quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O ESTRANHO CASO DAS CAMAS VOADORAS
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| a vila olímpica |
Hoje acabei uma dolorosa revisão de mais um livro de Direito, desta vez com quinhentas páginas, num tu cá tu lá com uma linguagem que odeio, ainda para mais num país onde a lei positiva está abafada por incúrias e atrapalhações estruturais - e muitas vezes não passa de um travesti da lei costumeira (esse eufemismo que dissimula o entorpecente domínio das tradições mais retrógradas) - e pus-me a pensar que só seria mais doloroso se fosse médico e lesse no corpo das crianças o espúrio, mesquinho, trabalho da morte.
Mas hoje fiz um intervalo, tirei os pés dos sapatos, e os dedos harpejaram o ar e decidi ir à rua beber o café e ler um jornal. Acho que era o Hegel que contava aquela anedota sobre os judeus na qual Jeová lhes dava a escolher entre a Salvação “já e agora” e uma coisa “organizada no tempo”, arrastada, mas compensada com a leitura do jornal diário - e os judeus escolheram o jornal.
Nem sempre me sinto muito judeu, ao contrário de grande parte dos meus amigos jornalistas sempre preferi um livro a um jornal ou revista e não faço qualquer esforço para ter em todos os momentos televisão por cabo, mas de vez em quando sabe-me bem lavar os olhos na actualidade.
Decisão santa. África oferece-nos um panorama que chega a ser deprimente para o escritor porque a realidade ultrapassa sempre a imaginação, por mais delirante que seja. E a deliciosa história de hoje foi esta:
Em consequência da vila olímpica que se construiu de propósito, nos arredores de Maputo, para acolher os atletas que vieram participar em Setembro na última edição dos Jogos Africanos, terminados os jogos desportivos, ficaram 518 apartamentos para serem distribuídas em sorteio pelos jovens. O que parecia uma boa medida foi assombrada por dois factos controversos: o custo exorbitante dos apartamentos, numa especulação pura do Estado em relação a um parque imobiliário que lhes foi em grande parte oferecido, e as regras de candidatura às casas, que discriminava quem não fosse do partido Frelimo.
Mas a novidade, e que foi denunciada esta semana, ultrapassa a imaginação: à feitura dos contratos, os jovens, visitando os apartamentos, deram conta que a maior parte do mobiliário havia desaparecido misteriosamente dos 500 apartamentos. E o preço que haviam acertado para a compra da casa abarcava o mobiliário, que lhes fora garantido existir.
Lê-se no Editorial do semanário Canal de Moçambique:
«… o paradeiro do mobiliário adquirido para equipar os apartamentos da vila olímpica está em parte incerta. Certamente que as mesas, cadeiras, televisores, camas, armários e outros equipamentos que havia nos apartamentos para os tornar habitáveis não se evaporaram. Alguém os retirou de lá. O que resta é saber quem os retirou e para onde os levou e que é feito dessas coisas (…) Esses bens foram, ao que tudo indica (...)parar em mansões de dirigentes, segundo esquemas obscuros. (...)
O Estado contraiu um empréstimo de cerca de 152 milhões de dólares, concedidos pelo governo português para a Vila Olímpica. Esse dinheiro será pago por moçambicanos vivos e outros ainda por nascer. Por isso é um imperativo democrático, é uma obrigação o Estado respeitar o princípio da transparência para que não se fique a pensar que o nosso Estado está na mão de gatunos.(…) diz-se que o mobiliário da Vila Olímpica foi entregue à Direcção Nacional do Património, no Ministério das Finanças, mas lá não está. Onde foi parar? (…) Já o ano passado o Tribunal Administrativo denunciou que o património do Estado que está no ministério e noutras instituições geridas pelo Governo, não está registado na Direcção Nacional do Património. Desde viaturas protocolares de ministros aos mobiliários, nada consta do inventário do património do Estado depositado na Direcção Nacional do Património. Foi uma denúncia feita em documento oficial, precisamente no relatório e parecer da Conta Geral do Estado.»
