domingo, 1 de julho de 2012

CODORNIZES E OUTROS DESPOJOS BUCÓLICOS

                                                                   


 Jindrich Sreit

                                                                                          Da infância, lendo Hugo Claus
   
1
O chapinhar das ondas, o lamiré perfeito.
Beijá-la? Galvanizar o ninho a ser roubado.


2
O cabide de plástico – para uma camisa? – rasga a relva, é a mais insólita das dedadas.
O viçoso tapete verde, de um extremo a outro, tem para cima de dois campos
de futebol.  Pela alba, o orvalho reanima o luzeiro.
De súbito, a sola humedecida pisa o cabide, laranja como um argueiro. E sobre ele, periclitante, indecisa, a joaninha.


3
O oblongo dorso de quitina acomodou-se ao solo. Sobre a pança do escaravelho – uma membrana onde encaixam cinco patas que espanejam o ar – assentaram estendais as formigas, indóceis topógrafos de mandíbulas que tudo aplainam.


4
O recreio da escola: galinhas e as verdoengas caganitas. Confinados a tão pouco, ao perímetro de cimento que as galinhas ainda não haviam colonizado,
aprendíamos que nada nos era destinado; mínimos e fugazes pingos de sangue
na neve. Às vezes alguém levava castanhas e as mãos estalavam, «quentes e boas».


5
O moinho velho, já sem pás. Aí se escondia o contrabando. Dizia-se. Nós untávamos de visco as moitas, a amoreira e, receosos, espreitávamos na fechadura da empolada porta azul, antes de, de riso preso, urinarmos no centro
da mó enterrada no chão.
Até que - já não lembro quem – um de nós jurou que a mó lhe lembrava o olho de Deus. 


6
Soubesse eu o nome daqueles caules felpudos que nos chegavam ao peito, um prado imenso de flores roxas e incógnitas, apartadas de nós pelo desbaste das varas com que atalhávamos o caminho para o canavial.
O entrecortado marulhar do ribeiro distraía-nos e não raro estrelejavam sapos sob as nossas solas, em barda naquele rincão.
Cinquenta metros depois a conduta do esgoto cortava as águas e marcava o início da cidade.

7
Não havia figueira como aquela, oblíqua, enclavinhada no rebordo dum socalco
- do seu tronco dependurava-se um cabo, a nossa liana de Tarzan.
Miúdas, futebóis, ofensas mortais e o planeamento do desforro, sob o seu pálio
governava-se o mundo, fumavam-se as primeiras beatas.
Ainda as auroras não tinham rugas.

8
Reguadas e ponteiradas: eis a prévia condição para tornarmos ao cói,
isolado pelo canavial do desconcerto do mundo.
Já deitávamos as beatas na caixa das esmolas.


9
Era uma bola de fogo donde emergia uma cauda de avião. A trajectória
não deixava dúvidas: caíria na Mata dos Medos.
Revezámo-nos toda a semana, aos pares, e a batida
foi extensa e supervisionada pelo fragor do mar.
Mas a mata conservou fechados a sete chaves os seus segredos.
Na busca, recolhemos o Tripé, um cachorro a quem a maldade
humana havia decepado uma pata e que em nós achou
um centavo de ternura.
Até que alguém lhe chegou o isqueiro.


                                                                           Bert Hardy
10
Entre outras proibições, era-lhes vedado comer vagem ou coração, ser o primei-ro a cortar o pão ou autorizar que andorinhas fizessem ninhos nos seus tectos. Pitágoras não transigia.
Eu, todas as Primaveras aguardava com excitação que as andorinhas fizessem ninho na nossa varanda. Virá daí a minha enferma antipatia pelos números.


11
Valores como saber manter fresca a manteiga sem frigoríficos, medir os brilhos numa tina de azeitonas, ou ter um cão treinado para ir ao lugar roubar o torresmo, o toucinho, confiava o lenhador reformado enquanto amolava o machado e lhe apreciava o fio de luz – tudo o que de uma vida para outra não se repete. Um dia, contou, moendo vagarosamente o pão com requeijão, a meio dum tronco, a meio do lanho, amoiteceu-me o futuro. A lâmina ainda lá está presa à embravecida, desimpedida, manhã.


