terça-feira, 1 de novembro de 2011

AS FLORES DO N'AUFRAGO



Acordo de noite, sufocado, com ânsias de um filmito. ‘A míngua aqui vos deixo uma serie que escrevi por ocasião dos cem anos do cinema:  
O ECLIPSE
de Michelangelo Antonioni
 
 
E a coroar todas as suspeições havia o exame derradeiro: passar pelo crivo de um filme de Antonioni e sair com o «gosto pela arte» incólume, com algo de pneumático a saciar a alma. Gostar de Fellini, ou de Truffaut, ou até de Marco Ferreri - nesses distantes idos de 70 em que Dillinger Morreu provocava levantamentos populares na plateia - era simples. O difícil, para um aprendiz de cinéfilo com leituras de Camus e que farejava Foucault, era aguentar a parada antonioniana sem fazer «bluff».
Quem assistia a O Grito, ou a Deserto Vermelho, ou, no extremo, a O Eclipse - sem o sentimento de ser o coração de Lola Ferrari no momento em que é atropelado por um seio demasiado amplo para o seu âmbito - é que podia ser considerado um cinéfilo impenitente. E se, aos 15 anos, a minha perplexidade esbracejava diante da «durée» dos planos ou daqueles diálogos à beira de recusarem a comunicação, o primeiro abanão a sério levei-o quando Antonioni, em O Eclipse, faz parar o bulício da Bolsa de Roma - uma verdadeira selva enlouquecida - para registar um «minuto de silêncio» em memória de um corrector falecido.
Se Ferreri - contra a fúria dos meus amigos - me deliciara com os seus tempos reais em Dillinger Morreu, sobretudo na cena em que Michel Picolli nos ensina a fazer uma tortilha (ou seria um bife à café?), Antonioni, nessa sequência, rejeita a elipse e eclipsa os dogmas mais persistentes da muito oleada máquina de cinema de Hollywood, pois esse minuto de cinema consagra exactamente um minuto de não-acção. Hoje, ao ler em George Steiner (Barbarie de L'Ignorance, 1999): «La dignité de l'homme pour moi consiste aussi dans l'inutile, dans le fait que n'est pas rentable une grande pensée... E lá où la censure est celle du marché et des mass média, elle peut-être plus efficace que celle des idiots de la police secrète, qui se trompent, mais à quel prix?»... anuo, acenando a cabeça, mas devo a Antonioni e a essa lição sobre o poder expressivo da «inacção» saber o que se coloca em jogo no alarme do crítico.
Há uma «nuance» aqui: na verdade, o silêncio é suspendido por cinco segundos, para ser explicado por Piero/Alain Delon a Vittoria/ Monica Vitti porque é que na Bolsa «um minuto custa milhões». Nessa breve e impaciente interrupção sela-se a metáfora do filme. Vittoria, uma jovem mulher, rompe com o seu amante e encontra-se sozinha e desamparada. Procura o conforto junto da mãe, mas esta só pensa nos seus negócios na Bolsa. Conhece assim um jovem corrector, que a tenta cativar. Mas Piero depressa denuncia a sua venalidade, e resta a Vittoria a solidão e - o que é magnificamente dado numa cena nocturna, na qual uma deambulação sem rumo definido leva-a a «reencontrar» os pequenos ruídos que compõem o silêncio da cidade - reconciliar-se com a escuta do “inescrutável”.
O fluxo ininterrupto das movimentações na Bolsa sinaliza no filme a tendência para, nas sociedades contemporâneas, se ensurdecer à sombra do «luxo da comunicação» - ao mesmo tempo que «as velocidades contemporâneas» submergem numa sensação de inactualidade os nossos códigos sentimentais.
O sistema, que até sobre «valores virtuais» especula, forçando uma mais-valia, evita um vínculo maior, que é o da partilha desinteressada da palavra e do silêncio numa relação - tudo o que pela escuta mútua amplia o afecto. Diz Vittoria a certa altura a uma amiga: «Há dias em que mesa, tecido, livro ou homem são a mesma coisa» - i.e., a mesma falta de atenção e de diálogo. Por isso, quem interrompe o «minuto de silêncio» na Bolsa é a ansiedade do espectador, irmanado com o agiotismo de Piero. Ou não são os filmes, mesmo os de puro entretenimento, objectos de e para «proveito»?




