sábado, 27 de agosto de 2011

PAGAR O PREÇO


Que alavanca me pode restituir a palavra viva? Porque as palavras deslizam rapidamente para o pântano, o lugar-comum, antes de se engessarem, na casa das múmias.
Que alavanca pode restituir a palavra viva?
Nietzsche passava um serão com uns amigos. Um deles deu como fanfarronada a história de Mutius Scaevola, um jovem romano que entrou no campo inimigo do Etruscos e matou por engano o secretário do rei Porsena, em vez do próprio rei. Para se castigar do erro, Scaevola meteu a mão num braseiro.
O episódio não colhia junto dos companheiros do filósofo, incrédulos. E então Nietzsche dirigiu-se à lareira e pegou num carvão em brasa, fechando a mão sobre ele, enquanto cerrava os dentes para não deixar escapar um grito.
Esta história, já conhecia, duma biografia.
O que desconhecia era o que se sucedeu e leio agora: «Com uma destas teimosias de criança que muitas vezes constituem o instintivo esboço de uma disciplina do querer, durante anos conservou aberta a chaga», conta Élie Faure.
E percebo então que aquilo que pode parecer uma doidice, um sadomasoquismo declarado, explica alguma da aragem que se sente na leitura do filósofo de Assim Falava Zaratrusta.
Em presença da dor cada palavra é mais viva, porque arrancada a uma intensidade sensorial que, para ser apaziguada, obriga a uma paralela exactidão expressiva. Claro que ninguém se livra da dor duma queimadura recitando um soneto de Shakespeare, porém a pouca disposição para jogos de linguagem que assiste a quem sofre a dor, obriga a soltar o verbo numa única oportunidade, certeira como a pincelada num fresco. Não há retoques diante da dor, embora a palavra certa não a faça esquecer talvez a sublime. Como a pintura ajudou Frida Khalo a suportar estoicamente o desconjuntamento da sua coluna vertebral.
Nietzche usava a chaga sempre aberta como uma disciplina, um enxerto de tragédia na carne, e quando falava na dor, ou na alegria, no apaziguamento ou na revolta, era sentido. Ninguém discorda de nada com uma dor enfiada na carne se não discordar de todo; ninguém se diz eufórico, com uma dor entalada na carne, se tal não for verdadeiro.
Mais tarde Nietzsche, formulará que «a doença é um ponto de vista sobre a saúde», que é já uma forma de distanciamento sobre o sensível, e que há-de ter treinado na longa duração deste episódio.
Escrevo isto e ouço a Luna, que tem sete anos, lá dentro a reclamar com o gato, porque, diz, «o Sebastião é um lambareiro…» (roubou-lhe uma salsicha). Gosto que ela tenha achado uma forma mais viva e expressiva de acusar o gato sem ter caído nas fórmulas simples mas gastas de «comilão», ou «guloso». Mas quanto tempo lhe durará esta descoberta das palavras antes de se enfronhar nas fórmulas?
Por que o problema é este: não estamos dispostos (como o Nietzsche) a pagar o preço. 

CORTÁZAR: AS ARMAS SECRETAS



Julio Cortázar é - com Sabato - o meu argentino. Um dos meus amores mais danados. A Cortázar ninguém o dá como poeta. E a sua obra neste género é curta, em proporção com a prosa – onde foi genial. E Cortázar sofria porque esta sua vertente era depreciada por críticos e amigos, sempre apressados a fazer comparações e desconfiados, eternamente desconfiados, diante de quem se marimba para os géneros, ou em todos habita. Também eu sei, diariamente, o que é visitarem-me o blogue e depois virem bater-me nas costas com uma ressalva: você como cronista é assim e assado, como poeta é que deixa muito a desejar, ou ao contrário, da sua poesia gosto, da prosa é muita verborreia e etc., numa desencontrada praça de opiniões que me deixaria tolhido se eu não seguisse cegamente o conselho de Ezra Pound: «não ligar a nenhuma opinião que não seja a de quem tenha escrito, de facto, algo de notável». Ora Cortázar era poeta, e excelente, não é Lezama Lima, mas quantos são?, e Cortázar, que não seria o narrador que é sem este lastro poético,  versejava como quem não quer a coisa e está em conversa com um amigo, num rigor que faz da presença e da partilha intensidades maiores.
É um homem sábio, à conversa, e isso nos basta.
Aqui vos deixo um primeiro lamiré, três poemas de amor.   


OUTROS CINCO POEMAS PARA CRIS

1
Tudo o que precede é como os primeiros momentos
de um encontro depois de muito tempo: sorrisos, perguntas,
lentos reajustes. É estranho, pareces-me menos morena
que antes. Melhorou enfim, a tua tia-avó?
Não, não gosto de cerveja. É verdade, tinha-me esquecido.
E por baixo, ascende no monta-cargas de sombra, devagar,
outro presente. No teu cabelo começam a agitar-se as abelhas,
a tua mão roça a minha e deposita nela um doce favo
de fumo.Ja
cheira a sul.

2
Às vezes pões
uma cara de exílio,
esse que precipita uma voz nos teus poemas.

