sábado, 13 de abril de 2013

LAVRADOR: A PALAVRA QUE COMEÇA A FALTAR

                                                       Yves Bonnefoy, o lavrador

A Maria João Cantinho, no Facebook, num gesto carinhoso, dizia que gostava muito do meu surrealismo. Ela não sabe o que me irrito sempre que me associam ao surrealismo. Não tem mal. As pessoas não sabem como encaixar-me e então procuram aparentar-me. É “normal”. O que não quer dizer que a coisa não se deva esclarecer, como nesta nota que escrevi no meu diário, na véspera do lançamento do meu livro Piripiri Suite:

20 de Janeiro de 2007:
«Novo livro publicado, toujours en retard. Je suis en retard dans la vie, escrevia o esquecido Rene Guy Cadou, frase que eu inscreveria sobre o pórtico do meu sempre adiado “Clube dos Procastinadores”.
Na verdade, a terra de Piripi Suite (que, não fora a homenagem a Grabato Dias, eu chamaria Cadernos de Reportagem) já foi revolta duas vezes mais, com livros que apontam outros horizontes e novas escarpas estilísticas mas a velocidade das edições não permite auscultar o processo na sua devida sincronia.
Alimento alguma curiosidade sobre a recepção deste livro pois escrevi-o com o sentimento de ser um artesão que por maleita do espírito só esculpe Cristos corcundas, e páginas mais felizes me chegaram posteriormente. 
Às vezes mais vale o silêncio do que falarem de nós equivocadamente. Eduardo Prado Coelho, numa crónica, fez-me comparecer ao lado de Al Berto, como exemplos de novas brasas num surrealismo já julgado extinto. Eis-me atado ao imago de um rapaz um pouco estouvado e com um niquinho de anacronismo, de inclassificável.
Na generalidade, ao invés, sou um leitor apaixonado de todos os que ou romperam ou permaneceram nas margens do surrealismo: Michaux, Alain Jouffroy, entre outros, poetas que viveram, de facto, uma aventura do espírito. A maior parte dos poetas que hoje tenho à cabeceira: Yves Bonnefoy, Hugo Claus, Thomas Tranströmer, Marc Blanchet, Edmond Jabès, Christian Bobin, Jenaro Talens, Ángel Crespo, Gonzalo Rojas, Nicanor Parra, Mario Luzi, Jorge Riechmann, Homero Aridjis, Robert Duncan, Charles Simic, John Ashbery, Miroslav Holub, estão ligados a uma tradição mais vasta que inclui o surrealismo como um dos seus ramos - e não ao contrário.
Para ser breve, os meus autores de cabeceira descobriram todos o mesmo: à poesia surrealista faltava-lhe o fraseado, é como o jazz antes de Charlie Parker, que assentava luxuosos tijolos uns sobre os outros mas não tinha ainda o cimento que os unia.
E o que é, palpita-me, que agradava tanto aos poetas novos em Mário Cesariny? Aquilo que o brasileiro Carlos Filipe Moisés detectou no poeta português: a asa dissimulada do racionalismo. Ainda que nele fosse trans.
Diga-se: prefiro que a minha dívida seja atribuída a Daumal e aos poetas do Le Grand Jeu. Agora, explicar as diferenças, profundas, em terra dominada pela lógica taxonómica?
Mas, onde afinal me situo eu? Talvez percorra a esteira dos que cismam na reminiscência do próprio daímon: “Tal conhecimento, aventa Eugenio Trias, não é epistémico mas sim gnóstico, e não se acha mediado nem pela consciência representativa nem pela livre vontade (ou livre arbítrio), posto que se implanta na existência como um conhecimento existencial. Tal conhecimento existencial deve em rigor chamar-se gnose: o conhecimento que se alcança de si mesmo em virtude do acontecimento existencial que preside ao encontro ou ao desencontro do sujeito com o seu daímon.  Este sulco é antigo como o mundo.
E, contudo, até acho que no caso específico de Piripiri Suite contrario um pouco tudo o que foi dito no parágrafo anterior. É um livro onde espreita consecutivamente o “não poético” e onde surde o que Gabriela Llansol expõe, categórica, em Um Falcão no Punho: “Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros”.
Aproveitemos é para desfazer de antemão o próximo equívoco: o que é que me separa dos (tardo) românticos? O facto de para mim as fontes se situarem à minha frente, e não atrás – por mítico que seja. Detesto os mitos da origem, quedas e paraísos & a culpa adjacente. Face a esse cenário sou, pelo contrário, bastante construtivista.
Na verdade, lido o livro surgirá a tentação de dizerem que me aproximo dos poetas da geração de 90. Mais vale encolher os ombros. Nunca estive longe. Nunca estive perto. Entre é o meu estado. Entre-pernas.
A minha filha Luna hoje faz anos, três. É o meu estranho-próximo mais caprichoso. É a única coisa que importa.»

A minha filha Luna tem hoje nove.
O livro claro que passou no mais absoluto silêncio. Ou passou a ter a forma dele.
Entretanto, ontem, relendo um magnífico livro de ensaios do libanês Salah Stétié, Hermes Défenestré (José Corti, 1997), encontro isto, com que concordo do coração e que é mais uma nota ao que me separa do surrealismo:
«Não se terá sem dúvida compreendido nada da poesia sem que se tenha dito, em alto e bom som, da poesia que ela é inimiga do sonho, que ela é, para dizer de outra maneira, o gato do cão do sonho e vice-versa. Sim, tão cão e gato como os outros, e enfrentam-se arreganhando o dente, tal e qual. O sonho é a tapada de caça do psicanalista e não é esse tipo de caça que o poeta persegue. O poeta, aquilo que ele quer forçar é a realidade, toda a realidade, nada mais do que a realidade e se ele tropeça no sonho, como nos calhaus do caminho, é porque o sonho, esse calhau, também ele faz parte da realidade.»
Tão simples, tão exacto, tão urgente.

