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sexta-feira, 19 de junho de 2015

A CICATRIZ DE DEUS

                                                                          Seráphine

Em dado momento, estive para fazer acompanhar a narrativa O BEIJO NO ARAME (um dos dois corações de «Éter») de três contos mais curtos onde retrataria, “supostamente”, o meu pai, um tio e o meu avô, três figuras muito presentes na minha infância e que raramente surpreendi em manifestos gestos de ternura. Não quer dizer que tal não pudesse acontecer, mas o mais vulgar era a retranca, o pudor.
E, claro, em todos os contos misturava-se a descrição de alguns acontecimentos inspirados na realidade e o que inventei livremente, num vislumbre que nunca poderá ser “puro”, pois não cabe à literatura a tola pretensão de iluminar o retrato de alguém, e antes lhe é inerente realizar uma liga em que a dosagem equilibrada de plausibilidade e mentira acaba por traduzir uma certa confiabilidade narrativa.
Ou seja, estas personagens, recriavam mais a atmosfera da época e do carácter, às vezes violento, que esta imprimia às personalidades do que procuravam ser lidos como réplicas exactas dos meus familiares.
Este jogo e esta ambivalência é que fundam a literatura. Nada foi assim exactamente mas tudo “podia” ter sido assim, propriedade que Aristóteles atribuía à “poesia”, na sua Poética.
Depois de ter recuperado um computador que julgava perdido, reli então, ao fim de três ou quatro anos de "gaveta", este conto sobre o "meu avô", e aqui o deixo:

A CICATRIZ DE DEUS
1

Quem me vir agora, em anorexia pilosa, compreenderá porque ainda hoje te invejo o farto cabelo solto, seda a que o vento emprestava uma asa de corvo albino.
Via-te no parque, em miúdo, sem ousar falar-te ainda. Descia as escadas para o jardim e corria até à bica. E reconhecia-te num dos bancos que a ladeavam. Atrás dos papos que te escondiam os olhos piscos, adivinhava um olhar benevolente, embora nunca tivesses desarmado nem o pudor nem o seu muro.
Nunca me incitaste a dirigir-te uma palavra.
Depois, fazia chiar o portão do parque, pagava à tosca da vigilante (havia lá camafeu mais horrível!) os cinco tostões, o pescoço torcido na tua direcção, na esperança de que me tivesses seguido pelo canto do olho. Fazia o mesmo quando subia ao escorrega, lá de cima, antes do impulso para a descida sondava o teu grau de atenção aos meus movimentos. Davas à palheta com outro reformado, apaparicavas uma mulher da tua idade, numa macaqueada animação trivial – mas nunca olhavas para mim.
A primeira vez que te vi foi no lago do jardim. A minha mãe sentava-se no pétreo banco em semicírculo que serve de rodapé ao painel de azulejos de Cargaleiro, e eu corria à volta do lago: um desenfreado cometa com uma cauda de pombos. Atirava o milho para trás das costas e fugia, excitado e temeroso, enquanto um magote de aves espanejava o ar, debicava-me os ombros.
Acabado o pacote sentei-me ao lado de um velhinho, na outra ponta do semicírculo. A minha mãe teve uma expressão de dissabor. Eu catava um último grão de milho, e o idoso estendeu-me a mão com três, embrulhados num sorriso. Aceitei-os, e atirei-os aos pombos, que calcorreavam a borda do lago. A minha mãe levantou-se e firme, embora compassiva, pegou-me na mão e silvou boa-tarde para o idoso.
Seguimos num ritmo musculado e subíamos a escada do jardim quando ela anunciou, aquele é o teu avô.
Só pelos nove anos, já eu ia sozinho para o jardim há pelo menos dois anos, é que me dirigiste a palavra: então toninho, dá cá uma bacalhoada! Entretanto, eu fixava-te do alto do escorrega e vinha-me, salteada, como o bouquet saído da cartola do ilusionista, a dúvida - foi mesmo ele quem espetou uma faca de mato na avó?

A cicatriz não deixava dúvidas. Entrevia-a sete, dez vezes, entre a alça da combinação - um bom palmo de farpas. Uma vez pedi-lhe, avó, deixa tocar. Foi a única vez que lhe toquei nas costas, na linha das omoplatas, na cicatriz; foi a última vez de que me lembro de lhe ter visto quase as costas inteiras, de uma ofegante magreza moldada em parafina.
Habituou-se a fechar a porta quando vinha do banho, ou a apagar a luz antes de vestir a combinação, apesar de eu dormir no quarto com ela.
Às vezes pergunto-me se ela não me queria enlouquecer com a sua fantasia sórdida, fúnebre, acordando-me a meio da noite para me perguntar se não ouvia os espíritos a arrastar correntes no corredor ou se não divisava as figuras que ela via no escuro. Anos a fio. Era tremendo, mas, hoje, nada me é tão real como o toque naquela cicatriz, áspera, encordoada, que se lhe derramava pelas costas como um promontório; nada havia de tão concreto naquele quarto que se assemelhasse às costas dela na penumbra e ao meu conhecimento de que aquilo estava ali, emaranhado na sombra, selvático, como o mexilhão na pedra.   
Entre o jardim e o ginásio havia uma loja para artigos de caça e pesca. Todos os dias parava na montra a olhar as diferentes facas de mato expostas, a avaliar a espessura, o gume, a dureza do aço, se consoante a penetração e a incidência o sangue sairia aos esguichos ou borbotões, ou como um manto. Anos de secreta inquirição.

