quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O ALERTA AMARELO


Não é bem a descoberta de um tipo de batata nova que em duas dentadas acabasse com o herpes e me devolvesse o cabelo louro, mas quase. É uma pequena derrocada moral, a forma como aos 50 anos cedo à chantagem emocional de um felino, animais para com quem sempre mantive a equidistância de uma porta giratória.
Pertenci sempre ao Clube Amigo do Cão. O fiel amigo é aquilo em que o tornamos. Um gato é como o vapor, translucidez e desapego. O dono de um gato não passa do selo de uma carta que ainda não foi usada. Para um cão sou o seu inimigo ou o seu deus.
Admirava que olhasse para os gatos como membranas ambulatórias embrulhadas em carpete? 
Há um ano a professora da Jade deu-lhe um gatinho. Que fofo, exultou ela, esperando de mim um reforço. Sorriso amarelo, rajadas de um humor ventoso.
Assim se instalou o Sebastião cá em casa. Um pândego para as miúdas, a Luna já lhe fez uma música no violino, que o sacrista escutou com a bondade de uma múmia egípcia.
Desculpem, escrevo egícia com o «p» porque esta consoante é a cripta secreta das pirâmides.
O insólito é o que tem vindo a acontecer.
Eu vou à cozinha, levanto-me na sala ou no quarto e o bicho adivinha, ele vai à cozinha.
Imediatamente se me enleia nas pernas, parece um rio a correr entre a curva e contra-curva dos meus pés, e que, em chegando à cozinha, desagua. Mas aí é que as coisas acontecem, assim que desemboca na cozinha vira-se e num impulso escorrega de costas na tijoleira da cozinha como se fosse um jogador de hóquei do gelo a comemorar um golo.
Desliza até chegar ao frigorífico, aí instintivamente pára, adivinhando, ele vai ao frigo.
E, de pernas para o ar, oferece-me o ventre, enquanto lança a cabeça para trás e fecha os olhos, no antegozo da carícia.
É o meu pé que se entrega ao contacto, aos movimentos naquela pelúcia, o pescoço dele esticado para a carícia se alastrar numa espécie de golfo, do baixo-ventre ao queixo. Quatro cinco vezes ao dia, com a precisão de um pêndulo.
A palma do meu pé começa a estar macia. À noite, por duas outras vezes parece-me que ronrona, a palma, e ao dedo grande já o ouvi miar. As unhas encurvam-se-me numa garra.
Ainda não sei como contar à minha mulher que estou em alerta amarelo.  


DEUS, QUE COCKPIT?

mark rothko

Não sou cristão, pois não basta ter sido baptizado para assumir uma tal condição – isso é a grande falácia do condicionamento político ou do catolicismo, que têm estado demasiadamente em fusão. Mas não prescindo de uma certa “espiritualidade” (detesto a palavra) e de alguma reflexão sobre isso. Aqui deixo uns apontamentos.


                                                                                                                      para o Rui Almeida 

A vida enxameia-nos o caminho de paradoxos, e muitos são lá postos para nos divertir. Como o de sacar a história que reproduzo em baixo do livro de um brilhante ateu confesso, Xavier Rubert de Ventós:
Havia um monge budista famoso pela sua imensa sabedoria, que o ancorara num silêncio inviolável. Todos os noviços do mosteiro respeitavam e reverenciavam o seu silêncio, mas, cumpridos os 85 anos, ao verem que declinava a sua saúde, decidiram pedir-lhe que, enfim, falasse.
- Explique-nos, antes de morrer, o que em todos estes anos haveis aprendido e      contemplado. Não vos ides sem deixar-nos uma pista que nos ajude no estudo e nos oriente a contemplação.
E o ancião, respondia a tudo com um sorriso e continuava mudo. À medida que a sua saúde se ia debilitando, a impaciência crescia entre os noviços. E cresceu ao ponto de, no leito de morte, os noviços desatarem aos berros à sua cabeceira, de o ofenderem inclusive, na súplica de uma sílaba do seu tesouro espiritual.
- Não sejais egoísta e cruel! Para quê levar consigo tudo o que haveis acumulado e que pode servir-nos como luz e guia.
Mas o ancião continuava silencioso, imperturbável entre os jovens que começavam a maltratá-lo. E foi só no momento de exalar o último suspiro que soltou uma palavra, a sua única palavra:
- Fogo!
E o mosteiro começou a arder.
Afastemos a hipótese do incêndio ser uma expressão metafórica – o mosteiro ardeu até aos caboucos.
Instaura-se aqui um outro nível, no qual a palavra deixou de ser o interruptor que acciona uma certa tensão metafórica e passa à ordem da experiência, a um acontecer literal, fogo posto que actua como um revertor de escalas e de natureza, na atenção e no fulcro.
O que obstrui as fantasias de uma prática ao alcance de todos. Alcança quem pode – embora se deva abstrair aqui a fantasia inversa, que é a de supor que existe neste movimento um suplemento de heroísmo. Depois do fogo não fica uma trave a que se agarre o ego.
E como sabiam o velho monge e Wittgenstein, que cito, a experiência é intransmissível: «Os filósofos que pensam ser possível fazer, por assim dizer, no pensamento uma extensão da experiência, deveriam pensar em que é possível transmitir uma conversa, mas não o sarampo, por telefone».
Está por Cratilo quem pode, está por Sócrates quem pode. Ambos têm razão.


