sábado, 15 de setembro de 2012

CEGOS À FORÇA

                                                                            matta

Há um certo ar do tempo que aparentemente actualiza algumas premissas do Existencialismo e que leva a que neste momento se “recupere” Camus, por exemplo. Está de novo na moda.
O século XX desenvolveu um tipo de pensamento e de concepção moral que prescindiam do recurso a uma instância superior, a Deus, ou a outras abstrações ideológicas. Durante algum tempo funcionou, embora isso significasse que o homem estava face a face com aquilo a que Camus e Sartre apelidavam de “a medonha liberdade”.
“Não há mais homens culpados, escreveu Camus, mas apenas homens responsáveis”. Esta asserção pareceu uma coisa prometedora quando foi pronunciada.
Setenta anos depois estamos na ressaca da liberdade e o tema dominante é “a segurança”. Mesmo o debate em torno da “segurança social” e da salvaguarda das “reformas” prende-se no fundo a uma necessidade de manter uma certa margem de previsibilidade na projecção do (meu) futuro. É evidente que a questão dos “direitos sociais adquiridos” deve ser considerada mas ao fundo de tudo, no ADN, digamos, existe o medo a ser sem rede. 
E hoje volta o que, afinal, nunca foi superado mas esteve apenas recalcado: incapaz de suportar a incerteza ou a responsabilidade diante da incerteza o homem – cansado dos horrores e da falta de grandeza de que tem sido capaz sem Deus (exactamente do mesmo quilate das vilezas cometidas com Deus) – quer de novo recair nos padrões pré-estabelecidos, abandonando-se ao desfrutre dos estereótipos postos à sua mão de semear – religiosos, políticos, filosóficos, e assim por diante.
Qual o melhor instrumento para este retorno à “segurança”?
O airbaig que “a cultura de massas” nos oferece, com a ilusão de que somos todos semelhantes e temos acesso a um igual repertório de estereótipos e a as redes sociais, onde reagimos sincronizadamente, em interacção, como os cardumes. O sentimento de pertença a um padrão de gosto universalizado ou “especializado”, são as duas faces de uma mesma ilusão, a que nos vai valendo na aflição de nos queremos cegos à força. “Cultura de massas” e Facebooks vivem num «imaginário de aliança» (e é brutal constatar que um imaginário de aliança se difunde num momento em que os desequilíbrios económico-sociais se institucionalizam com o triunfo neo-liberal) e por isso uma das palavras que o representa é o verbo “Partilhar”.
Partilhar gostos, preferências, com manifesta bondade, criar comunidades é uma espécie de comunitarismo licorizado que nos apraz.
A esta busca de unanimidade chamava Camus «o suicídio filosófico».

 

Bion, o psicanalista, descartando-se da ideia de funcionar como “guia” para a orientação dos seus pacientes: “… não acredito que eu saiba conduzir nem mesmo a minha própria vida. Muitos anos de experiência me indicam que continuo existindo mais por sorte do que por julgamento – esta é a única forma que posso colocar…”
Espantosa honestidade de um dos grandes psicanalistas do século XX, o britânico Bion, mas imagino o susto do paciente ao enfrentar tais convicções do seu terapeuta.
E o meu ao constatar que continuo a existir mais por azar que por julgamento.

 

«Com muita frequência, acaba sendo danosa a persistência e sobrevivência de atitudes morais que em alguma época podem ter sido valiosas. Por exemplo, posso ver que o patriotismo poderia ter sido uma característica valiosa; foi com certeza importante, nalguma época do desenvolvimento da pessoa, que ela aprendesse a ser leal para com os seus contemporâneos.Só que também penso que você pode chegar a uma época na qual esta formulação, possivelmente valiosa no seu momento, se torna inapropriada caso persista além do período durante o qual a formulação e o seu contexto se equiparavam. A persistência de tal moralidade pode ser perigosa...», diz Bion.
Que falta faz isto ser percebido por uma certa elite africana que faz da «tradição» um finca-pé- boto.
 

