terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Maldição de Ondina

foto de "eclipse" de antonioni
Hoje dar-se-ia em S. Paulo, na Livraria Martins Fontes da Paulista, o lançamento oficial da minha novela A Maldição de Ondina. Motivos de força maior, imprevistos e absolutamente alheios `a minha vontade, impediram-me de me deslocar.
Mas, para contrariar os azares, recebi hoje um testemunho que me deixou feliz: Fábio Lucas, um excelente ensaísta e veterano da crítica brasileira (uma das vozes que o leitor brasileiro ouve), que já o leu, elogiou ontem o meu livro publicamente, num Congresso de Escritores que decorre neste momento em Ribeirão Preto, onde também deveria ter estado e para a qual redigi uma comunicação, que foi lida.
Isto só tem importância para quem como eu não se importaria de mudar de armas e bagagens para a terra de nuestros hermanos. Talvez seja a cunha que necessitava para que a mesa não continue bamba.
Vamos foçar. Aqui deixo a capa e a abertura do livro:



1
Assusta-a a rudeza do mais velho, o seu rosto de ratazana esgalgada; o olhar indecifrável do outro, o gago. São os seus cunhados. Chegados há uma semana a Maputo para o enterro do seu marido.
Não param de manducar, de clamar por bebida, de vasculhar tudo na casa, metediços. A casa de banho ficou ocupada vitaliciamente (descobriu que o mais novo penteia o bigode com a sua escova de dentes), nos intervalos de emporcalharem lençóis, as toalhas de mesa, os sofás, de ranho e merda e vinho e esperma. Mal acorda, ainda enevoada, vê-os a adejar pela casa, sem decoro, os maxilares infatigáveis com que retalham o dia, enquanto plangem guitarras nas marrabentas («k’há n’pfa ndy nga psi tive/Eh psaku ku unandi ka Mandjólò») e o movimento dos lábios súplica por reforço: ma-ma-mã, tou-tou a pe-pe-dîr...
A sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar a casa e levar as crianças, advertindo-a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o polícia do sétimo. E fora, as crianças de olhos pisados pelo choro. O polícia do sétimo… - sentira um arrepio, e veio-lhe - o homem que prendeu o meu marido.
- Ma-mamã… - Pede de viés o menos abrutalhado – me me dá vi-nho!
O outro, na varanda, fuma, desconcerta a paisagem. Assim que chegaram gabaram a vista, já ouvera dizer que a casa do mano ficava no alto, mas este alto, xii, é graúdo, explicou o Ratazana, expondo pela primeira vez as gengivas em sangue, que a arrepiavam. Depois apercebeu-se, o que os animava não era a vista mas os dois vasos de maconha que o marido pusera na varanda.
Só vira três vezes aqueles irmãos do marido. Quando fora apresentada à família dele, no casamento, e na segunda vez que subiram à Beira, nascida a mais nova, para mostrar a miúda. Sempre a incomodaram aquelas gengivas em sangue, o verdete daquele canino talhado a meio. Na Beira, o Ratazana, tinha duas mulheres e nove filhos, e vivia de biscates. O outro, professor primário, fora deixado pela mulher, depois de a ter surrado quase à morte, com oito meses de gravidez. Por ciúmes do pastor:
- Ele te-tem aque-la fala li-lisa e mulher go-gosta,…- Desculpou-se.
O marido, ao pé deles, era um príncipe, articulado, elegante, perfumado. O tio Alberto, empregado na farmácia da Polana, até comentara:
- Xi, aquele moço nem parece ndau, é um machope de ventre enganado… (1)
Conhecera-o numa festa da McCel que assinalava o arranque da reabilitação da Feira Popular de Maputo. Ele era o chefe dos seguranças. Adorava vê-lo a dar orientações pelo walkie-talkie. Excitava-a o ar decidido dele, o seu fluido dizer, sem espinha ou caroço. Só muito depois, já nascera o segundo filho, soube que o seu verdadeiro negócio era o tráfico. O esquema. Vário. Que importava, se a metera a estudar, se graças a ele tinha feito a 11ª classe, se era bom com a criança? Já se tinha matriculado na 12ª quando ele foi preso. Na ocasião nem aparecera, mas de certeza que o polícia do sétimo estava metido. Um mês depois o marido envolveu-se num motim na prisão e foi abatido. Há dez dias. Separada do seu homem há dez dias, por uma bala que lhe engarrafou a alma. Dez dias separam a memória fresca do marido daqueles lábios grossos de sangue coagulado que agora, de viés, pedem, insistentes:
- Ma-ma-mã, pe-pe-ço sardinha!