E um dia, não longe daí, vou a entrar com o meu pai no mercado e tu estavas lá, à entrada, apoiado na bengala, ao lado da tua mulher, a Natividade, a merda da coxa como a minha avó a tratava, que segura um saco com cabeças de corvina. O meu pai detém-se e cumprimenta-vos, sem brandura nem desdém, e tu apontas-me a tua mão larga e os cinco dedos abertos em espátula: então toninho, dá cá uma bacalhoada!
Porém, as coisas só se começaram a desanuviar anos depois. O meu pai havia comprado um terreno na Aroeira e, pobre, e desasado em qualquer ofício, há-de precisar de dois auxiliares preciosos para a construção do seu refúgio de fim-de-semana: de mim, como aprendiz de pedreiro (o que eu hei-de odiar aquela garagem com primeiro andar e vista para o pinhal) e de ti, como verdadeiro artífice dos sete ofícios, o único arquitecto e mestre-de-obras daquela construção, a que nem o teu reumático tolda a precisão e o engenho.
Eu teria doze, treze, anos e odiava ser tirado da cama às cinco da manhã para apanharmos a carreira das 5h30 para a Fonte da Telha, parar a quatro quilómetros do terreno e embrenhar-me pinhal dentro, encalacrado de frio, batendo os pés contra a caruma, enquanto o caliginoso silêncio do me pai me precedia. Bufava e interrogava-me, no sem sentido daquelas sendas, como podia o meu pai perdoar-te. Sim, porque ele vira, ele estava no quarto no momento do acto. Não sabia ainda que a vida é um novelo tão emaranhado que acontece reencontrarmos na volta mais inesperada o fio do perdão.
Quando chegávamos lá estavas tu, enfiado ainda na tua carripana; aquela geringonça que montaste com peças desirmanadas de mota, uma gaiola metálica, restos de lona, e duas rodas de lambreta, um verdadeiro riquexó motorizado - o único riquexó nos anos sessenta, em Lisboa e arredores, e que à mera passagem me enchia de vergonha. Tiravas então as luvas, as mais carcomidas luvas de cabedal de que me lembro ter visto, apontavas com o queixo os caboucos e os tijolos e prometias, hoje temos trabalho toninho.
E deus me perdoe se eu não te mandava para os entrefolhos da tua mãe naquele mesmo instante, o espírito errante, furibundo, sentindo aflorarem nas veias as primeiras lâminas de xisto. Mas batia com os pés na caruma e procurava ouvir os pássaros, prometendo não perdoar nenhum lacrau naquele dia, esmagar com o sacho a mona de um rato.
Bebido o café começava a jorna.


2

- … Vê lá se os miúdos não estão a ouvir…
- Estão a dormir…
- A porta está bem fechada?
- Tá…
- Tanto melhor, eu não quero que o toninho saiba alguma coisa disto…
- Mas disto o quê?
- Do que tu sabes e não queres falar…
- Ai… já me estás a enervar… do que é que estás a falar…
- Das reuniões que o teu pai faz lá na Aroeira…
- Que reuniões? É do culto. Conheceu lá uns rapazes nas obras que têm o mesmo culto que ele e pediu-me a casa emprestada para o culto, enquanto eles não arranjam outro lugar…
- Mas que culto, António José? Tu que nem permitiste que os teus filhos fossem à catequese…
- É o meu pai, não lhe podia dizer que não.
- O teu pai que te desgraçou a vida.
- Águas passadas…
- Tu não vês que não é culto nenhum… fui lá ontem buscar umas hortaliças e fiquei em estado de choque com o que encontrei debaixo da cama…
- E que é que encontraste debaixo da cama?
- Uma caixa com armas, para cima de trinta espingardas… não sei que culto é esse…
- Eu vou falar com ele, só pode ser engano…
- Engano? Eu vi.
- Ele só anda na igreja…
- Que igreja precisa de tantas armas?
- Se calhar pediram-lhe que as arranjasse, ele arranja tudo…
- Sim, panelas, bicicletas e motores… e agora gatilhos… abre os olhos, António José…
- Mas de que falas?
- Não vês como ele ficou alvoroçado por causa do 25 de Abril… com a subida ao poder do Vasco Gonçalves? Aquilo mexeu tanto com ele que até lhe curou o reumático…
- Lá isso foi… - concordou o meu pai, rindo –, anda num virote político, mas ele tem 70 anos…
- Sim, e foi da Legião Estrangeira… e foi um salazarista encartado, e teve dez anos de cadeia…
- Isso foi por causa da minha mãe…
- …onde conheceu toda a escumalha do mundo… Garanto-te, António José, ele anda a preparar alguma… e não é boa. Sabes quantos homens o teu pai mandou para a cadeia? O teu irmão Joaquim nem lhe fala por causa disso…
- O meu pai? Não é certo que ele fosse da Pide…
- Tu não queres é ver… ó homem abre os olhos antes que ele nos traga cá para casa a desgraça. Tu não vês como anda o país, uns contra os outros… só nos faltava o teu pai a preparar qualquer golpe ou a querer matar um comunista… vinte e tal espingardas, António José…
- Vou amanhã falar com ele…
- Não vês que perdemos tudo? Levaste três anos a construir aquela casa… é tudo o que temos…
- Já disse, vou amanhã falar com ele.