«O segredo é a possessão na unidade, não a perda na unidade. Deus e o homem, o mundo e o Além, devém Um quando se conhecem um ao outro. A sua divisão é a causa da ignorância, da mesma forma que a ignorância é a causa do sofrimento»: foi necessário ter lido este aforismo de Shrî Aurobindo, a oito mil metros de altitude, a caminho da Índia, aos 38 anos, para me reconciliar com uma hipotética ideia de Deus. Já não o acuso, novas grelhas de leitura corrigem-me a sua acção trágica.
E aos 47 anos perdi o receio de declarar que apesar de rejeitar o modelo do catolicismo participo pelo menos da crença que alguma «tradição hermética» sugere e que alude a «um segundo nascimento» do homem e a uma dimensão da História entendida de forma kairológica.


Na adolescência e nos primeiros anos de adulto, caldeado por uma propensão libertária, era absolutamente contra o casamento. Aos vinte e seis aceitei casar-me dando como certo que se o amor não merecia o sacrifício de todas as leis, inclusive as próprias, então decompor-se-ia na sua insignificância. Era uma intuição. O casamento quis contrariar-me e regurgitou-me ao fim de ano e meio.
Na Índia, dez anos depois, no pico de umas fragas onde se situava um templo a Shiva sou fintado pele breve diálogo com o brâmane responsável por aquele espaço sagrado – conversa que reproduzi assim que cheguei ao hotel:
«Sorrindo sempre, o brâmane pega-me de caras:
-       Você tem um olhar límpido, magnífico.
Desmancho-me, num sorriso. Andar vinte horas de avião para ser desmascarado logo à primeira, pela vaidade. Não sei como responder e anuo:
-       Obrigado.
Mas as surpresas não se ficavam por aqui:
-       Estou pronto.
-       Pronto?
-       Pronto para ir para qualquer lugar.
-       Não percebo.
-       Pode levar-me consigo que eu trabalho em qualquer coisa, sou um bom técnico.
-       Um homem dos sete instrumentos?
-       Yes. Lisboa fica muito longe de Copenhague?
-       Três mil quilómetros.
-       É longe, mas não faz mal, estou pronto.
-       Você é um «padre». E os seus fiéis?
-       Shiva está no coração. E estou farto de calhaus. Dá-me um Classic?
Faço uma pausa para digerir a catadupa de contrasensos e lamento:
-       Não posso levá-lo, homem. Já tenho filhos, muitos filhos, seria mais...
-       É como o excesso de bagagem não é? Peso a mais. É uma estranha forma de classificar uma alma, mas compreendo... Um talkman, ao menos um talkman não terá a mais?»
Pedia-me o gravador. Fui incapaz de não lho dar, com uma cassete de Arvo Part lá dentro. Que desdita a dele e nossa, que na limpidez daqueles ares esperávamos por uma palavras de mestre, por uma sílaba entremeada de sublimidade!
Anos depois, relendo a Bhagavad Gita descubro uma passagem onde Krishna, depois de ter longamente analisado com o seu discípulo Arjuna os princípios que comandam o «yoga da acção» e lhe ter explicado que «aquele que age conforme a sua natureza atinge a perfeição», segreda no fim ao seu discípulo: «Desapega-te de todas as leis...», após o que acrescenta: «Simplesmente, esta palavra nunca a digas a aqueles que são sem obediência e sem devoção».
Estas últimas palavras dão conta do carácter moral que subjaz ao conhecimento – na medida em que aquele que não já necessita de recorrer a qualquer autoridade para validar a efectividade da liberdade que experimenta aceita ainda o rito, essa garantia exterior, como penhor humano -  mas o que me interessa sublinhar é que a comunhão com a plenitude se realiza apesar do próprio e ao arrepio das suas leis. Percebi então que havia agido bem ao casar-me contra os meus princípios e que aquele brâmane que eu na altura verberara como um “desertor” e uma vítima da voragem consumista que ameaça desvirtuar a Índia era afinal uma criatura livre e de uma intensa lucidez.


O meu pai habitava um anti-clericalismo tão subtil que, após uma insistência sem esmorecimento de minha mãe, me deixou ir à missa com a minha tia surda. Sem querer, esta insólita concessão – a minha tia surda não acedia directamente à Palavra, o que disparava em mim um Sherlock Holmes obcecado pela charada da dádiva  – levedou-me O Mistério.
Durante anos, pensei que a Fé me fora vedada por aquele exercício de ficar a admirar a resoluta concentração de minha tia num ritual em que a comunicação (pensava eu) estava para além das suas possibilidades físicas, mas afinal o mistério da Fé polinizou-me pelo negativo, como se fosse o molde de gesso duma estátua. Hoje, o esforço da minha habilitação à palavra justa corresponde à busca do nervo da Palavra no forro desse negativo.


Há duas provas irrefutáveis da presença do sagrado na vida: o compromisso das endorfinas – substâncias segregadas pelo próprio corpo para assegurar que as suas operações se realizem sem dor e cuja ausência tornaria impraticável e doloroso o gesto trivial de levar um copo de água à boca –
e o facto da existência ser tão perdulária.
Prosseguir este trilho de uma opulenta generosidade é uma tarefa árdua e sem abrigo, pois é difícil fazer aceitar aos demais que o verdadeiro “lucro” pode não ser económico.