(1)     Ndau (da Beira) e Machope (de Inhambane) são duas etnias de Maputo, sendo os primeiros considerados mais agressivos e os segundos mais dóceis e inteligentes


2
«Mandjólò/ Nd’ya ka Mandjólò/ Kè m´baku/ Nd’yà ka Mandjólò»
Raul trinca o kitkat, sentado na varanda, ao som da marrabenta, que desce do oitavo direito. Comprara-o de manhã para o Artur, o filho, que deu duas trincadelas e rejeitou a guloseima, num esgar, pai, sabe a sabão. Desfaz o quadrado na língua, ensaliva-o vagarosamente. Sim, está muito longe do sabor que guarda da infância. Que quebra de qualidade. Na generalidade, ouve dizer, o padrão de qualidade dos chocolates da África do Sul baixou muito. Não entende porquê.
O balanço da marrabenta fende o ar: «Kòdwa u suka Ximbanguini, muzay/ N’kwãkwãnana/ Y n’gwavela kwapa ndlela/ U um ndyndyndy wénè». Mpfumo? (2) A chinfrineira dura há uma semana, desde que chegaram os familiares do falecido. Raul imagina o que a viúva passa às mãos de tais cunhados, grunhos do mato, osgas meticulosas. A viúva é-lhe simpática, tal como o era o marido – muito diferente dos irmãos, vivaz, alegre, urbano. Pena ter-se metido em cavalgadas. Hum, a viúva julga que ele teve alguma coisa a ver com a detenção, sem ter metido aí prego ou estopa. Não investiga vizinhos, evita esses assados e achava graça ao finado. Mesmo depois de ter sabido que se metia em alhadas. Devem estar a chupar-lhe tudo, pensa, malditas tradições. Vamos lá a ver se não a violam, à conta do kutchinga (3).
Nessa semana já a encontrara por duas vezes na escada e ela, de carantonha, não lhe dirigira a palavra, convencida duma culpa que ele não tem. Depois dos alarves se irem embora hei-de falar com ela – promete Raul. A marrabenta volta ao refrão. Espera não ter de intervir. Contara-lhe o guarda que a mãe da jovem saíra lá de casa, com os netos. Escapatória inevitável. O martelar da música desde o primeiro dia, extravagando indiferente ao silêncio exigível a um luto, ao recolhimento da viúva, punha às escâncaras a intrusão. Mas o quinhão de infortúnio que a cada um é destinado viver é intransmissível, não lhe cabe imiscuir-se. Será, reflecte Raul.

(2)     Marrabenta é um ritmo musical popular, muito cultivado na periferia urbana, e de que Mpfumo foi uma das figuras míticas
(3)     Kutchinga: uma tradição ainda hoje vigente no campo e segundo a qual a viúva passa a ser mulher do irm

