segunda-feira, 18 de junho de 2012

COLÓQUIOS COM A JADE 14

                                                                         dakota
 - Isto é que eram casinhas, filha.
- Estás maluco, pai… são tendas…
- Olha para o jogo dos pauzinhos…
- Foram eles que inventaram o mikado?
- Bom… não… mas não gostarias de viver numa tenda?
- Podemos pôr na nossa varanda?
- Assim ao contrário, pôr a varanda dentro da tenda…
- Hum, não cabia pai, e onde é que punhas os livros?
- Pois…
- Não estejas triste, talvez se levasses só cinco.
- Estamos tramados, não é?
- Tá bem… mas não te esqueças que eu hoje tenho uma festa!



CERA, NA ORELHA DE VAN GOGH

                                                                        kandinsky

«Este mundo é dado ao homem como um enigma a resolver», escreveu Bataille. Transcrevo e concordo. Transcrevo e abismo-me. Claro que sim, claro que não: como a luz, na persiana às riscas.                                                                                        Encarar o mundo como enigma e perfurá-lo com uma opacidade que separa sujeito e realidade, afinal só instaura a dualidade. Ou não? Julgo que, frequentemente, a realidade se vela e unicamente se deixa captar de viés, veladamente, sendo a metáfora, apesar dos apesares, a sonda; enquanto noutros momentos somos participes na abertura que dispara o dulcíssimo canto da imanência, onde sujeito e (e)vidência estão síntonos. Inescusavelmente. Aí não há enigmas mas um fluxo de que fazemos parte.                                                                                                                 
Oscilamos entre uma e outra acostagem ao mundo e nos dois pertencemos a comunidades diferentes.                                                                                               Não pertencermos só a um dos lados secreta-nos o múltiplo, desafoga-nos da clausura. Infelizmente, há ainda quem não viva sem exclusões, ainda que – abnegadamente – confundido.

«Era incapaz de matar, mas não de matar-se. E jamais compreendeu a crueldade hu-mana e os homens de luta», escreveu Goytisolo sobre Cesare Pavese. E julgo que disse muito quanto à seriedade e sensibilidade do autor de Lavorare Stanca. Acho que foi imperfeitamente medida esta amplitude entre uma coisa e outra, talvez a mesma que Camus evocava quando sentenciava que «…sofrer não te dá direitos!», renúncia a tomar o outro como ecrã, o que traduz um respeito e coragem inauditos. Pois, o que é comum é vingarmos no outro o que sofremos.
Este virar para si o gatilho (bem sei que Pavese morreu de uma excessiva ingurgitação de barbitúricos) em vez de transformar a irresolução própria numa energia para viciar as relações com os outros, aceitando esculpir-se no silêncio, afigura-se um gesto de um homem fatigado mas inexoravelmente honrado.


Nunca deixou de me impressionar uma afirmação do Ernesto Sampaio, numa entrevista que lhe fiz: no Império Romano, à data da sua queda, havia 40 maneiras de refinar o azeite. Não creio que tivéssemos chegado a este requinte e contudo, tendo em vista a histeria com que fazemos gala de ter opinião sobre tudo e todos, é nítido que já não nos sabemos ouvir e nos comportamos como gueixas que já só encontram cera na orelha de Van Gogh.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

PROCURANDO POR LAURA

                                                                           cindy sherman


Chamava-se Laura, pediu licença, e em plena aula de Estética
- o que os marmanjos depois me crivaram de perguntas -
estendeu-me um papelinho dobrado em quarto:
«Jantar em minha casa, hoje, às 20 horas». 
Era em Benfica. Ela era do Porto,
e tinha do seco em casa, uma garrafa por abrir.
Foi o que me aliviou (cobarde) de puxar a carroça do sexo,
degluti-a até ao último pingo, como se o dilúvio não houvera
parado de durar, e aquele vinho espesso rolou no meu sangue
como bolas de canhão. Aguentou o despautério com uma elegância
que me tornou num velho mandarim a depreciar a lua de Verona.
Nunca me arrependi o bastante, ou pelo menos da forma sentida
que revertesse num cacho um copo de vinho.
É dela o livro de Brecht que agora folheio, trinta anos depois,
e que nunca lhe devolvi, matreiro.
É a Laura Osório, quem conhecer que lhe diga
que sempre estarei reconhecido à sua amizade,
que toda a vida lhe invejei a capacidade para amar
neste baixio de repolhos e piolhos de dúbia face
de que nos coube ser contemporâneos…
e que francamente lamento, como na lenda de Evlyn Roe,
não ter sido um capitão deitado  no seu seio…
o capitão Petrarca, que menos não merecia.
 


segunda-feira, 11 de junho de 2012

UMA MINORIA INCOMENSURÁVEL/ cadernos de Maio

                                                                      Walter Zandamela



Escreve Godard: «hoje em dia toda a gente tem dois ofícios: o seu e o de crítico social» - e adivinha-se aqui o quanto corremos de língua de fora contra a vertigem, no sentimento de estarmos cientes da amplidão do desastre no momento em que já é tarde.