Que rosto dar a Deus? O de uma emoção partilhada, o de o terceiro incluído que caligrafa uma relação. A maior lição que tive sobre o amor deu-ma um franciscano quando me disse: «Já casei centenas de casais apaixonados que se separam dois anos depois. Porquê? Porque não basta a paixão, é preciso a decisão.» Anos a pensar no que engatilharia a decisão até compreender: a decisão é a extrema vulnerabilidade com que aceitamos o terceiro na relação – aquele que ambos criam e que ao emergir mata o egoísmo. Com a Não-Dualidade que a figura de Deus personifica sucede a mesma coisa: a Unidade é uma medida que cresce à medida da nossa colaboração, um pequeno ladrilho – o terceiro - vital para a leitura dos pormenores que é a entronização do eterno no instante.
Faltando um pormenor há um lapso no eterno. Chamar-lhe Deus ou não, é irrelevante para o processo.
E esta «interobjectividade» torna inadmissível, mesmo em farsa, um Deus-Pai-Autoritário como o do Velho Testamento.
Por elocubração, apesar da deliquescência do cristianismo, ainda podemos simpatizar com um Deus nosso vizinho que dá a face quando o agridem, e que podia proclamar com Aurobindo, segundo a versão francesa de «La Mère»: «O homem é Deus que se esconde da natureza para poder possui-la pela luta, pela persistência, pela violência e surpresa». ( Contudo, julgo não errar se presumir que o verbo «possuir» deva ser aqui substituído pelo verbo «revelar». É de «revelar-se» – ou de ser-se avatar - que se trata e não de possuir. Do mesmo modo que a violência referida se circunscreve à dobra da reflexão, mormente quando o que se repete devém imanência e o sujeito fica surpreendido pela extensa oportunidade do sentido.)

Começa a chover no trajecto do restaurante para casa. Levo comigo a pizza do jantar. Instintivamente coloco a caixa quadrada na cabeça para me proteger de uma carga tropical. Felizmente que são duzentos metros e que a gramagem da caixa aguenta o embate das bátegas. Chego à escada, sacudo o corpo da chuva, e a tepidez da pizza encharca-me as mãos e sobe pelos braços. Sobre a tampa, como a corrida foi curta, as bátegas imprimiram o desenho de uma galáxia radiografada. Subo a escada olhando o espraiar dos astros de cinza sobre a tampa branca. Assalta-me o espírito: isto foi uma árvore - e espanta-me o súbito vislumbre da transformação. Nada se perde, tudo se transforma. Uma bétula dá quantas caixas de pizza, quantos palitos? A transformação de tudo borbulha contínuamente à nossa volta mas nós amortecemos o seu ímpeto, esquecemo-nos, tornamo-nos indiferentes – de nada tiramos a devida consequência, uma ranhura onde o senso comum mete o pé-de-cabra, antegozando o assalto da casa, o mobilar da mesma com as suas respostas prontas.
«Não conheço outra revelação para além da do encontro do divino e do humano, no que o humano colabora com a mesma medida do divino. O divino aparenta-se a um fogo que derrete o mineral humano. Mas o que resulta daí não é algo que estivesse na natureza do fogo.» Martin Buber.

Começo a intuir que aquilo que Deus contestou de si mesmo a Moisés – Ehié ashér ehié – foi: “Eu serei o que serei!”, uma forma verbal que não indica tempo mas sim o aspecto dinâmico, inacabado, como se a sua essência não fosse ser mas a acção, o imparável suceder-se: algo por realizar, por devir.

Será hoje o retorno à fé um rompimento de novo necessário? Talvez estejamos necessitados de uma nova orientação, de uma metanóia (conversão), precavidos embora pela lucidez de Jung quando afirma que o homem, de um modo geral, não deve sucumbir nem mesmo ao bem.
Justa restrição que sobreleva um outro problema: decorrido um século após o apelo de Nietzsche para que nos evadamos da gramática, a responsabilidade que exige a simples alusão a um “Deus” não legislador ainda atemoriza a grande mole.
Se ao menos se conseguisse divulgar convenientemente aqueles que o cristianismo manteve em segredo para a maioria dos homens e que davam expressão à dinâmica obscura das representações míticas – Giacchino da Fiore, Mestre Eckhart, Jacob Boehme – talvez os processos de «individuação» (no sentido compartilhado por Kierkegaard e Jung,) se multiplicassem e uma nova energia encarnasse na distância desumana que nos afastou da fé. Mesmo “vaga” como a que Lévinas assemelha ao pleno da concha em cujo vazio se ouve o mar. “Vaga” como a pedra onde Miguel Angelo apoiava o escopro na escuta de uma palpitação intrínseca, dum rasto imaterial, erradio, que nos situa além do saque que a vaidade e o sucesso social convocam.
A simples noção de pertença que se experimenta quando avançamos até ao limite de um molhe de duzentos metros e reparamos, nesse instantâneo perfazer de uma vírgula líquida, que estamos submersos e pertencemos a algo exponencial. Que, persuasora, a baleia persegue-nos e que estamos como Jonas: contidos.


A demanda do Absoluto, desse não-lugar evasivo a todas as formas de lucro, é hoje, neste amorfo e desvitalizado reino do signo, o verdadeiro escândalo e uma coisa mais difícil de aceitar que o incesto, reduzido a subplot cinematográfico.
Veja-se o que se passava com a censura espanhola que de uma forma sistemática, e dir-se-ia plácida, promoveu durante décadas o incesto através  das modificações que introduzia nos filmes. Em Espanha os filmes são dobrados e, como as autoridades espanholas do franquismo optaram por modificar os diálogos ao invés de cortar as cenas “chocantes”, sempre que o enredo desenvolvia um caso de adultério a moralidade espanhola  exigia que os culpados deixassem de ser «amantes» para passarem a ser «irmãos». Ah, saboroso catolicismo!