 

Num poeta que li demasiado novo e que agora redescubro com outro gosto, Yves Bonnefoy (há idades para se ler devidamente certos autores e pressinto que não passarei sem traduzir Bonnefoy pois a leitura ao ralenti que é a tradução é a melhor forma de nos sintonizarmos num verdadeiro encontro), encontro o seguinte: "O único herdeiro possível do lavrador é o artista (…) a esperança que deposito na linguagem é o que faz que pareça que não me interesso pelos problemas contemporâneos. A minha reflexão, o meu trabalho, consiste em dar prioridade a tudo o que possa ajudar de maneira mais radical e directa a melhorar a situação no mundo: não ataco os conflitos ou debates do momento, um a um, mas antes optei por ir sondar a raiz do mal; o desastroso emprego que a nossa modernidade faz da linguagem.
Não tendo embora uma visão tão catastrofista, sinto uma grande afinidade com esta posição. Ainda que matizadamente, pois por vezes urge o murro na mesa

SOMBRAS DE VELHOS COMETAS VELHOS COMO O MUNDO

                                                                   francesca woodman


Descubro ao acaso, abrindo um livro na minha propensão petisqueira, esta citação de Marx: ”Da mesma maneira que Lutero proclamou o fim do laico e do padre também a sociedade nova superará a distinção do Estado e do homem privado.” Teria Marx consciência da perversão com que as sociedades novas tomariam à letra a sua previsão?

 

Escrevi isto em 2006, no meu diário da altura, O Vento e a Escolta:

«A fraternidade está morta, posto a vileza, como previu Baudelaire, ter tomado o coração dos humanos: «O mundo vai acabar (...) (um dia) a mecânica ter-nos-à americanizado a tal ponto, o progresso terá atrofiado tanto em nós toda a parte espiritual, que nada, entre as fantasias sanguinárias dos utopistas, poderá comparar-se com os seus resultados positivos. Não será através das instituições políticas que se manifestará a ruína universal ou o progresso universal (pois o nome pouco importa), mas através do aviltamento dos corações» (citado por Octavio Paz no seu diálogo com Castoriadis).
Neste desnorte, engendra-se a vileza como o efeito colateral a perversão dos dois primeiros princípios.
Absolutamente fora de hipótese pensar noutro regime social que não seja a democracia e os seus enganos, mas não devemos fechar os olhos ao desolador e exaltante estado das coisas – oximoro comum a todas as épocas em que o definhamento da crítica antecipa uma mutação profunda, uma conversão semiótica (conceito a que voltaremos).
Mas é muito pobre a democracia que receia as diferenças e o reconhecimento de valores de intermediação.
África, neste aspecto, é hoje, a contrapelo, um extraordinário laboratório para estudar o que será a sociedade europeia daqui a 20 anos, quando o liberalismo triunfante tiver destruído os resquícios de uma regulação social nascida dos três princípios que a Revolução Francesa consagrou.
A sociedade africana é asperamente estratificada, lancinante nos contrastes, e dissemina-se em sistemas paralelos, quer de vida, quer económicos.
Em Maputo, sobrevive-se com 200 dólares mensais e com 500 ou 1500. Não se viverá evidentemente com o mesmo desafogo, mas o preço dos bens e da alimentação é muito variável, consoante o bairro e o comprador alvo. O preço de uma porta de grades varia, consoante estejamos no bairro do Xipamanine, na periferia, ou em Sommershield, o bairro rico. Os materiais, o trabalho e o resultado são o mesmo, o preço é que diverge.
Outra coisa se pressente, nestas compensações por estratos. É uma sociedade que devido às restrições orçamentais impostas pelos organismos monetários internacionais perdeu quaisquer veleidades de uma futura equidade social. O progresso social está estabelecido pelas quotas que favorecem a boa consciência da hipocrisia internacional, mas não excede esse quadro. Quando a educação devia ser a aposta preponderante para se semear o futuro, as imposições do endividamento internacional dão lugar a paradoxos tonitroantes, como o de se abrir um ano escolar com metade das vagas de professores por preencher, por falta de orçamento para pagar aos docentes, como aconteceu o ano passado em Moçambique. Que o jornalismo internacional não denuncie estas contradições que o FMI gera dá a medida do servilismo em que se acantonou a maior parte da comunicação social.  
Combater a pobreza em África, no figurino actual, é um enorme alibi para milhentas negociatas. Os programas de combate à pobreza branqueiam as verdadeiras intenções do que se congemina na sombra: domínio e saque. Não sou eu que sou cínico, é a realidade, ainda que não esqueça que, “desviado” algum do dinheiro para as funções que o justificaram, se se salvar uma só pessoa que seja temos razões para nos congratularmos. Mas temo que da mesma maneira que os programas para erradicar o HIV/Sida fomentam hoje em África uma gigantesca rede de negócios que demasiadas vezes se esquece da meta - o que explica a boa-consciência com que se acha normal que 80 por cento do orçamento atribuído anualmente ao CNCS (Comissão Nacional de Combate à Sida) seja gasto em salários da estrutura, sobrando 20 por cento para os objectivos – , temo que aconteça algo de semelhante com a questão da pobreza.
Aliás, só há um modo seguro de um país pobre se saldar num sucesso a prazo: apostar numa indesmentível educação de qualidade. Exactamente o contrário do que se pratica hoje em Moçambique. Como se estivessem deliberadamente a preparar um país para a servidão. Entretanto, concretamente, na sua sanha liberal, o governo demite-se de quase tudo, entrega a iniciativa à sociedade civil (leia-se empresários de conotação próxima do poder, os mandantes) e apesar desta se mexer pouco o governo alheia-se.
É o que se passa na cultura.
X foi convidado para organizar uma edição em Moçambique do Festival de Cinema da CPLP, pois este ano passado cabe a Moçambique a sua organização. Perguntou, muito bem, que dinheiro é que há para gerir? E responderam-lhe. Isso é você que tem de o obter. Eu?, perguntou o espantado. Claro que a edição do Festival desta vez não se cumpriu, mas se ele tivesse puxado pelos brios e ido arranjar umas massas aos doadores…
Este debilitamento da consciência de uma responsabilidade social já se verifica actualmente, segundo as teses do sociólogo Michael Freitag, no subsolo da dinâmica que rege as sociedades europeia e americana, mas nestas existe ainda uma série de mecanismos e de instituições cujo carácter retardam ou amortecem o choque. Mas a onda de choque acentuar-se-á logo que tiverem entrado em colapso a segurança social e os fundos de reforma, e que as leis laborais conseguirem contornar todos os direitos adquiridos ao longo dos últimos duzentos anos. Então o fosso entre classes conhecerá um novo patamar e quebrar-se-á um certo equilíbrio burguês, que calibra ainda a vida comunitária na Europa.
Ressaltarão aí as assimetrias sociais que hoje se patenteiam no continente negro, e quando as pessoas para sobreviver se virem obrigadas ao uso intensivo das manhas e dos subterfúgios das economias paralelas (não raramente mascaradas em módulos micro-económicos), por uma vez África estará tristemente na vanguarda.
África é hoje uma imensa comunidade que vive da gorja. Quando a Europa acordar no meio da necessidade de viver da gorja dará conta da insídia de carácter que impôs aos outros, àqueles a quem saqueou, e, anestesiada pelos ‘esquemas’, sentar-se-á sobre os seus furúnculos.»
Deprime-me saber que 7 anos depois a Europa começa a viver da gorja e senta-se sobre os seus furúnculos.