 A ESTRADA
de  Federico Fellini

Cenário: a estrada fora. A princípio, Zampano/Anthony Quinn é o núncio da morte. Chega e informa a família de Rosa, a última mulher que tomou para si, da sua inopinada morte, pelo que tem de levar outra. Cabe a Gelsomina ser a próxima vendida ao hércules das feiras, Zampano. O estranho é a família, anestesiada pela miséria, não lhe perguntar como morreu a primogénita. Talvez porque a morte seja ali, naquelas choças implantadas numa fímbria de areia à beira-mar, uma presença tão quotidiana como a visão da água - um destino irrevogável, inclemente, que não pede meças ao tempo nem ao lugar. Se morreu, paciência, há que aceitar a nova dádiva de Zampano. Em acto contínuo se realiza a transacção, sendo Gelsomina promovida a «aprendiz» de artista. Assim começa este extraordinário «road movie» de Fellini, e o filme prossegue em traços grossos, sem meias tintas, da mesma forma que o vinho não se mistura com a água para manter activas as suas propriedades calóricas.
É improvável que Gelosima alguma vez tenha ido ao cinema, tal o grau de miséria. E contudo, interiorizou o mimo, a generosa gramática gestual de Charlot. É um Charlot sem safadezas nem cálculos, que só incorporou o lirismo, e por isso destituído de armas para a sobrevivência. Neste sentido, A Estrada, o filme que marca o início de uma trajectória brilhante, é um dos primeiros filmes pós-modernos (e é tão nitidamente consciente o artifício em Fellini que, para evocar o sortilégio do cinema, Zampano, nas suas actuações, anuncia que rebenta as correntes no peito «com a força do nervo óptico»), dado serem as suas personagens não extraídas da «realidade» mas escalonadas como um efeito da memória do cinema e uma homenagem a um dos génios do mudo - Charles Chaplin. Podemos até pôr a hipótese de A Estrada ser o último dos filmes mudos, o filme que seria improvável fazer trinta e muitos anos depois do mudo. Realiza-se neste filme um modelo de concisão, poesia e velocidade. Quem o vê várias vezes apercebe-se da forma veloz como Gelsomina é exposta às experiências, como se fosse um lanho batido por vagas alterosas. Em meia hora acolhe a notícia da morte da irmã, é vendida, torna-se artista de circo, é desflorada, conhece a traição e o sentimento de ser rejeitada, aprende a obedecer como um cão, conhece cinco ou seis povoações, planta tomates e parte sem os ver crescer...
Há uma velocidade estonteante neste filme só comparável à velocidade com que Orson Welles faz evoluir a narrativa em Citzien Kane, mas, o que é espantoso, sem fazer uso do corte, de uma montagem visível, dando até a impressão que o tempo está suspenso como a radiação dos corpos. Zampano e Gelsomina são dois monólitos, duas criaturas que nunca alteram o talhe da origem com que foram afeiçoados. Imunes à reflexão sobre a experiência. Andam ao deus-dará, tal qual foram postos no mundo, ele grunhindo sem abertura para o diálogo, ela com a fragilidade do palhaço a quem ninguém dá atenção. É espantoso o modo autista como ele dá as suas únicas referências biográficas. Ela pergunta: «Onde é que nasceste?», ele: «Na minha terra.»; ela insiste: «Sim, mas onde?», e ele, lapidar: «Em casa do meu pai». A vida secou-lhe passado e presente, só tem reflexo, sobretudo o que se refracta no olvido alcoólico. Pelo meio, há um funâmbulo, o Doido, que morre ao enfrentar em terra as fúrias de Zampano e a fuga deste, deixando a Gelsomina um capote, a corneta e algum dinheiro. Ela é que não deixa de cantar, da nascença ao canto do cisne. Um poema. 