A facilidade com que ouço dizer que as crianças de hoje estão mais atentas, estão mais conectadas, aprendem mais rapidamente e sobretudo manejam as tecnologias com uma habilidade inigualável. Tudo isto é verdade e não é, simultaneamente. “Cresceu” de facto a inteligência, se a tomarmos no seu sentido pejorativo, como a nossa capacidade para “aprender truques”.
Mas para além da assustadora redução no espectro do vocabulário que encontro na maior parte deles, em raros jovens muito informados e especializados em determinada área encontro eu uma poética que filtre e traduza uma expressão para a sua leitura da realidade. 
São tremendamente informados e tremendamente passivos.  

 
A resposta é o infortúnio da pergunta, Maurice Blanchot

 
Para Agostinho o mundo inteiro saiu das mãos de Deus e por isso é «belo» no conjunto. Agora há que poder conhecê-lo e experimentá-lo, e isto somente se consegue quando o homem se “converte” em Deus, a partir do seu próprio interior. Só despertando esta empatia aflora nele a capacidade para descortinar também a beleza na ordem exterior – e a arte teria esta faculdade.
As belezas da arte seriam então a correspondente resposta à beleza da criação.
Sigo o que escreve Safranski no seu livro sobre O Mal. Onde também aponta que este enlace não se daria sem dificuldades e terrenos pantanosos, segundo Agostinho.
Uma das ambiguidades derrapantes associa-se ao problema do desejo, pois se nos aproximamos das coisas pelo ângulo do desejo, a beleza escapa-se-nos. Simplesmente, para o desejo o mundo transforma-se num obscuro objecto e o obscuro objecto do desejo não nos permite uma atitude estética – a reserva de nos distanciarmos. O desejo devora, aquele que deseja é devorado pelo objecto que deseja.
É este o tema de Esse Obscuro Objecto do Desejo, de Buñuel, afinal uma fita agostiniana, com as suas duas actrizes a representarem o mesmo papel – Carole Bouquet e Angela Molina.
O filme adapta um livro do herético e pornógrafo Pierre Louys o que torna a associação mais picante.
E o relevante é o que conta o próprio cineasta, quanto à forma como o filme foi recebido: «Ao princípio eu dizia, Vão pensar que são duas pessoas diferentes. Mas não, o público percebeu-as como não fazendo senão uma. O que prova bem que há no cinema qualquer coisa da ordem do hipnotismo». Foram também os espectadores devorados pela instigante e perturbadora flutuação de carácter que aquela mulher parecia ter e que a tornava tão irresistível? O desejo devorou-lhes o discernimento, o recuo para a gravitação estética.
Mas há uma outra característica referente à arte que Agostinho e refere e onde desta vez sou eu que me sinto em consonância. A arte, para Agostinho, conserva a dignidade do mundo e faz com que as coisas sejam: “A obra de arte não pesca no turvo, antes atravessa o formigueiro do mundo para deixar que se faça transparente a ordem fundamental ali subjacente”.

 
Roberto Matta, o meu pintor favorito, conta a sua visita a Mondrian, em Nova Iorque.
Ao chegar ao atelier, cruzou com uma senhora que ia a sair.
Mondrian recebeu-o e preparou-lhe um chá. Era um homem taciturno e solitário, de óculos. Matta pelo seu lado – alegre e expansivo – deu-se conta de alguma perturbação no mais velho e pediu-lhe que lhe explicasse as razões.
- É por causa da mulher que acabou de sair – disse-lhe Mondrian – pôs-se a dizer, por que há tantas linhas rectas nos seus quadros?
Matta não disse nada. Então perguntou-lhe Mondrian:
- Onde vês tu, essas linhas rectas nos meus quadros?
É Jean-Claude Carrière quem conta esta belíssima história. Para concluir:
«Trata-se de uma história exemplar que podemos aplicar perfeitamente ao cinema. Que é que Fellini não vê nos seus filmes que outros, sim, veem? E Kurosawa? E Bresson? E Kubrick?»
Eu acho que se aplica a todos os campos. O que é que é cego para si mesmo em todos os criadores? Não será essa a parte mais autêntica neles? A que aflora e insiste, como um nó, apesar de invisível para o autor?
A mim sempre me chamaram hermético. Desde que escrevia artigos para os jornais. Nunca entendi porquê. Mas como deixar de ser cego sobre nós mesmos? Como deixar de ser invisíveis ao nosso próprio olhar? 


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

E QUE BATA UMA ARAGEM...