3

0 Ratazana sacudiu-a pelos braços, ordenando ameaçador:
- Vai buscar papéis do mano…
Ela tremeu mas resistiu:
- Os papéis são meus e dos filhos…
O Ratazana redobrou a força da tenaz:
- Cabra, vou-te brechar… - ameaça - não pense que não sei, você matou meu irmão. Fez feitiço…
- Feitiço? Feitiço com quê?
- Não se ponha com não sei, com quê quê quê… ‘cê sabe, qualquer merda…
- Ele morreu na cadeia…- Replica, trémula, fixada nas suas gengivas em sangue.
- Feitiço de ir para a cadeia. Tem curandeiro em Maputo, que sei… queria ficar com tudo, t‘arranco o coração ao dente, puta.
Sublinhou a imprecação com um tabefe. Ela levou a mão à face, incrédula. Quando a retirou levou a segunda bofetada. Um formigueiro alastrou pela face contundida.
Há dias que eles quase não dormiam, que emborcavam sofregamente a garrafeira de Tomás, o falecido. Este punha orgulho no vinho que armazenava na despensa e até fora a Nellsprit comprar um desumidificador para manter a bebida na temperatura ideal; o vinho que há uma semana se delapidava de forma labrega, brutal. E estando a terminar o saque vinícola, chegava o anúncio das verdadeiras intenções dos cunhados.
O Ratazana expeliu um bafo que a nauseou. Fez uma careta, ao resmoneio dele:
- Tem sorte de não querer tirar a minha sorte, como é direito… ou não sabe que viúva de irmão passa para cunhado?
- Chamo a polícia! – balbuciou, ela.
- Não tem problema. Polícia entende de tradição. Mas a dama não pense que lhe empresto meu tesa… é maningue magricela para meu gosto, nem sei que tinha Tomás para comer… Quero é dinheiro do mano. Curandeiro disse que tem muito dinheiro em casa de mano…
- As contas dele, a polícia congelou… O que tem, está no quarto…
- E esta casa?
- É das criança! Tomás pôs a casa no nome dos filhos!
- Parte… - Grunhiu o Ratazana, na direcção do gago. O outro levantou uma cadeira da sala acima da cabeça e estilhaçou-a no chão. Desencaixou-lhe um pé e sorriu satisfeito, tinha o seu maço. Depois malhou no tampo de vidro da mesa de jantar. O vidro cedeu, desenhando o delta do Nilo. Atirou-se aos dois posters envidraçados que decoravam as paredes. Quando o maço acertou no candeeiro de pé chinês da sala e rasgou pelo ventre o dragão estampado do abajur a jovem viúva sentiu-se uma alma insepulta. Seguiu-se a cristaleira, reduzida a cacos, com impiedade.
Nas escadas, encostadas às ombreiras, as vizinhas sussurravam.
O Ratazana atirou-a para o sofá; caiu desamparada. Recostou-se ao fundo do sofá, cobrindo os olhos com a mão; impotente. Depois, ele puxou o escarro chegou-se à amurada da varanda e lançou-o sobre as acácias amarelas. Segue atento a parábola do muco voador, há dias que tenta acertar nas flores, embora a altura não lhe permitisse divisar o trajecto até ao alvo nem o seu impacto. Olhou em torno, provocador, e num impulso brusco pega num dos vasos de maconha e atira-o violentamente contra a janela larga da sala. Seguiu-se ao estilhaçar do vidro o baque seco do impacto do vaso no chão. O vaso quebrou-se pela base e um brilho de plástico preto assomou sob os cacos, na confusão da areia. O Gago correu para examinar o achado. Era um maço de notas de cem dólares embrulhado em plástico preto. De imediato, o Ratazana lho arranca da mão, e intima o gago a amarrá-la ao braço do cadeirão para que ela não fugisse, enquanto ele conta o dinheiro. A mulher chora. 
As notas novas, fúlgidas, dispõem-se aos montinhos na mesinha baixa da sala. Vinte mil dólares. Os dedos compridos dos pés do Ratazana harpejam o ar, encantados com a colheita. Palita os dentes e conta pela enésima vez os montinhos. Leva a garrafa de vinho à boca e emborca. Vinte mil dólares. Aponta para ela, amarrada ao cadeirão:
- Não sabia?
Ela repete, a voz num soluço:
- Não!
O Ratazana volta à carga:
- Cabra mentirosa, vou-te golar, você queria roubar de nosso mano!
O Gago chega do quarto, trás um documento na mão:
- Ma-ma-no… - Estende-lhe o papel.  
- Quê, quê, quê…? – Pega no documento e examina-o – É certidão de óbito… de Tomé.
- Vê, é pa-pa-pel fi-fino…- Embrulha-o um sorriso alvar - Tem “banana”...
- Vai buscar.
O Ratazana saca do bolso um canivete suíço, dobra a certidão e rasga-a em tiras, cinco. O Gago vasculha na despensa atrás das cruzetas do vinho, volta, e dá “a banana” ao irmão, que a abre e em gestos sacudidos, firmes, distribui a marijuana numa linha longitudinal sobre uma das tiras. A língua como uma gazua emudece uma das pontas, enrola o charro. Acende-o. A expressão aviva-se-lhe, tosse, dá uma nova passa, fundo, retendo a respiração; passa o charro ao irmão.
Tocam à porta.
O mais velho impõe silêncio e amarfanha as tiras da certidão de óbito e o resto da “banana” na boca dela, dando-lhe um tabefe, de sobreaviso. Retine de novo a campainha, insistente. A ratazana entra na cozinha, e por gestos indica ao irmão que abra a porta, daí a cinco segundos.
- Polícia, abra ou arrombamos a porta… - ouve-se, da escada.
O Gago abre a porta. Apontam-lhe um crachá à cara, enquanto o cano de uma arma lhe sonda a barriga. Recua. Sem uma palavra penetram na sala. Raul vê-a amarrada ao cadeirão, a boca a cuspir papel e erva.
- O teu irmão? - Inquire Raul – perfurando com a arma as tripas do Gago.
É nessa altura que uma lâmina lhe penetra nas costas.
Os dois irmãos olham o corpo inanimado de Raul, a mancha de sangue a alastrar na camisa. Impávidos, como a pedra desferida da funda.
Interrompe o Ratazana:
- Vai buscar “bananas” e lhes mete num saco. Vamos…
O Gago obedece. O Ratazana olha com desprezo a mulher, o seu pânico, que ensaia um grito. Ele não lhe dá tempo, com uma coronhada deixa-a desfalecida. Depois limpa a faca com a fralda da camisa e mete-lha na mão, que cerra sobre o cabo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MAT'ERIA CONCENTRADA