O meu exílio é menos duro,
guarnecido de defesas,
mas quando te levo pela mão
por uma ruela de Paris
queria tanto que o passeio desembocasse
numa esquina de Montevideo
ou na minha rua Correntes

sem que ninguém viesse
exigir-nos os documentos.

3
E às vezes calha acreditar que poderíamos
conciliar os contrários
entrosar-nos no centro imóvel da roda
sair do binário -
ser o vertiginoso espelho que concentra
num vértice derradeiro
esta dança cerimoniosa que dedico
à tua presente ausência.

Lembro Saint-Exupéry: “o amor
não é olhar quem se ama
mas sim olharem os dois numa mesma direcção -“

podia ele lá suspeitar que tantas vezes
os dois olhamos fascinados para uma mesma mulher
e que a sua esplêndida, feliz definição
cai de costas como uma boneca de trapos.

4
Pressinto que não te quero
que somente quero
a impossibilidade tão óbvia de querer-te,
como a mão esquerda
que fica cativa dessa luva
que vive na direita.

5
Ratito, penugem, meia-lua,
caleidoscópio, barco na garrafa,
musgo, sino, diáspora,
palingenesia, feto,

isso e o doce de abóbora,
e o acordeão de Troilo e dois ou três
zonas de pele aonde
faz ninho o alcião,

são o que contém
a tua cruel definição inalcançável
são as palavras que guardam a substância
de que estás feita
para que alguém beba
e possua e arda convencida
de que te conhece inteira,
e de que não passas da Cris.


OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles levam-se pela mão: algo fala
entre os seus dedos, línguas doces
lambem a húmida palma, correm pelas falanges,
e acima fica a noite crivada de olhos.

São os amantes, a sua ilha flutua à deriva
por entre margens de chorões, acosta em portos
que se levantam entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo aí encontra a sua cifra escamoteada,
apesar deles nem sequer darem conta
que enquanto se engalfinham na sua amarga arena
sucede uma pausa na obra do nada,
o tigre é um jardim que lança os dados.  

Amanhece nos camiões do lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre a suas portas.
O amantes rendidos olham-se, tocam-se,
uma vez mais, antes de exalarem o dia.
E estão vestidos, já se extraviam pela rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera, hipócrita,
e lhes impõe os deveres quotidianos.

FINAL
Lucila uma vez mais o reclamo
nascido do canto trivial e da guitarra,
da dupla solidão que nos amarra,
noite após noite, num bar, e não te amo,

não é amor isto, nada mais é que o Amo
com a tua pele, a tua saliva, com a garra
que delicadamente nos desgarra
de cada vez que em teus músculos me derramo.

Dois corpos que rumorejam a sua vigília
- humilde e obstinado sentinela
do simulacro deste amor jazente -

e em amarga sujeição se reconciliam,
na equinocial sombra que te modela,
com a esvanecida aura do ocidente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

CHERCHEZ LA JOIE!

Ontem, com o visionamento de alguns excertos de «Satyricon», de Felini, terminou o meu curso sobre Filosofia Antiga e Arte, no Camões. Fluiu e no fim as pessoas manifestavam contentamento, o que me deu confiança para anunciar o próximo Curso Livre que orientarei, desta vez sobre «Nietzsche e a Arte», em Outubro. Agora vai ser um mês e meio de impregnação no filósofo alemão e nos seus principais intérpretes: Deleuze, Colli, Vattimo, Jaspers e Heidegger.
Gosto deste modo de me disciplinar nas leituras e de partilhar algum entusiasmo.
E não ter a obrigação de dar notas é um alívio. Concordo cada vez mais com o luso-braileiro Eudoro de Sousa, que dizia: «O que o aluno quer é o diploma para ele singrar na vida (…) a única solução para a universidade é que ela não dê diplomas. Quando houver universidade que não tenha diplomas, aí eu acreditarei que seja uma universidade séria. Porque nesta altura quem for à aula é por interesse em ser e não em ter».  