12
Tão pobre o vocabulário do cuco. E contudo, em casa alheia, faz fortuna.


13
À primeira, o bom quinhão de favos de ouro na caixa de sapatos foi esfacelado pelo gato.
À segunda, o meu falho aproveitamento escolar encolerizou o meu pai, que mandou a caixa de sapatos e os seus oito favos pela janela, lapidados de imediato por uma chuva a rodos.
Não tentei mais, parecia-me a natureza tão frágil! 

14
Gosto da tatuagem da luz nos instrumentos de cobre.


15
Salgueiros. Quando os vejo do rio aceno-lhes em memória daquele dia, quando no rasto de castanha da índia nos quedámos sob os salgueiros, num irreflectido corpo a corpo.
Há anos que não lhes aceno, há décadas que morreu aquele dia.
Só o rio permanece insolúvel.

16
O que é um poço? Desdenhávamos, até o primeiro cair no seu negrume.
Batia o dente quando o tirámos a cavalo num balde de zinco puxado por dois homens.
De lá de baixo, jurava, as cabeças tinham auréola.

17
À noite pareciam-te plátanos e de dia recortaram-se: eucaliptos.
Também a luz que te devasta o rosto o sulca de enganos.

18
Repentinamente, o vento alivia o garrote às acácias.

19
Surpreendido e só, na capela, ouvi primeiro o ecoar invisível e depois, verde, a locusta triunfante de banco para banco.

20
Na ânsia de irisar a sua noite, a ostra cria a lua.

22
Quando vier o granizo vergastar os pomares, partilharei desta vez um aquecido silêncio de castanhas no bolso da gabardina, uma camisola de lã grossa, com moinhos, e uma surpresa que acene e resguarde o riso e os gestos dos mistérios da chuva?
Ou será, again, a brasa que se apaga, o pavio de uma solidão antecipada, tomar
café, fixando nas borras uns olhos pretos tristes, e na vidraça o tear fúnebre da paisagem liquefeita; bater, perdidamente bater no teclado para que não gelem as mãos?

23
Dedaleiras sim, vi-as, cheirei-as, toquei-as, às dezenas na Arrábida, num acam-pamento em que me fartei de namorar.
De resto, tive sorte, nunca me seguiu o brilho estridente dos milhafres.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

AS MÃOS E O ROBOT: DELÍCIAS

              robert doisneau: antes das mãos serem robotizadas, o belo trabalho que tinham

... DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
                                                         para o Rui Trindade, meu velho colega no Expresso
                                                         e meu novo companheiro de aventuras em Maputo

As mãos são equipadas de sensores de toque.
Eram todas. As novas, robóticas, atingem níveis de sensibilidade superlativa,
níveis de oh la la - no surf sucede-se a uma primeira uma segunda
linha de ondas, oh la la....  Os dedos robóticos têm o mesmo tamanho
de um dedo humano, mas na vagina, oh la la, da Gertrudes
surpreendem os diques da Rainha de Sabá e o aveludado extremo
que enlouqueceu até à impotência Giacomo Casanova.  Nunca houve
senão peles e nervos flexíveis, condutores de fluxos, 
mas os cientistas desconheciam e resolveram ajudar os materiais
a tomar consciências das texturas alheias e próprias,
afim de poderem monitorizar e interpretar o que, acaso,
detectam, uns dedos mecânicos. Quando o dedo
deslisa sobre uma textura, oh la la, vibra de diferentes maneiras.
Essas vibrações, captadas por um transmissor de som
localizado dentro dos dedos de metal, inervam-se. Detecta

assim a mão robótica o tipo de textura, oh la la, a forma e as propriedades

térmicas do objecto, com mais precisão do que o dedo humano.

