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segunda-feira, 25 de julho de 2016

ESCRITOS NA VARANDA: IMPERMANÊNCIA



Uma vez em casa do poeta Joaquim Manuel Magalhães vi-o riscar com sanha uma palavra que a editora havia impresso ao fim da página de rosto do seu belo livro Segredos, Sebes, Aluviões, enquanto vociferava contra a impertinência da “sentença” intrusa.  A palavra era “impermanência”. Bom, o Joaquim era então um pequeno deus e eu um candidato a oficiante, teria ele menos dez anos do que os que conto nesta altura. Já na juvenília da veterania autorizo-me a pensar que, mesmo nos melhores de nós, além da soberba há vezes em que também nos sobra a imprudência.
Lembrei-me desta história depois de ter escrito o poema que se segue, no intervalo de uma dessas pesadas tarefas que impõem uma mudança de casa. Resolvi descansar uma hora e levei para o café uma antologia do Milosz. Foi no confronto com este magnífico polaco que se verteu o poema:

«IMPERMANÊNCIA

As estrelas exumam a luz
do fundo do seu próprio abismo.
Pestanejam e salta o tigre.

É infindável o núcleo das estrelas,
vive na ponta dos seus raios,
na transparência com que o felino

trespassa as suas presas,
alumbrando-lhes a carne e os ossos
- como a palavra, sentada

num grão de pó, lhes parece
agora saturada! A energia
que as estrelas despendem

neste esforço é a mesma que late
no teu coração, amor, e insuficiente

é o nosso fôlego para retê-lo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

AS TRÊS GRAIAS

As três Graças, Rubens
 
Vasculhando materiais antigos descubro este ciclo, que me agrada.
As três Graias: o Tempo, a Memória, o Sono.
Já terei usado um verso ou outro noutros poemas, refundindo, não importa. A coisa surge-me como uma unidade que merece a sua contemplação à janela.
Para ilustrar escolhi o quadro do Rubens sobre as Três Graças, porque estas, ao contrário do artista, me parecem Três Graias.
 
O TEMPO
 
1
Gosto, no Tempo,
que me dispa
em contramão.
 
Se me aperalto,
Ele, num aceno
açula os mastins,
 
arma no desejo
de Teseu
a labirintite.
 
2
O simples: estria
que difere
por natureza –
a despeito
dos liftings do amor,
alguma coisa
que difere.
 
Agarrado ao galho
do Tempo,
sou o último fiapo
que o rato
ainda não
visou.
 
3
O meu corpo é o corrimão
onde se coçam as calças
da valiosa criança
do Tempo.
 
4
Era assim quando fui cão.
O orgasmo?
O McGuffing da morte.
 
E hoje cheira-me que transijo
em solo desconhecido,
que o Tempo se devota
a polir a vigota do temor.
 
5
Não é matéria de calendarização.
O Tempo, apenas, num desnorte,
treme treme no luxo da tsé-tsé.
Desaba de si e dos seus como
ninguém,
ou talvez a térmita.
 
6
Fanados por um mistério mais vão
que o das Fossas Marianas,
chegamos a confiar nele,
a incutir:
 
você é quem sabe,
você faz o preço!
 
O Tempo,
de sorriso a tiracolo
tira-nos as divisas:
o seu troco
de alfaiate é o nosso luxo.
 
7
‘Complicas em demasia
a tua vida, se te preocupas
com a acústica do caixão!’,
 
confiou-me Ele, na única vez
em que partilhámos
beata & aguardente.
 
8
É um princípio
de borra-botas, matar
gratuitamente para que a vítima
não chegue a distinguir trufas
de miosótis.
 
Por isso,
enternecidamente,
me escama
o Tempo,
alheio a que eu não seja
sequer
o travesti
de um peixe
.
9
As varizes do Tempo
(coisa feiota de se ver)
renovaram
em mim os brotos.
Nada a fazer.
O temperamento
do bruto
fatiga-me,
dois pontos,
embora a fadiga
me faça crescer, escoucear.
Julga ele que m’ensandece:
que tomarei a baba
que decorre
por cogitação dos fósforos.
Vai uma aposta?
 