Todos os dias, ao acordar, olhava para as unhas dos pés, todas recurvas e enodoadas, e censurava-as uma a uma como se fossem os seus cinco filhos estroinas e contumazes, antes de gritar para dentro, para a criadagem: Nilza, chá, torradas e a tesoura de poda…

 Onde estão os cipestres?
Aí está o exemplo duma pergunta inútil
Nos lábios de um morto:
E é preciso ser cego para não perceber
Que os cipestres migram
No implausível dorso das andorinhas
Para onde os vivos libam.
Mas vai uma aposta?

Escreveu no teste, «a performance segue os trâmites da ‘obra aperta’». Escreveu três vezes para que eu percebesse que não era gralha, que ele tinha de facto descuidado a leitura de Eco e de Cohen. Agora o exame aperta-lhe as tripas e veio bater-me à porta regatear um ponto numa pergunta onde o santo nome de Shakespeare se transformava em Shakespee. Portei-me como uma verdadeira cascavél: xsheee… pee!

Sem nos darmos conta, o tique de carinho canalha que permeia as amizades e o convívio em que muitos portugueses são vezeiros, nunca dando carinho sem uma pontinha de rudeza, ou sendo líricos mas envergonhados disso (como o O’Neill, por exemplo), é uma forma de distanciamento brechtiano automatizado, e tem como fito “manter-nos alerta quando uma parte de nós deseja entregar-se totalmente aos apelos do sentimentalismo” (Brooks). É a nossa forma de comentarmos: aqui vai disto, mas estamos a pau…

Despenhou-se sobre uma zona residencial, o poema.
Tudo o que restava dum grande grito no silêncio
Arde agora como o fantasma a quem o nevoeiro defenestrou.
Está por apurar o número das vítimas mortais.

Só nos países foleiros, em que nunca nada de estrutural se empreendeu, é que aquilo que o «público» quer tem tanto peso na economia dos bens culturais. Mais do que nivelar por baixo, é amputar por baixo.
Portugal foi sempre um país de galos capões, desde que os marinheiros e navegadores deixavam aos escravos as tarefas primordiais de espalhar a semente na terra, e no corpo e espírito das legítimas. Ainda vivemos dessas ondas de choque de levarmos séculos a foder a mulher por delegação e por isso não admira que abramos mão do «gosto» para nos confortarmos com os ditames do mercado. Claro que neste cenário a cultura será sempre excedentária, em vez de ser catalisadora de ganhos simbólicos e de lucros concretos; se o escroto que define as suas políticas não é o nosso…

Pois é, ninguém é superior a ninguém mas que há coisas mais importantes do que outras, lá isso há.

A anedota é atribuída a Bashô. Confessava este um dia: expliquei o zen ao longo da minha vida e de repente deixei de o compreender. Oh, perguntou o interlocutor, como pode então explicar alguma coisa que não compreende? Bom, replicou desanimado Bashô, devo também explicar-vos isso?
De facto não é possível ensinar nada a ninguém, apenas insinuar… o resto depende de como cada um arma ou investe no que não compreendeu.  

Tão laminada que não se dá à confidência - a libélula.
Por isso o haiku me parece curto,
Ainda que seja mais vivo que a esfinge.

domingo, 10 de junho de 2012

AUGÚRIO

                                       


                                           Herói, técnica mista sobre papel - Walter Zandamela
                                            um dos melhores artistas da nova geração em Mz

«Deitado na praia sem fim vi como as ondas alterosas arrojavam à praia um corpo igual ao meu, fossilizado. Em vão procurei levantar-me. Pseudomorfizado, o meu corpo era um tecido espesso de caracóis petrificados, de conchas antidiluvianas, de deliciosas miniaturas peroxidadas de animais desconhecidos. No interior dos delicados interstícios uma membrana transparente descobria feéricas paisagens submarinas onde signos do Zodíaco flutuavam luminosos. Pela estreita passagem que atravessa a rocha Teyeera, que cerra, cara ao poente, o horizonte, vinha uma horrível procissão de monstros: polvos com patas de camelo, gigantes com cabeças de cavalo, mãos hercúleas sustidas por finíssimas patas de avestruz, olhos de córneas fosforescentes entre imensas pestanas escamosas. Se o mar, transformado numa só onda negra, cobrisse toda a terra! Mas o mar, na sua transição vespertina, é uma vasta pedra de ónix onde as estrelas vêm reflectir as suas veias rubras e acesas e desenham deltas misteriosos, imensos, inabordáveis.»

Não é Lautréamont, nem Lovecraft. É J. V. Foix, um dos grandes poetas catalães do século XX. A preparar um texto para uma aula, socorro-me do velhinho Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial, do Mário Cesariny, e descubro acidentalmente este texto, que sempre me havia passado ao lado. Mas o melhor é depois relembrar-me que tenho comigo três livros de Voix, que nunca li, uma antologia e duas obras consideradas capitais na sua bibliografia: Solo, I de Duelo e Las Irreales Omegas. Já me imagino a urrar de gozo nos domínios deste poeta para quem a metamorfose é o eixo vertebrado. Nem todas as semanas prometem  como esta, neste mundo que se degrada porque as pessoas tomam as palavras por surdos-mudos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

