segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS: ALGUNS MOTIVOS



No sábado passado escreveu José Mário Silva, no semanário Expresso, de Lisboa, numa coluna que dedicou ao livro O Branco das Sombras Chinesas, um folhetim policial, que escrevi a meias com o João Paulo Cotrim:
«Ora, justamente, em “O Branco das Sombras Chinesas” nada é banal. Nem o enredo, que mete orelhas perdidas, tráfico de armas, malandrins e galdérias, esquemas de corrupção, sovas épicas, crimes ambientais e uma fantástica chuva de símbolos comunistas, nem as personagens, desenhadas a traço grosso mas firme, em delicioso contra-luz; nem, sobretudo, a linguagem, toda ela um primor de invenção e risco, ora delirante, demorada, barroca, como que à deriva, ora capaz de cortar rente e de desembrulhar a trama quando é preciso.»
Pegue-se por onde pegar, é um elogio rasgado que dá conta de como o articulista se divertiu como um bruto ao ler o livro.
E NÃO É ISSO QUE IMPORTA?
A coisa começa assim:
«…comprou um jornal, sentou-se na esplanada da Mexicana a ler um fait-divers (fora achado numa cabina telefónica da Damaia um coração tresmalhado) e sacrificou, com método, uísques sobre uísques, na ara da consciência, até estar solto o lastro.
O estado em que acordou, dois dias depois no Hospital de Cascais, com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça, e as explicações que ouviu não foram concludentes. Na lota? Que fazia na lota, desmaiado ao lado de um peixe-espada que tresandava a fénico? Dois dias?».
Este buraco de dois dias e o mistério da perda de uma orelha, e como, é o motor da investigação, de pista em pista, como na Agatha Christie, só que mais demolhada como em Raymond Chandler:
«A dúvida procura sempre uma resposta, com a sua suave brutalidade com que a a água procura um rumo. Além do formol e do líquido, também por isso o momento era líquido.» (pág. 13).
O spot principal não impede que se prestem atenção a leves digressões sobre a matéria humana, como a traição e o ciúme. No eléctrico, a caminho da Praça do Comércio, ouve João David, o narrador e o nosso detective de serviço:
« - Ó mulher não ligues. Faz como eu, não ligues. Ele há-de perder-lhe o interesse.
- O problema não está nele mas nela. Aquilo é fruta que não cai. É fruta que espera por grua.
Gostaria de estar com o ânimo disponível para conformar às duas catatuas engelhadas que sim, que o melhor modo de tratar a traição é recuar no tempo com dois litros de uísque tão lisos como dois lençóis a secar, mas dominava-o a vontade de esmorecer dentro da primeira câmara frigorífica que o aceitasse como esquimó.»(pág.18)
Descrições não faltam, como esta na estação de Santa Apolónia:
«Num segundo esquadrinhou os 360 graus em volta: era um Bogart com olhos na nuca. E nada aconteceu, zero como nas fotografias. Desceu os degraus na lentidão dum poema. Desatou a pensar com a loquaz verborreia dum romance.» (pág.19)
Observações subjectivas sobre o mundo, também pontuam a novela:
«Há dias assim, nos quais o mais pintado se sente cor de bedum. Imagine-se um homem que perdeu uma orelha e não lucrou uma pulga com isso. Pediu um café e uma madalena e percorreu de rajada as gordas do jornal: “Mãe troca cinco filhos por comida” – mundo cão…» (pág.21).
Diálogos rápidos, enxutos, e bem-humorados, como nos filmes, não faltam:
«Negrura, o velho empregado que o seu pai trouxera de Luanda, cochilava, como sempre, em cima do balcão. Lancelote, o papagaio que herdara do tio brasileiro, é que o cumprimentou: “…o Hitler morreu! O Hitler morreu…” (uma nova passagem comunista). Calcou a campaqinha e Negrura reagiu de um salto:
- patrão”
- What’s the new and diferent!
 - O do 7 há dias que não aparece. E temos no 3 duas senhoras espanholas.
- O Artur já resolveu o problema com a torneira no 6?
- Não senhor.
- Para que te pago eu?
- Que lhe aconteceu, patrão?
 - Meteram-me a cabeça dentro da betoneira…
- Quê?
- Deixa. Telefona ao Artur e passa-mo.» (pág. 22)
Sinais cabalísticos, é a granel:
«Sentia-se uma espécie de w, amachucado com brutalidade, ferido na sua dignidade acordeónica, quase só usado nos endereços da Internet, encostado a um canto como o contrabaixo empenado. (pág.26)»
Adivinhou. É uma personagem feito dos restos das coisas que já foi. Músico, por exemplo. Mas não faltam à acção os arremedos sentimentais, elas, e o que pensam deles:
«Gostou que o João David tivesse acudido prontamente à chamada, sem ressentimentos, como a cegonha que sabe reconhecer na ventania o renque ciprestes, o seu poste telefónico. (pág.39)».
Nunca esquecemos o foco, a evolução da acção:
«A tese de suicídio sustentava-se numa carta dirigida a um tal João David que, acabadinho de chegar à cena, lhe dava um tom de suspeito entre os suspeitos, como um creme autobronzeador num mulato. (pag.44)».
 E mete polícia, interrogatórios, o despique entre o detective e os matarroanos da polícia de costumes:
«João David estava à toa, sem saber como recuperar de tanta finta de anca de um avançado prolífico chamado Destino, e limitava-se a olhar os polícias que o interrogavam há horas com a inabalável cadência e um metrónomo. Pareciam-lhe bonecos de matraquilhos que lhe chegavam do fundo, muito do fundo da retina, pois quando as surpresas chegam em catadupa é assim que ficamos: embutidos no mármore, paralisados (pág.47)»
Sem descurarmos os momentos metafísicos, em que interrogamos a vida, a morte, a irrelevância substantiva de tudo, essas cenas macacas:
«As manhãs não se fazem só porque acordamos. Como a noite não nasce só porque nos deitamos. O corpo de João David jazia iluminado pelos faróis que passavam na marginal. Tinha os dedos sujos da tinta do jornal. Ali perto, o mar murmurava. (pág. 54)»
É uma narrativa absolutamente pós-moderna, onde não deixa de comparecer o pensamento débil e a volátil mutação das sexualidades. Como a atracção trans:
«O que o atraía em Verónica? Talvez a escolha da sexualidade não seja de todo uma herança genética mas o resultado de uma soma de recusas, o que torna o seu utente permeável a uma mudança em qualquer esquina da vida. Da primeira vez que a vira, o seu abalo não fora menor que o de Negruras: a assinatura daquela lasca, de curvas e olhos insinuantes, que punham à pesca qualquer vergalho sentimental, correspondia afinal à identificação de um homem. Felizmente as suas tentativas esbarraram na porta; teria sido mais um viandante na longa avenida da androginia. pág. 59»
E como nas boas histórias, pela boca morre o peixe, ou seja, o desejo traz consigo todos os perigos:
«A noite não o deixava ver o mosqueado do vomitado nas gardénias, sombra sobre sombra. Ouviu a discussão e virou a cabeça na direcção da mesma. Nesse momento, bateu a porta de um carro e, num soslaio ao canto oposto, deu por quatro calmeirões a deixarem a viatura, encaminhando-se para a vivenda. Estava entalado. O arquitecto gordo atirou-se a ele, enquanto o outro parecia lívido, atemorizado. Defendia-se como pedia quando recebeu um pontapé nos tomates, desferido por trás, por um bicudo sapato de salto alto. Caiu redondo, enquanto os seus olhos revirados, estupefactos, cruzavam os de Verónica, a portadora do sapato.
- Então rico… - cumprimentou-o o travesti – vamos a Bizâncio? (pág. 65)»
Como se safa João David desta embrulhada? Como resolve o crime económico, o tráfico de quadros roubados e o desastre ecológico que foi destapando, à medida que procura rasto para o enigma da sua orelha perdida? Isso já o meu amigo leitor terá de ler sozinho, no seu discreto cantinho, com o seu exemplar na mão. Só lhe posso dar mais um lamiré, um momento de empatia com a natureza:
«João David olhou a sinagoga, pela janela do quarto. Odiava coincidências, raccords, simetrias – mais que nunca. No telhado, num pequeno ninho, um pequeno pássaro abria a boca para recolher algo que o bico da mãe lhe passava. Pegou nos binóculos: as goelas eram amarelas.(pág. 75)» 
E talvez até o final, e o seu desencadeamento lírico:
«Tinha sido mesmo o amarelo das coincidências a atirá-lo para a bússola doida das ideias. Queria ir a Bizâncio antes de a morte o bafejar. Queria ver mais cidades. Queria ver logo o fim dos romances policiais. Queria entender as mulheres. Queria conhecer Elvis Presley pessoalmente. Queria cheirar um miosótis.»
E mais não lhe digo, até porque não terá ficado a saber nada do que é mais importante, e que decorre do grande mistério cabalístico que percorre o livro e consubstanciado na pergunta: «Quantas letras custa um cego? (pag. 77)». Quer saber, bem como a que corresponde a célebre chuva de símbolos comunistas (num livro neo-liberal, sublinhe-se) compre o livro.
Já sabe, como garante o José Mário Silva, no Expresso, nada neste livro é banal. Portanto, comprará dois em um – O QUE COMEÇA A SER RARO.
Ainda por cima tem 18 magníficas ilustrações de João Fazenda e é um belo objecto gráfico, “desenhado” pelo Jorge Silva, um objecto de colecção portanto, e de tal monta que até Gaspar, Belchior e um terceiro rei mago de que me escapa agora a graça, já compraram para oferta de Natal. 
Mas não durma, porque NÃO PODERÁ COMPRÁ-LO NA LIVRARIA. Experimente no blogue da Abysmo (a editora), ou no facebook da mesma. Bom, sombras tem, chinesas também, e um branco sem orelha.