 

Leio em Traité du Tout-Monde, de Édouard Glissant: “Douve tocou-nos, enquanto primeira palavra de um poeta da nossa geração que sugeria, sem o afirmar, que a poesia é conhecimento, mesmo se este conhecimento passa por aquilo a que Bonnefoy chamará mais tarde “o Improvável”. Creio que este foi também, o primeiro livro de poesia contemporânea que nós elegemos como sendo ao mesmo tempo total e tão pouco totalitário, e tornou-se evidente que o corpo de Douve, objecto da poesia, obscuro e iluminado, dividido mas constantemente recomposto, afigurava-se-nos uno e transfigurado pela multiplicidade que o atravessava. “ (  )
A mim também me toca, e até mais que o livro de Bonnefoy, a ideia de que a poesia e conhecimento sejam indissociáveis, mesmo que improvavelmente. E este pequeno ou grande desaire parece-me mais conforme ao poema do que a gentilíssima arte do protocolo em que se vem transformando. 

 

Mercado do povo. Há uma mosca dentro do gelo que me aclimata o uísque. Nada que se assemelhe às ratazanas que vi numa reportagem televisiva sobre as cozinhas do Hospital Central. Afinal, o que é uma mosca, pequena, das que cabem na cova de um dente? Carbono. E o gelo não derreterá até ela, enquanto eu acabo a dose. Pode ainda ser reaproveitada e ir adornar outra pedra de gelo posterior. É uma questão de design. E estará morta ou, exposta ao sol, reanima?   


 
Uma fábrica de anjos albinos: escreve Jacques Lacarrière. Que não conhecia as ruas de Maputo, se não saberia como esta sua imagem tem nela um surpreendente esplendor. 

 

Em Le Roman Vécu, Alain Jouffroy narra, com a inconsciência dum verdadeiro cabotino, um episódio que surpreende quem se habituou a ver neste poeta um homem lúcido e avisado. Viveu cinco anos perfeitos com uma mulher, até que a filha dela, que ele ajudara a criar, foi morta em Los Angeles, para onde tinha ido estudar. Vítima de violação. O desconcertante, para Jouffroy, é que a rapariga não seguira o lema de Lao-Tsé que ele e a mãe tantas vezes haviam recomendado, “Se a violação é inevitável, folga e goza!”. E põe ênfase no espanto: «Non seulement Nina était d’acord, mais elle était capable, par son intrépidité, sa fougue, son indépendance, de mettre en pratique ce très sage conseil. Rien ne nous a jamais expliqués ces cris…» (pág.51). Fala dos gritos com que Nina tentou resistir ao violador e que o levaram ao impulso de a matar. Jouffroy esqueceu-se de uma coisa fundamental: da dignidade do gozo!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

QUATRO VELAS DE RECATO

Georges de La Tour

Quatro velas íntimas. As versões são minhas. Algumas palavrinhas não tem acentos pois estou a ser boicotado por um teclado sul/africano


Vivo para devotar-me
a uma ou duas palavras
nuncas ditas,
impronunciáveis –
essas que se adivinham
uma hora antes da alba
no olho do antílope
que lentamente se espreguiça
entre duas arvores sonolentas.
                                Joel Bosquet



RETRATO DO EQUILIBRISTA

Primeiro que tudo a arte de não
                           se cansar,
de trocar de pé com graça
                          sobre o abismo
e ter um andar airoso.
Amigos e inimigos nivelados
                             e repartidos
como pesos invisíveis
na orla do guarda sol.
Voe a pena no meio do coração.
E sirva a mesma linha central para desejar
                                 e pensar –
sorrir sobre os abismos.
                                       Harry Martinson



ARRABALDE

No arrabalde infinito
há uma árvore ratada.
Aguentam-na em pé as folhas
que só ao vento ressoam.

Um álamo no pó,
desfiado por casas em uniforme.
Brincam os miúdos em seu redor
o jogo da vida mínima.

Compram areia por farinha.
Vendem pedras por pão.