Está tudo dito. Eu volto aos apuros finais da minha revisão. Triste e umbilicalmente risonho.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
METAMORFOSES DO CRISTAL: DIÁLOGO COM MURILO MENDES
«A figura estéril voa carregada de frutos»:
é estupendo o paradoxo com que Murilo Mendes abre
o poema intitulado Segunda Natureza.
E, fiel ao que anuncia, o verso faz-nos cavalgar
na sela de um oximoro, que nos ejecta o olhar
para lá de uma linearidade natural, inaugurando
uma segunda, uma terceira natureza.
Quando lemos o fecho do poema,
iniciado com estes dois versos impagáveis:
«Meu corpo é um estrangeiro
A quem levo pão e água diariamente.»
temos a certeza de estarmos diante
de um grande poeta que cumpriu a promessa
do título: a segunda natureza prolongou-se
no estranhamento do corpo.
O poeta enrola a linha no carreto e arrebata-nos,
como no fascinante anzol deste começo:
«Sentamo-nos à mesa servida por um braço de mar.»
uma concatenação mais eficaz.
Porém, o arranque que talvez prefira em Murilo
seja o do poema Elegia Nova, de 1944:
«O horizonte volta a galope
Curvado sobre o martelo
É noite: e dói»
Fala-nos de quê, o poeta? Do Sol.
Duma penada evoca-nos Parménides,
o Sol levado pelos corcéis,
e o medo desse tempo imóvel, incriado,
em que não houvera ainda a separação crucial
entre dia e noite: o Sol era assim enterrado vivo
diariamente pelo martelo das trevas,
antes de ser ressuscitado
pela urgência de uma visão.
E talvez aí não seja suficiente
transcrever o que de real se trafica
na memória e o poema só se transfigure
em luz se nutrido pelo elemento invisível
que fez despontar o inesperado.
Algo tão dúctil e imaterial como
o que fecha o seguinte poema:
«ALGO
A Maria da Saudade
O que raras vezes a forma
Revela.
O que sem evidência, vive.
O que a violeta sonha,
O que o cristal contém.
Na sua primeira infância.»
Porque afinal tivemos muitas infâncias.
a infância é tão polivalente e una
como os ocelos no olho do insecto.
Eu tive milhares de infâncias,
vocês não, interroga-nos o poeta.
Pois eu já fui noutro tempo rapaz
e rapariga, arbusto e ave e peixe…
lembrava Empedócles, e este vórtice
de «incontáveis tribos de coisas mortais»
é que em nós torna o mundo exequível
e lhe empresta raízes, policromas.
Sim, Murilo, sempre que morri
em rapaz ressuscitei em ave, inex-
tenso como o mar: «suor da terra».
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DIÁLOGO
53 ANOS, O BALANÇO
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| fotografia de luis bastos ou de zé tomás, castiga-me a dúvida |
Há gente muito cretina que acha que nunca sairei nas listas da revista Fortune, descerebradas criaturas que desconhecem que um cão é um gato e um anjo um prato de lentilhas, pelo menos no meu reino que é o de Sterne e Ovídio.
Detesto campeões que só vivem em condomínios, eu cá habito numa casa de onde só se sai ou se entra de pára-quedas e abomino a gentalha que só abre a boca para dizer “o nosso caso é parecido!”
Oh lá lá, anos de intoxicação e pobreza, sem vacilar um grama no caminho mais difícil para uma certa incidência em palavras onde a combustão se ateie, e nunca me faltou a profusão. Quem só descortina nós na madeira prefere o alumínio, eu sigo o veio, e nenhuma outra aventura me interessa.
Ou antes, na polinização há outra ciência em que às vezes deflagrei a sorte.
Por isso, antes que o fascismo campeie de novo (lei da mordaça nos EUA, lei da censura na África do Sul, favorecimento da ditadura na Hungria, retorno aos partidos únicos em África, privatização da Internet, a marmórea expansão da China, e decrepitez da Europa: o que são mais que sintomas) quero deixar bem claro que para além do meu amor pela palavra, existe o Amor.
C’est ça ma fortune:
A Carolina. 24 anos. é a minha mais bela italiana. ao colo, o meu neto, o Bernardo. A Maria, 22 anos, a minha artista mais fatal.
Ana, 15 anos, a teenager-fera cá de casa.