DESCRISTALIZAR



O TEXTO QUE FOI LIDO POR DIOGO VAZ PINTO E VALÉRIO ROMÃO, NA APRESENTAÇÃO DE RESPIRO:

Dizia o Paul Valéry que a literatura é a vingança que irriga o espírito ao fundo da escada,  quando perdemos a ocasião. E já antes dele, o dadaísta Ribemont-Dessaignes havia sentenciado para os escultores e músicos algo parecido, que também se aplica a alguns dos poetas que prefiro - dizia ele: “os escultores, como os seus inimigos, os músicos, chegam sempre à estação quando o comboio acabou de partir”.
Ou seja, estamos confinados, nenhum flash-back nos livra de vivermos a literatura como um transe, uma vitória ou uma derrota em diferido.
Contudo, e a distância física a que estou ajudou-me a vencer isto, hoje, na literatura, já não me angustia o peso da colher de pau na panela do káiros e se esta condimenta a oportunidade, crendo até que uma certa distância lhe é necessária para que a energia do vivido não a embargue, ou a encadeie.
Quem se entrega ao acto amoroso não escreve, fá-lo-á depois, para celebrar o encontro ou manifestar uma ausência, mas depois. O homem que a meio da cópula faz parar o comboio no apeadeiro de um soneto, que tem que escrever, parece-me um cretino.
Esta decálàge compensa-nos, é o que nos traz os imprevistos – não se produzir uma total coincidência entre escrita e mundo ou a escrita e a percepção furta-nos às ilusões da transparência.
Hoje, já não me choca, para aproveitar um poema de Rene Guy Cadeau, être en retard sur la vie.
Estar em atraso permite divisar as tendências que se formam nas linhas da frente e adivinhar mais facilmente o que se vai passar, enquanto quem galga na frente, mergulhado na ilusão de estar em sintonia, não vê como o seu ritmo já está levemente desadequado, ou que atalha por um beco. Não tem perspectiva.
Estar em atraso permite-nos esquecer como ao jogador de xadrez as regras do jogo: elas são o ar que se respira. Quem está preocupado em estar à frente só se preocupa com os seus pulmões em brasa.