]E quase verão.
                           Gunnar Ekelof



ENTRE NENÚFARES

Escrevi um prólogo ao que ia dizer
mas perdi-o. No entanto,
antes que a noite me cubra
gostaria de dizer o seguinte -
seja um punho cerrado entre nenúfares
a ultima imagem que de mim se veja,
a ultima palavra que de mim se ouça
as borbulhas subindo do fundo.
                          Erik Lindegren

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A PÁSCOA, SEGUNDO OZO


Maputo acordou gelada, não mais que vinte graus, e com um vento que vem da Antártida. Quem puder acreditar, acredite. Tirito. Mas salvou-me o ânimo um mail com uns versos que o meu amigo Ozo me mandou do Caribe, onde foi de núpcias. Casou, mas continua um herético.
E enviou-me o poema que fez no dia da Páscoa.
Algumas notas para quem não é de Moçambique. O Museu, nas imediações do célebre Museu de História Natural de Maputo, é um mercado popular encravado num dos bairros nobres da cidade, e com centenas de tascas em madeira e zinco onde as bebidas são pela metade do preço do resto da cidade. Um Xiconhoca é um tretas que só faz confusão; o pito é uma expressão popular local para designar a genitália feminina; a Inhaca é uma ilha, para aí a sessenta quilómetros da costa, perto de Maputo; o Bairro Estrela é, em Maputo, um mercado de rua onde se podem comprar as peças de automóveis que foram roubadas no dia anterior; um Ministério é como as raparigas chamam a um amante ocasional que lhes paga algumas despesas; Mueda é a localidade onde se deu um massacre perpetrado pelas tropas portuguesas e que, embora seja um símbolo da luta armada, continua tão pobre como antes; o Francisco é aquele que a gente conhece. Julgue quem queira, eu deixei-me disso!

 
A UMA DAMA QUE PERDEU OS TRÊS
NO MUSEU E MORREU VIRGEM

O mundo perdeu o andor.
Perdeu o andor. Perdeu…
E já não distingue estufa de braseiro.

“Quem não ensandeceu, morreu!”,

 
buzina ébrio nas barracas do Museu -
olhos biscos no bizness - o xiconhoca.

E eu peguei na Senhora e fui-lhe ao pito…

à Nossa! E sossegada enfim a minha moca

 
confirmo: não presta a dama. Mais valia rever
o Trinitá ou um fim-de-semana na Inhaca

entre tartarugas e pornochanchadas,

que voltar-lhe aos cueiros, uma caca

 
que só vista, como a da paisagem inundada
que afogou os cocos e que de tão blindada

encheu os caroços de alzheimer. Fediam-lhe

a cona mais de mil negros no porão!
 


Juro! O andor era o seu ponto G,

e perdeu-o. Eu fui apenas um dador!

Não sei que vos diga, as procissões, só

as há por idolatria ou falta de leite primor,

 
pois, na verdade, nem um ladrão ladrou

quando o cão se me abeirou dos colhões!

Porque, não era dentada, a dita? Fedia,

tinha pra cima de mil negros nos porões!

 
Procura-se agora no bairro do Estrela,

entre matrículas, faróis e pisca-piscas,

mas a esperança apagou-se – foi-se

o andor, só da verdade faço sela!

 
O andor desandou o andar

e deslassou na desgraça a novidade.

O futuro di-vagou o andor

e eu, da varanda do quinto, cuspo:

 
 - Lágrima que arde!

Queres Ministério? ‘das!

Não lhe desejo mal, mas não era já tarde,

prá Santa continuar a ser um floco de neve?

 
Queria tanto, como o meu amigo Joseph

que a lua fosse uma moeda

para lhe telefonar, da pobreza de Mueda,

num domingo, 31 de Fevereiro,

 
Lhe lembrar, a ela, à mãe de Cristo.

a nossa antiga morada - do seio

ao peito, qu’eu do meio pra cima

ou abaixo a tudo assisto, independente,

 
e quando chupo sou mui decente

e até, dependendo do labor, docente!

Andor! O sol está a pôr-se

e o mundo ficou sem andor.

 
Dá-me um White Horse!

(Que rima tão mal parida!)

Pena, já foi um esplendor

e até, dizem, virgem aparecida.

 
Gaspar, Baltasar e Melchior

é que lhe tiraram o retrato.

Se a estrela invernou, pior,

se era já só fuligem…

 
ou se, na erupção de um vulcão,

desfrutou, eles é que viram

a embriaguez do cume, a tesão

do lume na maior das bisgas.

 
Agora o stress é do andor,

que se foi. - Francisco não corras

não, a seta não pára!

E se te restar depois alma & pudor

 
que bebas, da concha das mãos,

o lodo! Cristo é que – ó Sara,

‘presta-me o binóculo – não morreu de sarna

na cruz! E quem a galinha choca a esmo,

 
afinal, não é o ovo mas o dólar,

o desfibrador do metical.  

O sol está a pôr-se e talvez não tenha mal

visto que o mundo perdeu o andor.

 
Põe-se o sol, o sol está a decompôr-se.

Dá-me outro White Horse!

Andor, andor! Sheet! Grande estupor!

Não há? Dá-me um Black Label!

 
OZO/ páscoa de 2013


quarta-feira, 10 de abril de 2013

DESPERTARES: 10 DE ABRIL DE 2013

                                                                  Flor Garduño


EMIGRAÇÃO
Mais uma que se vai, grávida. Depois de ser atropelada, duas vezes, por um compressor de estradas. Ele fica, o compressor. Agarrado à chinesa que compra no Bairro Estrela. O primeiro filho já foi feito entre uma chinesa e outra, com a cabeça na prata. O segundo, imagino, entre um protesto e outro, dela, que se foi enfartando da nhurrice dele. Ele, como bom compressor de estradas, voltou a fecundá-la.
Ele era uma boa contadora de histórias, ele não se percebe o que viria a ser porque a prata cilindrou-o, encheu-lhe de furos as sinapses.
Dois tugas vencidos pelas amenidades tropicais.


Em que filme ouvi isto, de que gostei tanto: “Como aguentar ainda esta tarde tão longa e adentrarmo-nos noite fora?”. Terá sido no Lincoln?

 Epitáfio:
“Não guardo rancores à morte, E raramente pude dizer o mesmo de alguém”.

 
A cicatriz que tem na bochecha fica-lhe a matar.
Emprestava-lhe o meu x-acto sem parcimónia.
E ri como se fora a foz de um rio, primeiro tímida,
Depois envolvente, arrastando no seu passo os juncos
E os lírios da margem. O que aquela cicatriz fez por ela!