O BANQUETE DE TRIMALQUIÃO


Não desconhecia que à data da queda do seu império os romanos conheciam quarenta maneiras para refinar o azeite, mas chega a ser deprimente o menu servido no banquete de Trimalquião, n’O Satyricon, de Petrónio.
Faço o inventário dos pratos, doces, bebidas e sobremesas que desfilam diante dos olhos do leitor:
«Dois criados aproximaram-se e (…) puseram-e a remexer a palha, donde tiraram ovos de pavão, que distribuíram pelos convivas. (…) Continuei a partir a casca com a mão e encontrei um papa-figos muito gordo untado de gema com pimenta.
 Vinho com mel.
Grão-de-bico cornudo.
Uma vulva de porca estéril.
Empadas de javali.
Uma baixela onde estava colocado um javali de grande porte (…) às presas tinham sido atadas duas pequenas cestas de palmas entrançadas, uma cheia de tâmaras frescas e outra de tâmaras secas. (…) empunhou a sua faca de caça e rasgou com força o ventre do javali: da abertura voaram tordos.
Uma criança bonita, ornada com grinaldas de parra e hera, e mimando Baco, ofereceu uivbas em redor num açafate.
O cozinheiro rasgou o ventre do porco, aqui e ali, com mão hesitante. Imediatamente, pelas fendas, saem salsichas e chouriços.
Serviu-se um bezerro cozido colocado numa travessa de duzentas libras.
No meio erguia-se um Priapo de pastelaria, cuja veste, segundo o uso, estava carregada de frutas de toda a espécie e de cachos de uvas.
Foi servida uma franga gorda, à guisa de tordo, e ovos de pata encapuchados.
Um porco coroado de morcela e, em redor, sangue coalhado e miúdos de ave muito bem preparados, e acelga e pão integral.
 Lombo de urso.
Queixo fresco preparado com vinho abafado.
Um caracol por pessoa.
Empadas de tordo recheadas de passas e nozes.
Marmelos eriçados de espinhos.»
Não sei porquê sabe-me a pouco o que me espera ao almoço, e cheira-me que vegetamos numa inenarrável decadência.
Bem sei que não me coube a fortuna de Trimalquião, mas suspeito que o problema está mais naquilo que já não conseguimos imaginar.


APREENSÕES DE AGOSTO

la culture, esperando pelo líder que chega de helicóptero
1
Existe uma espécie de zona tampão, de impensado, que permeia a política africana em geral e que torna o futuro um barco à deriva.
De há três semanas para cá que o líder da oposição moçambicana, Afonso Dakhlama, se entretém a atear fogos. E, como forma eventual de forçar a Frelimo e o seu líder Guebuza, a renegociações, AD promete reerguer quartéis e equipá-los com as metralhadoras, granadas e canhões que diz ter escondido. O primeiro quartel vai ser em Manica, diz.
Promete ainda a divisão do país, caso não lhe façam a vontade, e acena com a bandeira das etnias – que nunca fora desfraldada desta maneira.
É extraordinário que em 2011 haja chefes políticos da oposição a terem um discurso deste jaez. É extraordinário o silêncio dos países doadores (responsáveis por mais de metade do Orçamento do Estado) em relação à loucura do auto-proclamado “pai da democracia” moçambicana. 
Não chega dizer que nele se percebe o desespero de AD dar conta que, vinte anos depois de ter estado à beira de ganhar a guerra, a Frelimo incorporou quase todo o programa político da Renamo enquanto esta se vê reduzida a uma expressão mínima, ainda por cima por incompetência própria.
Quando AD volta a um discurso de guerra, para afirmar depois que se a Frelimo (que ganhou com 70% dos votos nas últimas eleições) aceitar retirar-se pacificamente, então ele recuará na direcção da legalidade e se encarregará de organizar eleições livres, não se acredita um mínimo.
É esta a tragédia da política moçambicana – a oposição é comandada por um homem irado, refém de si mesmo, destituído de um pingo de formação e de oportunidade política e que, por nunca agir na hora precisa, desata sazonalmente a dar bombardas como a galinhola que quer assustar o leão.
Desta vez são manifestas declarações de guerra. É mais que insinuações.
AD ficou nitidamente entusiasmado com o que se passa no norte de África e resolveu jogar todas as cartadas para uma sublevação popular. 
A Frelimo, para além de alguns comentários avulsos, tem sido olimpicamente serena face a tais provocações e à impropriedade dos discursos de AD, que numa democracia ocidental já estaria a responder na justiça pelas barbaridades que profere e o ódio que tem incutido. Confiada que AD faz, como ninguém, o trabalho de seu próprio coveiro. E é exacto, isto.
E, contudo, arrepia perceber-se que o desnorte, os excessos de AD, servem de álibi para não se querer pensar o essencial: um vento de descontentamento varre de facto o norte e há uma geração nova que já não se deixa iludir. Basta andar de chapa e ouvi-los.
Que num país de fome e pobreza extrema a fatia mais generosa do último Orçamento de Estado – segundo o que minuciosamente foi relatado nos jornais, sem um qualquer desmentido oficial - tenha contemplado o crescimento da rede da polícia política, deixando para a agricultura uma magra parcela, dispensa palavras.
O galo de África é os governos formados por gente habilitada para tratar da sua horta mas sem formação para outra escala, outros planos, outras exigências técnicas e intelectuais. E quando a gente não sabe e não se habitua a perguntar rodeamo-nos de oportunistas e bajuladores. A incompetência anda sempre a par com a carência de carácter, apoiam-se mutuamente. E o bem, comum que se lixe. Interessa é como manter o poder.   
Entretanto, assusta ver o olhar daquela mole humana que assiste aos comícios de AD: gente com o olhar crispado de quem já não suporta mais a miséria e está disposta a aderir a qualquer rasto de dinamite. Antes ser carne para canhão que nada.
Com tantos analfabetos no país, a manipulação é sempre fácil, para qualquer lado. Eu é que não sei se gosto disto para as minhas filhas e começo a ficar realmente inquieto.