FALHAR OS ALVOS

Cansaço de ser professor.
Hoje pela terceira vez seguida os alunos de Dramaturgia baldaram-se à aula, às 7h30 da manhã, o que acontece desde que os obriguei a ler Rabelais, avisando-os de que iríamos fazer um teste a partir “dessa matéria” e uma adaptação de um capítulo de Pantagruel para stand up (- pode ser coincidência e ser relacional, sendo o problema meu, mas então porque não faltam os mesmos alunos às aulas de Análise Teatral?)
Versos que desviei dos trabalhos dos alunos:
“o sujeito é o homem
que inverte
o boato em carne”:
roubado de um teste;


“todos nós temos uma bibliografia emocional”:
roubado de outro teste;

Mas antológica talvez seja a resposta que me deu um aluno à pergunta sobre quais os mitos da comunicação (no sentido de enganos, engodos, falácias) que mais o tinham surpreendidos ser falsos (depois de passarmos três semanas a dissecar os 19 mitos da comunicação, segundo a Escola de Palo Alto):

«Professor, a mim o mito que mais me surpreendeu ser falso é o que diz que quando chove é porque os gatos estão para casar, ainda que na verdade nunca tenha sido convidado para o casamento de nenhum gato…»

Há algo que não está a carburar bem na relação das pessoas com o conhecimento e talvez a perda ou a fractura com uma «mathesis» (um campo completo do saber) mediadora de uma visão unitária do mundo, esteja, por um infundado receio irracional, a empurrar as pessoas para uma imbecilidade crescente pois poucos aprendem a orientar-se no fragmento, no meio de cambiantes, na dissonância, a achar os padrões sob a “aparência” do caos, e nesse desnorte é mais fácil perder a capacidade para ler o real e os seus signos e para ser, na sua vez, um operador da simbolização. E ei-los aos molhos, os anoréxicos do sentido.
O facto é, de ano para ano os alunos chegam-me mais mal preparados, com menos instrumentos. E a culpa não pode ser só dos professores.
Eu fui um péssimo aluno. Bom, apanhei o 25 de Abril e 74 em cheio, estava no quinto ano do liceu e as motivações multiplicaram-se em flecha para tudo o que era exterior à escola. Mesmo na universidade fui um calão, mas eu tinha um interesse, um foco – a literatura. Simplesmente, tudo o resto (estupidamente) não me interessava da mesma forma. Mas aí espraiava-me, entusiasmava-me, progredia.
Eles não têm qualquer foco. Batem-se apenas por um emprego, a qualquer preço, e pelas sextas-feiras à noite.
O mundo atomiza-se, e não me apetece mais assistir a este suicídio.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A TOILETTE DO MORTO


Talvez à morte de David Carradine só o Colombo
a pudesse desvendar    O aparato daquele fim (digno
de um remake de Kill Bill) intercepta
a minha desairosa  vida,   deita de borco

as mais ousadas fantasias e mina-me os perímetros
da memória   Antes de Abril  que houve
além da série Kung Fu e do longo beijo falhado
a um enxame de raparigas que depois de mim odiaram

incansavelmente a poesia? Só hoje me contaram,
neste meu ermo mundo,  enforcado num nó de ar
quase corrediço   Por acidente dizem, uma corda

atando pescoço e pechota, dois caules que só diferem
na corola   Cingiu-se aos parâmetros de um errante
observador de aves,  a asa encontrou a água