revisão de Rocky Balboa na tv

Rever Rocky num canal por cabo lembrou-me este velho poema:
                        

De resto, dormem quando - as moscas?
Nenhum Halley à vista desarmada
dura mais que um domingo de ventania
mas na verdade, gotejada a infância
num desfalque hidrotérmico, o astro
dobra o cromossoma e descora
gerações, amores, os seus meandros!
É isso que te digo: a minha alma
é um quarto de hotel entaipado,
martelado pelas várzeas interiores     
que só ao medo medram - citrinos
pelo escuro, made in taiwan?
“Recebi o Halley como um uppercut!”
dizia o meu avô e raramente dizia tudo.
Se até o Balboa, à chapada do amor,
desenfia os seus olhos de peixe
e murmura “Não sei que lhe diga,
nunca falei com uma porta” - indefeso
o Rocky, sem mando ou esquiva
para essa condição de plantado
à ombreira de uma veia, knock  knock
no embaciado vidro das emoções,
sem fosfeno para as várzeas de dentro -
há-de ser simples arbitrar entre o medo
e o amor? As evidências multiplicam-se:
a nódoa de ameixa é lixada de tirar,
o Halley ao passar encanece os mortos,
sangra-lhes de novo o que neles feneceu.
No écran dois punhos arrumam um saco
de areia, ou reabrem, numa carícia
surda, os poros ao mundo – e não
pode uma vitória ao bilhar restituir
o viço às promessas, que emudecem
desde Adão e Eva? Sim, tudo às vezes
se simplifica, como água entre poldras.
Sim, ostras com milionários à mesa
é um bom título para romance e há
até experiências incorpóreas que antecipam
um despertar. Mas o enigma permanece:
porque nos comove ainda o amor
quando o coração é uma toalha de mesa
manchada por uma lauta refeição?
E que sede mata o tique-taque, o caixão
que desenha a elipse do Halley?
À beira do décimo assalto, lá onde
as fauces do tigre se oxidam
no teu hálito, knock knock
na porta que debita o sentimento?
Repouso a mão na tua, celebro o silêncio,
não gostas de filmes de boxe mas
está lá tudo: a necessidade de manter
o sonho mais vigilante que o sono,
os espinhos com que as rosas negam
inocência à alba, um sentimento
tão incisivo que ansiamos a trama, os desvios
que sulcam a brancura da duna. Repouso
a minha mão no teu sexo, penso
“as luvas - dormem postas ou na gaveta?
Pode a faca que nos incita à morte
redimir-nos na humidade?”
Repouso o meu desarme no teu e adivinho
o diálogo entre dois anjos carnívoros:
“eu prefiro-os salteados de ilusões
a ter mortos resignados, e tu?”. Apesar
de ter falhado o meu Halley, da dislexia
do tempo que só no poema s´aclimata.
E o quarto entaipado. Vai um round?
De resto, dormem quando – os náufragos?

domingo, 30 de outubro de 2011

A VISITA





Este país é tão pobre de espírito que nem aceita duas ideias diferentes sobre a mesma personagem, proferiu um dia Camilo José Cela sobre a Espanha. O que é certo é este conto de José Angel Valente espantará muito quem sobre ele tenha uma ideia-feita. Pertence ao livro El Fin de la Edade de Plata, seguido de Nueve Enunciaciones. Livro de poemas em prosa e pequenos contos. A tradução é minha.  