Qual o maior paradoxo da Modernidade? Talvez este, também formulado por Aurobindo: «Todo o mundo aspira à liberdade e no entanto cada criatura está “apaixonada” pelos seus apegos. Eis o primeiro paradoxo e o nó inextricável da nossa natureza».
Terá este paradoxo resolução?
Na Índia, Deus é «uma criança eterna jogando um jogo eterno, num jardim sem fim» e nós humildemente somos os dados – a liberdade relativa dos dados – na sua mão. E contudo, desse lance de dados depende também a «sorte» de Deus. O que nos coloca de novo diante da necessidade de uma responsabilização dos nossos actos.
Concomitantemente, procurar em Deus uma ordem, uma harmonia, para o caos do mundo é o mesmo que confundir uma decalcomania com a pele.
A crer em Deus, há que aceitar a fé apesar do caos que se incrusta na rugosidade do real.
Os Budistas não falam em Deus, dizem antes que os rios procuram o mar. De facto parece mais justo realçar que talvez nos espere o oceano fragoroso que antecede as calamidades mas é nosso dever não fugir ao repto.

Deus – que cockpit? Traduzo esta deliciosa rábula de Christian Bobin: «- Penso numa história... a propósito... – se posso dizê-lo frivolamente – a propósito de Deus. A anedota que mais me agradou, que me fez rir e continua a fazer-me rir quando penso nela, é uma história que encontrei em Maurice Clavel que contava uma experiência ocorrida com um amigo seu. Maurice Clauvel era crente, convertido, e tinha às vezes essa vivacidade demonstradora que têm amiúde os recém convertidos. Não falando então de alguma coisa mais além disso – como um enamorado que acaba de descobrir a sua bela e que não pode suportar nenhum outro discurso além do que tenha a sua bela como centro de atenção -, acontecia-lhe receber muitas confidências sobre o tema. E um dia um amigo disse-lhe: «Quanto a mim era completamente ateu, serenamente ateu, e depois um dia, num passeio pelo campo, vi um anjo (ou a Deus)». Então Maurice Clauvel pergunta-lhe: «Mas como? Onde?». E o outro, um pouco dubitativo, responde: «Isto pode parecer estranho, mas na altura eu não pensava em absoluto nestas coisas – estas coisas não eram nem um tema de preocupação, nem inclusive de discussão, eram-me totalmente indiferentes...e nesse passeio pelo campo olhei uma vaca, e nos olhos da vaca...eu vi! Fiquei totalmente transtornado, e depois do passeio fui falar com um sacerdote.

Evidentemente, o que me faz ainda rir mais, é que agora existe a história das vacas loucas... tem muita graça.
- Não apenas essa história é divertida como ao mesmo tempo é muito justa. Ilustra bem essa ideia de ver algo aí onde habitualmente não se via nada...
- Sim, sim. E o que me diverte, é essa coisa estranha e divertida no cerne mesmo da experiência. Para falar de Deus – sabendo que dificilmente se pode fazê-lo, e talvez em absoluto – pensei muitas vezes que Ele punha um nariz vermelho. Que Ele tinha um nariz de palhaço...Porque há muitas belas claridades que nos são dadas dessa maneira, de repente, na vida diária, com um lado sempre divertido, inclusive um pouco descabelado. E digo-me que a Verdade é sempre dessa ordem. No que a mim me toca as mais belas lições, os apoios mais seguros, os mais profundos, chegaram-me amiúde com uma vertente cómica, uma vertente um pouco semelhante à da desta história»: Christian Bobin, em diálogo com Marie de Solemne


Emprestemos a Adonis a palavra intermédia: «Nous mourrons si nous ne créons pas les dieux/ Nous mourrons si nous ne les tuons pas// ô règne du rocher errant».




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O ESTRANHO CASO DAS CAMAS VOADORAS

a vila olímpica
Hoje acabei uma dolorosa revisão de mais um livro de Direito, desta vez com quinhentas páginas, num tu cá tu lá com uma linguagem que odeio, ainda para mais num país onde a lei positiva está abafada por incúrias e atrapalhações estruturais - e muitas vezes não passa de um travesti da lei costumeira (esse eufemismo que dissimula o entorpecente domínio das tradições mais retrógradas) - e pus-me a pensar que só seria mais doloroso se fosse médico e lesse no corpo das crianças o espúrio, mesquinho, trabalho da morte.
Mas hoje fiz um intervalo, tirei os pés dos sapatos, e os dedos harpejaram o ar e decidi ir à rua beber o café e ler um jornal. Acho que era o Hegel que contava aquela anedota sobre os judeus na qual Jeová lhes dava a escolher entre a Salvação “já e agora” e uma coisa “organizada no tempo”, arrastada, mas compensada com a leitura do jornal diário - e os judeus escolheram o jornal.
Nem sempre me sinto muito judeu, ao contrário de grande parte dos meus amigos jornalistas sempre preferi um livro a um jornal ou revista e não faço qualquer esforço para ter em todos os momentos televisão por cabo, mas de vez em quando sabe-me bem lavar os olhos na actualidade.
Decisão santa. África oferece-nos um panorama que chega a ser deprimente para o escritor porque a realidade ultrapassa sempre a imaginação, por mais delirante que seja. E a deliciosa história de hoje foi esta:
Em consequência da vila olímpica que se construiu de propósito, nos arredores de Maputo, para acolher os atletas que vieram participar em Setembro na última edição dos Jogos Africanos, terminados os jogos desportivos, ficaram 518 apartamentos para serem distribuídas em sorteio pelos jovens. O que parecia uma boa medida foi assombrada por dois factos controversos: o custo exorbitante dos apartamentos, numa especulação pura do Estado em relação a um parque imobiliário que lhes foi em grande parte oferecido, e as regras de candidatura às casas, que discriminava quem não fosse do partido Frelimo.
Mas a novidade, e que foi denunciada esta semana, ultrapassa a imaginação: à feitura dos contratos, os jovens, visitando os apartamentos, deram conta que a maior parte do mobiliário havia desaparecido misteriosamente dos 500 apartamentos. E o preço que haviam acertado para a compra da casa abarcava o mobiliário, que lhes fora garantido existir.
Lê-se no Editorial do semanário Canal de Moçambique:
«… o paradeiro do mobiliário adquirido para equipar os apartamentos da vila olímpica está em parte incerta. Certamente que as mesas, cadeiras, televisores, camas, armários e outros equipamentos que havia nos apartamentos para os tornar habitáveis não se evaporaram. Alguém os retirou de lá. O que resta é saber quem os retirou e para onde os levou e que é feito dessas coisas (…) Esses bens foram, ao que tudo indica (...)parar em mansões de dirigentes, segundo esquemas obscuros. (...)
O Estado contraiu um empréstimo de cerca de 152 milhões de dólares, concedidos pelo governo português para a Vila Olímpica. Esse dinheiro será pago por moçambicanos vivos e outros ainda por nascer. Por isso é um imperativo democrático, é uma obrigação o Estado respeitar o princípio da transparência para que não se fique a pensar que o nosso Estado está na mão de gatunos.(…) diz-se que o mobiliário da Vila Olímpica foi entregue à Direcção Nacional do Património, no Ministério das Finanças, mas lá não está. Onde foi parar? (…) Já o ano passado o Tribunal Administrativo denunciou que o património do Estado que está no ministério e noutras instituições geridas pelo Governo, não está registado na Direcção Nacional do Património. Desde viaturas protocolares de ministros aos mobiliários, nada consta do inventário do património do Estado depositado na Direcção Nacional do Património. Foi uma denúncia feita em documento oficial, precisamente no relatório e parecer da Conta Geral do Estado.»
Está tudo dito. Eu volto aos apuros finais da minha revisão. Triste e umbilicalmente risonho.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