Dizem os especialistas, que esta mão robótica detecta 117 materiais

comuns com uma precisão de 95%. A de uma inteira banana de liamba

fumada de uma vez só. Um pequeno ribeiro torna-se um dos aquedutos

da Rainha de Sabá. Eu vi, estive no Iémen e sei, oh la la,

de que escala se fala. E a ser verdade, a mão robótica

vai ser a primeira a masturbar os seus próprios (e gulosos) dedos,

já vejo o mindinho a esgalhar o polegar, e o dedo médio

a excitar a glande do indicador, em prova técnica, oh la la,

que equivalará em esforço a 5000 m mariposa,

enquanto a mão natural, enfim liberta, intentará sublimar na arte

o arrombo de tanta sensação não nomeada e libertar

(oh la la) tais cargas de imaginário que o robot

(a mão de sensores incomuns) descobrirá em pânico…

as delícias do erotismo - totalmente escravizado

pelo desfrute das sua novas sensibilidades. Problema dele.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

REVISÃO DA MATÉRIA DADA

                                                                           Gigli


REVISÃO DA MATÉRIA DADA 

 1 Piétá 


Morto,

ao colo
da Palavra. 

 

2  Releitura de Paul Valéry

  “As mentes limitadas

imaginam que o extremo
                                        do gosto
                não combina com a energia”:
                responde Valéry
aos que nele apenas farejam
                cordura e delicadeza
e não aduzem na sua racionalidade
                a recaptura
        alucinada
de Pompeia
sob uma indigitalizável lava
vulcânica.

 

3 Psicologia de Massas 
 
Desejava saber
                         Kafka
em que momento e quantas vezes,
estando oito pessoas a conversar,
                 convém tomar a palava
para não passar por calado.
E estando trinta pessoas
                  a conversar?
Ou oitocentas na palheta?
E estando um tigre e um galo? 

 

4   Descartes, um desdizer 

“De cada vez que uma coisa (uma porta  fechada?)

surge clara, distinta, no meu espírito (uma porta aberta?),
é possível que me engane!”,

desoprimiu o inodoro Descartes. Mas tactear por gosto
os gonzos enferrujados da evidência
é pior que sujar as mãos num fruto lampo
para depois limpá-las às calças.
Escavar no fundo seco de um poço,            
até que uma sede nos ice à luz?
 

5         Baudelaire e o carpir de Deus 

Balofo à vista desarmada,
o meu gato por dentro veleja
sobre o molho de rijos ponteiros
de um relógio que nunca transigiu.

 Pelo exterior do gato, recende
a balbuciação de Jeanne,
a mulata que me aqua
a atmosfera e onde demolhar
as vírgulas acorda o carpir de Deus.

Na intersecção de ambos,
o grau de toxidade
em que, benévolo –enrolas-me
um charro? -, inebrio os anjos.


6  Leitura de Nicanor Parra 

 Gostaria que o leitor, como na fábula
de Eurípedes, me arrancasse da cabeça

 as penas de pavão. Mas temo que diversos
sejam a porfia e o juízo, e nada emende

à perfurada esponja o hábito da isenção:
a vida, prezado leitor a quem lanço adubo,

espapaça-nos, sanguinolenta.
É uma inadiável questão de tempo

e não de espaço, que ademais
arranca o chão à aragem.

7    Frequência de Lévinas 

            O Mesmo visto como exílio
- o que me agrada em Lévinas.

 O Rosto a quem se oferece a outra face,
de antemão perfurada,
                                     é a estufa fria
onde enlouquecemos os sentidos.


8   Perguntas de Virgílio a Eneias  

Temes as trevas
– o que entendo.
Mas também os nomes?

Quem se domicilia nessa raça
que estanca o que flúi?

Estiolada, a carne dos Deuses,
na linha de parentesco
que os ligava aos homens,
o que se segue?


9        A Explicação de Filosofia 

Wittgenstein entendia o pensamento
como a gaguez de Deus.

 Deleuze, por seu turno,
enxergava na gaguez
o que permite fugir ao delimite
– como a racha que antecede
no voo o ovo.