Quando eu saí de Portugal para vir para Moçambique aconteceu-me uma coisa maravilhosa, fiquei no mais absoluto anonimato. Não contava com isso mas foi o melhor que me podia ter acontecido. De repente era o par de luvas esquecido num banco da gare de comboio. Eu aqui não tinha nove livros publicados, nenhum artigo.
Foram cinco anos em que ninguém me reconhecia, eu próprio me esqueci, sem uma imagem social que levasse alguém a antecipar uma ideia sobre o que havia a esperar de mim. Era de novo um poeta nu: sem antecedências.
Este retorno, por anos e anos, ao anonimato devolveu à minha expressão o jogo, o impulso e a espontaneidade que o facto de ter um nome sempre desacelera, mitiga e periga. Pede o dramaturgo Richard Foreman: «Desejaria que o meu imaginado fosse uma ocasião para o não-imaginado-por-mim poder estar presente». Isto é mais fácil quando ninguém à nossa volta alega algo em defesa do que fomos ou do que se pensa sermos e deixa de haver um juro a pagar para quem tenhamos sido.
Estarmos absolutamente sós é tremendo, mas viver sem facturas é decisivo. Pude voltar a ser absolutamente irresponsável, à minha condição inicial. Este anonimato renovou tudo o que eu pensava sobre a zoologia dos fluxos. Eis-me sentado no hélice, sem pressa de partir.
Uma vez a Livraria Minerva de Maputo convidou-me para fazer uma palestra sobre poesia e ler alguns poemas. Preparei a comunicação e uma dúzia de poemas tendo aclarado a voz com gargarejos de bicarbonato. À antiga.
Entreguei-me à leitura da palestra. Que provocou tal celeuma entre os presentes que passei mais hora e meia numa discussão sobre poesia e poéticas sem ter tido oportunidade de ler um único poema. Nunca mais tentei.
Aguentar-me no anonimato tem sido a jangada mais apetecida, e tem-me lançado em portos e geografias nunca cicatrizados. E fez-me descobrir um lastro, um cerne, que não depende de qualquer reconhecimento social. A minha solidão convive magnificamente com o inominável candelabro do silêncio. 
É uma experiência que recomendo a todos os poetas: ficar a sós com o igloo, num horizonte branco, tendo lá fora um urso branco a solicitar companhia, ajuda a definir se alguma coisa em nós perdura para além do imago, do jogo das reflexividades, da coragem que se finge ter diante do urso.
Nesse não-lugar, para lá do conforto e do atrito - se alguma coisa não ficar carbonizada nessa solidão absoluta -, deixamos de imitar.

No âmago desta outra condição acontece-me jogar à canasta com o capitão Mac Whirr, do Tufão, de Conrad - aquele que se insinuou no vórtice tumultuado.
É para mim um livro tão essencial como Bartleby, sendo outra forma de dizer não. Só se aceita a barbaridade de atravessar candidamente um tufão pelo meio - aderindo com macia displicência à sua impossibilidade de domínio - se formos impelidos por uma desidentificação que diz não a todos os nossos medos.
Mac Whirr quis conhecer o outro lado do medo e não se apresentava outro caminho: havia que cruzar a descristalização de todas as suas categorias.
Recordo o momento hilariante em que Jukes encosta os lábios à orelha do capitão e avisa, aflito:
- Os nossos escaleres estão a ser levados, sir.
- Está bem…- respondeu lacónico Mac Whirr.
« Juke pensou que não tinha conseguido fazer-se entender.
- Os nossos escaleres… eu disse os escaleres, sir! Dois já se foram!
A mesma voz, a centímetros dele e contudo tão remota, gritou muito judiciosamente:
- Não se pode evitar.
O capitão Mac Whirr nunca tinha voltado a cabeça, mas Jukes apanhou mais algumas palavras no vento.
- Que se pode… esperar… quando se atravessa… semelhante… temos de deixar… alguma coisa para trás… é evidente.»
Não se pode evitar. Por isso, lido o livro, não pude evitar redigir na sua última página:
«Amarrar a carne ao poema como o navio ao olho do tufão até que na sua armação esplendam os ossos e os seus olhos se diluam nos do albatroz.»
Os seus olhos referem-se aos do poema, aos meus, ao do tufão? Parece-me irrelevante saber. Não se pode evitar.