METAMORFOSES DO CRISTAL: DIÁLOGO COM MURILO MENDES


«A figura estéril voa carregada de frutos»:

é estupendo o paradoxo com que Murilo Mendes abre
o poema intitulado Segunda Natureza.
E, fiel ao que anuncia, o verso faz-nos cavalgar
na sela de um oximoro, que nos ejecta o olhar
para lá de uma linearidade natural, inaugurando
uma segunda, uma terceira natureza.
Quando lemos o fecho do poema,
iniciado com estes dois versos impagáveis:

«Meu corpo é um estrangeiro
A quem levo pão e água diariamente.»

temos a certeza de estarmos diante
de um grande poeta que cumpriu a promessa
do título: a segunda natureza prolongou-se
no estranhamento do corpo.
O poeta enrola a linha no carreto e arrebata-nos,
como no fascinante anzol deste começo:

«Sentamo-nos à mesa servida por um braço de mar.»

É impossível ser mais inteligente e produzir
uma concatenação mais eficaz.
Porém, o arranque que talvez prefira em Murilo
seja o do poema Elegia Nova, de 1944:

«O horizonte volta a galope
Curvado sobre o martelo

É noite: e dói»

Fala-nos de quê, o poeta? Do Sol.
Duma penada evoca-nos Parménides,
o Sol levado pelos corcéis,
e o medo desse tempo imóvel, incriado,
em que não houvera ainda a separação crucial
entre dia e noite: o Sol era assim enterrado vivo
diariamente pelo martelo das trevas,
antes de ser ressuscitado
pela urgência de uma visão.
E talvez aí não seja suficiente
transcrever o que de real se trafica
na memória e o poema só se transfigure
em luz se nutrido pelo elemento invisível
que fez despontar o inesperado.
Algo tão dúctil e imaterial como
o que fecha o seguinte poema:

«ALGO
        A Maria da Saudade

O que raras vezes a forma
Revela.
O que sem evidência, vive.
O que a violeta sonha,
O que o cristal contém.
Na sua primeira infância.»

Porque afinal tivemos muitas infâncias.
a infância é tão polivalente e una
como os ocelos no olho do insecto.
Eu tive milhares de infâncias,
vocês não, interroga-nos o poeta.
Pois eu já fui noutro tempo rapaz
e rapariga, arbusto e ave e peixe…
lembrava Empedócles, e este vórtice
de «incontáveis tribos de coisas mortais»
é que em nós torna o mundo exequível
e lhe empresta raízes, policromas.
Sim, Murilo, sempre que morri
em rapaz ressuscitei em ave, inex-
tenso como o mar: «suor da terra».


53 ANOS, O BALANÇO

fotografia de luis bastos ou de zé tomás, castiga-me a dúvida
Há gente muito cretina que acha que nunca sairei nas listas da revista Fortune, descerebradas criaturas que desconhecem que um cão é um gato e um anjo um prato de lentilhas, pelo menos no meu reino que é o de Sterne e Ovídio.
Detesto campeões que só vivem em condomínios, eu cá habito numa casa de onde só se sai ou se entra de pára-quedas e abomino a gentalha que só abre a boca para dizer “o nosso caso é parecido!”
Oh lá lá, anos de intoxicação e pobreza, sem vacilar um grama no caminho mais difícil para uma certa incidência em palavras onde a combustão se ateie, e nunca me faltou a profusão. Quem só descortina nós na madeira prefere o alumínio, eu sigo o veio, e nenhuma outra aventura me interessa.
Ou antes, na polinização há outra ciência em que às vezes deflagrei a sorte.
Por isso, antes que o fascismo campeie de novo (lei da mordaça nos EUA, lei da censura na África do Sul, favorecimento da ditadura na Hungria, retorno aos partidos únicos em África, privatização da Internet, a marmórea expansão da China, e decrepitez da Europa: o que são mais que sintomas) quero deixar bem claro que para além do meu amor pela palavra, existe o Amor.
C’est ça ma fortune:
A Carolina. 24 anos. é a minha mais bela italiana. ao colo, o meu neto, o Bernardo.
A Maria, 22 anos, a minha artista mais fatal.