10
As nádegas do meu tempo
que foram rijas
como bilhas
de gás
já não enxameiam.
 
11
Não há psicologia que suporte
o pleno
de uma cabeça peneirada
no vidro,
nem a palpitação do sinistro que irisa
e avermelha o empeno do para-brisas.
 
A alta velocidade,
o Tempo é o olho das três Graias,
polinizado de mão em mão,
até que, sem raiz,
pira.
 
 
 
A MEMÓRIA
 
 
1
A memória, a cento e trinta à hora
nos cromados novos
e acossados pela extensa,
tangível, crepitação dos girassóis,
 
de meu só anseia o escalpe.
Que a goiva - insculpido o pó
nos sulcos da madeira –
não descure a sede da galinhola.
 
 
2
A memória, a ocasião falida,
respira como o chacal
apodrecido pelo amor.
 
3
Com a imparcialidade que perfura
a ferrugem - sonha a memória
pôr à tona dos dedos – xamã
em viagem – a mão.
 
4
Na acerada ponta da palavra
confluem as aves e o dardo.
 
5
Desvairo lancinante, o nome,
assim que o lobo
do silêncio imobila a palavra
pelo cachaço.
 
 
6
Inescrutável, nas carótidas do Indiviso,
a dor da terra apátrida
– há ração provisória p’ró indulto?
 
 7
Corvo: fuliginosa tatuagem
da insónia no coração de Noé?
 
 8
A memória, hesitação duradoura
entre fogueira e litoral.
 
9
Infértil o faro do cão qu’esgaravata
o pisca-pólos sob o asfalto.
 
 10
A memória que, com uma grua, alça
a lua afogada do lago
orbita em que domínio?
 
 11
A pele, o sorgo, os ratos, o sisal:
quatro momentos de estupor da pedra.
 
 
12
Aturdidamente, os galos ganham
à noite - num fullen de duques –
o combate pela transigência.
 
13
Restituída, em nome da orfandade,
a memória entricheira-se.
 
14
Gastou-se, a lixa
da caixa de fósforos. Paul
onde a incandescência da imagem
fundiu alma e asma.
 
15
O mais nítido pavor,
veia que pulsa por msn
e cinzela a respiração do osso.
 
16
Quem estanca o pipilar
das aves nocturnas?
Quem aguarda, inebriado,
por detrás da roldana da tristeza
até que chegue o mar,
que chegue a luz?
 
17
Incorrespondido o enigma,
a memória desprende-se
da pele que ladrilhou
- reminiscência tão pura
que, saciada, a veia
bebe aos goles.
 
NOTA: este poema corresponde a uma leitura de Antecedentes Criminais, de Amadeu Baptista; os versos em itálico são deLE.
 
 
 
O SONO
 
Cansada de enfiar o dente nas penas
dispersas, a terceira Graia dorme.
Sileno ri e coça o casco.
A minha filha Luna interrompe:
Pai, que bodega, hoje sonhei
outra vez com o galo amarelo.
É contra as séries.
 
 
 
 
 
 
 
 


sábado, 8 de agosto de 2015

PLANETA DA INSÓNIA, PRIMEIRO CICLO

o local onde começou a insomnia, há dois anos
 
 O meu amigo Ozo, a única pessoa com quem troco e discuto poesia, neste Índico desassombrado, acha que este ciclo de poemas é uma merda. Eu não, acho que é do melhor que consegui escrever. Mas, enfim, ele acha que a poesia só pode nascer do vivido, numa lide directa com o touro, fruto de uma espontaneidade sem escanção. Eu não, sou um “investigador de poesia” com toques de bizantino, que vai trocando os ladrilhos na parede até achar que a combinação dos brilhos, das cores e das sombras realizam a harmonia pretendida. Ele é intempestivo e preveniu-me, se publicas essa gaita, eu conto a verdade sobre ti. Não faço ideia daquilo a que ele se refere. Mas só para ver o que aí vem, vale a pena correr o risco:
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 1
 
Lá fora, adivinha-se, o vento
espumeja nos jacarandás,
refracta a alba, na leve ondulação
dos reposteiros, luz que alastra o couro
 
aos sapatos, de novo castanhos,
à capa do livro que caiu ao chão,
enquanto a alma, em atraso
torna agridoce a mostarda do sol.
 