2
A visita de Paulo Portas a Moçambique não deu em nada. Isto é, o Ministro dos Negócios Estrangeiros veio afinal pedir contas (sobre Cahora Bassa) e anunciar que, em contrapartida, Portugal já não contribuirá para a ponte planeada em Tete.
Duplamente um desastre. Não perceber que, fosse qual fosse a extensão da crise, havia que convencer a “troika”internacional de que era prioritário e vital para Portugal e o seu futuro nestas paragens não falhar com este investimento em Tete, dá a medida estreita da visão diplomática portuguesa. Pensa-se sempre para safar o amanhã, nunca com alcance.
O dinheiro que se gastaria na ponte voltaria a entrar nos cofres portugueses, ora duma forma directa, através dos ordenados das centenas de técnicos e operários especializados que viriam de Portugal para o projecto, ora duma forma indirecta, mediante as oportunidades de negócios que se abririam, num efeito dominó.    
Os dados antes de serem lançados ficaram carbonizados.
Enquanto Portugal, paulatinamente, se deixa comprar pelos angolanos, os brasileiros avançam
por aqui. E fazem muito bem, ou antes, fazem o que lhes compete. Portugal é que se demitiu de ser um parceiro de crédito.  

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

EDOARDO SANGUINETI: ENTRE PARENTESIS



Catando no my documents - pois sou daquela criaturas insuportáveis que nunca apaga nada e que de tempos a tempos depara com coisas que havia esquecido de todo – achei estas traduções de Edoardo Sanguineti, um poeta italiano de que gosto muito.
Aqui as deixo – e gostaria muito de saber quando se reunirão num volume todas as traduções de Egito Gonçalves, muitas das quais permanecem inéditas, como uma que me ele me deu do mais brilhante poema longo de Vladimir Holan, Uma Noite com Hamlet. 
Aos poemas e à entrada, devo tê-los tirado de qualquer blog, mas não me lembro de todo, pelo que não posso assinalar a precedência.

EDOARDO SANGUINETI, poeta, romancista, dramaturgo e ensaista italiano, nasceu em Génova em 1930.
Segundo Egito Gonçalves, “na sua pena tudo parece ser experiência, análise, intuição, dissecação meticulosa e fria; linguagem estridente e provocadora, ácida, difusa e confusa, corrosiva, por vezes grotesca, itinerário autobiográfico; comenta os acontecimentos do mundo que o cerca enovelados no banal quotidiano, parecendo no entanto, frequentemente, puro jogo linguístico.
Os quatro poemas que se seguem - e que trazem à memória a poesia de Frank O'Hara, - foram traduzidos por Egito Gonçalves e publicados na revista LIMIAR, n.º2, de 1993. Com a necessária vénia:
1
com um polvo que obriga a quatro horas de cozedura (o peixeiro não o bateu
convenientemente), muda-se uma refeição completamente: tenho a receita de uma maionese
provençal, mas contaminada com alho):
quanto às manchas simétricas dos frutos
desaparecem como se nada fosse, quase, realmente, se os esfrego com força,
apenas, com uma luva de espuma macia, molhada em água quente, e se Sylvie me passa a ferro
as calças para as secar:
sei bem que estou muito apresentável, eu, mesmo se
me apresento em slip de algodão: (mas falemos agora um pouco de Gramsci, que é melhor,
e da revolução cultural italiana):
(e cada palavra que diremos será gravada em fita):

2
falemos, por favor, dos prazeres da vida, por uma vez (disse eu
à mulher de Van Rossum, na segunda-feira às 11 horas): (que é alemã de Munique,
realmente, com menos de 30 anos, creio, branca de pele como clara de ovo): e o primeiro
prazer é o de penetrar, evidentemente: e depois, para mim, dormir ao sol (como dormia agora,
disse eu, antes de ela chegar: torso nu como podia ver, e pés
descalços, etc.): e o terceiro é beber vinho (francês, se possível, como aquele
que bebemos no sábado com Berio, e também na sexta-feira em Roterdão e aqui):
(e concluí que o paraíso será penetrar ao sol, talvez encharcados de Saint-Emilion):

3
Ensinei aos meus filhos que o pai foi um homem extraordinário: (poderão
contá-lo assim a qualquer um, um dia, se o quiserem): e depois que todos
os homens são extraordinários:
e que de um homem sobrevivem, não sei,
pelo menos umas dez frases, talvez (juntando tudo: os tiques,
os ditos memoráveis, os lapsos):
e isso nos casos afortunados:

4
um húngaro de nariz torto (excelente poeta, segundo parece) interrogou-me
no meio da noite, em plena Terrazije, dizendo: como fizeste, tu, para não ter
enlouquecido? (porque dizia que eu tenho todo o ar de um Artaud): e eu respondi, então:
mas as mulheres ajudam-nos um pouco:
estava de acordo (embora tenha logo precisado
que tinha sido homossexual, e que agora não praticava nada):
(ajudam-nos com a sua loucura,
precisamente, se aquela espécie de reedição descoberta por uma Elisa tinha razão,
lá em cima, no gabinete de Politika, ela que me tinha deixado dizendo: diverte-te e ama):