domingo, 3 de junho de 2012

O HANGAR DE ARQUIPÉLAGOS


48 páginas | Formato: 11x15cm | Capa: Cartolina branca de 300g. | Sobrecapa impressa a 4 cores sobre papel Fedrigoni Arcoprint 140g. | Miolo impresso em papel Fedrigoni Editorial creme 85g.
Depósito legal 343735/12 | ISBN 978-989-8592-01-9          PVP: € 4,90
A Companhia das Ilhas, projecto capitaneado no Pico pelo Carlos Alberto Machado e pela Sara Santos, ameaçava, e agora pôs o barco a andar.
É um verdadeiro canivete-suíço, este projecto, com acções várias planificadas, das áreas de formação, à divulgação da arte, literatura e aconteceres açorianos, bem como no da edição – que se manifestou com fragor: seis livros publicados de uma vez (e prometem-se, dicionários, enciclopédias, brochuras, mapas, atlas e cartas geográficas).  
Quando se visita o site da Companhia das Ilhas, o que logo impressiona é o cuidado com que este projecto foi preparado, a sua articulação. Contra a crise, não fazer à toa, mas estruturadamente, com um veio romântico, mas sustentado. É favor, visitarem a coisa.
As hostilidades abriram-se com duas colecções: a
Colecção azulcobalto / Obras inéditas de autores contemporâneos (poesia, ficção, teatro, ensaio), e a Colecção transeatlântico / Obras de ficção, poesia, teatro e ensaio de autores açorianos contemporâneos e livros de temáticas açorianas. Literaturas oriundas do espaço lusófono e da Macaronésia.
Bela Dona, e outros monólogos, de Pedro Eiras, Passageiros Clandestinos, de Fernando Machado Silva, Tratados, de Mário T Cabral, Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, de Nuno Costa Santos, Estórias Acorianas, de Carlos Alberto Machado, e Ficas a dever-me uma noite de arromba, que eu assino, fazem o elenco da primeira fornada, que pode desde já pedir por online à Companhia das Ilhas.
Os livros são muito cuidados graficamente, são de um especioso formato bonsai, e não ultrapassam a faixa dos cinco euros.
O conjunto é equilibrado e realço desde já os fulgurantes monólogos teatrais do Pedro Eiras (que eu não conhecia e saúdo) e a extrema segurança com que Fernando Machado Silva se desenvencilha ao seu segundo rebento. Mas de todos darei notícia.
Só para dar um exemplo agora, o Carlos Alberto Machado desenvolve uma série de pequenas histórias deliciosas, de que aqui deixo uma:
COMUNIDADE DE ESCRITA
As antigas figuras de sabedoria têm sempre qualquer coisa que nos atrai e que ao mesmo tempo nos inspira respeito. Da história e da mitologia vêm carregos de exemplos. Na nossa freguesia, sentado na sua cadeira de sempre do Café Central, o senhor Gustavo é a nossa figura de sabedoria. Enfim, pouco importa a designação, mas sim a pessoa. O senhor Gustavo está naquela cadeira desde sempre. Não conheço pessoa que se lembre de ver aquela cadeira sem o senhor Gustavo. Ele inaugura e fecha o dia e só um acidente, como a entrada de um forasteiro, pode perturbar a norma.
O lugar ocupado pelo senhor Gustavo no Café Central está constantemente rodeado por pessoas de todas as idades e condições. Sempre, mas sempre, com o mesmo intuito: o de o ouvir a in-ventar e reinventar histórias sobre histórias sobre histórias, as que inventa a partir das suas vivências (onde? quando?) e as que de todo o mundo acolhe na sua imensa memória. Não as escreve, já se terá percebido. Cada um dos seus ouvintes anota as histórias e as incontáveis versões, modificações e acréscimos que o senhor Gustavo incansavelmente lhes introduz.
Dependemos todos destas histórias e dos modos como elas são modificadas. Repetimo-las em todo o lado, entre amigos e familiares. Circulam em simultâneo muitas dezenas ou mesmo centenas de novas formas ou apenas pequenos acrescentos. Pesquisamos em casa e na biblioteca da freguesia tudo o que pareça ter a ver com as origens das narrativas do senhor Gustavo e assim enriquecemos cada história. Transformamo-nos em pesquisadores e especialistas de mitologias, tradições orais de todo o mundo e de todos os tempos. Os mais velhos de nós são constantemente desafiados a recordarem-se do que os seus pais e avós lhes contaram, e, às ve-zes, até das memórias destes. A nossa freguesia, graças ao senhor Gustavo, é uma complexa rede de histórias, mitos, contos, lendas, lenga -lengas, máximas e provérbios, poemas de todo o tipo e até de canções. Na biblioteca acumulam-se milhares de páginas deste fabuloso universo que criamos a partir do Café Central.
Na Escola, as nossas crianças aprendem a ler a partir do que todos escrevemos e é também com isso que partem para outras aventuras do conhecimento e do prazer, juntos, como deve ser.
Como vêem, a minha aldeia poderia ser a aldeia mais feliz do mundo – não se desse o caso de ter sido inventada no Café Central pelo senhor Gustavo.

Sobre o livro que aqui publico, nesta comunidade de escrita, que há a dizer? São cinco contos, todos passados em Moçambique.
Quando era miúdo fiquei muito impressionado com uma entrevista de Ray Bradbury em que ele contava que iniciara a sua carreira escrevendo um conto por semana. Ao fim de um ano são 52 contos. Dada a altíssima qualidade que em média se patenteia nos livros de Bradbury, é espantoso. Secretamente, sempre alimentei esta rivalidade com ele, onde, evidentemente levo cabazadas de 8 a 2. Isto para explicar que estes são contos rápidos, na sua grande maioria escritos de jacto, num dia, e com os riscos disso.
Adiro assim nestes contos à arte do fresco, onde, ao contrário da pintura, não se pode retocar. Claro que sempre que lhes punha um olho lhes mudava um adjectivo ou substituía uma forma verbal por outra, mas estruturalmente foram fixados à primeira.
O resto é consigo meu caro leitor, meu hipócrita, meu irmão.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O PODER DAS CIRCUNSTÂNCIAS SEGUNDO GOETHE, OU O LAMENTO DE UM CONCERTISTA DECADENTE

francesca woodman: o harmonioso fim-de-semana que não vou ter

                                                                                            para o Jorge P. Pires

Como medir o círculo sem fim de uma lágrima arrancada a Deus?
Como medir o círculo sem fim de uma lágrima num mundo sem Deus?
Como diminuir o círculo da dor se se amplia o desconhecimento sobre o paradeiro da origem?
Em que cicatriz se enterra o seu raio?
Estar face a face com o caixa no Banco, que me anuncia:
"a sua transferência ainda não caiu!"
e não ter lágrimas como a que cavalgava aquele tigre entre as nuvens
(aquele tigre-concertina de cujo hálito nasciam os ventos)
ou não ter o incisivo da alimária para lho enterrar até à glote,
numa reiterada estridência!
Merdre.
Animar tanto que é visível, quanto o que é
 subterrâneo, é agora o programa do fim-de-semana.
Talvez ir com as miúdas ao aeroporto, medir a graça
(o airoso empinar do nariz) com que os aviões descolam,
enquanto as industrio sobre a inegável presença do número. 
Peut-être, ó nomeado, possas aí descobrir
como alguns prescindem das inermes preocupações materiais,
enquanto ficaste preso naquele rio roto, no calcanhar do pé dela.
O poema é o detalhe total, diz o Jouffroy,
e eu sem apelação, galo que plange face à afiada sirene do navio,
 pergunto, alguém me empresta o Zalmoxis?