Num almoço agradável com vários convivas ouço uma amiga, que se assume como Espírita, a explanar sobre as particularidades da sua crença, de uma forma serena e equilibrada, diria até, sem ponta de “irracionalismo”. Discorreu longamente e de uma forma isenta, destituída de qualquer presunção fanática. Inclusive pensei, “aqui está um caso de alguém a quem a crença trouxe ponderação!”. E esta é, infelizmente, uma aliança difícil de detectar, quando devia ser natural.

Só a dado momento lhe sai uma frase que me horroriza. Diz, “não existe acaso, nada acontece por acaso!”, e entrevejo ali as fauces vorazes do holismo, a teia que oprime. Porque o holismo tem uma vertente patológica como todas as coisas boas, um lado de sombra.

Vou dar dois exemplos: no hinduísmo há uma menor sensibilidade aos problemas sociais porque se aquela criança sofre nesta vida isso é apenas a expressão da rigorosa simetria kármica, sendo um efeito dos actos cometidos pela criança na vida anterior.

Em África não se aceita que a morte possa ter sido acidental, e muitas mulheres são acusadas pela família do morto de terem causado a morte do marido, num acto de manifesta demência, e, na flagrante maioria dos casos, com uma enorme injustiça para a esposa – loucura que se dissemina e
infiltra no tecido social.

O Budismo introduziu a Compaixão e o Cristianismo a Caritas para tentarem romper com esta lógica, mas em muitas outras crenças e religiões a gaiola das causalidades prevalece sobre a sensibilidade à experiência, à necessidade de responder ao agora.

É uma lógica tremenda que transforma o mundo num palco platónico, onde não passamos das sombras de algo – uma lei inextricável, entidades, do nosso próprio destino -, num determinismo que calcina todas as singularidades mas que estranhamente fascina.

A conquista da modernidade ancorou na conquista do acaso e do aleatório, subtraindo as incidências de uma vida a esse determinismo feroz que encerrava o mundo numa teia. Quando a Renascença libertou o corpo da influência dos astros esse foi um momento em que a sexualidade se aliviou das culpas e em que o individualismo e a sua volição puderam emergir.

Há uma inequívoca implicação moral na frase “não existe acaso, nada acontece por acaso!”, que devia funcionar como chave para o auto-conhecimento e o auto-juízo, o problema é que, de comum, essa frase é manejada para se buscar uma razão para as coisas no exterior a nós, no outro. É um álibi.

Corre hoje no mundo uma tentação holística, como na Idade Média houve uma tentação satânica, sem grande reflexão sobre as suas consequências. Porque não basta queremos ligar tudo numa corrente de afecto. Até pelo mais inesperado: o próprio afecto pode matar.

Mas dou conta graças aquela mulher culta, equilibrada, inteligente, que “o combate” se deslocou no início deste século.

Um dos grandes equívocos do século XX foi a falsa dicotomia entre «racionalismo e irracionalismo», debate que se estendeu a todos os campos, inclusive à arte. Primeiro, confundia-se racionalidade (o lado positivo da razão) com racionalismo (a feição patológica da razão), e articulada nesta falta de discernimento confundia-se irracionalismo com liberdade. Quase toda a arte do século XX, com o Surrealismo à cabeça, laborou neste erro.
A falácia ainda existe apesar de se ter consolidado por toda a parte a emergência do «Irracionalismo» e as consequentes correntes relativistas que se lhe seguiram.
Mas no essencial muito do que se passou no século XX girou em torno desse choque entre dois
paradigmas: Racionalismo versus Irracionalismo.

Agora, verifico, há que salvar a indeterminação, o acaso, o aleatório da terrível tentação da gaiola das causalidades. O holismo, na sua feição patológica, pode ser o  reducionismo que se põe a jeito como uma nova «narrativa escatológica».

Será «por acaso» que o holismo emerge no momento em que o neo-liberalismo e o seu cínico desprezo pela pessoa humana sitia tudo, todas as liberdades, todos os direitos adquiridos?

A consciência holística trouxe de positivo uma maior consciência ecológica mas seguido com rigor escolástico abafa a realidade sob a manta de um determinismo que é muito mais do que incómodo: todas as grandes ideologias autoritárias são holísticas.