POSTKARTEN


1
tudo começou com uma estúpida história de sobretudos trocados
no restaurante Rosetta:  (e com aquela tua correria cega, a passares pelos balcões
da Alitália, distraída, abstraída):
                                          ei, não vejo onde está a graça, cara amiga,
o que eu acho é que, então, ali no bar do Amor, se perdemos com tanta facilidade
a nossa identidade, as roupas, os sinais particulares, os pontos
de referência, a orientação, o bom senso:
                                         (perdemo-nos outra vez
no mundo, como se pode:  e como se merece):  (e se te escrevo do aeroporto
de Capodichino, à partida para Amsterdão, nos voos AZ 424  e  AZ 382
é mesmo por pura superstição, afinal:  e não por outra coisa, a sério, por mais nada):

3
                                                 a cena é em Dronten,
 mais precisamente no Meerpaal, onde cacarejam saltitantes, gordas waterhoentjes,
                                                                      às vezes, acredita, pergunto-me
  o que ando a fazer, eu, aqui:  peço-te que respondas por mim:  (é urgente):

10
          a leitura passa-se
no Paris Bar, ainda, a propósito, na presença de um austríaco,
                                                                 de uma sopa de cebola, de um bife em sangue:

nego-me a discutíveis
golpes baixos, não dou importância à questão de uma suspeita bigamia, refaço o traço de uma cruz
já desenhada  (o que significa que fiz coisas que viverão depois de mim, talvez):
e concluo que me basta um destino de 5 ou 6 centímetros (e já é muito):

tradução de Tereza Bento (feita por ocasião do concerto Stefano Scodanibbio/Edoardo Sanguineti promovido pelos Artistas Unidos no Teatro Taborda, em Lisboa, em 27 de Fevereiro 2004)

O PURGATÓRIO DO INFERNO
este é o gato de botas, esta é a Paz de Barcelona
entre Carlos V e Clemente VII, é a locomotiva, é o pessegueiro
florido, o cavalo marinho: mas se virar a página, Alessandro,
vai ver ali o dinheiro:
         estes são os satélites de Júpiter, esta é a Rodovia do Sol, é a lousa quadriculada, é o primeiro volume do Poetae Latini Aevi Carolini, são os sapatos, são as mentiras, é a Escola de Atenas, é a manteiga, é um cartão-postal que chegou hoje da Finlândia, é o músculo mandibular, é o porto: mas se virar a página, Alessandro, vai ver ali o dinheiro:
         e este é o dinheiro.
         e estes são os generais com as metralhadoras deles, e tem os cemitérios com as tumbas, e tem as agências bancárias com os cofres-fortes, e tem os livros de história com as histórias deles:
         mas se virar a página, Alessandro, não vai conseguir ver nada.

Poesia traduzida por Julio Cesar Monteiro Martins, Pisa, dezembro de 2006



FALA DO ACTOR

peter brook, mahabarhata

Trazer algo à tona não é fácil.
Todos os dias tenho de remover o galgo
de porcelana, preto, que vem dormir à minha sombra.
O drama é que todos os dias é maior,
o cão de pechisbeque. Malditos chineses.
Não acredito que seja algo pessoal
É como um tique que os domina. Mas
é o meu trabalho pela manhã, remover o galgo.
Pesa, o sacrista. Cada dia é pior, como expliquei.
Só depois me posso aventurar a trazer algo à tona.
E o grave é que nem sei explicar o que momentaneamente
aflora. Pratico a acção de construir acções
- não chega? Dói como cem metros de crawl na gelatina.
Forçar o invisível a mostrar-se não é simples
e, o maldito, ri-se dos objectivos estabelecidos à priori.
Não me serve de nada o treinamento de actor,
ser esfolado vivo não é uma possibilidade expressiva
mas o próprio desejo da terra quando o inverno
chegou ao ponto mais baixo do seu desapontamento
e daí surge, aflito, um broto, um pio de cotovia,
a minha mutação ao espelho, emaciada
pela palavra com dois furos nos olhos
que impelem num vago sentido de direcção
como aos girassóis quando o vento lhes chega o gume.
Só assim me liberto da minha pele, inútil
pele de serpente, e (reconheço-o por um ardor
muscular e o vómito de ter acabado de cuspir
todos os vermes da minha morte), emerge à tona
algo que desconhecia e reclama lugar.
Pulsa-me no palato, nos pulsos, no coração
que me verte na tua veia em mim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O DIFÍCIL ESTATUTO DO INIMIGO

Tenho alguma dificuldade em aceitar que o filósofo Alain Badiou, brilhante em tantos aspectos, associe a necessidade de focar um inimigo à prática política.
Em África não se pensa doutra forma – tem que se eleger um inimigo.
Eu, talvez por emergir num período pós-revolucionário, não aceito esta dicotomia e rejeito-a no quotidiano.
Acho que só quem não é assertativo é que incube inimigos.
E julgo que é muito difícil atingir a qualidade requerida à categoria de inimigo.
Por exemplo, Filémon ambicionava a morte para assim ter ocasião de ir ver Eurípedes no Inferno. Isto é um inimigo.
Ma quantos “inimigos” meus desejariam a própria morte para terem o gozo de me visitarem no Inferno?
Estou rodeado de gente que não me grama, é isso. Bem hajam!
Quem respira em inimigos só produz a irrealidade. E os que insistem em colocar permanentemente um inimigo à frente dos bois, para além de terem pouco que fazer e pensar (é tão simples e confortável imaginar que o mal nos é sempre exterior, e que somos sempre vítimas de manobras), fazem-me lembrar aquele trocadilho gasto: não é alma, é asma!  
Claro que o mal existe, mas isso é outra história.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

