Yves Bonnefoy, o lavrador
A Maria João Cantinho, no Facebook, num gesto carinhoso,
dizia que gostava muito do meu
surrealismo. Ela não sabe o que me irrito sempre que me associam ao
surrealismo. Não tem mal. As pessoas não sabem como encaixar-me e então
procuram aparentar-me. É “normal”. O
que não quer dizer que a coisa não se deva esclarecer, como nesta nota que
escrevi no meu diário, na véspera do lançamento do meu livro Piripiri Suite:
20 de Janeiro de 2007:
«Novo livro
publicado, toujours en retard. Je suis en retard dans la vie,
escrevia o esquecido Rene Guy Cadou, frase que eu inscreveria sobre o pórtico
do meu sempre adiado “Clube dos Procastinadores”.
Na verdade, a
terra de Piripi Suite (que, não fora a homenagem a Grabato Dias, eu
chamaria Cadernos de Reportagem) já foi revolta duas vezes mais, com
livros que apontam outros horizontes e novas escarpas estilísticas mas a
velocidade das edições não permite auscultar o processo na sua devida
sincronia.
Alimento alguma
curiosidade sobre a recepção deste livro pois escrevi-o com o sentimento de ser
um artesão que por maleita do espírito só esculpe Cristos corcundas, e páginas
mais felizes me chegaram posteriormente.
Às vezes mais vale
o silêncio do que falarem de nós equivocadamente. Eduardo Prado Coelho, numa
crónica, fez-me comparecer ao lado de Al Berto, como exemplos de novas brasas
num surrealismo já julgado extinto. Eis-me atado ao imago de um rapaz um pouco estouvado e com um niquinho de
anacronismo, de inclassificável.
Na generalidade,
ao invés, sou um leitor apaixonado de todos os que ou romperam ou permaneceram
nas margens do surrealismo: Michaux, Alain Jouffroy, entre outros, poetas que
viveram, de facto, uma aventura do espírito.
A maior parte dos poetas que hoje tenho à cabeceira: Yves Bonnefoy, Hugo Claus, Thomas
Tranströmer, Marc Blanchet, Edmond Jabès, Christian Bobin, Jenaro Talens, Ángel
Crespo, Gonzalo Rojas, Nicanor Parra, Mario Luzi, Jorge Riechmann, Homero
Aridjis, Robert Duncan, Charles Simic, John Ashbery, Miroslav Holub, estão
ligados a uma tradição mais
vasta que inclui o surrealismo como um dos seus ramos - e não ao contrário.
Para ser breve,
os meus autores de cabeceira descobriram todos o mesmo: à poesia surrealista
faltava-lhe o fraseado, é como o jazz antes de Charlie Parker, que assentava
luxuosos tijolos uns sobre os outros mas não tinha ainda o cimento que os unia.
E o que é,
palpita-me, que agradava tanto aos poetas novos em Mário Cesariny? Aquilo que o
brasileiro Carlos Filipe Moisés detectou no poeta português: a asa dissimulada
do racionalismo. Ainda que nele fosse trans.
Diga-se: prefiro
que a minha dívida seja atribuída a Daumal e aos poetas do Le Grand Jeu. Agora, explicar as
diferenças, profundas, em terra dominada pela lógica taxonómica?
Mas, onde afinal
me situo eu? Talvez percorra a esteira dos que cismam na reminiscência do
próprio daímon: “Tal
conhecimento, aventa
Eugenio Trias, não é epistémico mas
sim gnóstico, e não se acha mediado nem pela consciência representativa nem pela livre vontade (ou livre arbítrio), posto que se implanta
na existência como um conhecimento existencial. Tal conhecimento existencial
deve em rigor chamar-se gnose:
o conhecimento que se alcança de si mesmo em virtude do acontecimento
existencial que preside ao encontro ou ao desencontro do sujeito com o seu
daímon.” Este sulco é antigo como o mundo.
E, contudo, até
acho que no caso específico de Piripiri Suite contrario um pouco tudo o
que foi dito no parágrafo anterior. É um livro onde espreita consecutivamente o
“não poético” e onde surde o que
Gabriela Llansol expõe, categórica, em Um Falcão no Punho: “Não há literatura. Quando se escreve só
importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho
a outros”.
Aproveitemos é
para desfazer de antemão o próximo equívoco: o que é que me separa dos (tardo)
românticos? O facto de para mim as fontes se situarem à minha frente, e não
atrás – por mítico que seja. Detesto os mitos da origem, quedas e paraísos
& a culpa adjacente. Face a esse cenário sou, pelo contrário, bastante construtivista.
Na verdade, lido
o livro surgirá a tentação de dizerem que me aproximo dos poetas da geração de
90. Mais vale encolher os ombros. Nunca estive longe. Nunca estive perto. Entre
é o meu estado. Entre-pernas.
A minha filha Luna hoje faz anos,
três. É o meu estranho-próximo mais caprichoso. É a única coisa que importa.»
A minha filha Luna tem hoje nove.
O livro claro que passou no mais absoluto silêncio. Ou
passou a ter a forma dele.
Entretanto, ontem, relendo um magnífico livro de ensaios
do libanês Salah Stétié, Hermes Défenestré (José Corti, 1997),
encontro isto, com que concordo do coração e que é mais uma nota ao que me
separa do surrealismo:
«Não se terá sem
dúvida compreendido nada da poesia sem que se tenha dito, em alto e bom som, da
poesia que ela é inimiga do sonho, que ela é, para dizer de outra maneira, o
gato do cão do sonho e vice-versa. Sim, tão cão e gato como os outros, e
enfrentam-se arreganhando o dente, tal e qual. O sonho é a tapada de caça do psicanalista
e não é esse tipo de caça que o poeta persegue. O poeta, aquilo que ele quer
forçar é a realidade, toda a realidade, nada mais do que a realidade e se ele
tropeça no sonho, como nos calhaus do caminho, é porque o sonho, esse calhau, também
ele faz parte da realidade.»
Tão simples, tão exacto, tão urgente.
Num poeta que li demasiado novo e que agora redescubro
com outro gosto, Yves Bonnefoy (há idades para se ler devidamente certos
autores e pressinto que não passarei sem traduzir Bonnefoy pois a leitura ao
ralenti que é a tradução é a melhor forma de nos sintonizarmos num verdadeiro encontro), encontro o seguinte: "O
único herdeiro possível do lavrador é o artista (…) a esperança que deposito na
linguagem é o que faz que pareça que não me interesso pelos problemas
contemporâneos. A minha reflexão, o meu trabalho, consiste em dar prioridade a
tudo o que possa ajudar de maneira mais radical e directa a melhorar a situação
no mundo: não ataco os conflitos ou debates do momento, um a um, mas antes
optei por ir sondar a raiz do mal; o desastroso emprego que a nossa modernidade
faz da linguagem”.
Não tendo embora uma visão tão catastrofista, sinto
uma grande afinidade com esta posição. Ainda que matizadamente, pois por vezes
urge o murro na mesa