A minha amiga saberá conjugar a sua crença holística e transpessoal com a liberdade e a responsabilidade que cada momento nos pede – mas quantos farão a destrinça, ao abrigo de uma Lei que tudo explica e abarca?
Quantos não se abandonarão ao que é?

A consciência do indeterminado traz a consciência trágica, como o sabiam os gregos, mas traz também o arbítrio e a coragem da decisão.
E disto não poderemos abdicar.

Para além disso, como mostra Drummond no poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade:

 João amava Teresa que amava Raimundo
       que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
       que não amava ninguém.
       João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
       Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
       Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
       que não tinha entrado na história.
a Realidade corre sempre por fora da pista, na plena exterioridade aos nossos conceitos. É o que nos vale – há sempre um J. Pinto Fernandes a despontar no exacto momento em que julgávamos ter as coisas sob controle.  

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CABRAL E MACBETH: VASOS COMUNICANTES



O poema chama-se Uma Faca Só Lâmina, e sempre me fascinou.
São 87 quadras, divididas em 7 secções.
Vou transcrever algumas, o começo e outras quadras:

«Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
(…)
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
 
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra os seus próprios ossos.

A
(…)

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados

é a lâmina cruel

(melhor se de Pasmado):

(…)
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega

que a imagem de uma faca

reduzida à sua boca
 
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B
(…)
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e vive a se parir

em outras, como fonte.

C
(…)
O importante é que a faca

e o seu ardor não perca

e tampouco a corrompa

o cabo de madeira.

(Veja-se a felicidade destes versos que sublinho:)
D

Pois essa faca às vezes

por si mesma se apaga.

É a isso que se chama

maré-baixa da faca.

(…)
 
I

Essa lâmina adversa
como o relógio ou a bala,

se torna mais alerta

todo aquele que a guarda,
 
sabe acordar também

os objectos em torno

e até os próprios líquidos

podem adquirir ossos.
 

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.
 

Em volta tudo ganha

a vida mais intensa,

com nitidez de agulha

e presença de vespa.
 
(…)
De volta dessa faca,

amiga ou inimiga,

que mais condensa o homem

quanto mais o mastiga;

 
de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

(…)»
Já adivinharam. O poema é do pernambucano João Cabral de Melo Neto.

O que não era adivinhável era o pulo que eu dei quando ao preparar uma aula sobre o Macbeth deparo com o monólogo do Macbeth, que antecede o assassinato que perpetrará sobre Duncan, o rei. No segundo Acto, cena 1.
Na penumbra do seu quarto de castelão, Macbeth, contíguo ao do rei, seu convidado, é varado pela premonição das bruxas, e vê de repente o punhal que no escuro brilha para ele - «com o cabo dirigido para mim», acentua.
São trinta e duas linhas em que assistimos à convulsa metamorfose de Macbeth em homem-faca, ou em faca-só-lâmina: o oculto esqueleto.
Só Cabral poderia responder se o seu poema irradiou do contacto com este monólogo de Macbeth, ou se é apenas uma coincidência, mas existem sinais de engarrafamento na auto-estrada que os une.
Talvez Macbeth, que não dormia, o tivesse soprado a Cabral num sonho.
Batam sinos.
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