Ana, 15 anos, a teenager-fera cá de casa.


A Luna, 7 anos, violinista visionária, que não acredita no fim-do-mundo: a primeira garantia de reforma para o pai, agente emérito


A Jade, 4 anos, o poder da filosofia. "Jade, gostares do papi é uma hipótese ou uma certeza. Uma hipótese, pai. Uma hipótese? Tem de ser testada."

Teresa, la raison d´être, a senhora que me deu o golpe da aorta.

Cada um tem a Fortuna que pode. Só é lastimável que eu seja tão parco a manifestar-lhes que a clausura do escritor nem sempre é ingrata. Estúpido decoro.
Não há nenhum acrobata naquele que vos ama. Ainda que às vezes pareça.

domingo, 15 de janeiro de 2012

DR. STRAMBOLI


De cada livro que escrevi ficou sempre um resto, algo que ficou de fora. Em 1996, quando escrevi As Cinzas de Maria Callas, acabei por pôr de lado o conto que vai em baixo, mas eis que, por via das acções de guerrilha do ceramista anónimo que espalha alguns azulejos mordazes por Lisboa e arredores, ficou subitamente muito actualizado. Por isto o posto, dedicado à Ana Gouveia e ao Rui Silvares, muita boa gente, e que divulgaram a coisa no facebook. 
   