quinta-feira, 31 de maio de 2012

REFLEXÕES DE UM NOMEADO

                                 francis bacon, contra os sucessos, a verdade do claro-escuro

Escreveu-me o meu editor e amigo brasileiro, o escritor Nicodemos Sena: «Percebe que a LETRASELVAGEM é como que um "patinho feio" entre as chamadas "grandes" editoras brasileiras, que dominam o "mercado". Na esteira dessa classificação, verei se consigo que algum grande jornal faça uma entrevista contigo.
Fico feliz por que esse resultado veio sem apelar para nenhumos dos deploráveis expedientes empregados pelos que buscam sucesso fácil. Ficar entre os 20, num concurso com bases internacionais, sem nenhuma "ajuda" além da qualidade intrínseca da obra e da edição, já é um feito extraordinário.
Ah, até agora não tive resposta da nova distribuidora brasileira que o Tavares indicou-me para levar teus livros para Moçambique. Mas ainda é tempo de resolvermos isso.»
Gosto de fazer de outsider, que a Letraselvagem, uma pequena editora, ainda que exímia no cuidado, elegância gráfica, e no trabalho obstinado na divulgação das coisas que publica, compareça por minha causa nas listas dos nomeados a um prémio literário com tanto foco mediático, no meio das poderosas Rocco, Alfaguara, Companhia das Letras, Cosac Naify, Leya, Record, com várias nomeações cada, e que os agentes da cultura ou os leitores se sintam intrigados e queiram prestar mais atenção à editora, isso dá-me tanto ou mais prazer que a minha nomeação.
Premiar o magnífico trabalho da Letraselvagem, do Nicodemos Sena e da sua equipa, até porque esta é uma editora feita por escritores, por pessoas que amam os livros e se batem pela dignidade do que escrevem e das suas condições de publicação, parece-me prioritário.
A Maldição de Ondina, foi o resultado de um ano e meio de trabalho, desde o primeiro esboço com 60 páginas, até à quarta versão com 220. Foi um livro arrancado ao chão das dúvidas, pois era o meu primeiro romance, depois de anos a só escrever contos, e as estruturas e modulações do romance são muito distintas. Já não me assusta o romance, mas foi vital respeitar o desafio e as peculiaridades do género, ainda para mais num livro cheio de tramas e que não se fixa num só plot, mas antes se vai entretecendo num desenvolvimento coral, como um filme de Robert Altman. Optar por um tipo de estrutura aberta e manter o interesse do leitor e a tensão era o desafio.
Mas ainda há dez minutos vestia a bata da Jade e lhe espreitava a cabeça para ver se a crise de piolhagem que devastou a escola já foi debelado, a meio daquele catanço, perguntei-me se o Rabelais não me consideraria um piolho. E acho que sim, que na farta cabeleira do Rabelais ainda não passarei de um piolho ruivo cheio de cagança que faz o karaoke do Pavarotti. E o importante é o próximo livro, esse que ainda não está resolvido; o importante é discernir o que há a reflectir com esta minha nomeação.
Duas coisas:
- Porque é que este livro não está editado em Portugal?
Espantoso que ninguém se tenha interrogado sobre isso. Eu conto. Mandei o primeiro capítulo (que é uma abertura forte, uma espécie de tufão na cabeça com um humor sacana, à Chandler) para o actual Ministro da Cultura, e disse-lhe, «meu caro, como tens a mania que gostas de policiais, aí te mando um cheirinho do meu, acho que ficava catita na Quetzal ou na Bertrand, se te apetecer ler o resto apita…». Não apitou. Por estritos motivos pessoais, não me grama, e nele o faro para as antipatias é maior que o nariz para o negócio.
Da Porto Editora responderam que gostavam muito mas que queriam uma versão «light», para o «gosto médio do leitor português».
Para a Teorema, que me editou outros livros, e que por contrato tinha direito a uma primeira leitura, mandei a primeira e canhestra versão do livro, para eles dizerem que não (nada responderam, como eu previa) e eu ficar com o livro liberto, pois depois de me terem pago direitos de autor por setenta, repito: setenta, livros vendidos de Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo (uma aldrabice que, eu que fui editor, declaro ser impossível, a não ser que a distribuidora tenha aceite como devoluções todos os livros vendidos a firme, o que é um tiro no pé), de 2008, um livro de 300 páginas que me levou dois anos de combate, percebi que aquele negócio só servia o senhor de bigode cor de barata velha que lá ocupava o trono.
Não enviei para a Caminho, Asa, D. Quixote, ou Assírio, porque tenho experiência de me terem sido devolvidos manuscritos por abrir, sem terem sido sequer lidos. Uma vez a Maria Alberta Menéres, que eu não conhecia, leu um infanto-juvenil meu, que lhe foi entregue por interposta amiga, e telefonou-me entusiasmada: «O sr. escreveu um clássico, vou levar já para a Asa». Eu respondi, «Agradeço-lhe a diligência, mas não creio que na Asa o aceitem…», «Porquê, interrogou-me ela, se o livro é tão bom…», «Pode ser bom, mas a reserva do senhor por mim é maior…». Não acreditou, e levou o livro mais o seu entusiasmo à Asa. Eu fiquei a pensar com os meus botões que depois de «escrever um clássico» só me restava dedicar-me à mecânica de avionetas, e aguardei. Sentado, felizmente. A cadeira apodreceu. Nem uma resposta, como eu previa.
E os editores em Portugal estão lá para fazer amigos e não negócios. Etc., etc.
Quando, a medo, enviei o manuscrito para o Brasil, recebi o contrato numa semana. O livro tinha sido lido como livro e sem o ecrã prévio da minha pessoa constituir um obstáculo para sua leitura. Compreendem? Só interessava a qualidade do livro. Ou a tinha ou não tinha. Parece que tinha, pois houve uma série de brasileiros que sem terem a ilusão de que me conhecem o leram e votaram nele para a nomeação.
É uma coisa triste ter que constatar que no meio literário conta mais os elos pessoais que a qualidade das coisas. Isto devia ser reflectido.