Eu, atrás da porta, estava zonzo. Levantara-me para ir urinar, ouvira-os cochichar, e nada atrai mais do que um segredo que procura esconder-se. O que acabara de ouvir atordoava-me sobremaneira porque no último ano e meio tínhamo-nos aproximado muito, eu e tu.
Com a queda do fascismo houve em ti uma mudança de comportamento, de repente estavas mais expansivo e loquaz. Como me explicavas, as tuas veias tinham entrado em degelo. Permanentemente alerta e à coca com tudo. Deixaste o jardim, onde te reunias com outros reformados, pelos cafés, pelas reuniões políticas. Juntavas – havias-te tornado evangélico nos últimos anos - Cristo ao fervor da mudança política. E se naquela altura era difícil propor sequer uma aliança semelhante!
Rejuvenesceste dez anos e entregaste-te ao trabalho social voluntário. Uma guita desatara-se em ti e desfiavas histórias de heroicidade militante e clandestina que me assombravam. Em 73 e 74, inclusive, garantias-me, a casa da Aroeira servira de esconderijo para “camaradas” que precisavam de dar o salto, ou de esconder-se. Sem que o meu pai soubesse, era um segredo nosso, obrigaras-me a jurar.
Eu tinha 16 anos e precisava de heróis. Sentia que pertencia a uma geração a quem fora roubada a revolução, a heroicidade e o sacrifício, uma geração pós tudo e bastante desapontada por encontrar já formatados os desafios políticos e morais. As tuas histórias davam uma genealogia, uma legitimidade aos meus vagidos políticos e até me haviam dotado de uma certa aura junto do sexo feminino. Fora-me em tudo vantajosa a tua mudança.
Percebia de repente que sempre me mentiras, que afinal estavas do outro lado e que a tua actividade social não passava de fachada, de espionagem ao serviço de interesses ínvios. Dançavas simplesmente consoante a maré, um vira-casacas.
Se o meu pai não resolvesse prontamente a questão das armas, eu mesmo te denunciaria, prometi-me nessa noite.
Contudo, não fui capaz, e não me perdoei pela fraqueza. Estive dez dias sem te ver e quando te enfrentei, perguntei-te de chofre:
- O que é que te deu na gana, para espetares uma faca na avó?
Pigarreaste, precisando:
- Foi uma grosa… uma grosa…- Depois observaste - Um bêbado de mau vinho é um homem que cai do seu próprio galho! Um bêbado de mau vinho é um homem que cai do seu próprio galho!...- Repetiste, uma meia dúzia de vezes antes de justificares - O coração da tua avó era mais seco que a minha pedra de amolar e quis ver se com a grosa ele soltava faísca...
Enquanto pestanejavas, emborquei um cálice de aguardente, o meu trigésimo terceiro cálice de aguardante, de que me servi sem que tu me ousasses impedir; prosseguias:
- Não é das coisas de que me orgulhe, mas em tempos de miséria ou temos em casa o amor da mulher ou ficamos mais pobres… se até o pão ázimo nos tiram não sobra mais nada, percebes? Quando aos 60 me virei para Deus foi como se estivesse a trepar de novo ao galho onde podia ser um homem. Antes era mau, um homem soberbo, a quem só alegrava a bebedeira do sangue e não a de Deus...
- Merda para Deus… - Atirei-lhe e saí.