Cada um de nós é um fura-vidas em potência, que, com retoques sucessivos, vai tentando actualizar a sua espontaneidade. E isso é bom. Mas não basta. É preciso abrir as janelas e deixar que as correntes façam entrar em casa algo que a trivialidade dos tempos descuidou, esquecida de que o que mete uma obra ao abrigo das larvas e da ferrugem não é a sua importância social mas simplesmente a sua arte (Nabokov, merci). Falo da profundidade. E esta estriba-se num itinerário pessoal enquanto a espontaneidade, o natural de cada geração, nutre-se mais dos protocolos estabelecidos pelo colectivo. Daí que não acredite em ideias gerais, só acredito em pessoas, no furor e na vulnerabilidade adquirida de algumas pessoas.
A profundidade, a passarelle de bambu que tudo re-liga, pode ser uma verticalidade na pele - há toques que intensificam mais o contacto que outros - ou a ressonância de uma descida ao detalhe, mas resulta iniludivelmente da rasgadura que uma experiência pessoal, inesperada e indelével, provocou. Não se atravessam tufões em vão embora não tenha a certeza de seja transmissível o que se gera no contacto com o inumano - disso que nos separa, que em nós dissente, inexoravelmente, e nos desapropria, recriando, pelo simples acto de respirar, o gosto de diferir.
É neste pesponto de uma ferida, que germina de dentro e nos obriga a lidar com os seus lutos e a recriar a alegria, que alguma coisa recomeça. E não trair neste trânsito a fidelidade ao humano é o trabalho de uma vida. 
O Nietzsche disse-o melhor que eu e por isso com ele acabo: “Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo sentou-se a minha alma faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar os fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É preferível dormir no meio das vacas que no meio das suas etiquetas e respeitabilidades.”
Há um preço a pagar por preferir as vacas aos eruditos, embora tenhamos aqui de encetar uma via mestiça e confessar que preferimos as vacas eruditas. Mas o que importa reter é que este processo nos dá uma liberdade muito grande e desencadeia uma descristalização permanente que abre os estábulos ao campo dos possíveis.
Afinal, pergunto eu em Respiro, que raio afinal é que nos impede de ser em arquipélago?
Deixo-vos por isso com dois poemas que escrevi a semana passada, com dois dias de diferença, dois poemas que se apresentam como Mr. Hyde e Dr. Jekyll. O primeiro chama-se Oito Variações de Um Melro Sufi (VER POST ABAIXO) e o segundo Os Avatares.  

OS AVATARES

O Henri Michaux? Esse drogadito imitou,
em ressequido, tudo o que f(l)ui.
É escusado negar que o Hokusai me copiou
em mais de metade dos espectros e das enguias
que lhe foram atribuídos. As perspectivas
do Monte Fuji, por exemplo,
tomou-mas, o inculto - cem retroactivos.
O Durer foi outro infiltrado que com in-
declinável gana me sangrou os arquivos,
e a sua mais leve menção enternece-me
tanto como encostar uma palhinha a um corvo
para lhe sorver a mais insepulta noite.
Outra gente malsã, ambiciosa, que em tudo
me plagiou? O Czeslaw Milosz,
o poeta de um catolicismo alvacento
que os meus olhos escoltaram
como um arado de mistérios latentes,
e o Hugo Claus, o poeta herético
que em caganitas de pombo ‘inda me betuma
as bétulas da reminiscência. Este último inclusive
teve o desplante de se entregar com a Silvia Kristel
a amplexos indecentes, a musa anal
que me fora prometida desde
que como Kant  me lastimei ao S. Pedro
sobre o falho erotismo dos relógios.
Apesar de muita resistência, de tanta safadagem,
tenho de chamar a essa canalha os avatares.
Consola-me, enfim, que o O‘Neill, no desvairo
de me imitar, tenha contraído as minhas cáries
e algum hálito arrancado à força do que tem que ser,
ou que as minhas crisálidas lactescentes, as
suculentas estalagtites, estuprem as veias
de Carlos de Oliveira. Já as estalagmites
cedi-as a um poema do Ted Hughes,
corvo deslavado, que, em vã mazombice,
prometeu, prometeu, sem nunca o concluir.
O que esta gente não faz por um pingo de fama?
Que querem que vos diga de Vasko Popa?
Esse não sabia patavina de nada, nada,
e iniciei com ele uma bibliotecas de estrelas
que iam engordar à mão. Mas rapidamente me deixou
só com as anãs  brancas e no fim
enviou-me cínico postal de Paris para me agradecer
as premissas? As premissas!? Que Deus
o enlouqueça nas badanas de Santa Teresa de ‘Avila,
a bibliotecária da área dos leprosos, no paraíso. 
Poema do António Barahona? É meu.
E ele sabe, nem sequer dissente, entre nós
não há minaretes escondidos, estabelecido
que a fauna, a flora e a geografia descristalizam
em mim (não nele) o alfabeto com que Deus
naufraga em todas as línguas.
E pronto. Mas queixo-me de mais,
de muitos mais, até porque os relatos
estão todos truncados. Eles sabem mas fingem,
pondo os olhos em alvo nas nuvens crivadas
das minhas cabeças de leão, de ressacas e marés,
enquanto, alados no trovão que racha
o seu casco, os zurzo.  E lamentável
é que agora como jornalista ganhe a vida
a encher laudas nas efemérides dos tantos
que descurei  ser antes dos plagiadores me calçarem
os sapatos. Escrevo isto à janela,
debruçado sobre o pomar
onde medram as laranjas azuis
que o Éluard me surripiou.
Morcegos chegados dos Cárpatos
sugam-me, página a página,
o pouco sangue que me sobrou.