Morre em carne viva, a noite,
e as palavras sonâmbulas,
dissipam-se como a chuva –
desmemoriadas  e preliminares.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA / 2
 
Neste corpo só a letra é pública.
E tem na voz o seu endereço,
sobretudo em calando.
Imprimo no branco o camaleão.
 
Perdeu-se para sempre o jogador 
que, vendo girar a roleta, ficou absorto?
Assim começaria o meu poema
mas as metáforas, até as cabalísticas,
 
têm um prazo de validade, e distraí-me
à pesca noutros âmbitos, na saudade
daquele azul que o astronauta viu na Terra.
Subo a custo o meu Himalaia.
 
A cada poeta o seu. Mas não demorarei
na descida pela encosta oposta – o cimo afi-
gura-se duma indiferença descorçoada!
É do que padece o camaleão:
 
da indiferença de quem o vê. E
não à toa trouxe à liça o dissimulado,
para os rongas o bicho simboliza o infinito
e encaixa-se no meu epílogo. Sim:
 
os suicidas do sétimo circulo do Inferno
mudaram para o fundo dos oceanos,
ali se implantam em fetos e casuarinas
descomunais que drenam
 
a mais túmida esperança. Não é para já,
mas está iminente. O poeta Harry Martinson,
neste planeta da insónia, hoje dificilmente
repetiria: «Abraçamo-nos para fazer Deus».
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 3
 
A tempestade desta noite encheu
a terra de distracções. E interpôs
entre o passado e o presente
uma empanada folha de flandres.
 
A alba não atenuou as disparidades,
não restam dúvidas: enquanto a vida
se estende, a morte é abrupta,
se brilha é de uma vez, e ao redor
 
arma a bolha, uma vigília estriada,
ressentida, de credo congelado
na boca. Fica tudo mais claro
na periferia do mundo, onde,
 
sem garantias de que o sedimento
do humano encontre reciprocidade
para a sua extrema solidão,
o socorro tem a prontidão da víbora.
 
À enxurrada desta noite seguiu-se
a tua fuga, a limalha ardente
que pelos olhos me atingiu o coração.
Como pensar o equilíbrio
 
sem a totalidade, indagavam os vates
e as sacerdotisas que transmudavam
em orvalho o pasto da memória.  
Vinte e três desaparecidos, e derruída
 
uma ponte, que agora navega
em letras gordas, carnais,
no matutino. Onde, por acaso,
omitem a tua fuga. Com devoção
 
mística desejo-te o pior, xipoco
de pavor em troca dos inocentes
que deus encravou no Zambeze.
Em que nesga do destino
 
sobrevive ainda o amor
às chuvas de Janeiro?
Justo é o pensamento que perde
de vista o seu objecto.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 4
 
É nestas ocasiões que falta o mar.
Acariciar o olhar no seu mosaico
indomável, embutir a pupila nas vagas
que autografam os molhes.
 
Uma boa hora desconexa, plasmada
na espuma que ressalta na pedra
e torna-me a alegria a palrar, volta-me
a franja a ser loura, o aro da dor
 
descalcifica.  Como um insecto, sacudo
a letargia e torno ao movimento, anguloso,
fosforescente. Não há punhais,
oh lá lá, exalação sombria que me ofusque,
 
a premonição dos derrotados não é mais
um paul que faz corpo com o que sou.
Depois duma copiosa borrasca,
para ganhar um metro de avanço à insónia,
 
para ser de novo o paisagista das elipses,
só o mar e a rampa azul  em que afoga
todas as comparações me restituem
o remoinho do sangue ao sangue.
 