Em que parte de Husserl
descruzou ela as pernas?

Coincidência da unidade:
não acabo de me vazar,
centrípeto dervixe, na sarça
lúbrica que incandesce o pneuma.


10   Lição do Não 

Dizia John Cage: não
precisamos de destruir o passado –
já se foi!

 Eis a prova:
                   Cage deixou a gaiola!


11   Orientália  

 A mente é o teu macaco de estimação: o tal
que cabriola por um amendoim.

Enquanto puderes evita-o,
depois não te dá folga,
como o azul no céu
que o outono coalhou.

12   Leitura de Ibn Arabi 

 Empolga-te o anelo deste firmamento
estampado na água?
Adivinhas: é uma questão de caligrafia.

 Mas também o tanto que o mundo
te transtorna ou mortifica
tem origem na Sua letra de médico.


13   Silvia Plath

 Todo o decoro que sustém o turbilhão,
escreveu Sílvia Plath - e mais nenhuma
ramagem precisaria de assombrar
para adivinharmos a sua silhueta,
invisível, no meio dos patos
que grasnam, brancos,
contra a púrpura do poente.


14   Releitura de Yeats 

 E de rajada deu conta:
há quantos meses não via um cisne,
o seu imiscuído nó de marinheiro,
quando, langue, esfrega a cabeça
no arco de outro pescoço;
o brilho húmido das suas penas
a espanejar por dentro
as gotículas do seu olhar?


15   Palestras de Merleau-Ponti   

 O mel é um certo comportamento do mundo
para com o meu corpo e visão.
O teu mel, implantado em mim,
como o urso na sua garra.

Uma abelha. Ronda os aros azuis
(que tipo de flores lhe lembrarão os meus óculos?).
Faz rappel no copo de cerveja,
fareja a capa do livro, suspende-me
nas ogivas que desenha em torno da mão.

Longos segundos, os suficientes
para hesitar entre uma palmada
e a aprendizagem de ser estátua.


Suponho que acontece o mesmo
entre eu e Deus. Só que Ele,
mesmo distraído, se decide.


16    Píndaro

 Aí está uma coisa que nos convém:
A raça dos deuses e dos homens
                não fazem senão uma.
Por isso se urde
        a rosa,
                  não nasce.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

COLÓQUIOS COM A JADE 14

                                                                         dakota
 - Isto é que eram casinhas, filha.
- Estás maluco, pai… são tendas…
- Olha para o jogo dos pauzinhos…
- Foram eles que inventaram o mikado?
- Bom… não… mas não gostarias de viver numa tenda?
- Podemos pôr na nossa varanda?
- Assim ao contrário, pôr a varanda dentro da tenda…
- Hum, não cabia pai, e onde é que punhas os livros?
- Pois…
- Não estejas triste, talvez se levasses só cinco.
- Estamos tramados, não é?
- Tá bem… mas não te esqueças que eu hoje tenho uma festa!



CERA, NA ORELHA DE VAN GOGH

                                                                        kandinsky

«Este mundo é dado ao homem como um enigma a resolver», escreveu Bataille. Transcrevo e concordo. Transcrevo e abismo-me. Claro que sim, claro que não: como a luz, na persiana às riscas.                                                                                        Encarar o mundo como enigma e perfurá-lo com uma opacidade que separa sujeito e realidade, afinal só instaura a dualidade. Ou não? Julgo que, frequentemente, a realidade se vela e unicamente se deixa captar de viés, veladamente, sendo a metáfora, apesar dos apesares, a sonda; enquanto noutros momentos somos participes na abertura que dispara o dulcíssimo canto da imanência, onde sujeito e (e)vidência estão síntonos. Inescusavelmente. Aí não há enigmas mas um fluxo de que fazemos parte.                                                                                                                 
Oscilamos entre uma e outra acostagem ao mundo e nos dois pertencemos a comunidades diferentes.                                                                                               Não pertencermos só a um dos lados secreta-nos o múltiplo, desafoga-nos da clausura. Infelizmente, há ainda quem não viva sem exclusões, ainda que – abnegadamente – confundido.