 
De Deus não se diga mais que é inapreensível ao homem - esqueceu-se simplesmente de si mesmo sobre os ombros humanos. Pobre Francisco, um songamonga entre brutais…

 
Observava Hegel sobre Diógenes: “Diógenes, no seu tonel, está condicionado pelo mundo que procura negar”.
Assim me vejo eu em África – constrangido pelas adelas que fui construindo contra um mundo que me parece inapelável, predatório. Mas não é sempre assim, e em qualquer lugar? A realidade não acaba sempre por agredir-nos? Suspeito que a nossa percepção, em refocagens contínuas, nos leva a movimentos alternados de contração e de dilatação, seja qual for o horizonte em que nos situamos. E de vez em quando há que romper o perímetro do tonel, pois ninguém pode viver dentro de um periscópio.

 
ACUSANDO A RECEPÇÃO DE UM CERTO BOI NA LÍNGUA
José-Emílio Nelson é um dos poetas portugueses que gostaria de ter sido (é mais ou menos treze, o número do meu galo). Mas cada um nasce para a falta que lhe acena e, inacabadamente, não sou Nelson, nem mesmo Trafalgar Square.
Entretanto, ser adulto é aceitar que nem sempre o fluxo nos corre bem e que a evidência nos desapropriou de algo que deu aos outros. Por isso, como Jarry, depois de lhe ler os livros só me cabe, como ao criador da Patafísica à beira da morte, “pedir um palito” – pois que mais se pode suceder ao festim da vida?
Olhar uma página com o sentimento de que a pedra avança na direcção da vidraça que nos protegia, eis muitas vezes o que me acode ao lê-lo. Ainda bem que ele nos sabe desproteger assim.   
Por isso escrevi uma carta ao mafarrico, carta que tinha nó, e não era desinteressada, mas que procurava imitar o respeito que lhe tenho. E o respeitinho é muito bonito. E foi assim:

CARTA AO ALMIRANTE JOSÉ EMÍLIO-NELSON,
EXILADO NAS BARBAS DO CAMARÃO DE ESPINHO

Temendo embora que se te gaste a borracha
em pívias vãs, aí te mando matéria
para o degredo, a despeito
da melhor ejaculação. O mau passo
que dei ao coligir um book de sonetos
de que nem conta dei de ter escrito
e que resume trinta anos
da mais estulta inconsciência,
‘inda que, num vislumbre ou outro,
observada. Gostava agora
de publicar esta gaita (mais esburacada
que a frauta de Pã) em Portugal,
terra espúria e onde até o traque
é de exportação, mas que guarda,
sepultos, os ossos de minha mãe
(- Deus, que é ateu, a tenha em descanso!).
Pensei na Afrontamento, alunagem
em território onde nobody me
(re)conhece e o livro poderá ser lido
com o exacto peso com que pisa
a passerelle e não por do meu simpre
nome ressumarem espumas ou urtigas.
A que grada figura hei-de eu dirigir
o envelope para que o meio quilo
de grilos não se fritem em casa
do porteiro? Esse alguém, o til
de tantas águias en telle maison
d’edition, capaz de dizer não
em vez de encapsular o incauto
na vagem do silêncio, que nome tem?
Sabes que a oito mil milhas, neste tesoiro
de regurgitada penúria, nada transpira
da manhosa dança das cadeiras
no reino da edição. Cismo
porém, neste alcoolizado dispêndio
de nada saber, que uma secretária
ao lado (atchim!)… e eis-me trajado
de pijama para o túmulo!
A quem pois dirigir a missiva
de exilado, desd’ estes recônditos
trinta por cento de Oriente do Pessanha?
Poder-me-ás tu socorrer, meu
glabro e grisalho galagala
de prepucial gabardina,
em ínvia e inatazanada esgalha?
E mais não peço e defiro:
um beijo e duas berlaitadas!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

GLADÍOLOS E LUCÍOLOS


                                                           um gladíolo e um lucíolo?

Escrevo:
«Não me cansarei de me lamentar por este triste limite: leio, “as noites de verão que inflamam os lucíolos, entre o rio e a Via Láctea” e veem-me à cabeça, vagamente a forma dos lucíolos, mais a sua cor, mas fico rapidamente turvo, sem a certeza se não os confundo com os lanceolados gladíolos, por exemplo, e esta indefinição (que digo: ignorância) desgosta-me porque simplesmente sinaliza que me fui afastando da natureza, um dos males do século, segundo Camus, que regista nos Carnets: «Voltei a ler todos estes cadernos, desde o primeiro. O que me saltou à vista: as paisagens desaparecem pouco a pouco. O cancro moderno corrói-me a mim também».
Depois olho bem para a frase, e desconfio. Vou ver o que significa exactamente lucíole em francês e dou conta que é vaga-lume pirilampo, o que dá outro propriedade à frase: “as noites de verão que inflamam os pirilampos, entre o rio e a Via Láctea”…e pior, que nunca houve qualquer flor chamada lucíolo. C’est fini, c’est Capri.

 
Todos os dias espreito A Bola on line. Espanta-me uma tendência dos últimos tempos que é a de apresentar raparigas supostamente em poses eróticas, com a inscrição em baixo, A DIVA DA PORNOGRAFIA X. Portanto, é esta a noção que hoje os responsáveis de A Bola fazem da sexualidade dos seus leitores: uma força que os impele para os bordéis. Ou isso reflecte apenas o estereótipo do que se associa aos jogadores de futebol: putas e vinho verde?
Há qualquer coisa de doentio no critério editorial desses senhores e que mostra a pobreza mental, a venalidade sem remédio, em que se acantonou o país, onde uma ida ao Elefante Branco já passa pelo melhor que os media são capazes de oferecer à imaginação das pessoas.
Estranho, que a Leonor Pinhão nunca tenha feito uma crónica sobre esta nova tendência do jornal.
Gosto sempre de ver uma mulher nua, ou semi-nua, mas… acho que a nudez pode provir de formas mais saudáveis de relacionamento e não me parece que esta “atitude de proxeneta” dignifique nem o leitor nem o jornal.