A Luna, 7 anos, violinista visionária, que não acredita no fim-do-mundo: a primeira garantia de reforma para o pai, agente emérito
A Jade, 4 anos, o poder da filosofia. "Jade, gostares do papi é uma hipótese ou uma certeza. Uma hipótese, pai. Uma hipótese? Tem de ser testada."
Teresa, la raison d´être, a senhora que me deu o golpe da aorta.
Cada um tem a Fortuna que pode. Só é lastimável que eu seja tão parco a manifestar-lhes que a clausura do escritor nem sempre é ingrata. Estúpido decoro.
Não há nenhum acrobata naquele que vos ama. Ainda que às vezes pareça.
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DIA DE ANOS
domingo, 15 de janeiro de 2012
DR. STRAMBOLI
De cada livro que escrevi ficou sempre um resto, algo que ficou de fora. Em 1996, quando escrevi As Cinzas de Maria Callas, acabei por pôr de lado o conto que vai em baixo, mas eis que, por via das acções de guerrilha do ceramista anónimo que espalha alguns azulejos mordazes por Lisboa e arredores, ficou subitamente muito actualizado. Por isto o posto, dedicado à Ana Gouveia e ao Rui Silvares, muita boa gente, e que divulgaram a coisa no facebook.
Apanharam-me na rua do Sol ao Rato. Sempre gostei dessa rua por causa da genuflexão esquisita da palavra sol à palavra rato. "Genuflexão": aprendi em miúdo na igreja, o "Cabra" é que nos disse que quer dizer "estar ajoelhado". Eu acho uma palavra tão estrambólica que a digo sempre que posso. Foi das poucas coisas que me ficou da infância. Até no casamento do Falua, quando o padre perguntou se ele aceitava a Mariana como mulher, eu bichanei lá de trás, "pá, genuflexa...". Nem sei porque é que o gajo ficou zangado, a malta fartou-se de rir.
Mas dizia, pronto, que me apanharam na rua do Sol ao Rato, tinha eu já levantado o pavimento e tirado do bolso as pedra negras com que iria recalcetar aquele bocado. Que mal tinha escrever "A Amélia é minha!" em basalto, num passeio sem qualquer enfeite - aquilo nem tinha gracinha nenhuma! Lesei lá «a coisa pública»! Um gajo pode lesar uma merda que não sabe o que é? Escusavam é de me pôr no «privado». Só porque gritei? Um gajo grita quando as tripas lhe pedem.
Aprendi esta arte com o meu pai, que ma quis passar, mas dei-lhe nega até que pude. Coitado, morreu na queda estúpida de um elevador, sem me ter visto a calcetar as ruas como ele, um dos últimos, jurava. Esticou antes de me ver rico com o granel que eu podia ganhar com a arte - era a outra coisa que ele jurava, que o Sporting já só lhe dava desgostos. Hoje sei que o velho tinha olho, pronto, mas qu'é isso interessa agora? Ele tinha alguma coisa de me ir tirar das jogatanas com os amigos para me pôr a calcar com o malho na pedra solta? Eu tinha onze, doze anos, e ele apostava com os amigos quantas vezes seria eu capaz de erguer o malho. Se perdia, ficava lixado e eu é que comia, em casa, eram latadas de pôr um surdo a falar pelo ouvido. Como é que eu havia de gramar aquilo? Anos e anos a vê-lo a malhar, a juntar, a afeiçoar a pedra aos desenhos, e pronto, aprendi o jeito mas assim que pude disse logo que não. Eu já deitava corpo e ele só me podia levar à porrada. Desistiu quando lhe mandei um banano no estômago. Ficou sem me falar durante dois anos, o gajo sabia que ficou dobrado.
Eu, entretanto, como me ajeitava no desenho, pus-me a decorar montras. Não era um trabalho tão certo como o dele mas era mais visto. Mandei-lhe isso uma vez à cara e ele calou-se. Quem é que anda a olhar para os pés? Enquanto que se um gajo desenha numa montra um gato estrambólico a fazer malabarismo com os bigodes, os putos curtem. É uma berraria até a mãe comprar.