Parece contraditório como o amor
o mar, porém só ele sossega as insónias
que aguilhoam na polpa dos rios
o canto das crianças mortas.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 5
 
(Sem querer tramei a pequena aranha,
eis-me parte do seu destino.
Duma estirpe pequena, os seus palpos
brancos sempre activos sondavam
 
no ar resquícios do divino.
Trepava célere pelo braço da cadeira
e, supersticioso, quis afastá-la com a bic.
Não medi forças e esfacelei-a,
 
quase a separando em duas.
Deu três quatro passos, emaranhada
numa baba, antes de fazer looping
na mudez que petrifica. Lia
 
A Literatura e os Deuses, de Calasso,
e senti-me a mão do fatum,
a sua algébrica desmedida. Abriu-se
um hiato –  fechou-se um ocelo
 
de Deus? Boss, os bolos são sempre
de ontem, mas as crianças também,
ou não?, replicou desafiador
o empregado quando rejeitei um rim,
 
rijo como a serpente que ludibriou
Eva. Eis uma bizarra noção
de bem servir onde até os bolos
são lobos. E chega de zoologia.)
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 6
 
Em Kobani, os cães barbudos não entraram
e desataram a decapitar as suas sombras.
Estas coisas nunca aconteceram, mas existem
sempre, escreveu Salústio,
 
e é justo que aconteçam, e que importunados
pela impossibilidade de conseguirem urinar
nos canteiros de narcisos, jacintos, violetas,
rosas e tomilho da cidade,
 
ou de conspurcarem com esterco
a virgindade das resistentes,
os cães barbudos se castrem
antes de se enforcarem num fio de sangue igual
 
àquele com que decapitaram o seu amigo.
Os cães barbudos perderem o rasto de Sinbad,
Antes o crime aflorava como a cegueira pontual
de a quem inebriara a caligrafia das baleias.
 
Porém, a âncora extraviou-se, mata-se
por cinco segundos de emissão e enterram-se crianças
vivas no arabesco dos abismos - desapontar
horizontes é por ora a pedra angular.
 
E lapidam-se mulheres. Só a esperança
de que a reminiscência das estrelas mortas
se perpetue no canto dos grilos não
estiolou. Sim, há que voltar ao mar
 
para que o homem divagante esqueça
o perímetro da crueldade.
Aí, mesmo que a morte e vida façam
Um - chiça para os números - a alegria
 
é ainda o nó com que a porta
se abre ao vinho e ao amor
e escuda a casa do olvido, da térmita.
Porque hoje até no crime já há enfado.
PLANETA DA INSÓNIA/ 7
 
Pelo que sei os náufragos
um instante antes de tomarem
ares de carta selada
dão conta da extrema acústica
 
dos oceanos. Nem sequer dá tempo,
entre vagido e velório, de se recordarem:
que origem os desovou. É
o que me agrada, a inexistência
 
de uma ruga entre mim e
o desencadeamento do som,
puro derrame nas tintas
p'ras margens que o comprimem.
 
Que uma gaivota me arrepele
o ombro, na unção
de quem bica escória
na oleosa cidade de passagem
 
fascina-me; o silêncio verde
com que as algas descalçam
o meu olhar dá sentido
a tantas palavras gastas
 
como carvões a que não aflorou
lume... mas faz-me compreender:
não é verdade que as palavras
apenas encadernem o silêncio.
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 8
 
É bifronte o meu espanto, nem sei
porquê, se também é lúbrico o liame
entre anjos e asas, se entre beijo
e olho transita o oxigénio,
 
a mesma nuca branquíssima. Talvez
me pareça uma violência aceitar
que a palavra prazer ilumine
a trajectória térrea da minha boca
 
no teu mamilo azul. Julgo chegar-me
o espanto da ignorância sobre
a verdadeira natureza dos oceanos,
justamente no seu epílogo.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 9
 