XAVIER & XAVIER: O SANTO E O PASTOR

                                                                     walter zandamela

Se a vida dos santos não é fácil, o repouso eterno pode não convocar a mais insofismável placidez. Que o diga S. Francisco Xavier. Conta-o Almeida Faria em O Murmúrio do Mundo (Tinta da China, 2012), onde relata a sua viagem à Índia:
«Depositado na Igreja do Bom Jesus», (em Goa),«o corpo era exposto no aniversário da sua morte, festa em que os fiéis lhe beijavam os pés. Numa dessas festas, uma tal Isabel, aproveitando a confusão, arrancou-lhe com os dentes um dedo do pé e levou-o para casa metido na boca. Noutra ocasião. Outro adorador arrancou-lhe outro dedo, de modo que, dos pés deste constante caminhante, sobram agora, apontados aos céus, dois dedos grandes, um de cada pé.
Melhor sorte não teve o braço direito, que tanto abençoou, tratou e ressuscitou gente. Parte dele despegou-se do tronco e, por ordem do papa Paulo V, em mil seiscentos e catorze o antebraço e a mão seguiram para Roma. A Província dos jesuítas no Japão pediu o resto do braço. Setenta anos após a sua morte, o Apóstolo do Oriente foi canonizado e, desde aí, a crença nos seus milagres não deixou de aumentar.
(…) Corpo que ficou em Goa quando no século XVIII, expulsa a Companhia de Jesus de todos os territórios portugueses, os jesuítas de Goa foram levados sob prisão até Lisboa (…)
Teriam levado consigo o ressequido corpo de Xavier, se disso os não impedisse o vice-rei
pois bem sabia que com este corpo, antes que com muralhas e armas, se salvara mais de uma vez a cidade de Goa de uma invencível invasão de inimigos, e nem também os cidadãos goanos consentiriam que os levasse o santo Xavier que eles consideravam como o para-raios.»
Pois não sei que vos diga – antes gentio.



Também se chama Xavier e é pastor. Ou foi. Em Manica. Há cinco anos resolveu rumar a Maputo porque nas noites sem geada, o gado guardado pelo cão, encheu vários cadernos com uma letra mais emaranhada que um quilo de formiga argentina sobre um escaravelho de patas para o ar, e agora, dizia, tinha um romance que queria ver publicado.
Alguém mo mandou, a este pastor que os únicos livros que leu inteiros se resumiam a um manual de enfermagem e a uma novela passada na II Guerra Mundial. Esta, jurava, tinha caído de um helicóptero que havia sulcado os céus da pastagem.
Achava graça à coragem do jovem e à sua “louca” determinação mas a preparação dele parecia-me deficiente. Acabei por remetê-lo para o editor de um semanário, no fito dele o encaixar como paquete ou estagiário.
Voltei-o a ver um ano depois: era arrumador de carros. Perguntei-lhe pelo livro. Disse-me que fora à Ndjira (a editora) mas que o haviam mandado digitar os cadernos. Passei-lhe duzentos paus para ele ir a um cibercafé passar umas páginas a limpo.
Nesse mês cravou-me mais duas vezes. Uma delas acidentalmente à porta de minha casa, andava ele à cata de beatas. Depois desapareceu durante dois meses.
Um dia bate-me à porta um miudinho de sete anos que se identifica como o filho do Xavier. Um catraio levemente altivo e de fala articulada. Mostra-me o BI do pai, que estava internado no hospital – tuberculose. Pedia leite ao sr. António para levar para o pai. Foram meses de sacos com leite, pão, fruta.
Mudo de casa e esqueço o Xavier e o seu filho.
Até ontem, três anos depois. Estava numa esplanada com o músico Chico António e aparece o puto.
Maior, upa upa.
Continua de porte altivo e fala articulada. O sr. Cabrita e o sr. Chico, nomeia, sem espinhas. Como é, pergunta o Chico, conheces-me? Estive duas vezes consigo, com o meu pai, e conta uma conversa entre eles, no intervalo de um concerto do Chico.
Então e o teu pai, está melhor, pergunto?
Ya…
E que faz?
Está deitado, é muito dorminhoco… - observa, num tom levemente reprovador.
Não trabalha? – pergunta o Chico.
Dorme muito, dorme e lê… - repete.
Então e que vais fazer quanto a isso? - inquiro, intrigado.
Quero levar o meu pai para Manica… lá ao menos podemos vender batata doce… - redargue, lesto – aqui é que não faz nada…
E alguma coisa vos impede de ir? Têm muita coisa para levar?
Não… só ele, eu… e a minha roupa.
O Chico ri com a sugestão do fardo. Eu olho-lhe a t-shirt suja, de quem não tem outra. O miúdo é vivo e, adivinha-se, sente-se responsável pelo pai. Damos-lhe vinte paus cada um para ele comprar pão e os nossos números de telefone, para organizarmos um retorno deles a Manica, de chapa. E eu prometo-lhe duas ou três t-shirts da minha filha.
Hoje batem à porta ao meio-dia. É ele. Já me localizou (deve ter-me seguido). Mando-o vir uma hora depois, quando as miúdas já tiverem chegado da escola, para escolherem com ele as t-shirts.
Volta a bater à porta. Tem direito a 2 t-shirts e a uma omelete com batatas. Comenta, num relance pela sala: o sr. Cabrita continua a ter muitos livros.
Enquanto ele come na cozinha vou às estantes e arranjo dois livros de aventuras e uma antologia de poesia das lusofonias, e meto-os num saco.
Após o que lhe digo, como já tens dez anos dou-te dois livros de aventuras, e se tu quando os acabares de ler me vieres cá a casa contar as histórias dos livros dou-te mais. Noto-lhe um ar fugidio, resolvo tirar A limpo:
Sabes ler, não?
Saco um dos livros, que tem na capa um elefante branco e caçadores e inquiro, apontando o título:
Que lês aqui?
A primeira palavra, que tem duas sílabas, ainda lê, mas encalha na segunda, com quatro sílabas, e é um tormento para ler a palavra «elefantes», apesar do desenho que a ilustra. Descubro com surpresa que o miúdo não sabe ler, com dez anos, apesar do ar atilado de um menino bem-falante.
Insisto:
Tens de dizer ao teu pai que eu o mandei auxiliar-te na leitura, ouviste? Tens que fazer um esforço, só depois de me contares esta história é que te dou outro...
Ele sai, e despede-se à porta, não sem hesitar e fazendo a máscara de quem tem debaixo da língua o pedido de uma moeda.
Fecho a porta e a Teresa sentencia:
Os livros, vais encontrá-los à venda amanhã, à porta do mercado Mandela…
Gostava que ela não tivesse razão. Mas percebo que o pastor Xavier candidato a escritor, vive da esmola do filho que não alfabetiza.
Merda, vocifero, censurando a minha compaixão ao espelho.   