o patracas, quando bebemos o primeiro copo


Chego a casa a cavalo num só olho,
desdobrado, o espírito tomado
pelas frautas de pan.
Passei a tarde com o patraquim,
há vinte cinco anos que passo as tardes
com o poeta e ainda não acabámos
o primeiro copo, depois da libação.
A tarde encanece, só a nossa palavra
está intacta como o gume na desrazão.
Rimos, há 25 anos que rimos,
mansamente descalibrados
pelas ironias da sorte, sem
termos acabado ainda
o primeiro copo, depois da libação.
Chego a casa a cavalo num só olho,
abro o livro que ele me deu e vejo a brisa:
«Se no deserto um grão esporear o vento
(…)
Eu vi a noite rasgando
a palavra anterior
desocultando-lhe a pele
o espesso leite

um lago por onde os animais corriam
temerosos das inumeráveis sombras
perguntando-se em degola
(…)
o que a melancolia percebe dos plátanos
(…)
Depois descemos pela poeira
Hospedados os deuses em suas casas
(…)
Um nome disse: é um dorso
Arqueado ao meio por um rio

Alguém desesperou do rosto
E as casas abriram-se
E eram os teus seios
(…)
Alta noite
O infinito
Deitado
Dormia»  
Alta noite sei: amanhece. O dia ainda
amanhece em nós, vícios antigos.
E a cavalo num olho, pela fímbria
onde alastra um esplendoroso incêndio
vejo que, ondulantes, respiramos
medindo o laço com que desapontamos
a morte. Matéria concentrada, amigo.

sábado, 12 de novembro de 2011

O NÓ DO PROBLEMA: A SÓS

o beijo, robert doisneau

`As vezes perguntam-me, porque foste tu para Moçambique? Eis a resposta:

1
Só de um estado se entra
e se sai. Em ti,
contigo, ouço
a batida do meu sangue.

Julgo-te atrás de mim
e desfechas à minha frente
um mar de assoalhadas,
és o pavão que abre

o leque e recolhe
a paisagem.
As formas

encobriam
a realidade.
Antes de ti.