O juiz é que não conhece a Amélia, se não entrava numa boa. Todos os grandes poetas tiveram uma musa e escreveram carradas de sonetos só para ela, disse-me o "Cabra" e eu acredito. Agora, lá porque um gajo não é poeta tem de andar aos bonés? Eu tinha esta arte, pronto, escrevo com a pedra. Que é que importa à Avenida da República que eu lá tenha escrito: «A República adora-te, Amélia!»? Se calhar é estrambólico mas até é giro e a gente fartava-se de gozar, porque Amélias há muitas e só eu e ela é que sabíamos. Íamos lá no dia seguinte e ficávamos de lado, a morder a cena. Ou que tenha escrito junto à estátua do D. José: «O rei é danadinho por ti, Amélia» - qual é o mal? Eu nem fazia barulho. Topava se não havia polícia perto e punha-me num canto, sem que me vissem, a atirar pedras devagarinho e a substitui-las pelas minhas, pretas, já arranjadinhas de casa. Às quatro da manhã, quem é que dava por ela? Que é que queriam? Que eu andasse nas chinesas ou a dar-lhe na veia? A minha é esta!
Trabalho todo o dia, sim porque eu vergo a mola, só em Almada já tenho vinte e tal montras decoradas, e à noite dou o meu pulinho a Lisboa com o meu saco de pedras e o martelo e o escopro. Poucas pedras para não ser muito pesado e não dá para fazer mais do que uma linha - também, para quê, nunca soube rimar! As mulheres dos gajos de taco é que não precisam de rimas. Vêem nas revistas. É tudo à fartazana. Até a miúda do Agostinho lhe foi pedir perdão à televisão. Eu gosto de uma cena mais discreta, pronto, mas que fica. Quer dizer, os gajos da câmara às vezes vão lá tirar a escrita na semana seguinte. Só que entretanto até vem nos jornais. Já me chamam o «poeta calceteiro», eu não gosto muito mas a Amélia gosta.
Esta cena começou com a Luísa. Eu andava com a Amélia e éramos os reis nos bailes da Incrível Almadense, não havia pai. O "Cabra" que era um pé e por isso andava nos Alunos de Apolo a ver se acertava com o ritmo, aquele gajo nunca teve jeito para nada senão para escrever cartas às miúdas, até que o Matos lhe deu a coça, mas o "Cabra" desafiou-nos para um concurso de danças de salão no Ateneu. O azar é que a avó da Amélia morreu no dia do concurso e ela teve de ir à terra. E vai o "Cabra" arranja-me um par, uma amiga do par dele que, jurava o gajo, estava para a dança como o Chalana para o futebol. O gajo pintava um bocado mas a Luísa não dançava mal e ficámos em terceiro. Fomos para os copos para comemorar e nessa noite acabei por lhe dar a primeira trancada. Eu nem sei como é que ela começou, ela é que me puxou pela corda, que eu era giro e assado e cozido, ela é que me fez a folha e como eu estava de folga da Amélia, olha deixa-te ir.
O pior é que a gaja dois meses depois me veio com uma conversa um bocado estrambólica, aquilo demorou a pôr o anzol de fora, mas quando veio a cerveja até me soube a nafta. Estás quê? Grávida. Estás quê? Estava grávida. Que não podia fazer nada, patati patatá, e eu completamente desatinado, e agora contar à Amélia... Deu-me logo com os pés. Há gajos que perdem o norte, mas eu tinha deixado gamarem-me a bússola inteirinha! E a Luisa com a barriga cada vez mais avantajada. O que é que se faz, o que é que não se faz, lá dei o nó. Nem era feia, um bocado magrizela, mas pronto. Nasceu-nos uma miúda, a Micaela, e eu procurei esquecer a Amélia, que entretanto tinha arranjado emprego nos telefones e se pirou das Torcatas. Só para "não dar com as minhas trombas", como ela dizia. Uma merda.