 
Leio um dos livros mais bonitos que me passou pelo estreito desde há uns meses a esta parte, o ensaio do sino-francês François Cheng, Cinq méditations sur la beauté (Albin Michel, 2006), para quem a dicotomia, inusitadamente, não é a do Bem e do Mal, mas a da Beleza e do Mal.
E encontro aí uma sugestão deliciosa sobre as rosas. A de que o perfume nasce do ritmo da rosa, emanado como uma melodia que uma onda rítmica desencadeou.

 
Num velho caderno encontro esta citação de Kafka: «Há possibilidades para mim, de certeza; mas por baixo de que pedra é que elas se encontram?». Ainda hoje sinto vibrar aqui as afinidades, e debaixo dela, depus esta outra observação:
19 de Setembro de 1912, Kafka nos Diários escreve assim: «Esta história, O Processo, escrevia-a eu de um jacto durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã».
Eis aqui a mesma bazófia olímpica que usou Pessoa para se gabar que escrevera na noite de 8 de Março de 1914, de pé, encostado a uma cómoda alta, todo o ciclo do Guardador de Rebanhos, mais a Chuva Oblíqua e a Ode Triunfal, como refere em carta para Casais Monteiro. Claro que esta mistificação é-lhe merecida, mas mais tarde encontraram-se, desde 1912, se não me falha a memória, vários rascunhos datados do que viria a ser o poema chave de Alberto Caeiro.
Não há dúvida, dois favorecidas pelas Musas. A proeza de Kakfa equivaleria à facecia de Tolstoi jurar a pés juntos que havia escrito A Guerra e Paz, numa semana.
Bom, se Deus criou o mundo em seis dias e o colapso do sétimo ainda não acabou!

 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

PARA QUE SERVEM OS ELEVADORES?

                                    Eis outro António: o Quadros, que homenageio neste livro

E pronto, chegou da tipografia. É um pequeno livro de ensaios, Para que servem os Elevadores, e outras indagações literárias, 200 páginas, publicado pela Alcance, sobre literaturas. Metade incide sobre literatura moçambicana e o resto são textos volantes, uns inéditos, outros não, como o Respiro (que teve uma edição de 80 ex.), o Que Histórias Conta o Ouriço à Baleia? (uma edição de 300 ex., se bem me lembro, no Pico), os meus prefácios à tradução de Juan Luís Panero ou à antologia que organizei do Virgílio de Lemos, ou o meu texto sobre o Grabato Dias, mas no essencial é uma primeira antologia onde se evidenciam os passos em falso que tenho dado na área.
Tenho uma segunda já preparada, Dá-me Cem Gramas de Camões Mal Passado? mas esta fica para o fim de ano. Por agora, deixo o títulos dos capítulos:
- A sós com os meus botões
- Que histórias conta o ouriço à baleia?/ travessias no imaginário
- O passe vertical/ poesia e futebol
- Como se desmama o crocodilo?/ cartas a um jovem poeta
- O homem com gatos nos pulmões/ Grabato Dias
- Quem cala a raposa e o grilo/ Ted Huhes e Alexandre O´Neill
- Carta ao poeta Alberto Lacerda
- José Craveirinha: um polígamo da mostalgia
- Consentimento da Neve/ Panero e eu
- Lírios, flamingos e o sentimento do tempo/ Fernando Couto
- Para que servem os elevadores?/ da “inutilidade” social da poesia
- Três novas chaminés fumegantes/ Mbate Pedro, Tânia Tomé e Florindo Mutender
- Cidade dos Espelhos, um excurso/ João Paulo Borges Coelho
-  A buganvília que ri/ Virgílio de Lemos
- Respiro/ poesia e não-dualidade
- Desejar mas não Fundir

 Como se vê: é um zoológico. Ou uma zoologia dos fluidos.
E para que se perceba como a coisa não pode ser muito séria, aqui vos deixo as três epígrafes escolhidas para encabeçar o livro, demonstrativas de que por ali pouca coisa será potável:

 «A minha vocação é desenhar o que vejo e não o que sei»
William Turner 

«Eu pinto os objectos como os penso e não como os vejo»
Picasso

«Direi, salvo o vosso devido respeito, que ele faz milagres, pois tem o cu redondo e faz os dejectos quadrados»
Nicolas Poussin

 O desenho da capa é do João Lucas, que é brilhante em tudo o que toca.
Ah, sim, os elevadores. Como em Maputo é o segundo andar alto em que vivo (agora um nono) com os elevadores a conta-gotas (quando funcionam) a fúria aca(l)mou em metáfora.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