2
Antes de ti
tentava mudar a vida
e o mar era a viseira
que resguardava o rosto.

Antes da compreensão
de que a pele
é a ombreira

onde se recosta
a que mira o horizonte
e trinca a maçã

reineta. A tua
dentada
na polpa
que me adoça.

3
Não há memória
nem passado.
Há a forma
como cantas

e o aceno
de te escutar.
Modos de evasão
que crescem

para dentro.

4
Antes de ti,
só nos objectos
despertava.

Na extensa respiração
dos talheres.
No bocejo dos anéis.
No jogging dos ponteiros.

Antes de ti,
na ponta dos dedos
nascia uma ilha.

Ataduras que isolam.


5
Dois cientistas trabalham num laboratório
Um deles toca a mão do outro
e faz uma descoberta: “este
é o meu corpo”. Transmite

ao outro a equação, explica-lhe
que combinações realizou a fim
de obter o resultado. O seu companheiro
deve ter confiança no que está a receber.

Mas recolhe uma informação em segunda
mão. Então toca na mão do outro
e repete: “este é o meu corpo”.

Depois toca-lhe o braço.
Etapa a etapa trocam
de lugar. Então desperta

6
Distintos ecos
mas só em ti
a montanha se faz sopro

e a minha boca é
presença a si mesmo


7
Por cima da amendoeira
os cirros,
debaixo
a carne,
sobrenatural,
que me restaura
os dedos
como à água nas cegonhas
o voo.

8
Contigo: seguindo-me
a mim mesmo
sem nunca me preceder.
Sem ti: os cães da noite
batem portas
no meu espírito.

9
A tua ausência
escarpa
o ar,
pesa ancestral
nos reposteiros,
ilumina a sujidade
dos abat-jours,
ressoa nos livros inertes
como palha,
sorve o silêncio
da casa, atento
inconfidente
a si mesmo –
pela primeira vez
imaterial.

Aquietar
o coração se nada
na sensação é fixo?
Só o olho da rã
acompanha a velocidade
dos movimentos
em ziguezague,
hipótese
que Deus
me sonegou.

A minha intimidade
(a tua pedra de toque )
migra
e ar-
-de
a Oriente.


PARTIR, O FORMATO LÍRICO

Será possível que o meu corpo
tenha afinado a lupa
que a tua pele refractava?
É esta a condição do homem:

a sua fronde não esgota
o ciclone, a sua inclinação
para a morte não desabitua
a Primavera. A estação

dos outros, quando não estás.
Eis-me afeito a partir.
Já não receio ferir-me no cabo

em marfim do destino,
no vestígio vivo que alumia
o passo no gume da manhã.


RIR, COM OS NERVOS DA CHEGADA

Reveja-se o zombie jubilado a sair do avião.
Reencontra-a após cinco meses
de lameiro como vegetal irregular,
e interroga-se: “amo esta mulher,

que frutos arborescemos juntos?”
Abraça-a, enguia miúda, e espanta-se
pela sua nova madeixa branca (o que só
lhe realça os olhos), enleado na doçura

do sorriso com que ela armou o laço
à sua alma apardalada. Imagina-se
fora de toda a distância, sobre a pele

das Índias, como alguém que é orfão
e ao amor pede desplante: o lúbrico
e paleolítico estoiro das fronteiras.