Havia duas moscas. Havia duas moscas persistentes. Havia duas moscas persistentes copulando na calva do chofer. Era uma obscenidade inenarrável. Obscenidade, pensaste. Provocação, disse sem vacilar o teu amigo. O chofer, impreterível ao volante. O suor parecia nascer-lhe dos miolos, como se dentro tivesse moscas copulando que ressumassem sebo e satisfação. Assim nasceu Atenas, comentaste.
- Você perdoe-me – cochichou o meu amigo, arqueando o indicador contra o polegar para lhe dar impulso. Catapultado, o dedo acertou em cheio na calva branca e os insectos estatelaram-se no vidro dianteiro do carro. Sobressaltou-se o chofer e esteve a um fio de estampar-nos no castelo português que agora contornávamos. O careca desatou aos impropérios, onde comparecia alguma das três sagradas figuras e o governador militar da praça (praça forte, castelo português e regime alternado de poente e levante).
- Você desculpe.
Mas o dito vociferava ao volante, muito direito. E, no fim de contas, sempre ventilaria a alma se nos espetássemos contra a muralha ilustre, com o calor que fazia no táxi alugado para cinco.
- Melhor não discutir – disse o meu amigo, porque apesar de tudo, o calvo era a chave do assunto e havia que liquidar com ele as prestações ou o a pronto pagamento, o que segundo o meu amigo era o mesmo, pois só o calvo conhecia o lugar e a coisa não era para ser desfeita, à última hora. A mim parecia-me que o calvo tinha razão, mas assenti com os outros três, porque o meu amigo dirigia as operações desde o começo. Ele tinha feito o acordo com o careca e, dada a situação, o melhor era calarmo-nos.
O táxi já enfiava gaguejante num declive, do outro lado do castelo, por onde a cidade se faz mais alta e o mar ressalta em fundo e se entra em tortuosas ruelas de casas muito, muito encardidas. Estava tudo previsto para entre as três e as seis, na quinta, que era quando nos recebiam as senhoras. A coisa era excepcional e nem todo o recém-chegado tinha acesso a ela. Mas o meu amigo era um especialista em negócios matreiros e havia ajustado tudo com tantas contra-senhas e nomes falsos e com tal afã que seria inútil resistir à sua autoridade indiscutível.
O calvo parou e, enquanto descíamos do táxi, disse que esperaria três ruas abaixo por ali estar mais folgado e poder beber algo, e além disso ali mesmo não podia ficar a servir de isco para os zunzuns e a denúncia, se tudo se podia organizar sem necessidade de um escândalo.
Bebemos, não sem certo nervosismo, e ao entrarmos na casa, silente na penumbra, era tão vivo o contraste com a crua luz do exterior que mal víamos um palmo. Assim nos encontrámos, de supetão, na sala, que tinha as cadeiras encostadas à parede e uma mesita baixa no centro com copos de limonada muito pálida, onde se via o açúcar por mexer no fundo. Nas cadeiras estavam as senhoras que reservavam em cada semana três horas, às quintas, àquele pequeno comércio, trabalho extraordinário, atreito a gorjeta. Eram quase todas de sólida aparência e de tetas roliças, mães decentíssimas, às quais o parco soldo de sub-oficiais e a escassez daqueles anos obrigava à sesta com jovens liberais, que o careca e a proprietária da casa, viúva de maestro, organizavam.
Os vultos memoráveis e os rostos começavam a perfilar-se melhor na pupila, habituada já à penumbra. As senhoras abanicavam-se com manifesta dignidade. O trato foi, de entrada, rigoroso e solene.
A viúva fez uma hábil distribuição dos casais, compensadas com tercetos dado o caso, indicação de quarto e preços, reduções possíveis contra a garantia de repetir as quintas, e outras normas de contabilidade e higiene. A limonada produzia, parecia-me, um vago mal-estar e um enervante marulhar nas tripas. O calor que sufocava a olhos vistos, evoluía, na insólita ocasião, em arrepios.
Preliminares não havia, ou eram escassos. Quando a senhora se sentou na borda da cama, eu comentei algo a propósito da colcha de flores. A senhora encolheu os ombros e retorquiu com uma olhadela maliciosa, como se lhe tivesse assomado uma segurança natural e já pudesse chegar-se a mim, mais dona de si mesma, com um sorriso entre o descarado, o materno e o patriótico. Maldisse a limonada e, sem poder prevê-lo, fui tomado por uma tontura. Depois, enquanto esperava pelos outros no táxi, três ruas abaixo, exânime e estendido no banco de trás, senti que o calvo me olhava intrigado ou numa expressão de zomba, mas não imisericordioso, pensei então.