   

 

 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

DESCRISTALIZAÇÕES II

 
Escreve Jaime Gil de Biedma, no seu Retrato del Artista en 1956, ao relatar a sua
Ida para Manila:
 
«Desligado do meu poema desde o passado dia 26; saí da situação. Isso significa que chegarei ao final muito mais tarde do que pensava – impossível trabalhar aqui durante os dias que me restam, e até que me sinta estabelecido em Manila e possa distrair-me do mundo exterior, terá passado pelo menos mês e meio. Ainda que sair-se da situação também tenha vantagens; vê-se mais claramente de que lado queremos extrair o poema e é mais fácil renunciar aos pequenos efeitos que se tinha tanto empenho em conseguir.»
 
Gosto da dialéctica da distância a si (ou ao poema)
relatada neste excerto. Leiamos a coisa ao ralenti:
abstrairmo-nos no mundo exterior desaglutina-nos 
e fica o nosso olhar sobre o poema mais objectivo,
menos coalhado (menos permeado pelo afecto).
O que nos permite anular os adornos da retórica (os efeitos
adstringentes à ideia de poema) com que o contaminávamos.
Volta aí o poema a estar dotado de um equilíbrio instável
que lhe empresta, a um tempo, tensão e porosidade.
É como um enquadramento no cinema: deve tender
ao desequilíbrio, ao off - o que importa é a sequência,
a cena, e não o plano. Deste modo um verso alimenta-se
do desequilíbrio do anterior, sendo um verso forte aquele
que se estranha, obtuso a si mesmo.  Implicando isto
uma claridade turva e não cristalina.
Metermo-nos em situação com o poema é o primeiro acto
- o gesto de impregnação.
Depois, deixarmos que o exterior, o fora do poema,
crie uma momentânea dissociação pode ser útil
porque arranca o poema à sua estimulação auto-referencial.
O diálogo que se instaura entre o projecto do poema e o acidente
levanta a aragem que o descristaliza.
Descristalizar é preciso!
 .