3
O pastor pôs um ar de extremo compungimento e declarou:
- É com imenso pesar que tenho de lhe comunicar que a nossa igreja não pode continuar a manter o seu avô no nosso asilo… como sabe é uma prática nossa e temos seguido esta prática sem desfalecimento, mas neste caso não podemos transigir…
- Sim, mas porque me chamaram a mim? Tenho irmãos solteiros, primos, que poderiam acolhê-lo mais facilmente… ou que falam com ele. Mais próximos dele. Eu não o vejo há 15 anos e não temos contacto…
Bateu com o indicador no vidro do relógio, no pulso, antes de o levar ao ouvido:
- Desculpe, estas quinquilharias de agora… - Pousou o pulso vagarosamente sobre o tampo da mesa, tapou a montra do relógio com a outra mão e olhou-me com gravidade - O seu avô só quer falar consigo, diz que tem uma coisa para lhe dizer que só o senhor pode entender…
- Hum… muito me surpreende. Mas, diga-me, o que é que ele fez para se tornar impraticável a sua permanência no asilo…
- O seu avô nos últimos dez anos foi um grande pastor. Era um homem de fé e que achou o seu fogo na palavra…
- Está a falar do meu avô? – Perguntei incrédulo.
- Sim, sim, sabe, nós nunca conhecemos inteiramente as pessoas que estão ao nosso lado. E como estiveram tão afastados, é compreensível que lhe pareça estranha a mudança que houve nele…
Ironizei:
- Mudança? Quais delas?
Ele continuou, impassível:
- Eu não conheço bem o passado do seu avô, digamos que provavelmente havia ali muitos nós que precisavam de ser desatados e que no seu contacto com a Palavra do Senhor diluíram deixando o canal liberto para a Palavra Viva… era um encanto ouvir o seu avô numa prelecção. Parecia que as palavras lhe chegavam ditadas directamente… - E apontou para o céu…
- Portanto, digamos, ele desatou a sublimar erros passados, erros ou horrores…
- Talvez seja como diz, mas o seu avô até há um ano era quase um santo… e ajudou muita gente, com a sua Paixão e a sua persuasão…
- Que houve de novo?
- Bom, o Pastor Manuel Domingos é um homem de muita idade… fez este ano 88 anos.
- E manteve todo esse fogo como diz, essa virtualidade de raciocínio até o ano passado?
- Sim… e podemos dizer que algum raciocínio ainda se mantém…
- Não percebo então.
- O ano passado, o seu avô teve um AVC.
- Não sabia, estava no Brasil.
- Uma coisa pouca, mas tinha falhas de memória, fugiam-lhe as palavras, deixou de se conseguir concentrar muito tempo e, sobretudo…
- Diga.
- Perdeu o chip da moral…
- O chip?
- Temos de nos adaptar aos tempos… O Irmão Manuel Domingos foi recolhido no nosso asilo e após dois meses de tratamentos e de descanso começou a receber visitas. Não foi logo, mas as coisas há três meses que perderam completamente o controle…
- Continuo sem entender…
- Como era um elemento muito querido da nossa igreja, o Pastor Manuel Domingos recebia muitas visitas dos nossos irmãos de culto… e das irmãs, velhas e novas…
- Hum, hum…
- Há três semanas, uma fiel nossa, Joana Emília, uma jovem acima de qualquer suspeita moral, veio queixar-se de que o seu avô lhe pediu para ela lhe mexer no sexo enquanto ele lhe lia os salmos de Salomão… No dia seguinte apareceu nu, em erecção, e a blasfemar, à irmã Dolores, a quem quis violar… tem sido assim, sem descanso, e até à minha mulher já pediu para lhe fazer sexo oral…
Brinquei:
- Deixou de sublimar, portanto… - A perplexidade moveu-lhe a maçã de Adão, como se fosse uma bailarina em pontas. Continuei, mudando de registo: - Compreendo. Não sei ainda como vamos resolver este caso, tenho de falar com os meus irmãos primeiros… mas presumo que algo precisa de ser feito nos próximos dias…- Anuiu com a cabeça - Assim será feito. Posso então vê-lo? Quero saber o que ele me tem para dizer.

A juba não tinha perdido um cabelo. Estava apenas um pouco mais baça como o pêlo branco de gato viciado em nicotina. No rosto, o pergaminho redobrara as estrias e o nariz, para surpresa minha, estava mais afilado e curvo.
Não me viu logo. Sentado na cama, que me parecia um catre, olhava pela janela. Acima da cabeceira havia um crucifico com a cruz forrada em veludo vermelho.
Quando deu por mim não se sobressaltou, como se eu apenas lhe tivesse ido à rua buscar o totoloto. Olhou-me apenas demoradamente, sem mudar a expressão, fazendo-me sentir examinado milímetro a milímetro. Só depois sussurrou:
- Toninho… - E puxou a minha mão esquerda para o meio das suas. Só me restou sentar-me ao seu lado.
Fixou-me nos olhos, o azul estanhado das suas íris continuava penetrante. E então os seus lábios mexeram-me e sussurraram:
- Naquele caso da tua avó, Deus é quem segurava a faca…
- Olhe, então merda para si… - respondi.
Arranquei-lhe a mão da mão e saí.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

O COMPROMISSO/ UM CONTO COM JOSÉ CRAVEIRINHA

josé craveirinha e noémia de sousa

Vasculhando documentos antigos descobri este conto, em que o poeta Craveirinha é um "figurante especial". Como me diverti ao relê-lo aqui fica:


À memória do meu pai, tão diferente deste e tão igual
                                                                     

Perguntas-me por coisas que não gostaria de ter assistido, nestes meus oitenta anos de vida? Assim de repente… Coisas imperdoáveis, enxutas, de que me absteria de ver? Olha, o rosto repuxado da Sophia Loren, a gargantilha que não lhe disfarça as operações plásticas, mais que os nós nas pranchas do soalho. Nem eu nem ela merecíamos isso. Mas não há modo de escaparmos às ratoeiras do tempo. Havia um padre na minha meninice que dizia: roedor que foge a fiado nunca erguerá o focinho rasteiro. Sacana do padre tinha razão. Nisso, e em ter encavado a mulher do notário, tão gira que dava dó vê-la ruminar sozinha os folguedos de sábado. O marido abalava para a caça todas as madrugadas de sábado e via-se que ela era contra, era contra as matanças, ainda nem se falava em vegetarianos mas ela já comungava, aquilo tinha nascido convictamente para o amor. E esse padre que era novo e muito inspirado no Vaticano III foi sensível à causa dela… não rias, que o caso foi sério e deu prisão e tudo. Olha, um avião a jacto - sempre me impressionaram. Sabes por quê? Partem o céu em dois.
Mas continuemos lá este teu inquérito, que raio de ideia a tua! A primeira palavra, a primeira palavra, assim que me lembre… Primeiro deixa que te lembre que há coincidências danadas, ou que é difícil saber onde está a causa e o efeito, como quiseres. A primeira palavra que fui consultar ao dicionário, era miúdo, devia ter uns oito anos… o meu pai não tinha eira nem beira mas fazia questão em que falássemos bem, que parecêssemos uns senhoritos a falar. E então apresentava-nos aos amigos e gabava: reparem como ele palra! Nunca dizia ‘falava’, tratava-nos como se fôssemos periquitos. E como escrevia letras para fados tinha comprado um dicionário que manuseava de frente para trás num grande aparato; voejando pela casa de copo de vinho numa mão e dicionário na outra, à cata de rimas. Foi a única coisa em que foi capaz de trabalhar, o resto era um estroina e estoirava tudo na pândega e na lotaria. Uma vez partiram-lhe quatro dentes por causa de uma dívida de jogo. E lançaram-no à porta feito num oito, enquanto me recomendavam, fui eu que abri a porta, hás-de procurar para o teu pai o significado da palavra «sarilhos»... Mas dizia-te que a primeira palavra que consultei no dicionário foi o verbo lobrigar, foi o escolho que me pegou de estaca no primeiro parágrafo de um livro do Camilo que o meu pai achara no lixo e me dera, e ele não me quis dizer o significado da palavra, miúdo, tens um dicionário, privilégio de que noventa e nove por cento dos pobres não se pode gabar e por isso usa-o. E lá fui ver. Mas o esquisito é isto: a primeira coisa que me lembro de ter visto na vida, a primeira imagem que me vem à mente foi ter, repara nisto, lobrigado uma lombriga a contorcer-se no sifão da sanita. Que idade teria eu? Ainda usaria fralda, que nessa altura eram de pano encardido pelas fezes de uma horda inteira. Só lá em casa eramos cinco irmãos, eu fui o mais novo; estás a ver o que aquele tecido aguentou até chegar a mim. Mas podia lembrar-me da minha mãe, da tua avó que era a doçura em pessoa, sei lá. Uma lombriga muito branca, numa água tão encardida como a fralda. E sabes qual foi o meu primeiro pesadelo? E ainda há quem diga que as palavras não passam de moedas gastas! Olha, no pesadelo, eu ia à farmácia. Explicava o caso, a enfermeira dava-me os sais para a purga e no fim eu agradecia: “lobrigado!”. Acordava horrorizado, com a partícula da lombriga a infectar a palavra obrigado, claro que na altura não o saberia definir deste modo.
Que maçador, filho! Pensava que no outro dia já tinhas acabado o teu inquérito. Andas a fazer esse inquérito a quantas pessoas? Bom, atira lá. Expressões populares, deixa lá ver, frases que se tornam refrões… Espera, uma das expressões populares que mais me intrigaram desde miúdo é a mania dos mais velhos a dizerem: «tenho um dedo que adivinha!». A minha avó tinha um dedo que adivinhava, a minha mãe tinha um dedo que adivinha, a minha tia freira tinha um dedo que adivinha, o meu avô paterno com o seu dedo que adivinha perdeu a fortuna do pai na roleta, em Espinho, todos eles com um destino de tripa forra… Só eu e o meu pai parecíamos ter perdido o dom, nalgum entalanço. A tua avó, por exemplo, recebeu como missão na vida arear a lua. Pelo menos era o que parecia, com a cabeça sempre perdida algures, alheia a tudo; às vezes com um zelo que roçava a indiferença, como se estivesse numa perpétua e incómoda órbita menstrual. Uma vez esqueceu-se de um de nós numa loja de móveis da Almirante Reis. Perdeu uma irmã no tremor de terra de 67, caiu-lhe uma