- Considero-me um nomeado vencido.
Ponto. Claro que é sempre confortável uma nomeação e gostei que aqueles mesmos jornalistas que não leem nem escrevem sobre os meus livros (de que à partida, sem os terem lido, não gostam), e vão quinze, chiça, tivessem que digitar o meu nome na notícia (no Público, para além do que escreveu sobre mim o EPC fui sempre ostracizado, e no Expresso, onde trabalhei 19 anos, também passou a ser norma silenciarem-me) e sentir que um prurido lhes descia pelo intestino delgado.
Mas é mais triste perceber que no essencial estou na mesma: precisava de um retiro de três meses para acabar o meu próximo romance e tenho de andar numa lufa-lufa idiota para pagar a casa e as propinas das crianças e não me afogar o fim do mês. Porque disse sempre que não a coisas que me encheriam a pança mas comprometeriam o meu espaço de liberdade e escrita. E então eis-me no calafrio.
Num calafrio que me obriga moralmente a concorrer, ora para a hipótese de poder aliviar com mexilhão de primeira os meus, ora para que faça sentido. Contudo, à partida gostaria de não ter concorrido. A literatura não tem nada a ver com prémios. Ainda que haja bom circo, é circo. Terei a humildade de o aceitar. Preferia no entanto estar no Japão a escrever uma biografia do Hokusai. Enquanto o não puder fazer serei sempre um nomeado vencido.
Bom, entretanto, anunciemos que A Maldição de Ondina, vai ser publicado em Portugal em Setembro pela Abysmo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

UMA CARTA DIZ MAIS QUE MIL IMAGENS

Em Moçambique não há comunicadores, só há comunicólogos afrocentristas

Foi recebido nas redacções dos jornais moçambicanos
o comunicado com este teor:


Á DIRECÇÃO EDITORIAL


                                                                 Maputo, ao 24 de Maio de 2012


Assunto: Convite para participar no Concerto Coca-Cola Afro Mega Show


A CAPTIVA8, Agência de Comunicação escolhida pela  Coca-Cola, vem por meio desta, convidar a órgão de informação que o Sr. ( a ) representa, a participar no Concerto Musical para celebrar a nova campanha Bilhões de razões para acreditar em África” e comemorar a 10ª edição da Copa Coca-Cola.

A Campanha Coca-Cola Afro Mega Concerto tem os seguintes objectivos:

-Estimular os africanos a sentir orgulho a nível pessoal, comunitário, regional e global;

- Queremos que os africanos vejam que enquanto o mundo se encontra em um estado volátil do fluxo económico e social, África está emergindo como importante jogador económico, social e cultural;

-Reorientar a juventude (lideres culturais), a uma oportunidade e potencial que já existe em África.

 Os portões estarão abertos a partir das 13:00hrs, onde os consumidores poderão participar de algumas actividades antes do início do mega show.  (PERGUNTO: NOS PORTÕES)

 Transporte para os jornalistas garantido, começando a recolha dos mesmos as 14:00Hrs.

NB: os jornalistas devem indicar o local onde serão encontrados.

Agradecíamos que confirmassem a vossa presença.

 Agradecemos antecipadamente a Vossa presença, esperando merecer melhor compreensão e subscrevemo-nos com elevada estima e consideração.


          Milva Santos     

      (Directora geral)

Lady Milva

       eu é que agradeço antecipadamente o estímulo para, diante de tal mostra de desempenho, profissionalismo, rasgo de imaginação e acerto gramatical poder ilustrar cabalmente o nível dos estudantes em Moçambique e a habilitação dos seus jovens operadores.

O estado volátil do seu fluxo discursivo já fede e encontra-me em dia de menor compreensão, depois de duas semanas em que tive de adiar testes na universidade, em Maputo, por causa da recusa sistemática dos estudantes em ler um simples texto com um léxico de mais de trezentas palavras, e o resultado está à vista no seu comunicado.