    Apanharam-me na rua do Sol ao Rato. Sempre gostei dessa rua por causa da genuflexão esquisita da palavra sol à palavra rato. "Genuflexão": aprendi em miúdo na igreja, o "Cabra" é que nos disse que quer dizer "estar ajoelhado". Eu acho uma palavra tão estrambólica que a digo sempre que posso. Foi das poucas coisas que me ficou da infância. Até no casamento do Falua, quando o padre perguntou se ele aceitava a Mariana como mulher, eu bichanei lá de trás, "pá, genuflexa...". Nem sei porque é que o gajo ficou zangado, a malta fartou-se de rir.
Mas dizia, pronto, que me apanharam na rua do Sol ao Rato, tinha eu já levantado o pavimento e tirado do bolso as pedra negras com que iria recalcetar aquele bocado. Que mal tinha escrever "A Amélia é minha!" em basalto, num passeio sem qualquer enfeite - aquilo nem tinha gracinha nenhuma! Lesei lá «a coisa pública»! Um gajo pode lesar uma merda que não sabe o que é? Escusavam é de me pôr no «privado». Só porque gritei? Um gajo grita quando as tripas lhe pedem.
Aprendi esta arte com o meu pai, que ma quis passar, mas dei-lhe nega até que pude. Coitado, morreu na queda estúpida de um elevador, sem me ter visto a calcetar as ruas como ele, um dos últimos, jurava. Esticou antes de me ver rico com o granel que eu podia ganhar com a arte - era a outra coisa que ele jurava, que o Sporting já só lhe dava desgostos. Hoje sei que o velho tinha olho, pronto, mas qu'é isso interessa agora? Ele tinha alguma coisa de me ir tirar das jogatanas com os amigos para me pôr a calcar com o malho na pedra solta? Eu tinha onze, doze anos, e ele apostava com os amigos quantas vezes seria eu capaz de erguer o malho. Se perdia, ficava lixado e eu é que comia, em casa, eram latadas de pôr um surdo a falar pelo ouvido. Como é que eu havia de gramar aquilo? Anos e anos a vê-lo a malhar, a juntar, a afeiçoar a pedra aos desenhos, e pronto, aprendi o jeito mas assim que pude disse logo que não. Eu já deitava corpo e ele só me podia levar à porrada. Desistiu quando lhe mandei um banano no estômago. Ficou sem me falar durante dois anos, o gajo sabia que ficou dobrado.
Eu, entretanto, como me ajeitava no desenho, pus-me a decorar montras. Não era um trabalho tão certo como o dele mas era mais visto. Mandei-lhe isso uma vez à cara e ele calou-se. Quem é que anda a olhar para os pés? Enquanto que se um gajo desenha numa montra um gato estrambólico a fazer malabarismo com os bigodes, os putos curtem. É uma berraria até a mãe comprar.
O juiz é que não conhece a Amélia, se não entrava numa boa. Todos os grandes poetas tiveram uma musa e escreveram carradas de sonetos só para ela, disse-me o "Cabra" e eu acredito. Agora, lá porque um gajo não é poeta tem de andar aos bonés? Eu tinha esta arte, pronto, escrevo com a pedra. Que é que importa à Avenida da República que eu lá tenha escrito: «A República adora-te, Amélia!»? Se calhar é estrambólico mas até é giro e a gente fartava-se de gozar, porque Amélias há muitas e só eu e ela é que sabíamos. Íamos lá no dia seguinte e ficávamos de lado, a morder a cena. Ou que tenha escrito junto à estátua do D. José: «O rei é danadinho por ti, Amélia» - qual é o mal? Eu nem fazia barulho. Topava se não havia polícia perto e punha-me num canto, sem que me vissem, a atirar pedras devagarinho e a substitui-las pelas minhas, pretas, já arranjadinhas de casa. Às quatro da manhã, quem é que dava por ela? Que é que queriam? Que eu andasse nas chinesas ou a dar-lhe na veia? A minha é esta!             
Trabalho todo o dia, sim porque eu vergo a mola, só em Almada já tenho vinte e tal montras decoradas, e à noite dou o meu pulinho a Lisboa com o meu saco de pedras e o martelo e o escopro. Poucas pedras para não ser muito pesado e não dá para fazer mais do que uma linha - também, para quê, nunca soube rimar! As mulheres dos gajos de taco é que não precisam de rimas. Vêem nas revistas. É tudo à fartazana. Até a miúda do Agostinho lhe foi pedir perdão à televisão. Eu gosto de uma cena mais discreta, pronto, mas que fica. Quer dizer, os gajos da câmara às vezes vão lá tirar a escrita na semana seguinte. Só que entretanto até vem nos jornais. Já me chamam o «poeta calceteiro», eu não gosto muito mas a Amélia gosta.
Esta cena começou com a Luísa. Eu andava com a Amélia e éramos os reis nos bailes da Incrível Almadense, não havia pai. O "Cabra" que era um pé e por isso andava nos Alunos de Apolo a ver se acertava com o ritmo, aquele gajo nunca teve jeito para nada senão para escrever cartas às miúdas, até que o Matos lhe deu a coça, mas o "Cabra" desafiou-nos para um concurso de danças de salão no Ateneu. O azar é que a avó da Amélia morreu no dia do concurso e ela teve de ir à terra. E vai o "Cabra" arranja-me um par, uma amiga do par dele que, jurava o gajo, estava para a dança como o Chalana para o futebol. O gajo pintava um bocado mas a Luísa não dançava mal e ficámos em terceiro. Fomos para os copos para comemorar e nessa noite acabei por lhe dar a primeira trancada. Eu nem sei como é que ela começou, ela é que me puxou pela corda, que eu era giro e assado e cozido, ela é que me fez a folha e como eu estava de folga da Amélia, olha deixa-te ir.
O pior é que a gaja dois meses depois me veio com uma conversa um bocado estrambólica, aquilo demorou a pôr o anzol de fora, mas quando veio a cerveja até me soube a nafta. Estás quê? Grávida. Estás quê? Estava grávida. Que não podia fazer nada, patati patatá, e eu completamente desatinado, e agora contar à Amélia... Deu-me logo com os pés. Há gajos que perdem o norte, mas eu tinha deixado gamarem-me a bússola inteirinha! E a Luisa com a barriga cada vez mais avantajada. O que é que se faz, o que é que não se faz, lá dei o nó. Nem era feia, um bocado magrizela, mas pronto. Nasceu-nos uma miúda, a Micaela, e eu procurei esquecer a Amélia, que entretanto tinha arranjado emprego nos telefones e se pirou das Torcatas. Só para "não dar com as minhas trombas", como ela dizia. Uma merda.
A desbocada da Luísa é que não fazia nada, até de dançar deixou. Encafuava-se todo o dia em casa, a comer chocolates e continuava a parecer uma espiga a quem puxaram pelos pés. Uma merda, mas eu gostava à brava da miúda. E meteu-me na cabeça fazer um miúdo, a cena do casalinho. Um rapaz para eu levar à bola. Ela nem que não, nem que sim, às vezes parece-me que só gostava de comer chocolates. Não se negava, mas também não via que lambesse os dedos. Eu é que andava obcecado com um rapaz. E todos os meses, nada. Ao fim de um ano, sem ela saber, fui ao médico, fiz uma análise e bebi uma grade na noite em que soube os resultados. "Nada doutor?". "Não e lamento informá-lo mas você não pode ter filhos... a emissão de esperma não é suficiente...". "Mas eu tenho uma filha...". "Não me pronuncio sobre aquilo em que cada um quer acreditar...". Quantas bejecas tem uma grade? O que eu chorei por causa da miúda. Nem a Micaela era minha. Não lhe disse, pronto, para não dar parte fraca. Um gajo primeiro aguenta as broncas e depois é que começa a arriar.
Andava há dez dias a magicar numa vingança, quando chego a casa e dou com uma grande festança. "Uma surpresa para o papá!", diz-me o coirão com um beijo de Judas, "Estou grávida de um mês...". Eu olhava as serpentinas, as estrelas de celofane na parede, os comes na mesa, as cervejas e o wishky, olhava o focinho dos amigos, todos ali com as mulheres - só faltava o "Cabra", que já não aparecia - e a desbocada numa grande agitação. O "Cabra" é que a topou, naquele dia na praia em que me meti com ele por me ter arranjado aquele caldinho. Ele, olhou para ela à beira de água, já p'ra aí de seis meses, e respondeu-me com um arrependimento sincero, " tens razão, queria arranjar-te uma parceira para o foxtrot e acabaste por ficar com uma galinha palustre...". Eu olhava para o Bilas, para o Victor Hugo, para o Falua, para o Marinho, para o Alemão, para o cego do Armando e só me vinha à mioleira uma pergunta macaca: qual destes gajos é me emprenhou a escanzelada? A gaja tinha-me enganado desde o princípio, pôs sempre o prato vazio à minha frente na mesa e eu ceguinho, estrambólico de todo, só agora é que sentia como ela me espetava e remexia o garfo na língua.
Deixei tudo nessa mesma noite. Deixei as análises na mesinha de cabeceira dela, saí pela janela, a gente morava num rés-do-chão, eles que se embebedassem todos até partir, queria lá saber. Fui para uma residencial, baratinha, e desfiz-me como pude em cervejas e brandys. O que me doía era a miúda, mas se não era minha. Ao fim de uma semana procurei a Amélia, que vivia sozinha e lá no fundo continuava com um fraquinho por mim.
"O que é que eu posso fazer para acreditares que só te quero a ti?". "Não sei, mas trocaste-me por uma galdéria e fizeste-me passar a vergonha da minha vida e por isso o melhor é pores-te em cima do cavalo do D. José a gritar por mim até eu te perdoar... e despacha-te que tenho um rapaz que é da marinha mercante, com quem me escrevo e que chega dentro de dez dias...". Comecei nessa mesma noite. À entrada do prédio onde ela vive calcetei: «Perdoa-me Amélia, amor da minha vida!». E há duas semanas que não paro. Ela ao princípio achou estrambólico mas aceitou-me ao fim de cinco dias e eu prometi que lhe escrevia o nome em todas as ruas da cidade.
Quero lá saber que o juiz me prenda. Hei-de voltar. Até ao fim da minha vida, hei-de voltar. Já tenho um cantinho em vista ao pé da casa do Presidente: «A Amélia votou no senhor». Se calhar não me posso bater à amnistia, não? Vem aí os guardas com o "Cabra" e o advogado. Faz jeito ter um amigo com conhecimentos. Antes de entrarmos no tribunal hei-de perguntar-lhe porque é que nos últimos tempos me chama "Dr. Stramboli..."      