Umas vezes como Ariel, outras
como Caliban: não chegamos
a ser humanos. Mas enreda-me
o vento na esplanada como o touro
 
ao toureiro, e templa-me, congruência
súbita, o destino. Percebo finalmente
porque sempre me atraíram
os filhos de Eolo: o ar que gazua
 
no coração do pombo pulveriza
o azul,  deslocaliza a atenção de Deus.
A verdade é um tigre com inúmeros
cornos, uma vaca desprovida
 
de cauda, o par de girinos que agita
alacremente a cauda dentro do frasco
de compota – fomos prevenidos.
Mas é assim que vejo as coisas,
 
meu amor: as câmaras captam
a nossa fuga mas não podem impedi-la.
Abracemos o vento, como Ariel,
ou como Caliban. Radiantes.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 10
 
O cego mira a flor, a flor
sorri. Alucinação que fende
um mar de luz, ou algo
que despende a vida, até
 
que pela ausência um trovão
lampeja? O céu não pode
impedir-se de ladrar,
mas nós podemos calar.
 
Se de novo olharmos o mar,
humildes, e nos seus corais
dissiparmos de novo a crueldade,
como a flor que floresce
 
para o cego. O que nos sobressalta
é o apego das areias, esquecidos
do vento, até que a doença
lampeje? Voltemos ao mar.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 11
 
Quem lançando a flecha
não vai nela? O fito
não era burlar-me quando
ateei a fogueira mas aquecer-me
 
no breu, invadir a realidade
inteira. Se os poemas já não são
o dragão em visita, problema
dos poetas. No que me cabe,
 
não quis encardir-me ao sol
num apeadeiro fantasma, onde
até a memória dos comboios
se obstina em calar.
 
Quem caído no visgo
do poema desgruda sem dor?
O pássaro que cai dentro do canto
afoga-se no cântaro e palavras
 
há que abrem um postigo
enquanto outras ejectam
a paisagem. Restituir o sangue
ao sangue é que é mais caro.
 
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 12
 
Cria-se, este mundo, à medida
que nos orientamos para ele.
Jonas desarrolhou o Leviatã
e Melville serviu-lhe o vinho.
 
Não é uma questão táctica
mas de desencadeamento
da crença: arder como algas
num convés é que não.
 
Cria-se o mundo mas fica
imerso se o conservamos
aquém da sua intensidade,
e lhe preterimos o sujo. 
 
É do que me culpo, de não ser
Macwhirr para aferir
a grandeza dos tufões,
de não ser tubarão lancetado
 
pela beleza dos corais.
Esta rédea curta foi-me 
afastando dos oceanos,
das suas cartas e fossas
 
abissais (e até na mesa,
interditou-me a gota:
peixe, frutos e sereias),
e criou um mundo portátil,
 
de canivete-suiço, que se recorta
à medida do meu extravio,
na vã esperança de que o rio
não se dissolva no mar.
 
 
PLANETA DA INSÓNIA/ 13
 
Olho perdido nas pregas da obediência
ao vento. Com que idade se deixa de cantar,
Victor Hugo, e se dissimula na paródia
a cobardia? Versos pós-modernos,
 
estes, onde a terra capitula sob os nomes
como um campo sob as moscas.
Vem o homem a nós da parte do deserto,
lia-se, e acreditava-se, sentia-se-lhe
 
o hálito de gafanhoto, a aura verde
com que ele matava a sede das areias.
O mar não era então a plácida Delagoa Bay
em carneiros aos pés dos veraneantes
 
e o infinito deixava-se empurrar
como uma porta. Eu sou como aquele
que encontra uma esmeralda, dizias,
e a inveja dribla-me três vezes
 
sem conseguir ao menos travar-te
em penalti. Porta entornada
aos soluços é mais o meu esti-
lo, oblíquo, gaguez de ébrio
 
que se agarra à garganta da noite
para não cair no vácuo das estrelas
de papelão. A fábula
é o meu domínio mas amo
 
os guindastes com a fraqueza
dos anémicos, certo de me faltar
a astúcia pronta da raposa, o liame
que surpreende na agudez da sua garra
 
o clamor dos vivos. Viver à véspera
dos epílogos não ajuda, no planeta da insónia,
sobretudo quando se pressente
inacabado o gosto do cravinho na língua.