CADERNO DE AGOSTO

                                                                         carpaccio

O tempo trouxe uma amenidade às relações entre pais e filhos bastante positiva. O meu pai ainda confundia autoridade com tensão, carinho com não-agressão. Eu descomprimo, se a Jade, de cinco anos, me diz, “pai, és mesmo pateta, muito patetinha…”, eu negoceio imediatamente o epíteto de “pateta espampanante (um pateta que bebe champanhe!)”, e brincamos. Sabendo ela que se prevaricar eu não hesitarei num reparo firme, ou no uso de uma palmada no rabo. Mas que do mesmo modo não evitarei, entretanto, uma boa cumplicidade lúdica ou o carinho.
Isto seria impossível com o meu pai, há quarenta anos. Brincadeiras com o pai, nulas. Ele podia quando muito conceder duas sílabas lacónicas, entre dois cigarros – mas vivíamos em mundos à parte. E como era solene, sério, o mundo dos adultos. Se eu aos quatro, cinco anos chamasse “pateta” ao meu pai nunca o tom de brincadeira seria levado a sério, a coisa passaria por uma insolência grosseira, merecedora pelo menos de um calduço, e com seis ou sete seria recambiado para o quarto todo o dia, sem direito a jantar, sendo certo que antes ferveriam as lamparinas e que depois não me dirigiria a palavra durante quinze dias.

Percebo hoje, e só agora claramente, que a minha vinda para África me trouxe uma densidade, uma regularidade, que não tinha. Para o bem e o mal, no humor e no resto, e até no rescaldo lírico. Por várias razões mensuráveis: isolamento – não me foi possível, apesar de ter família e amigos no terreno, integrar-me como se fosse um deles -, pela “estranhamento” que isso me potencia, pela distância forçada em relação a pessoas e coisas que amo, o que desencadeou em mim um mecanismo de sublimação com uma labilidade de processos que desconhecia. Fui obrigado «a libertar-me para dentro», diria Pessoa. Isto, aliado às qualidades que eventualmente teria, engendrou em mim uma liberdade que nunca havia experimentado e que ao contrário do que eu julgava não resulta em qualquer fragmentação mas antes se desdobra numa convergência de pontos de vista que me permite uma arte combinatória de outro nível.  É-me difícil viver nesta sociedade mas devo-lhe isso. Podia ter acontecido definhar, mas abrupta, imprevistamente, a seiva ganhou em complementos vitamínicos e em condimentos. Não me dispersei, fui enxertado.


Trocavam os seus mortos para mitigarem o choro.


Numa cervejaria de Maputo. Sento-me ao lado de uma mesa onde estão dois casais jovens. Ao longo da hora que aí permaneço, eles recebem ou fazem vários telefonemas que aparentemente têm a ver com o “bizness”. Quando não estão ao telefone, eles conversam entre si, com grande exuberância e em voz alta. Elas estão caladas, nem entre si falam, e raramente com eles – só quando são solicitadas a corroborar algo que eles acabaram de dizer.
Há um mês escrevi num guião sobre os problemas da terra em Moçambique, o seguinte texto para uma locução que tem como imagem um régulo sentado numa cadeira que discreteia sobre a cedência de terras da sua comunidade a um megaprojecto internacional enquanto a mulher está sentada no chão a um metro nas costas dele, numa esteira: «O que está errado nesta imagem? Aparentemente nada. Só o lugar destinado para a mulher nesta teia de ralações sociais. Subalterna, tão passiva que fica sempre atrás do marido, sentada no chão. A mulher não tem voz. Nem aqui nem na consulta pública. É um dos dramas que ainda assola o país. Como dignificar a mulher, em cujos ombros recaem grande parte das tarefas que sairão das decisões que tomaram por ela?»
Estas jovens, ao meu lado, têm o ar de terem estudado pelo menos até ao 12º ano. Mas calam da mesma maneira face à “loquacidade” do homem, colocando-se em segundo plano. Não estão sentadas a metro e meio, nas costas do régulo, enquanto este fala com o estrangeiro no seu melhor cadeirão, mas a atitude é a mesma: estão reféns da ideia social de qual seja o papel do feminino na relação. Ou para ser curto e grosso: estão fodidas.
 

Segundo Catherine Clément, para Lévy-Strauss «o desenvolvimento da comunicação entre os homens não os fará viver em boa harmonia, antes pelo contrário. Qualquer criação exige surdez, uma recusa dos outros valores, e até a sua negação. E de, repente, a surda revolta contra a comunicação integral ganha uma nova feição: ‘Plenamente alcançada, a comunicação integral com o outro condena, mais tarde ou mais cedo, a originalidade da sua criação e da minha’ (in, O Olhar Distanciado, pág. 48). Absolutamente certo, e é o que me faz relacionar-me com o Facebook em doses homeopáticas, dado que o regime de relacionamento do FB tende para a ilusão da fusão entre os “amigos”.
 