A desbocada da Luísa é que não fazia nada, até de dançar deixou. Encafuava-se todo o dia em casa, a comer chocolates e continuava a parecer uma espiga a quem puxaram pelos pés. Uma merda, mas eu gostava à brava da miúda. E meteu-me na cabeça fazer um miúdo, a cena do casalinho. Um rapaz para eu levar à bola. Ela nem que não, nem que sim, às vezes parece-me que só gostava de comer chocolates. Não se negava, mas também não via que lambesse os dedos. Eu é que andava obcecado com um rapaz. E todos os meses, nada. Ao fim de um ano, sem ela saber, fui ao médico, fiz uma análise e bebi uma grade na noite em que soube os resultados. "Nada doutor?". "Não e lamento informá-lo mas você não pode ter filhos... a emissão de esperma não é suficiente...". "Mas eu tenho uma filha...". "Não me pronuncio sobre aquilo em que cada um quer acreditar...". Quantas bejecas tem uma grade? O que eu chorei por causa da miúda. Nem a Micaela era minha. Não lhe disse, pronto, para não dar parte fraca. Um gajo primeiro aguenta as broncas e depois é que começa a arriar.
Andava há dez dias a magicar numa vingança, quando chego a casa e dou com uma grande festança. "Uma surpresa para o papá!", diz-me o coirão com um beijo de Judas, "Estou grávida de um mês...". Eu olhava as serpentinas, as estrelas de celofane na parede, os comes na mesa, as cervejas e o wishky, olhava o focinho dos amigos, todos ali com as mulheres - só faltava o "Cabra", que já não aparecia - e a desbocada numa grande agitação. O "Cabra" é que a topou, naquele dia na praia em que me meti com ele por me ter arranjado aquele caldinho. Ele, olhou para ela à beira de água, já p'ra aí de seis meses, e respondeu-me com um arrependimento sincero, " tens razão, queria arranjar-te uma parceira para o foxtrot e acabaste por ficar com uma galinha palustre...". Eu olhava para o Bilas, para o Victor Hugo, para o Falua, para o Marinho, para o Alemão, para o cego do Armando e só me vinha à mioleira uma pergunta macaca: qual destes gajos é me emprenhou a escanzelada? A gaja tinha-me enganado desde o princípio, pôs sempre o prato vazio à minha frente na mesa e eu ceguinho, estrambólico de todo, só agora é que sentia como ela me espetava e remexia o garfo na língua.
Deixei tudo nessa mesma noite. Deixei as análises na mesinha de cabeceira dela, saí pela janela, a gente morava num rés-do-chão, eles que se embebedassem todos até partir, queria lá saber. Fui para uma residencial, baratinha, e desfiz-me como pude em cervejas e brandys. O que me doía era a miúda, mas se não era minha. Ao fim de uma semana procurei a Amélia, que vivia sozinha e lá no fundo continuava com um fraquinho por mim.
"O que é que eu posso fazer para acreditares que só te quero a ti?". "Não sei, mas trocaste-me por uma galdéria e fizeste-me passar a vergonha da minha vida e por isso o melhor é pores-te em cima do cavalo do D. José a gritar por mim até eu te perdoar... e despacha-te que tenho um rapaz que é da marinha mercante, com quem me escrevo e que chega dentro de dez dias...". Comecei nessa mesma noite. À entrada do prédio onde ela vive calcetei: «Perdoa-me Amélia, amor da minha vida!». E há duas semanas que não paro. Ela ao princípio achou estrambólico mas aceitou-me ao fim de cinco dias e eu prometi que lhe escrevia o nome em todas as ruas da cidade.
Quero lá saber que o juiz me prenda. Hei-de voltar. Até ao fim da minha vida, hei-de voltar. Já tenho um cantinho em vista ao pé da casa do Presidente: «A Amélia votou no senhor». Se calhar não me posso bater à amnistia, não? Vem aí os guardas com o "Cabra" e o advogado. Faz jeito ter um amigo com conhecimentos. Antes de entrarmos no tribunal hei-de perguntar-lhe porque é que nos últimos tempos me chama "Dr. Stramboli..."
Para quem não ler, abaixo de Isaltino Morais, lê-se: «corrupto, criminoso, político»
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CONTO INÉDITO
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
PHODER
Tenho-me mantido um pouco alheado das questões em torno do Acordo Ortográfico, pelas razões que explico em baixo, no excerto duma entrevista que me fizeram no Brasil:
«O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia?
O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.»