chaminé em cima, perdeu um filho na guerra, mas nos poucos momentos de contacto, e com ela nunca houve momentos de vacas gordas, aturdia-nos com a sua inexplicável certeza de que não servia de nada esconder-lhe nada visto ter «um dedo que adivinhava». Penso que morreu iludida, julgando que lhe faltavam uns anos de pragas e que a sua adivinhação era uma espécie de teta que doparia, de antemão, qualquer lobo. Às vezes julgo que o que falta às pessoas é comprometerem-se de facto com as palavras, o compromisso, por isso dizem qualquer coisa agora e o contrário no momento seguinte; sem pensarem muito nisso, como agora se diz. Como se uma macieira pudesse dar cerejas – é esta na verdade a ideia que as pessoas agora têm das palavras, e não creio que haja grande futuro quando as palavras se começam a mentir a si próprias.   
Deus? Pões-me cada questão. Eu fiz parte de uma geração laica. Missas e padres nunca me passaram pelo estreito. Se calhar porque o meu pai era um republicano ferrenho, educado com o Pátria Minha, do Guerra Junqueiro. Portanto, nunca senti a necessidade de me interrogar acerca de Deus, esses assados. Lembro-me só, em miúdo, de uma vez ter vindo a Lisboa e ficar espantado pela quantidade de carros que circulavam em torno da Praça do Comércio, alguns já estacionados, enfim, ainda não era a vergonha (a que o Sena se viria a referir) de se ter transformado aquela praça numa filial da General Motors, mas já havia uns carros estacionados na placa central, e eu ia com a minha mãe, ia mostrar-me o Cais das Colunas. Ela carregava um saco de laranjas acabadas de comprar numa mercearia da rua do Arsenal, e o saco rompeu-se… As laranjas rolaram para debaixo dos carros. E então lembro-me distintamente de me ter vindo à cabeça: as laranjas procuram debaixo dos carros as iniciais de Deus… Assim exactamente, ‘as iniciais de Deus’. Devia ter uns doze anos. Uma coisa estranha, não sei donde aquilo irrompeu. Mas, assim como veio, foi-se: nunca mais fui assaltado por inquietações desse tipo. Intrigante, a associação que eu fiz, se calhar devia ter ido para poeta…
Não filho, nunca escrevi nada. Ou minto-te. Publiquei dois poemas no Notícias da Amadora, um jornal da oposição que não resistiu ao 25 de Abril e onde às vezes fazia uns biscates como tipógrafo. Queres que te mostre? Sei lá, filho, mandei isso fora. Mas lembro-me, memória tenho eu. O primeiro era só isto: «carta do marceneiro à árvore:/ chove que se farta!», foi um fartote, fartaram-se de rir e de me dar palmadinhas nas costas. E então, animado, publiquei um segundo: «Roída a unha/ De Deus/ Até ao sabugo// Delicia-se agora/ Com os epigramas/ De Catulo://Com a glande/ Rubra a locupletar-se/ Nos líquidos/ Fantasmas/ Da virtude.» O jornal foi à censura e foi um forrobodó, até levei reprimenda do director, porque, defendia ele, já nos chega as chatices com a censura pelas coisas devidas, as farpas com que visamos a política destes cabrões, não precisamos de poemas eróticos. Acabou ali a mesma carreira poética. Um dia ainda comecei uma história. Escrevi: «o planeta que tinha três rosas como satélites». Mas nunca soube como continuar. É a minha arca furada. Franzidos largos na manga do verso. Porque não escrevi mais e não publiquei? Sei lá, a vida troca-nos as voltas, eu era operário. Tipógrafo, é certo, que já foi uma classe ilustrada. Fartei-me de compor livros na caixa de chumbo, a caixa negra, olha, livros do Abelaira por exemplo e do Carlos de Oliveira, e ao compor letra a letra aqueles livros, juntando as frases de chumbo, eu ia-me apoderando da propriedade, do valor de cada palavra. Havia inevitavelmente muito de físico no modo como fazíamos os livros e o suor e as letras se geminavam. Eu acho que isso nos tornava diferentes. Agora não, recebe-se o texto em disquete e vai directamente para o gráfico, perdeu-se muito nisso, e até o peso que cada palavra deve ter. Talvez por isso, não voltei a tentar… Não adivinhas? Sempre que leio um mau livro penso nos palitos que ficaram por fazer… É bom rir, mas é triste rirmos tanto com o mau.