BANDEIRA & EMILY DICKINSON



 Um post do Rui Almeida no Facebook levou-me a levar para o café o volume que reúne toda a obra de Manuel Bandeira.
Reler Bandeira faz-nos sempre descobrir alguma coisa que nunca tínhamos visto antes (desta vez foi o formidável poema Escusa, de Belo Belo) e isto é tão indubitável como aquele verso de Hafiz que o poeta recupera: “Amarei constante/ Aquela que não me quis”.
Mas o que achei mais graça desta vez foi entrever a poética, presentes em Saudação a Murilo Mendes e em Nova Poética, a que o poeta foi fiel.
O primeiro destes dois poemas fecha assim:
«Saudemos o grande poeta
Permanentemente em pânico
E em flor.»
Este parodoxo não só é exacto em relação ao Murilo como me parece definir o estro da poesia: dar flor no manto sacudido por um sismo de grau oito. No mesmo impulso bolçavam os samurais um haiku celebratório da vida durante o seu harakiri. Essa espécie de isenção face ao desequilíbrio, seja o do interior, seja o do meio ambiente, resume o único tipo de “sageza” (intransmissível, que tem de se experimentar) a que o poeta pode aspirar. Talvez a benigna dissociação de que falava Pessoa em carta a Corte-Rodrigues (se não me engano), para lhe explicar como o seu pânico pela trovoada lhe havia transmitido um soneto.
Paralelamente, em Nova Poética, dum modo divertido, Bandeira prevê três géneros para a poesia: a do “poeta sórdido” (“Aquele em cujo poesia há a marca da vida”), a da “nódoa no brim” (um tecido forte de linho) – “O poema deve ser como a nódoa no brim:/ Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero” -, e a da “poesia é também orvalho” – com a ressalva que se segue: «Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem piedade.»
Paródia à parte, estes três géneros correspondem ao lírico (o orvalho), ao trágico (o brim), e ao dramático/realista (o poeta sórdido).
Mas a lição que se tira do exercício da poesia em Bandeira é que não nos devemos ater a um género ou tema em exclusividade e antes, como ele, não temer planar afincadamente por todos os continentes. Por isso ele escreve em Arte de Amar:
«(…) As almas são incomunicáveis
Deixa o teu corpo estender-se com outro corpo.
Porque os corpos se estendem mas as almas não.»
E contradizer-se depois, no poema Seio:
«O teu seio que em minha mão
Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.»
e assinar rondós, ou redondilhas, ao mesmo tempo em que fazia poemas concretistas.
Esta liberdade, aliada à sua plena consciência da transitoriedade de tudo, é que o levava a não se levar demasiado a sério (ainda que seja um poeta eminentemente sério) nem a deixar-se aprisionar por uma imagem que o mantivesse refém de si mesmo – capaz em páginas contíguas de ser cruel, amargo, cínico, terno, romântico, ou subversivo, e de de transmitir a lucidez da cal.
Tão diferente de alguns poetas que só querem ser um, o mesmo, de risca ao meio, mesmo que com vento.
Daí que o Manuel Bandeira me seja dilecto.
E aqui deixo duas traduções dele de Emily Dickinson:

BELEZA E VERDADE
Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:
- A beleza, respondi.
- A mim, a verdade – é a mesma coisa.
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversámos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

 
NUNCA VI UM CAMPO DE URZES

Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei a urze como é,
Posso a onda imaginar.

Nunca estive no Céu,
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

 


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A MINHA NOITE COM CALIBAN


Nem sei como isto se deu. Por piada e curiosidade comecei a juntar todos os sonetos que havia escrito, éditos e inéditos, e como quem não quer a coisa acabei com uma antologia de 180 sonetos, aproximadamente. Aqui deixo um ciclo de que gosto e que me surgiu em diálogo e intertextualidade com um romance de Maria Velho da Costa, Irene, ou o Contrato Social. A minha dúvida agora está no título, se hei-de dar ao conjunto o nome destes sonetos, se o de Bagagem Sem Passageiro. Quem quiser opinar faça favor.


A MINHA NOITE COM CALIBAN
1

Em que guarita arde vígil
a palavra - na noite
que lhe foi imposta?
Deus: dorme-lhe bem
sobre este estuário podre. 
Casco de fuligem invertido: o dia.
Mais habitadas pelos olhos,
aladas pelos golpes que relançam,
ficam as mãos translúcidas –
como antes de entaipadas.
Enruga a pele porque os ossos -
como a glicínia que é só haste
ensarilhada em si própria -
desirmanam em estalidos vãos?

 
2

Dobra o seu nome na língua:
limoeiro depredado de os-
sos e vísceras. Doba
o seu nome na ave: gran
 secreto es el morir. E de repente
Senta-se, sobre os quartos traseiros,
sentada de cu, desencaixada,
tal qual as crianças de leite
e as corolas desconformes,
despeladas num ápice.
Sobre os quartos
traseiros, sob
os calores e as rajadas
nocturnas.

 
3
Não eram casas, eram nesgas
de outros espaços que logo
se desapercebiam. Era a morte
assim, prolífica de lugares,
a vigília súbita - indício do pavor
de estar a regressar
a uma diversidade
do ter sido, do vir a ser?
Estuários, ravinas, moradas,
à vez reconhecidos e ignotos
como os de um anjo?
Sonham os cegos ou vêem
noutras partes?
Não há acudimento.

 
4

Com salmão fumado
e convidado de pedra
os animais que imitam
a fala que é a alma homo-
grafam o desconcerto.
Quem enxota um pássaro,
se não carece de salvaguardar
a semente miúda, o trigo e o joio?
Bárbaros, pensou Ariel,
atirando migalhas sem amor
nenhum aos pássaros já alienígenas
de fartura. Dava-me gozo matá-los
a trigo-roxo, fazê-los à vida
pelo princípio da indeterminação.

 
5

Uma nuvem gomosa deitava-se
ao comprido no estuário.
É uma coisa alarmante aquele edredão
Encardido sobre o rio, as suspensões da ponte,
cíclame sem pés, suspenso de nada,
roxo e frio. Pisca um avião a adornar
para a descida na Portela. Amar um avião,
amar como um cão a memória rasa
das cidades. Ao longe,
no relvado,debaixo dos verdes cinzas
das oliveiras, duas gaivotas
despedaçavam
um pombo ainda vivo.
Um dia de mortes nunca vem só.

 
6

Matéria circunvoluta, estriada: o desejo
é o que eu trazia comigo, carne na carne,
a gangrena de nações. O desejo, um deus
que a si mesmo se come e não poda
 sem dano e estropia o jasmineiro e a glicínia e
até o hibisco rosa, em plena floração.
Se não é a luz inconsútil pode a palavra sê-lo?
Nada mais viscoso que a astrofísica
em argolas baleares e totémes esburgados
em leilões de assíntona compaixão
Deixa a tua vida na entrada dos actores,
como um intervalo entre actos.
De cinco em cinco anos também o Ekla e
os Capelinhos choram fogo e castanhas incomestíveis

 
7

Gente irremissa, até no meio
dos ciclones, preocupada com uma malha
caída, um cabelo na sopa.
O tecto do mundo não é o Himalaia
mas o coração que espera,
a espera ainda sem folga,
a ungulada asa preta
do morcego.
Não ponha música,
oiça-me
a música faz-me doer os olhos.
Os mortos também dev
em ter saudades,
entende?

