incomodara naquele ambiente o cheiro a carniça, a sangue. A mais sóbria exibia uma estampa no incisivo esquerdo, onde se via um velho marinheiro a fumar cachimbo enquanto uma sereia lhe apalpava o músculo do outro braço. Uma moda chegada de Captown, que pegara como brasa no mato.
- Quanto tempo dura essa estampa, perguntou César.
- Três meses, vai sumindo.
- Empalidece.
- Darling, isso é português?
- Oh yes, indeed!
- Nice, como é que se diz, lindo?
- Em-pa-li-de-ce: fica pálido…
- Ah, yah, gramo demais esta profissão, todos os dias aprendo uma palavra nova.
- As posições é que são sempre as mesmas… - Provocou a ‘loura’ 
- Não é? – Reforça a amiga, sacudindo o peito numa gargalhada intempestiva. Depois recompõe-se, olha César num desafio e atira:
- Tu, darling, o que é que gostas no amor?
- Do silêncio que se segue…
A resposta dele suspendeu-lhes os gestos. A ‘loura’ é a primeira a reagir:
Nice… - E retorque – Mas eu estou sempre muito ocupada em dar à sola…
- Não lhe ligues… - Ameniza a outra – a minha amiga ‘tá muito revoltada porque o namorado a deixou, ‘tá magoada… pagas-lhe um baileys?
César encolheu os ombros ao mesmo tempo que a cabeça anuía. A luz baixou e a música do streap invadiu a cena, impondo o silêncio.
- Gramo dele…- Confidenciou para a outra a da cabeleira loura, ao mesmo tempo que poisava a sua mão em cima da de César.
A famosa Silver Girl, vinda em tournée directamente de Brazaville[1], ocupou o centro da pista de dança. Segundo os relatos, abria o clítoris eriçado como uma navalheira.
César saca do bolso do casaco o seu pequeno caderno de apontamentos e escreve, indiferente ao streap:
 
«À entrada do Hotel Central, os baixos-relevos não enganam: a festa vai ser de foder até partir. É um hotel para quem a tem segura. Como a do John O’Connor que, cansado da vaca loura que tem em casa, meteu prego a fundo e duas horas depois franqueia a porta do Luso, uma boate à moda antiga, com streapers e mulas boas, como ele diz, na ex-Rua Araújo, a mais afamada babilónia das noites laurentinas. 
O’Connor veio ao que todos os boers vêm: meter-se em cima de uma preta como quem baldeia de água fria o motor que escalda.
Era nova a miúda, nunca a tinha visto. Ainda bem, O’Connor não gosta de repetir os pratos. E a Laurinda ainda tem aquele recato das novas.
Laurinda viveu sete anos na África do Sul e compreende o afrikânder mas não lhe diz, visto a delicadeza nele não ser o forte.
Combinam o preço e vão para o Hotel, a 50 m da boate.
À entrada do Hotel Central, ele, que lhe tinha posto o braço sobre o ombro, mete-lhe a mão na mama, a imitar o baixo-relevo e solta uma gargalhada alarve. Laurinda sabe que tem de o despachar, antes que a sua brutalidade se torne pesada.
No quarto, despem-se e depois de dois mimos grosseiros, ele ordena:
- Faz-me um bico. 
Ela não está ali para ser relutante.
A meio do serviço toca o telemóvel dele. A mão esquerda de O’Connor afaga a cabeça dela e a outra ampara o telemóvel, e barafusta:
- Foda-se, a vaca não me larga, nem às duas da manhã.
Fala da mulher. Ela quer interromper mas a mão dele impede-a:
- Don’t stop… - E põe o telemóvel no altifalante…
- Estás a telefonar-me para quê? Aconteceu alguma coisa ao Peter?  - É o filho.
- Porco brochista…- responde-lhe do outro lado uma voz embriagada - passaste-me o AIDS, filho da puta.
- Apanhas-te-a com o Iorg, minha puta…
- Tu é que inventas essas histórias para te justificares. Aposto que estás em Maputo, com as tuas pretas.
- Sabes por quê? Mamam como tu nunca soubeste fazer, minha vaca podre.
Amparando a cabeça de Laurinda, a sua mão continua a pontuar o ritmo do broche. Responde a mulher:
- Já lhe disseste que tens AIDS?
- Não se fala com um naco de carne…
- Fascista!
- Fascista é o caralho do teu pai…
É aí que Laurinda é sacudida por um vómito provindo do fundo dalguma mina e que, para se aguentar, num esforço incontrolável, fecha os dentes. Estava fora de si, garantiu.
Oito da manhã. A caminho da tipografia, atravesso como sempre a Rua Araújo, e à esquina encontro uma multidão rumorejante e O´Connor a sair em maca, desacordado, do Hotel Central.
Na esplanada do Café Rossio, defronte das varandas laterais do Hotel Central, uma rapariga ri e chora com o sucedido à amiga. É ela que me conta o ocorrido, depois de o ouvir de Laurinda.
A polícia já passou no hotel mas nenhuma colega de ofício delatou o nome da amiga. E se melhor gente, como Osíris, perdeu a pila, por que não O’Connor?».

Fecha o caderno e guarda-o.
A mais sóbria das miúdas, está intrigada:
- Darling, nem viste a baby!
César esboçou um sorriso triste. Pediu-lhes nova rodada. Releu rapidamente o que tinha escrito. Uma trampa repleta de clichés, mas era o realismo sujo, nonchalant, cínico, que esperavam dele. Na verdade, pensa César, o estilo do escritor resume-se à expressão que menos o assusta, desde que descobriu em miúdo que até o triciclo lhe provocava vertigens. Onde é que li isto?
César engoliu o seu Passport num sorvo e levantou o copo a pedir outro. Varria a sala, à procura da empregada, quando o viu. Parecia uma fotografia desfocada no meio de duas enguias que lhe disputavam a atenção. Teria mesmo aquela tonalidade sépia? Estava, no mínimo, tão desinteressado pelo ambiente como César, mas – confirmá-lo-ia a caminho do banheiro, ao entreolharem-se – verdadeiramente insólito era o seu olhar metálico, insondável, de quem desde tempos imemoriais já só tem passado.»