Mas agora, por via da Julieta Duarte, li um artigo de Hermínio Castro e fiquei convencido de que até pelo adestramento da língua nas possibilidades do palato - malabarismo estético de que não nos devemos alhear - há todas as conveniências em mantermos o nosso arcaísmo.
Não nos convém nada confundir o ovo estrelado e o pinto.
Não nos convém nada confundir o ovo estrelado e o pinto.
POR ISSO ADIRO RESOLUTAMENTE AO NÃO AO ACORDO AUTOGRÁFICO e estarei disponível para o que os meus amigos quiserem em termos de militância.
E produzo já o primeiro slogan de combate:
«FODER É EM SI MESMO A CONSOANTE
MUDA QUE BATE AS VOGAIS EM CASTELO!»
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ACORDO ORTOGRÁFICO
BANQUEIROS, EDITORES E PINICOS
Desde que há trinta anos, acidentalmente, descobri Fluxo-Floema que fiquei arrebatado pela escrita, pelo ritmo, humor, atrevimento e liberdade de Hilda Hilst. Há um antes e um depois de se ter lido esta mulher que nasceu no mesmo ano do Herberto Helder (1930) e que foi objecto de tantos escândalos. Hoje diverti-me a reler à tarde uma mão cheia de crónicas que me confortaram o mau-humor da manhã. Aqui vos deixo uma:
Aos 79 anos, e perneta, ela matou a pinicadas (golpes de pinico) o velhote (seu marido), quando ele se jactava de antigas façanhas sexuais, enquanto ela apenas mancava solitária pela casa. Onde foi isso? Na aldeia de Mókroie? Em Londres, gente! Há duas semanas atrás. Que vitalidade! Que altaneria! E que rabugice! Se fosse comigo, aos 79, eu apenas anotaria, quase sucinta, no meu diário: John, ontem à noite, contou-me deliciosas aventuras e acho que fez muito bem, porque convenhamos, com o meu coto é difícil manter-me no coito em equilíbrio.
Aos 79 gostaria de loquear um pouco. É bom ser estranho e velho. Que menina medonha! É sua filhinha, é? E esse é seu marido? Ahhh... então é por isso! Coitaaaada! E talvez colocasse um balde na cabeça à guisa de chapéu, como aquela baronesa Elza von Fretag von Loringhoven que também enfeitava a cara com selos... e morava no mesmo bairro onde moravam Henry Miller e June. Eu andaria com o
meu balde e desenharia lindas borboletas na minha cara, aqui mesmo, na minha torre de capim. E vou dizer muitas verdades a alguns, principalmente àquele meu amigo banqueiro, riquíssimo (aliás acho que vou dizer agora) a quem pedi que editasse meu livro como brinde, no seu banco, e ele disse: você é mesmo boba, Hilda, ninguém mais lê poesia... Eu disse: mas você era tão sensível e gostava tanto de poesia e é filho de um poeta... Ele: agora eu só sou sensível depois das nove da noite. E eu deveria ter dito a ele o que vou dizer agora: e se eu te chupar a bronha depois das nove da noite, te sensibiliza e você edita? Só que aos 79 ia ser melhor porque eu estaria sem dentes... Ah, banqueiros, meus amigos, caixão não tem gaveta, viu? Ah, o que eu tenho visto de avareza e hostilidade quando estamos na dureza! Como é triste ser avarento quando se é velho e rico! Ou só como é triste ser avarento! E como é sórdido ser avarento com os poetas. E agora vou terminar com um poema porque já estou espirocando de ódio em relação a banqueiros e editores e a crônica foi pras picas. P.S. Querem saber? Acho que a velhota fez bem. E já vou comprar o meu pinico. Ninguém vai notar uma velhota aos 63 entrando no banco ou na editora com um pinico na sacola.
Enquanto faço o verso, tu decerto vives. Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro E o poeta te diz: compra o teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta o teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo. Enquanto faço o verso, tu que não me lês sorris, se do meu verso ardente alguém te fala. O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.*
* "Poemas aos homens do nosso tempo" in Júbilo memória noviciado da paixão. SP:
Massao Ohno. 1974.
(Segunda-feira, 08 de Março de 1993)
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CRÓNICAS,
HILDA HILST
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