domingo, 11 de dezembro de 2011

ERROS DE SIMPATIA & DESAJUSTE



Há entorses de língua e de memória que insidiosamente se intrometem e desvirtuam as nossas relações com certas palavras e nomes. Nunca escrevo Bartleby bem, por muito que me levante da secretária e vá à estante pegar na novela de Melville para verificar a grafia correcta. Basta ver no post anterior. Chego ao computador e acrescento um «e». Levei anos e milhares de tentativas a escrever bem Schwarzenegger, ou Wittgenstein. Há termos e conceitos em que nunca penetrei ao ponto de se me tornarem naturais: para tonsura, por exemplo, não me serviram de nada repetidas consultas ao dicionário, só fixei quando comecei a ficar careca, no sítio onde os monges faziam a tonsura. Teve de passar pelo corpo. Enteléquia, é um conceito aristotélico que já consultei um milhar de vezes: não gruda à memória. Talvez por me sentir tão imperfeito e incompleto e o conceito significar a plenitude ou a perfeição de uma transformação, no oposto do processo de que resulta tal transformação ou transformação. O momento em que, taoisticamente, o fogo se transforma no seu contrário, em água: eis uma enteléquia. É como se por vezes, invariavelmente, chegasse ao dicionário com a atenção já estafada.
Depois há os erros de simpatia, aqueles que reproduzimos porque a nossa vontade completou ou cegou-nos ao que está escrito. Por exemplo, neste blogue cometi um erro no post mais lido (vá lá saber-se porquê) que o leitor ou nunca dá conta, ou nunca se manifesta – o que, para mim, em termos práticos dá no mesmo. No post intitulado «Einstein e os meus alunos» conto um episódio verdadeiro em que ofereci quarenta livros digitais ao aluno que me quisesse vir ajudar numa mudança de casa; tendo-se os alunos abstido da possibilidade de adquirirem num só dia 40 livros novos. Ora, no texto, começo por dizer que eram 40 e acabo mudando o número para 50. Não sei porque o alterei, a verdade está no primeiro número. Mas o que é facto é que nenhum dos 875 leitores que leu esse post até agora teve a delicadeza ou o humor para me fazer o reparo. Se calhar nem deram conta: erro de simpatia. 
Uma vez comecei a fazer uma T'abua das Palavras e Nomes que |Nunca Saberei Usar e  Empregar Correctamente. Cheguei ao esp'ecime n.56 mas entretanto roubaram-me o computador e perdi esse zool'ogico. H'a que não desfalecer e recomeçar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

RESPIRO



Dia D. Vai ter lugar hoje o lançamento do meu ensaio Respiro, editado pela Língua Morta, de Diogo Vaz Pinto.
A festa terá lugar no Bar Bartlebey, na rua da Imprensa Nacional, hoje, `as 22h30.
Acompanharei `a distância, bebericando num copito a sós, a 10 000 km, em Maputo, enquanto o meu amigo Valério Romão, tentará filtrar com o seu belo timbre de voz o analasamento irremediável do meu texto.  Ele dará o seu melhor, embora ainda esteja arrombado por causa da festa do Jorge Jesus.
É a segunda vez, num mês, que faço lançamentos `a distância. Estou um experto.  Como diz o outro, ser pobre é foda!
Não desvendarei por enquanto de que se fala no texto, coisas sibilinas sobre literaturas e aconteceres; onde se explica como manter-se em desequilíbrio no arame é preciso.
Respeitarei o ritual: para se chegar ao balcão, é necessário pôr-se na bicha. Por isso, só amanhã postarei uns trechos.
Se lhe apetecer não ir, não falte. Se quer ir para quê torturar-se com dúvidas? Tchim, tchim.
(em cima brinco, em baixo homenageio: olhem o belo trabalho que fez o Diogo Vaz Pinto. Obrigado, Diogo:)