«Era incapaz de matar, mas não de matar-se. E jamais compreendeu a crueldade hu-mana e os homens de luta», escreveu Goytisolo sobre Cesare Pavese. E julgo que disse muito quanto à seriedade e sensibilidade do autor de Lavorare Stanca. Acho que foi imperfeitamente medida esta amplitude entre uma coisa e outra, talvez a mesma que Camus evocava quando sentenciava que «…sofrer não te dá direitos!», renúncia a tomar o outro como ecrã, o que traduz um respeito e coragem inauditos. Pois, o que é comum é vingarmos no outro o que sofremos.
Este virar para si o gatilho (bem sei que Pavese morreu de uma excessiva ingurgitação de barbitúricos) em vez de transformar a irresolução própria numa energia para viciar as relações com os outros, aceitando esculpir-se no silêncio, afigura-se um gesto de um homem fatigado mas inexoravelmente honrado.


Nunca deixou de me impressionar uma afirmação do Ernesto Sampaio, numa entrevista que lhe fiz: no Império Romano, à data da sua queda, havia 40 maneiras de refinar o azeite. Não creio que tivéssemos chegado a este requinte e contudo, tendo em vista a histeria com que fazemos gala de ter opinião sobre tudo e todos, é nítido que já não nos sabemos ouvir e nos comportamos como gueixas que já só encontram cera na orelha de Van Gogh.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

PROCURANDO POR LAURA

                                                                           cindy sherman


Chamava-se Laura, pediu licença, e em plena aula de Estética
- o que os marmanjos depois me crivaram de perguntas -
estendeu-me um papelinho dobrado em quarto:
«Jantar em minha casa, hoje, às 20 horas». 
Era em Benfica. Ela era do Porto,
e tinha do seco em casa, uma garrafa por abrir.
Foi o que me aliviou (cobarde) de puxar a carroça do sexo,
degluti-a até ao último pingo, como se o dilúvio não houvera
parado de durar, e aquele vinho espesso rolou no meu sangue
como bolas de canhão. Aguentou o despautério com uma elegância
que me tornou num velho mandarim a depreciar a lua de Verona.
Nunca me arrependi o bastante, ou pelo menos da forma sentida
que revertesse num cacho um copo de vinho.
É dela o livro de Brecht que agora folheio, trinta anos depois,
e que nunca lhe devolvi, matreiro.
É a Laura Osório, quem conhecer que lhe diga
que sempre estarei reconhecido à sua amizade,
que toda a vida lhe invejei a capacidade para amar
neste baixio de repolhos e piolhos de dúbia face
de que nos coube ser contemporâneos…
e que francamente lamento, como na lenda de Evlyn Roe,
não ter sido um capitão deitado  no seu seio…
o capitão Petrarca, que menos não merecia.
 


segunda-feira, 11 de junho de 2012

UMA MINORIA INCOMENSURÁVEL/ cadernos de Maio

                                                                      Walter Zandamela



Escreve Godard: «hoje em dia toda a gente tem dois ofícios: o seu e o de crítico social» - e adivinha-se aqui o quanto corremos de língua de fora contra a vertigem, no sentimento de estarmos cientes da amplidão do desastre no momento em que já é tarde.

Todos os dias, ao acordar, olhava para as unhas dos pés, todas recurvas e enodoadas, e censurava-as uma a uma como se fossem os seus cinco filhos estroinas e contumazes, antes de gritar para dentro, para a criadagem: Nilza, chá, torradas e a tesoura de poda…

 Onde estão os cipestres?
Aí está o exemplo duma pergunta inútil
Nos lábios de um morto:
E é preciso ser cego para não perceber
Que os cipestres migram
No implausível dorso das andorinhas
Para onde os vivos libam.
Mas vai uma aposta?