Para quem não ler, abaixo de Isaltino Morais, lê-se: «corrupto, criminoso, político»

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PHODER

Tenho-me mantido um pouco alheado das questões em torno do Acordo Ortográfico, pelas razões que explico em baixo, no excerto duma entrevista que me fizeram no Brasil:

«O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia?

O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.»
Mas agora, por via da Julieta Duarte, li um artigo de Hermínio Castro e fiquei convencido de que até pelo adestramento da língua nas possibilidades do palato - malabarismo estético de que não nos devemos alhear - há todas as conveniências em mantermos o nosso arcaísmo.
Não nos convém nada confundir o ovo estrelado e o pinto.
POR ISSO ADIRO RESOLUTAMENTE AO NÃO AO ACORDO AUTOGRÁFICO e estarei disponível para o que os meus amigos quiserem em termos de militância.
E produzo já o primeiro slogan de combate:
«FODER É EM SI MESMO A CONSOANTE
MUDA QUE BATE AS VOGAIS EM CASTELO!»

BANQUEIROS, EDITORES E PINICOS


Desde que há trinta anos, acidentalmente, descobri Fluxo-Floema que fiquei arrebatado pela escrita, pelo ritmo, humor, atrevimento e liberdade de Hilda Hilst. Há um antes e um depois de se ter lido esta mulher que nasceu no mesmo ano do Herberto Helder (1930) e que foi objecto de tantos escândalos. Hoje diverti-me a reler à tarde uma mão cheia de crónicas que me confortaram o mau-humor da manhã. Aqui vos deixo uma:

     Aos 79 anos, e perneta, ela matou a pinicadas (golpes de pinico) o velhote (seu marido), quando ele se jactava de antigas façanhas sexuais, enquanto ela apenas mancava solitária pela casa. Onde foi isso? Na aldeia de Mókroie? Em Londres, gente! Há duas semanas atrás. Que vitalidade! Que altaneria! E que rabugice! Se fosse comigo, aos 79, eu apenas anotaria, quase sucinta, no meu diário: John, ontem à noite, contou-me deliciosas aventuras e acho que fez muito bem, porque convenhamos, com o meu coto é difícil manter-me no coito em equilíbrio.
     Aos 79 gostaria de loquear um pouco. É bom ser estranho e velho. Que menina medonha! É sua filhinha, é? E esse é seu marido? Ahhh... então é por isso! Coitaaaada! E talvez colocasse um balde na cabeça à guisa de chapéu, como aquela baronesa Elza von Fretag von Loringhoven que também enfeitava a cara com selos... e morava no mesmo bairro onde moravam Henry Miller e June. Eu andaria com o
meu balde e desenharia lindas borboletas na minha cara, aqui mesmo, na minha torre de capim. E vou dizer muitas verdades a alguns, principalmente àquele meu amigo banqueiro, riquíssimo (aliás acho que vou dizer agora) a quem pedi que editasse meu livro como brinde, no seu banco, e ele disse: você é mesmo boba, Hilda, ninguém mais lê poesia... Eu disse: mas você era tão sensível e gostava tanto de poesia e é filho de um poeta... Ele: agora eu só sou sensível depois das nove da noite. E eu deveria ter dito a ele o que vou dizer agora: e se eu te chupar a bronha depois das nove da noite, te sensibiliza e você edita? Só que aos 79 ia ser melhor porque eu estaria sem dentes... Ah, banqueiros, meus amigos, caixão não tem gaveta, viu? Ah, o que eu tenho visto de avareza e hostilidade quando estamos na dureza! Como é triste ser avarento quando se é velho e rico! Ou só como é triste ser avarento! E como é sórdido ser avarento com os poetas. E agora vou terminar com um poema porque já estou espirocando de ódio em relação a banqueiros e editores e a crônica foi pras picas. P.S. Querem saber? Acho que a velhota fez bem. E já vou comprar o meu pinico. Ninguém vai notar uma velhota aos 63 entrando no banco ou na editora com um pinico na sacola.
Enquanto faço o verso, tu decerto vives. Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro E o poeta te diz: compra o teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta o teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo. Enquanto faço o verso, tu que não me lês sorris, se do meu verso ardente alguém te fala. O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.*


* "Poemas aos homens do nosso tempo" in Júbilo memória noviciado da paixão. SP:
Massao Ohno. 1974.
 (Segunda-feira, 08 de Março de 1993)