 A tautologia de Édipo: o filho que engendra o (tipo de) pai, que engendra por sua vez o filho parricida, modela uma estonteante tautologia.
Édipo ilustra, neste caso, a condenação à tautologia que confina o homem quando se torna o eixo hierárquico da natureza. A resposta correcta à pergunta da Esfinge não era afinal «o homem» mas o «mundo». «O homem» era uma resposta plausível, mas que cortou de tal modo a comunicação entre os mundos natural e sobrenatural que a Esfinge afinal morreu disso enquanto Édipo se tornou o primeiro exemplo funesto de uma queda no mundo dual, dividido entre Corpo e Alma, mas sem acesso ao polo ternário do Espírito... o que o fez ceder o seu destino ao jogo malsão da geometria. Desenvolver.

 
«Os santos não escrevem romances» dava um bom título, diz-me a Teresa. E tem toda a razão. Só me falta achar o livro que aí encaixe.

 
(Variante de Tchuang-Tzu:)

                         E como o morto na sua gruta/ desatou a transpirar.
                         Ted Hughes

O susto que trespassou o holista
na noite em que se sonhou
    uma libelinha.
Acordou num sobressalto,
    sem saber de onde lhe chegava
    tal alavanca.
Saltou sobre o manto da noite
    o gato da alba
e à medida que os seus olhos irradiavam
    deu-se conta o holista
de que ainda que fosse uma libelinha
    a dominava a ideia fixa,
pois em nenhum momento se lhe desencadeara
      o desejo de ser um príncipe.
E como o morto na sua gruta
desatou a transpirar.


Recebi a feliz sugestão de um amigo editor para escrever um livro de viagens a sair em 2013. Fiquei contente com o convite e decidido. Vou à estante e selecciono alguns livros de viagens, para os ler e reler, e me ambientar no género. Os primeiros autores que escolho são Michaux e Le Clézio. Levo para o café «Um Bárbaro na Ásia». Há dez anos que não lhe tocava.  Experimento uma meia-hora hilariante, convulsiva. Um livro inconveniente e duma total incorreção política, em tempos de estudos pós-coloniais. Michaux nunca quer compreender, e a sua postura é sempre comparativa, de desafio: «Para os hindus, o ser mais santo é a mãe. Qual o indivíduo que ousaria pronunciar-se contra? Sinto a vontade irresistível de ser esse ignóbil indivíduo.»
É um livro, a muitos títulos delirante e impiedoso:
«Deve meter-se na cabeça que o chinês é um ser tudo o que há de mais sensível. Há quatro mil anos que mantém um coração de rapaz.
O rapaz é bondoso? Nem por isso. Mas é impressionável.»
Mas o seu humor (sobre a relação entre os hindus e as vacas: «e se o hindu fosse pastável sem dúvida que seria pastado»), a intuição para a síntese, o génio de muitas formulações, e o absoluto entendimento que se denota por detrás do véu do sarcasmo tornam este livro um inimitável monumento; um monumento que ilumina sobretudo a falsidade, as mistificações do Homem que eclodem à sombra dos disfarces locais:
«Certo dia, num teatro bengali, assisti à representação de uma peça, de um célebre reformador social, Raman, o próprio Kabir, o qual, já não sei em que século, tentou suprimir as castas. Indivíduos de castas diferentes vinham até ele.
Benzia-os então a todos por igual e impedia-os de se prostrarem à sua frente; então todas as outras personagens erguiam os dois braços e cantavam a igualdade e a fraternidade dos homens.
Como aquilo soava falso! Erguiam os braços para o céu de cinco em cinco minutos. O público achava admirável. Erguiam os braços para o céu, mas não os estendiam para os outros. Ah, isso nem pensar. Os cegos, os coxos, os pobres que se arranjem.
Toda a gente conhece esses poetas que vão amontoando, ao longo dos anos, milhares de versos todos com a lágrima no olho. Pois sim, mas tentem pedir-lhes dinheiro emprestado, tentem e vão ver. A ‘faculdade poética’ e a ‘faculdade religiosa’ assemelham-se mais do que se julga.»