 
8

Não deixes proliferar
as tuas vozes,
que a poliglossia
nos ovos
seque o vento na árvore
Todos ali numa comunhão
de espíritos, ninas, elfos,
bodes peludos
 e outras carnações.
Mas não –
só no jogo de luzes
da noite
que há-de vir.
Para te comer.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A PELE EM QUE EU HABITO


                                                                                                                        para o Jorge Sousa Braga 
A pele que à minha frente desagua é, afinal, uma fuselagem.
E estas não são umas costas mas um dorso insuflado por uma materialidade animal - eis massa que não autoriza dúvidas sobre o cansaço que pode permear o acto amoroso.
De um castanho que roça o vermelho.
Newton, olhando para tamanho dorso, não necessitaria de qualquer maçã para adivinhar as leis da gravidade.

Calculo-lhe os seios, duas meloas do Entroncamento, e as pernas em alicate sobre as nádegas do amante, a fazer transbordar o mais prevenido dique.

Rubens mora momentaneamente na minha retina, um Rubens pachola, embevecido pelo pataco que dá carne à cor.

Uma mulher assim tem de ser amada numa suite, ainda que desconfie se ela conseguiria encaixar os glúteos na banheira com jacuzzi. Uma mulher assim exige, no mínimo, por segurança, três corvos de
colarinho branco.

Dois vietnamitas pedem para se sentar, mas felizmente metem-se nos vértices da mesa, mantendo aberto o canal que culmina naquele estuário.

A criança que veja afastar-se as costas perladas de humidade desta mãe não pode pôr em dúvidas que Deus existe e que tem poros por todo o lado, parcelas e somas.

Senta-se outro vietnamita no vértice que ficou nu.

Inesperadamente, ela volta a cabeça para olhar para alguém que entra no bar e surpreendo um rosto
delicadíssimo, no topo de tão sumptuosa massa, como se fosse um selo com elegantes flamingos sobre uma carta para Estaline.

Os contrastes que, de viés, velam a natureza.

Os vietnamitas parecem contar entre si uma anedota e riem muito.

Trás-me outra preta!


ps. há dois dias que não consigo meter uma imagem nesta bodegada, alguém me explica?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

16 DE JANEIRO


Hoje faço anos. Não é coisa que me anime particularmente. Podia ser um sucesso se me dedicasse a fazer um Guia das Perdas Mais e Menos Aparentes para Pessoas Inteligentes (presumindo que o conceito dentes seja do primeiro tipo, o conceito filhas do segundo e o conceito ornamento seja do terceiro, etc., como li algures) mas sinto-me sempre o prato de farófias que desejava ser o gato branco, o tal que ágil se evade do seu exíguo horizonte. Por isso só tenho uma coisa a dizer: bardamerda - que mau passo! Ou talvez duas: e, agora, venham os dissabores – os do costume!

 
Está na hora de retomar o Raposas, de as vestir de alguma roupagem, até pelo motivo que apontava Oscar Wilde: só uma pessoa muito fútil não julga pelas aparências.



Li o livrinho O Mendigo e Outros Contos, de Fernando Pessoa, que colige algumas das suas short stories, quase todas inacabadas.
Numa das que mais gostei – Empresa Fornecedora de Mitos, Lda.- o narrador pega no bilhete que a criada lhe passara, e lê-se: «o bilhete dizia assim, predominantemente: / Empresa Fornecedora de Mitos, Lda».  A escolha do advérbio é fenomenal, por eufemístico: o bilhete é a única informação que contém. A que se lhe segue é reiterativa, respeita a quem representa a empresa.A escolha do vocábulo é fenomenal por ser tão inesperadamente correcta. Suponhamos que lá estava: peremptoriamente. Era enfático mas não era instigante. É disto que se faz a escrita e não do que se diz.

 
Entro no café em que costumo espairecer depois de dar aulas e vejo que lhe falta o balcão do fundo (com três metros de largura), substituído por uma caduca secretária de porteiro.
Perplexo, pergunto, na brincadeira, Perderam o balcão?
Resposta plácida da senhora, Me roubaram.
Roubaram, inquiro, incrédulo.
Me matracaram, prof., e me deixaram bilhete… - abre a caixa registadora e mostra-me o bilhete, que tem escrito:
«Como não lhe dão uso, lhes dou um help!», assinado X.Não sei como consolar a senhora, mas o ladrão tem razão. Nunca vi um donuts, uma azeitona, um sumo, uma coca, uma caixa de chuingas ou de rebuçados, um palmier e um queque coxo, nada decorava as prateleiras do balcão, nem sequer uma mosquinha morta, era balcão só para mostrar que o era, autárquico e orgulhosamente só.
Sento-me, imbuído de uma sensação agridoce, e peço café e um copo de água. Quando o empregado traz o meu pedido vejo que a chávena tremelica e que o creme do café é atravessado por tsunamis quase inexplicáveis: sou servido por alguém com delirius tremens.
Saio do café para voltar à universidade e cem metros abaixo dou conta de que O Forno (outro café) reabriu após um ano de encerramento. Salivo e vou espreitar. Está pela metade, de uma parte fizeram padaria e na outra arrumaram cinco mesas e um balcão pesado e claramente disfuncional. Atrás do balcão está o dono e dois empregados, que conversam, compenetrados.
Sento-me, sou o único cliente do estabelecimento.
Ninguém me viu entrar e nos dez minutos seguintes espero em vão que olhem para mim, que me acenem ou sirvam. Resolvo escapulir-me, tão silenciosa e invisivelmente como entrei naquela catedral de seis por cinco metros. Como perturbar tantas tarefas construtivas?
Que têm de comum estes estabelecimentos?
Os patrões são portugueses – duas feras para o negócio.