Se a Captiva – Consultoria em Comunicação – arvora, na generalidade, o nível de elaboração demonstrado neste comunicado, só pode ser um embondeiro da comunicação e está justificado o orgulho africano.

A maior miséria do mundo está em não se ter sequer consciência da nossa miséria mental mas estou certo que a metade mais criativa da sua tão vincada personalidade, assim que lhe forem apontados os erros do seu comunicado, criará o slogan: CAGA E SEGUE! Porque temos de sobreviver a qualquer custo, não é?

A língua é o nosso JPS – se uma especialista em comunicação (que digo eu, se A DIRECTORA) não o tem, como evadir-se do canhoeiro que teima em conhecer o focinho do seu Fô by fô? Faço-me entender?

Gosto muito desse pormenor das Activações na vossa apresentação. É um fermento, não é? Dá para todo o tipo de bolos? Neste mundo tão estátua de si-mesmo, tão mortiço, tão marasmado, uma activação jovem sempre dá um pouco de pica, não é?

Se precisar alguma vez de um endireita, não tenha pejo em contactar-me, os meus preços são em conta e aceito meticais.

À Coca-Cola endereço os meus parabéns pelo discernimento na escolha da Agência – nada seria tão elucidativo sobre o futuro que nos espera com o potencial africano como esta campanha. Havia de facto “bilhões de motivos” para a Agência Captiva ter sido a escolhida; por uma vez num país de cunhas & esquemas triunfou o mérito.
BIBA O CONSERTADO!

Gostei também muito do elenco escolhido para o Show: a brigada da iliteracia musical moçambicana. Verdadeiramente à altura da vossa campanha. A massa bruta encadeada aderirá em força, é garantido, e se houver muita Coca será um acto promocional sublime.   

Infelizmente não poderei aceitar o vosso convite, nesse dia estarei com a família em Marte, a tentar recuperar das mazelas deste mundo, que, veja lá, ainda não entendeu que não queremos ser "consumidores" mas sim cidadãos de pleno direito, mas se o evento se repetir marcarei presença, eu e os meus, que cá em casa somos todos daqui.  Atenciosamente,

António Cabrita, Ex-Jornalista, escritor, Professor, Bacharelato em Comunicação 

PS. -Não se preocupe, a TDM e a Banda Larga em Moçambique estão à altura da sua competência, levei mais de uma hora para conseguir fazer este postal 

terça-feira, 22 de maio de 2012

LEMINSKI, O ARRAÇADO DE GROUCHO COM BASHÔ

O ”Vampiro Silencioso”, Dalton Trevisan, não é a única glória de Curitiba, não. Vêde Leminski (1944-1989), Paulo de sua graça, filho de polaca e de negra, um arraçado de Groucho com Bashô, de quem fez uma biografia, e que fez canções com o Caetano, para a Cor do Som, para dezenas de outros músicos, publicista e prosador experimental, que tem em Catatau a sua coroa de glória (e é de ter, e é de ter), concretista & dissidente, tropicalista & tradutor (falava seis línguas, entre as quais latim); poeta das arábias e cinturão preto do judo. O mais quem quiser que descubra, eu só abri a porta.
Esta antologia é feita de três livros (o homem escreveu para aí 20): La vie en Close, Caprichos & Relaxos e de Distraídos Venceremos. Há uma biografia divertida, O Bandido que sabia Latim, que se encontra pela net. Ah, já me esquecia, morreu de porre. Boa aragem:

CURITIBAS

Conheço esta cidade

como a palma da minha pica.

Sei onde o palácio

sei onde a fonte fica,



Só não sei da saudade

a fina flor que fabrica.

Ser, eu sei. Quem sabe,

esta cidade me significa.



                               MINHAS 7 QUEDAS

minha primeira queda
                                 não abriu o pára-quedas
                                
                                 daí passei feito uma
                                 pedra pra minha segunda queda
                                
                                 da segunda à terceira queda
                                 foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
                                 na sexta continuei caindo
                                 agora com licença
                                 mais um abismo vem vindo


                                  
                                 quem me dera um abutre
                                 pra devorar meu coração!
                                 naco de carne crua
                                 comida de pé no balcão!

 quem me dera um apache
pra colher meu escalpo!
                                 que desta vez não escape
                                 nenhum disfarce!

 tomara que um furacão
caia sobre meu navio!
                                 que nenhum deus nem dragão
                                 possa ser meu alívio!


um dia

a gente ia ser homero
                            a obra nada menos que uma ilíada

 depois
                              a barra pesando
                              dava pra ser aí um rimbaud
                              um ungaretti um fernando pessoa qualquer
                              um lorca um éluard um ginsberg

 por fim
                              acabamos o pequeno poeta de província
                              que sempre fomos
                               por trás de tantas máscaras
                               que o tempo tratou como a flores





                                      um poema
que não se entende
é digno de nota

a dignidade suprema
                                      de um navio
perdendo a rota


                            PAPAJOYCEATWORK



(Noite. Joyce começa a escrever)

Madmanam eye! Light gone out!

(Cai no papel)

Mustmakesomething! Reverythming!

(Morde os lábios e gargalha)

A poorirish is a writer mehrlichtsearching,

yesternighteternidades!

(Troveja. Relâmpagos iluminam o quarto. Joyce

prossegue)

Thomasmorrows? Horriver!