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

REESCREVER A MEMÓRIA, CONSOANTE O VENTO

a virgem, de max ersnt
Anuncia-se nos jornais, neste caso o Escorpião:
«o Movimento Literário Kuphaluxa move um projecto que consistirá em levar a poesia ao povo. Esse projecto tem o nome de “Poesia nas Acácias” e será a partir de quinta-feira, dia 10 de Novembro até sábado dia 12 do mesmo mês em Maputo.
Constituem objectivos desta iniciativa única, incentivar o gosto pela leitura, dar a ler ao povo e descobrir novos autores da poesia moçambicana, estes que ainda estão por se descobrir» (sic).
Espantosa esta declinação da partícula, que faz com que os novos autores se descubram como uma epifania, por antecipação ou desmasme, mesmo antes dos próprios se reconhecerem poetas.
Mas prossigamos a transcrição: “«Kuphaluxa que quando traduzido para português significa disseminar…”(…)” De acordo com esta agremiação, procura-se levar a poesia às massas, estas, que são as fazedoras da poesia.»
Nenhumas massas são fazedoras de poesia. As massas são fazedoras de motins, de linchamentos, de manifestações, de ritos, num fluxo ou num élan que às vezes pode dar uma extrema sensação de gratificação, mas a poesia e as massas são coisas disjuntas, lamento. Só a muita ignorância e a muita demagogia pode levar a tal ideia descabelada. Mas meta-se a massa num passe-vite: não sairá num verso. Fuzilamentos sim, ou um novo ditador, ou até às vezes uma certa sensação de liberdade, mas versos nem um.
Continuemos:
«Vamos invadir as acácias da cidade Maputo para expor a poesia. Serão cerca de 200 poemas expostos, sendo de jovens iniciantes no mundo da escrita e de escritores profissionais.»
Esta misturada é tudo o que não se deve fazer. Colocar um balbucio ao lado de um poema de Craveirinha ou de Knopfly é obedecer à malsã lógica televisiva que tudo nivela e destrói. Ou só jovens que mostram as suas feridas e exaltações (e não há jovem candidato a poeta que, pateticamente, não julgue que a poesia seja uma choraminguisse ou uma declaração, de revolta ou de amor à amada – mas que fazer para se chegar à poesia tem de se atravessar este mar de equívocos), ou só os poetas de referência, para se oferecerem modelos. Misturar aos olhos “das massas” as duas vertentes só fará com que as “massas” não distingam o bom e o mau, um efeito que contradiz os objectivos.
Mas segue a notícia: “Queremos levar a poesia para o povo e por isso os temas abordados nos poemas são de carácter social”. 
Meus Deus, que tem a poesia a ver com os temas? Cito Michaux: “Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social”.
Continuemos: «esta nossa exposição terá lugar naquele que já fora (já fora? Já fora, já!) o Jardim botânico de Maputo, um pulmão para a respiração da cidade – Jardim Tunduro. Por outro lado, esta iniciativa servirá de apelo para a salvação daquele jardim.
Entretanto, a nossa fonte refere que a iniciativa será ao mais alto nível, sendo que este tipo de iniciativa será uma surpresa para o público nacional, uma vez que é a primeira vez que isto se realiza em Moçambique».
Uma surpresa não será, e localiza-se aqui a irritação que me move contra esta iniciativa.
Em 2009, no posfácio de uma antologia de Virgílio de Lemos que eu organizei e que se encontra à venda nas livrarias de Maputo, posfácio escrito em diálogo, digo eu:
«Vou propor uma intervenção urbanística. Que o Jardim Tunduru fosse transformado no Jardim dos Poetas e ao lado das árvores houvesse tabuletas com excertos de poemas, como se fossem garrafas com mensagem, em que as pessoas meditavam enquanto passeavam. Até já escolhi alguns do Virgílio… (cito então vários excertos de poemas do Virgílio e continuo) Que tal estes canteiros? Catei-os de poemas que não estão em antologia. Já imaginaste uma geração a crescer, lendo estes versos, enquanto brinca no Jardim; estes e outros, do Craveirinha, do Knopfli, do Patraquim…», etc., etc.
Topam, donde veio a espantosa coincidência?
Claro que as boas ideias são para circular. Mas gostaria que pelo menos o Movimento Literário Kuphaluxa – que afinal só dissemina a boa ideia que eu tive – tivesse ao menos a simpatia de me convidar, nem que fosse para borrar uma acácia com um sonetilho queixoso.
E o que é alarmante é que jovens poetas não percebam que ao poeta, uma criatura que se entrega como um funâmbulo à arte do fingimento, está-lhe interdita a mentira.
Começará aqui uma boa carreira política… mas a poesia, cadê?