VARIAÇÃO `A CHUVA SOBRE DOIS VERSOS DE MILOSZ




Enquanto o zangão enfeitiça a rosa,
outro fim do mundo não haverá.

Enquanto o raio caligrafar as fauces do mar
outro fim do mundo não haverá

Enquanto a nuvem lembrar uma pálpebra
inchada, outro fim do mundo não haverá

Enquanto as cinzas do medo incandescerem
o ar, outro fim do mundo não haverá.

Enquanto a luz cavar um túnel na direcção dos crisântemos
que te procuram,  outro fim do mundo não haverá.

Enquanto acordar ao teu lado esquecido
do alarido de muitas línguas na boca do Leviatã,

as costas direitas, ouvindo na varanda as andorinhas,
e souber que cardo, urtiga, micaia são três sinónimos

para o que está ausente na pele que acama
a alba, outro fim de mundo não haverá.


BIENVENUE MISTER CHANCE



Não para quê – ou sei – podei livro novo, isto é, desbastei tanto e remontei de tal forma os materiais dum livro que renasceu, de facto diferente, e, parece-me cristalizado.
Agora, seguirá sozinho o seu percurso.
Chama-se «Um Espião na casa do Amor e da Morte», e é um livro-reportagem, com reflexão q.b, sobre a violência (doméstica) em Moçambique e os mistérios do amor.
Há oito meses que o queria pronto, mas as circunstâncias não ajudaram e ainda bem. Só o tempo de facto é o grande mestre e melhora sempre tudo o que toca. Para isso é preciso aceitarmos a duração - esta condição é essencial.
Como sabemos pelo descolorido da fruta pasteurizada, a inversa interessa ao comércio mas antecipa a morte do artista.
Por muito que custe admitir ao nosso engenho, só o tempo traz a uva à videira, no alpendre que montámos.
E depois desta sabedoria à Mister Chance (filme, personagem, e actor – Peter Sellers - impagáveis), me voy, entusiasmado como um puto a atirar pedras por aí.
Mas aqui vos deixo (o primeiro rascunho do prefácio está nos arquivos do blog: Amor Cão), o epílogo, em forma de fábula, e que tenciono converter num conto:
«Não se sabe como tudo começou. Ou antes, não se desconhece que tudo foi precedido pelo desaparecimento da actriz francesa Julianne Morceau, nas imediações de Manica.
A actriz, que há seis meses aterrara em Maputo para viver longe do mundo o luto de uma decepção amorosa, pretendia representar o seu monólogo «Medeia nas Costas do Sol» nas comunidades locais e trabalhar como activista junto das mulheres vítimas de violência doméstica, propondo-se chegar aos lugares mais recônditos.
Julianne fez ainda uma sessão na sede da organização Lemusike, em Chimoio, e subiu com duas das activistas ao morro Cabeça do Velho. Depois despediu-se, entrou no carro e dirigiu-se para a saída da cidade, donde rumaria a Manica.
O resto, são conjecturas, lendas. Que nascem da única palavra que as Mulheres do Rio, como a si mesmo se chamam, proferem, quando lhes perguntam quem as inspirou a virem para a praia com as rocas, e elas rumorejam: Ju-lia-nne, abafando quaisquer outras explicações com um sorriso.
Sabe-se também que são mulheres com um passado de vítimas de violência doméstica, e que de súbito tudo abandonaram, um dia, antes de aparecerem semanas depois nas praias do país, descalças, vestidas de linho branco, e com uma roca.
Não falam do que lhes aconteceu entretanto.
Começaram por aparecer em Zalala, a mais bela praia de Quelimane, mas de Pemba à Macaneta, são uma legião cada vez maior, que assombra os homens.
Porque nada dizem, a ninguém acusam, e ninguém as vê levarem alimento à boca.
Limitam-se a sorrir, e de pés enfiados na água, fazem rodar a roca.
São milhares, ao longo da costa.
Os homens, que começaram a temer pelo desaparecimento de mulheres e filhas, voltaram a cortejá-las, voltaram ao diálogo, à compreensão.
E quando os mais impacientes, insistem, que fazem vocês, elas apontam as águas que rebentam junto aos pés, como se dissessem: vê!
E quem olha acaba por ver: dobam a espuma.»







quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O GRITO

O saque é sempre um acto indigno, mas, como explicava uma jovem inglesa numa reportagem que li, o que está em causa é menos o desvio da mercadoria (no caso dela, uma singela garrafa de uísque, que desfrutava com uma amiga) que «os ricos (metáfora da arbitrariedade dos mercados) perceberem que nós podemos agir».
Ou seja, aquela rebeldia é um aviso: vocês podem continuar a sufocar-nos, a pisar, cinicamente, a nossa dignidade, em nome da regulação dos mercados (leia-se, dos condicionamentos que mantém os desequilíbrios sociais como a primeira das prioridades), mas não esqueçam que a deliberação final é nossa.
ESTE GRITO DA DELIBERAÇÃO É UM TREMENDO ACTO DE REPULSA em relação aos caminhos que a Europa neo-liberal traça. E o saque, afinal, resulta de uma resposta simétrica ao comportamento que os mercados têm tido: é um olho por olho, dente por dentro.  
Não compreender isto é muito perigoso, embora tema que os ricos (só a estupidez é eterna) continuem incapazes de empatia e não sejam socorridos por uma visão moral que galvanize um novo estado social.
Mas se despontar um grama de compreensão, talvez depois do período de distúrbios que se sucederá certamente às tréguas impostas pela presença maciça de polícia nas ruas de Londres - ninguém aguenta muito tempo a sensação de estar entalado sem reagir -, talvez aí, como diria o Walter Benjamin, à barbárie se suceda a civilização e volte a dimensão das reciprocidades a estar na agenda da política.  
Esta é uma das últimas oportunidades.
Creio que o saque de Paris já se anuncia, a cegueira social de Sarkozi está a pedi-las:

«Sempre me quis assoar à bandeira da nação
A bandeira dos que deportaram a minha irmã, que saiu à rua para comprar nozes para o bolo de aniversário da filha,
A bandeira que desfraldam nos tatoos militares, aqueles que mandaram fechar a fábrica de cortiça para inundar o mercado de rolhas de plástico,
A bandeira dos que me crivam de impostos enquanto mister Deluxe comprou um Ferrari com eles,
A bandeira dos que sarcasticamente infernizam a vida do meu filho na escola porque ele não perde o sotaque de rouxinol albanês,
Sempre me quis assoar à bandeira da nação,
É hoje,
Vou levar a chave-inglesa para, no caminho, sacar na ourivesaria da esquina o anel de noivado que há um ano prometi à Miriam e que eles não me quiseram vender a prestações.
Ainda bem que estou tão constipado»          

COLÓQUIOS COM A JADE 5


A sorte que eu tenho: as minhas filhas ficam lindas de morrer
a dormir. Outras parecerão penedos, as minhas
excedem em muito o brilho que lhes empresta
o olhar de pai. Foi a minha lotaria.
A sua respiração branda bate-me ao ouvido, é a alga
que adere ao molhe no encalço da manhã.

Dorme, a pestinha. Eu espreito de viés
o euronews (baixei o som
para não emudecer os pássaros), e interrogo-me
se ela daqui a uns anos estará envolvida em distúrbios
porque um expert no gabinete, para não desviar
um centavo das suas aplicações na Bolsa,
lhe quer cortar a hipótese de ir  
para Viena estudar musicologia.

Como resgatá-la à trivialização do mundo?

Ainda esta manhã me preveniu: «Pai,
a mamã não quer que faças a barba.
Não faças a barba senão depois não há sexi...»
Sexi, interroguei, atordoado,
«beijinhos», rematou numa alta ciência.

A minha filha dorme encavalitada no meu ouvido,
neste mundo tão avesso aos poetas obscuros.
É a economia, estúpido! - garante o outro. Mas
não é, estamos simplesmente a embargar os afectos. 






quarta-feira, 10 de agosto de 2011

AS ILUSÕES DE MANDRAKE




Dois excertos que encontro num livro de conferências de Stravinsky:
1.     «No que me diz respeito, nunca ouvi falar sobre revolução sem pensar na conversa que Chesterton nos conta que teve com um estalajadeiro de Calais ao desembarcar em França. O estalajadeiro queixava-se amargamente da crueza da vida e da crescente falta de liberdade: «Quase não mereceu a pena – concluía o estalajadeiro – ter havido três revoluções para terminar de toda as vezes tal como se começou.» Como consequência, Chesterton fez-lhe ver que uma revolução no verdadeiro sentido da palavra era a deslocação dum objecto em movimento que descrevia uma curva fechada, e deste modo voltava sempre ao ponto de partida…»
Arrepiante, algo que estava chapado no próprio sentido da palavra mas que, camuflando-se, emergiu como a ilusão de um século inteiro.
2.     «Os círculos snobes transbordam de pessoas que, tal como uma das personagens de Montesquieu, se espantam como se pode simplesmente ser um persa. Fazem-me, infalivelmente, pensar na história do camponês que ao ver pela primeira vez um dromedário no jardim zoológico o examina pormenorizadamente, sacode a cabeça e ao ir-se embora diz, com grande gáudio dos circunstantes: “Não é verdadeiro!”».  
Uma tipologia que encaixa em tantos alunos e em quase todas as criaturas que são reféns da ilusão identitária.