Escreveu no teste, «a performance segue os trâmites da ‘obra aperta’». Escreveu três vezes para que eu percebesse que não era gralha, que ele tinha de facto descuidado a leitura de Eco e de Cohen. Agora o exame aperta-lhe as tripas e veio bater-me à porta regatear um ponto numa pergunta onde o santo nome de Shakespeare se transformava em Shakespee. Portei-me como uma verdadeira cascavél: xsheee… pee!

Sem nos darmos conta, o tique de carinho canalha que permeia as amizades e o convívio em que muitos portugueses são vezeiros, nunca dando carinho sem uma pontinha de rudeza, ou sendo líricos mas envergonhados disso (como o O’Neill, por exemplo), é uma forma de distanciamento brechtiano automatizado, e tem como fito “manter-nos alerta quando uma parte de nós deseja entregar-se totalmente aos apelos do sentimentalismo” (Brooks). É a nossa forma de comentarmos: aqui vai disto, mas estamos a pau…

Despenhou-se sobre uma zona residencial, o poema.
Tudo o que restava dum grande grito no silêncio
Arde agora como o fantasma a quem o nevoeiro defenestrou.
Está por apurar o número das vítimas mortais.

Só nos países foleiros, em que nunca nada de estrutural se empreendeu, é que aquilo que o «público» quer tem tanto peso na economia dos bens culturais. Mais do que nivelar por baixo, é amputar por baixo.
Portugal foi sempre um país de galos capões, desde que os marinheiros e navegadores deixavam aos escravos as tarefas primordiais de espalhar a semente na terra, e no corpo e espírito das legítimas. Ainda vivemos dessas ondas de choque de levarmos séculos a foder a mulher por delegação e por isso não admira que abramos mão do «gosto» para nos confortarmos com os ditames do mercado. Claro que neste cenário a cultura será sempre excedentária, em vez de ser catalisadora de ganhos simbólicos e de lucros concretos; se o escroto que define as suas políticas não é o nosso…

Pois é, ninguém é superior a ninguém mas que há coisas mais importantes do que outras, lá isso há.

A anedota é atribuída a Bashô. Confessava este um dia: expliquei o zen ao longo da minha vida e de repente deixei de o compreender. Oh, perguntou o interlocutor, como pode então explicar alguma coisa que não compreende? Bom, replicou desanimado Bashô, devo também explicar-vos isso?
De facto não é possível ensinar nada a ninguém, apenas insinuar… o resto depende de como cada um arma ou investe no que não compreendeu.  

Tão laminada que não se dá à confidência - a libélula.
Por isso o haiku me parece curto,
Ainda que seja mais vivo que a esfinge.

domingo, 10 de junho de 2012

AUGÚRIO

                                       


                                           Herói, técnica mista sobre papel - Walter Zandamela
                                            um dos melhores artistas da nova geração em Mz

«Deitado na praia sem fim vi como as ondas alterosas arrojavam à praia um corpo igual ao meu, fossilizado. Em vão procurei levantar-me. Pseudomorfizado, o meu corpo era um tecido espesso de caracóis petrificados, de conchas antidiluvianas, de deliciosas miniaturas peroxidadas de animais desconhecidos. No interior dos delicados interstícios uma membrana transparente descobria feéricas paisagens submarinas onde signos do Zodíaco flutuavam luminosos. Pela estreita passagem que atravessa a rocha Teyeera, que cerra, cara ao poente, o horizonte, vinha uma horrível procissão de monstros: polvos com patas de camelo, gigantes com cabeças de cavalo, mãos hercúleas sustidas por finíssimas patas de avestruz, olhos de córneas fosforescentes entre imensas pestanas escamosas. Se o mar, transformado numa só onda negra, cobrisse toda a terra! Mas o mar, na sua transição vespertina, é uma vasta pedra de ónix onde as estrelas vêm reflectir as suas veias rubras e acesas e desenham deltas misteriosos, imensos, inabordáveis.»