Tu queres mesmo continuar com isto? Já me deste cabo do uísque, acho que este inquérito é só um pretexto. Bom, tenho ali um rabinho de Jameson, vou buscar e vai espreitando este caderno velho. Cá estou, este resto de Jameson está na garrafeira há anos, é quase um fóssil. Já veio de Moçambique, vê lá, eras tu miúdo. Foi no princípio dos anos sessenta. Era tipógrafo no Notícias de Lourenço Marques – eu e a tua mãe vivemos lá cinco anos – e às vezes saía com um jovem mulato, um tipo habilidoso que rapidamente se revelaria um poeta de craveira, o Zé Craveirinha. Um ladino, gingão,  reinadio, e com olhos de foca matreira. Todo ele era verbo. Uma vez brincava com ele e disse-lhe, ó Zé, tu és um pardo de palavra lustrosa, e ele que nunca se ficava sem resposta: e que é um homem senão um pargo que deseja ir a Paris - a sumptuosa? Naquela altura, naquela altura… bom, naquela altura da vida o que era importante eram as miúdas, o sexo governava as nossas conversas em voz alta, que quando sussurrávamos falávamos de política, de África que se sublevava. O Craveirinha já era casado, como eu, mas era um doidivanas com as mulheres, galante, de humor sempre engatilhado, e elas alinhavam. Naquela altura havia um grupo de teatro que quis fazer o Romeu e Julieta, eu acabei por lhes fazer o programa do espectáculo, o Zé meteu-se a fundo naquilo e tornou-se “ponto”, hoje já nem se usa; mas ele lá estava todos os dias na caixa do ponto a bichanar o texto para os autores e eu interrogava-me, porque é que este marmanjo se põe ali enfiado, eu sabia a aversão que ele tinha às rotinas, e passou dois meses naquela caixa, muito obediente e cumpridor; sabia a peça de cor, e às vezes metia falas da peça a eito no café, se queria ser airoso com uma cachopa qualquer; o sacana tinha mesmo graça. Mas a dedicação dele, que me intrigava, quebrou-se assim que a peça estreou e o grupo começou a ensaiar o Édipo Rei. E interroguei-o, ó Zé, tanto empenho na peça anterior e agora é o corte - que se passou? Sabes, diz-me ele, em teatradas como esta, de opereta, sou menos pelo Sófocles que pelos seios da Julieta… E ria. Perguntei-lhe pelo paradeiro da Julieta, e ele, fez a desfeita de não entrar nesta peça porque o marido que é polícia desatou a ter ciúmes de um pobre ponto que afinal só elevava a palavra até ela, até onde se respira e as velas se tornam pandas… bela gávea é o que te digo! - e ficou-se por aqui. Nisso era elegante, ficava pela sugestão. Esse caderno era dele, tem rascunhos de alguns poemas dele, foi ele que me deu.
Olha, acabámos por vir para a metrópole porque a tua mãe não gostava daquilo e eu tive uma chatice no jornal. Sabes o que nos lixa na vida: a mania cristã de ser amistosos com os odiosos. E eles afinal são tão obstinados que se estão nas tintas para a reciprocidade, a única coisa que os move é galgarem por cima de ti, ou lixarem-te se atravessas o caminho deles. Nunca soube lidar convenientemente com esta situação e sei que profissionalmente fui várias vezes preterido por gente menos competente mas diante da qual eu cedia devido a este meu princípio estúpido de procurar em primeiro lugar a harmonia, o equilíbrio, um clima amistoso, um certo compromisso. É uma chatice quando temos a manivela da agressividade avariada e confiamos como anhos na palavra dada, acabamos por condescender com os tipos de mau fundo, os que à primeira te fazem a folha. É assim, mas como ouvi ao Craveirinha, «não se muda facilmente o coração para o ramo da construção». Ora, no jornal havia um afilhado do director, um jovem ainda, com menos uns dez que eu, a quem apanhei a falsear uma notícia. Em vez de o denunciar logo, quis endireitar o que estava torto, fazer-lhe ver que procedia mal, mas que podia corrigir a conduta… enfim, o teu pai era um padre. E afinal era mais que criancice, o tipo tinha sido pago por alguém para isso, e ficou lixado de eu lhe ter comido aquele dinheirito. Tece de imediato uma rede de intrigas que em poucos meses me pôs fora do jornal. O que me valeu é que tive nessa altura um convite do teu tio para regressar a Portugal e ir trabalhar para o Diário Popular. Ele nessa altura tinha sido promovido a chefe das máquinas e precisava de recrutar três ou quatro tipógrafos. E voltámos.
Aí fomos viver com o teu tio Manuel… e com a megera que ele tinha em casa. O amor, e tu ainda não sabes nada disto pois tens tomado o afecto pelas artes do perdulário, o amor precisa de uma respiração clemente, algo como a pequena brasa que incandesce o tojo. Pobres os que o confundem com a ruidosa arte do gargarejo. Mas o teu tio era assim: gostava das aparências, de armar-se e de mulheres que se armavam... E vai arranja aquela galinha da índia. Ou antes, da Mongólia. Nos seus olhos mongóis lia-se: o mundo é constituído por mim e pela jazida de feldspato que eu piso. Para aquela megera o mundo tinha sido criado para lhe aparar a mise do cabelo, os caprichos, os gritos… e se ela gritava, meu Deus. A tua tia esmifrou-o completamente. Eu avisei-o. Vi a rês que ela era no dia em que vinha do emprego e a encontrei sentada numa esplanada no largo da igreja, a bebericar um porto e a matutar, Então Emília, não vem para casa. Não vou já, tenho de resolver uma coisa… Mas que tem, tão pensativa… Não sei que hei-de oferecer à minha mãe no dia dos anos, diz-me ela; Mas ela é assim tão esquisita? Não, mas já tem tudo o que eu preciso…