sábado, 6 de agosto de 2011

PIRIPIRI SUITE

mapplethorpe

Como já contei aqui, a minha casa actual (um apartamento muito agradável e de dimensões que em Lisboa me custariam os olhos da cara) situa-se numa zona eminentemente popular de Maputo, um bairro por cujos passeios se estende um verdadeiro formigueiro humano, com muito comércio, barracas e tasquinhas de todo o género e feitio, nas quais o néon disputa o espaço ao zinco e os sapatos e pilhas às bancas de dvds; casulos humanos de aparência mais ou menos lúgubre; mas de decibéis invariavelmente no limite.
Às vezes abanco numa tasca, de livro a tiracolo. E num terço das vezes a minha presença excita, a)algumas raparigas que me põem na mira de uma ufana descendência mulata, b)algum preconceito, que motiva um crescendo de piadas e de provocações ao «mulungo» (o branco), o que suporto placidamente, ora com a indiferença, ora num sorriso, alinhando até com uma piada e uma auto-derrisão que os surpreende sempre.
Ambas as situações são incómodas, não apenas porque sou bastante avesso à oportunidade política do engate (e raramente a conversa ultrapassa o cliché), como também porque para o racismo nunca estaremos verdadeiramente vacinados.
Mas no essencial é isto, o racismo fode(u) tudo, e a célebre «reconciliação» do Mandela é, meus caros, discurso para exportação e turismo.
Aqui coabitamos, apesar de, e não conjuntamente, de forma orgânica.
Desiludam-se os românticos de esquerda, em África manifesta-se a erosão mais explícita dos “amanhãs que cantam”. Para ver isso, basta não vir em férias e ter a coragem de não fazer como a maioria dos mulungos que rapidamente adoptam a postura daquele macaco do artesanato africano que não ouve, não fala e não vê.
O que me leva ao primeiro ciclo poético sério que escrevi em Maputo, em 2005, e, numa toada auto-paródica, contém já essa tensão dum espaço dilacerado e em perpétua antropofagia, PIRIPIRI SUITE.
Aqui vos deixo o poema de abertura:

 

PIRIPIRI SUITE

                             Uma homenagem a António Quadros/João Pedro Grabato Dias

Óculos raban, insinuam línguas de prata,
e voltejam máscaras, pássaros policromados,
timbilas, à cata de epicuristas binoculados
em sinas e suruma - um mundo de erratas,

o pequeno teatro que te acomoda à cafeína.
Mandrake fosses e, na prontidão inigual.
de um ademane ficariam saciados,
em cada sorriso tilintaria uma mina,

até ao Luthor emprestarias lacoste.
Mas, rapaces, confundem o dinheiro
e a melanina, não te admitem
bebedola e sem vintém, como foste

e serás - quanto muito assisado pescador
de pérolas nos baixios de dama remediada,
lida a que sem ronha nem azougue
te afeiçoas, em desatino e desprimor

do verso. Lembrar genealogia lusa e espúria
que nunca se rebelou com o chiqueiro
e que nem O Bolor de meio século
ventilou, na cadeira da injúria? P’ra quê?

Eles, rudes e confusos, estão-se nas tintas
para os fungos da memória, e trinta
anos depois de se libertarem da pilhéria
alheia abraçam, agastados, a própria.

É da natureza dos povos, o couso
da sua dependência é uso de cada um,
e o resto é a ingénua sarça
da esperança a gozar c’os moços.

O da mota de arame não debanda,
não vês tu que é uma Davindson?
Cabrão de tuga, mil vezes matreco,
alardeiam as narinas que já não comanda.

Chega agora o jornaleiro. Separa-nos
uma vidraça, ouço-lhe todavia o sangue:
estoira-lhe nas veias a pedreira,
vê-se o assanho nos braços estirados

por palavras ínvias, sem rasto de bulbul,
toneladas de iletrada treva eterna.
Defronte fica o shoping, planante
nas suas varandas em tubelagem azul,

e com o ar imponente, brunido,
de a quem miséria alheia não exaure.
Ao lado, numa vivenda baixa, colonial,
que as acácias e um muro carcomido

isolam, um dos grandes arquitectos
africanos, desenha a casa de reforma
de Kofi Annan. Ah, a arte aos eminentes!
E bolsa-me instantâneo o dizer predilecto

de Claes Oldenburg: “pratico a pintura
que ajuda as velhinhas a atravessar
a estrada”. Puta de boutade! O filho
do cônsul sueco, merecia conhecer, dura

entre as pernas, a paixão dos pobres.
Tu sonhas com Java, o mais misterioso
dos países, e percepções em si mesmo
não lacunares exortam-te o canto, salobre

e macio sentimento de exterioridade
que te dissipa o azar e salva da lacrimejação
dos patrícios que te rodeiam. E sempre
gostaste do caos, confias na benignidade

de uma poética do sujo, que a mais grave
miséria é espiritual (odeias-te por     
dizer isto), acreditas que assobiar
é preciso quando se levanta entrave,

e aqui - restituído ao mais paisano
anonimato - redescobres a fantasia
de não teres tradições, novas sendas
para a língua, uma por outra tesão de ébano.