Não é Lautréamont, nem Lovecraft. É J. V. Foix, um dos grandes poetas catalães do século XX. A preparar um texto para uma aula, socorro-me do velhinho Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial, do Mário Cesariny, e descubro acidentalmente este texto, que sempre me havia passado ao lado. Mas o melhor é depois relembrar-me que tenho comigo três livros de Voix, que nunca li, uma antologia e duas obras consideradas capitais na sua bibliografia: Solo, I de Duelo e Las Irreales Omegas. Já me imagino a urrar de gozo nos domínios deste poeta para quem a metamorfose é o eixo vertebrado. Nem todas as semanas prometem  como esta, neste mundo que se degrada porque as pessoas tomam as palavras por surdos-mudos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

FALHAR OS ALVOS

Cansaço de ser professor.
Hoje pela terceira vez seguida os alunos de Dramaturgia baldaram-se à aula, às 7h30 da manhã, o que acontece desde que os obriguei a ler Rabelais, avisando-os de que iríamos fazer um teste a partir “dessa matéria” e uma adaptação de um capítulo de Pantagruel para stand up (- pode ser coincidência e ser relacional, sendo o problema meu, mas então porque não faltam os mesmos alunos às aulas de Análise Teatral?)
Versos que desviei dos trabalhos dos alunos:
“o sujeito é o homem
que inverte
o boato em carne”:
roubado de um teste;


“todos nós temos uma bibliografia emocional”:
roubado de outro teste;

Mas antológica talvez seja a resposta que me deu um aluno à pergunta sobre quais os mitos da comunicação (no sentido de enganos, engodos, falácias) que mais o tinham surpreendidos ser falsos (depois de passarmos três semanas a dissecar os 19 mitos da comunicação, segundo a Escola de Palo Alto):

«Professor, a mim o mito que mais me surpreendeu ser falso é o que diz que quando chove é porque os gatos estão para casar, ainda que na verdade nunca tenha sido convidado para o casamento de nenhum gato…»

Há algo que não está a carburar bem na relação das pessoas com o conhecimento e talvez a perda ou a fractura com uma «mathesis» (um campo completo do saber) mediadora de uma visão unitária do mundo, esteja, por um infundado receio irracional, a empurrar as pessoas para uma imbecilidade crescente pois poucos aprendem a orientar-se no fragmento, no meio de cambiantes, na dissonância, a achar os padrões sob a “aparência” do caos, e nesse desnorte é mais fácil perder a capacidade para ler o real e os seus signos e para ser, na sua vez, um operador da simbolização. E ei-los aos molhos, os anoréxicos do sentido.
O facto é, de ano para ano os alunos chegam-me mais mal preparados, com menos instrumentos. E a culpa não pode ser só dos professores.
Eu fui um péssimo aluno. Bom, apanhei o 25 de Abril e 74 em cheio, estava no quinto ano do liceu e as motivações multiplicaram-se em flecha para tudo o que era exterior à escola. Mesmo na universidade fui um calão, mas eu tinha um interesse, um foco – a literatura. Simplesmente, tudo o resto (estupidamente) não me interessava da mesma forma. Mas aí espraiava-me, entusiasmava-me, progredia.
Eles não têm qualquer foco. Batem-se apenas por um emprego, a qualquer preço, e pelas sextas-feiras à noite.
O mundo atomiza-se, e não me apetece mais assistir a este suicídio.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A TOILETTE DO MORTO


Talvez à morte de David Carradine só o Colombo
a pudesse desvendar    O aparato daquele fim (digno
de um remake de Kill Bill) intercepta
a minha desairosa  vida,   deita de borco

as mais ousadas fantasias e mina-me os perímetros
da memória   Antes de Abril  que houve
além da série Kung Fu e do longo beijo falhado
a um enxame de raparigas que depois de mim odiaram

incansavelmente a poesia? Só hoje me contaram,
neste meu ermo mundo,  enforcado num nó de ar
quase corrediço   Por acidente dizem, uma corda

atando pescoço e pechota, dois caules que só diferem
na corola   Cingiu-se aos parâmetros de um errante
observador de aves,  a asa encontrou a água