Nice and sweet — the speech of England,

damnyou! Dont?

Must destroy it, just like a destroyer would do it

yourself! Como um verme. Yes, I no.

Done to Ireland! What have they done? It will do.

Beforeblacksblanco, we are even, this very evening!

Think is so.

My vengeance will be as big as say a country as big

as say Brazil.

Someday my prince will come. Our prince:

Seabastião!

Arrise, Lewisrockandcarroll!

Waterrestrela, am I a dayer?

Just a wakewriter.



AVISO AOS NÁUFRAGOS

 Esta página, por exemplo, 

não nasceu para ser lida.

Nasceu para ser pálida, 

um mero plágio da Ilíada,

alguma coisa que cala, 

folha que volta pro galho,

muito depois de caída.



Nasceu para ser praia, 

quem sabe Andrômeda, Antártida,

Himalaia, sílaba sentida, 

nasceu para ser última

a que não nasceu ainda.



Palavras trazidas de longe 

pelas águas do Nilo,

um dia, esta página, papiro, 

vai ter que ser traduzida,

para o símbolo, para o sânscrito, 

para todos os dialetos da Índia,

vai ter que dizer bom-dia 

ao que só se diz ao pé do ouvido,

vai ter que ser a brusca pedra 

onde alguém deixou cair o vidro.

Mão é assim que é a vida?



ICEBERG


Uma poesia ártica, 

claro, é isso que desejo.

Uma prática pálida, 

três versos de gelo.

Uma frase-superfície 

onde vida-frase alguma

não seja mais possível. 

Frase, não. Nenhuma,

Uma lira nula, 

reduzida ao puro mínimo,

um piscar do espírito, 

a única coisa única.

Mas falo. E, ao falar, provoco 

nuvens de equívocos

(ou enxame de monólogos?). 

Sim, inverno, estamos vivos.



 ANCH'IO SON PITTORE

 fra angélico 
quando pintava
uma madona col bambino 
se ajoelhava e rezava
como se fosse um menino

 orava diante da obra 
como se fosse pecado
pintar aquela senhora 
sem estar ajoelhado


 orava como se a obra 
fosse de deus não do homem



sossegue coração

ainda não é agora

a confusão prossegue

sonhos a fora



calma calma

logo mais a gente goza

perto do osso

a carne é mais gostosa





lá fora e no alto

o céu fazia

todas as estrelas que podia



na cozinha

debaixo da lâmpada

minha mãe escolhia

feijão e arroz

andrômeda para cá

altair para lá

sirius para cá

estrela dalva para lá






TEXTOS TEXTOS TEXTOS

malditas placas fenícias

cobertas de riscos rabiscos

como me deixastes os olhos piscos

a mente torta de malícias

ciscos



                           BLADE RUNNER WALTZ 



Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao som da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente.

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.



                            O QUE PASSOU, PASSOU


Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos,

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

Inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.



esse vôo

ao vento que mais dói

eu dôo



                                     
                                              saber é pouco



como é que a água do mar

entra dentro do coco?




o dia é um escombro

o vôo das pombas

sobre as próprias sombras






a noite — enorme

tudo dorme

menos teu nome




o corvo nada em ouro

nem o céu estraga o vôo

nem o vôo dana o céu




chove no orvalho

a chave na porta

como uma flor no galho




A LUA NO CINEMA

 A lua foi ao cinema,
passava um filme muito engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

 Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

 A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!



A palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece


 Amar é um elo
entre o azul
e o amarelo



DESENCONTRÁRIOS

 Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.

Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
fazer poesias, eu sinto, apenas isso

Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.



nu como um grego
ouço um músico negro
e me desagrego


soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento




Foi em 1963, na “Semana Nacional de Poesia de Vanguarda”, em Belo Horizonte, que o Paulo Leminski nos apareceu, 18 ou 19 anos, Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse um discípulo zen de Bashô, o Senhor Bananeira, recém-egresso do Templo Neopitagórico do simbolista filelênico Dario Veloso.
            Noigandres, com faro poundiano, o acolheu na plataforma de lançamento de Invenção, lampiro-mais-que-vampiro de Curitiba, faiscante de poesia e de vida. Aí começou tudo. Caipira cabotino (como diz afetuosamente o Julinho Bressane) ou polilingüe paroquiano cósmico, como eu preferiria sintetizar numa fórmula ideogrâmica de contrastes, esse caboclo polaco-paranaense soube, muito precocemente, deglutir o pau-brasil oswaldiano e educar-se na pedra filosofal da poesia concreta (até hoje no caminho da poesia brasileira), pedra de fundação e de toque, magneto de poetas-poetas.
            Das primeiras invencionices ao Catatau, da poesia destabocada e lírica (mas sempre construída, sabida, de fabbro, de fazedor) ao verso verde-verdura da canção trovadoresco-popular, o Leminski vem chovendo no endomingado piquenique sobre a erva em que se converteu a neoacadêmica poesia brasileira de hoje, dividida entre institucionalizadas marginalidades plácidas e escoteiros orfeônicos, de medalhinha e braçadeira. E é bom que chova mesmo, com pedra e pau-a-pique. Evoé Leminski!

Haroldo de Campos