O teu tio era mecânico dentário, naquela altura era uma coisa nova e ele podia ter ganho muito dinheiro, foi a Espanha, passou lá três anos a aprender aquilo, chegou e montou uma oficina, mas conheceu-a um mês depois, e ela esmifrou-o desde a primeira hora. Depois fugiu com o Frazão da farmácia. O tio não ficou muito bom. Tinha escondido tantas vezes a sua sombra debaixo do tapete que lhe perdeu o rasto. Porque a gente não pode dizer uma coisa às cinco da tarde, jurar pela alma de quem for que assim é que vai ser, e às dez da noite seguir tudo o que a mulher quer. O negócio até lhe corria bem, mas ele ficou à nora e de carretos trocados. Saiu de casa, deixou uma casa para nós e alugou uma vivendinha para ele. Foi-nos mostrar a casa e tinha um colchão na varandinha da frente. Era para ele dormir. Pergunta a tua mãe, ó Victor porque não dormes lá dentro. E ele: aluguei a casa para alojar o medo. Dito por ele, não estou para aqui a fazer literatura. Uma casa para alojar o medo. Ele dormia cá fora, sob o alpendre, para ter o prazer de sentir o seu medo confinado. Na garagem guardava todos os pertences de que o medo não se tinha apoderado, naquela longa coabitação que era a deles. Do material de jardinagem, por exemplo, só reservara à garagem o cortador de relva, nem sabia porquê, mas a maquineta nunca lhe suscitara o mais leve broto de inquietação, a menor fantasia horrífica. Mas a tesoura de poda, os ancinhos, adubos estavam dentro de casa. Até o amplificador da aparelhagem, que ele foi a primeiro a ter na família, sabe-se lá porquê, tinha enfiado dentro de casa… e a casota do cão mais o seu hóspede, cuja imagem não se livrou da dentada de ratazana, afincada quando ele pusera a mão lá dentro para mudar o forro de jornal do chão. E começou a ficar lélé, a dizer, ia pela rua a dizer em voz alta: «quando a vi, percebi logo, tinha de amar aquelas narinas, de fazer história no modo como respiram, ser os pulmões onde a caixa do seu coração repousa…». Tínhamos isto na família, vinha do meu pai, nem quando enlouquecíamos dizíamos coisas desconexas, fomos educados para manejar o verbo. Foi o que lhe valeu, tornava-se risonho e como toda a gente o considerava meio doido isso livrou-o de ser preso pela Pide, que com ele não havia enredos e largava as postas de pescada consoante as pensava.
Foi nessa altura que aconteceu. Dois anos depois de uma promessa sempre adiada. Acordámos e sentimos um sururu no café, debaixo de nós. As vozes subiam pelas paredes, cautas, mas era um burburinho imparável. Fui à janela e a própria cidade borbulhava; a nossa rua, normalmente tão recatada, parecia envolta, como o bacalhau com natas, numa prata de silêncios e sílabas húmidas, vivas. O contrário do que era hábito. Abri a rádio e, diziam os cabrões, o país estava de luto; só havia música fúnebre, solene, e palavras pesarosas… Isso, o Salazar tinha morrido. 
Lembrei-me imediatamente de uma promessa que tinha feito ao Craveirinha, tínhamos feito um pacto. E contei à tua mãe. Ela ficou num estado de nervos e procurou demover-me. Foi acordar a tua avó e depois de cochicharem a sós vieram as duas num choradinho, mas eu estava irredutível. Os teus filhos, guinchava a tua mãe, que vai ser dos teus filhos, mas há coisas que os homens têm de fazer para libertarem a bílis e se manterem à tona da dignidade e aí o que tem que ser ter mais força que tudo. Vesti-me e saí para o trabalho, com um sorriso nos lábios. E crê, meu filho, que é uma das coisas de que me orgulho, podiam até escrever na lápide, fulano fez x no dia y, e isso resumia a minha vida, porque se há algo que dê sentido a uma existência são os pequenos nada onde um homem cabe inteiro e pelos quais sentimos que o pomar da nossa vida está maduro.  
No dia seguinte, recebi um telegrama do Zé: ele não tinha faltado ao compromisso, e como eu, no dia anterior tinha posto a gravata vermelha.
  



domingo, 10 de maio de 2015

PEREIRA & ALCESTE, LIMITADA / AS SOBRAS DE ´´ÉTER"

                                                      a despedida de admeto e alceste

«Tenho mais prazer em dormir com o teu caixão do que contigo, ao menos não transpira!».

PEREIRA OBSERVOU OS MÓVEIS ANTIGOS, um sedimento profundo e encantado, que o presente não esfumara, e suspirou. Já a sua mãe os herdara da avó e, trazendo-as da Beira Baixa, deles tinha cuidado, não permitindo que lhes chegasse bicho. Maior desvelo não havia. Pereira tinha empilhado em dois quartos esses trastes velhos, como lhes chamava Rosânia, a brasileira que desposara o seu irmão mais velho, Nicolau, que agora se propunha vender tudo para lhe salvar a face.
Pereira tinha estoirado com o negócio da família, uma funerária, o único negócio que a par das farmácias é impossível falir, repetia incrédulo Nicolau que, fiado nisso, lhe deixara o comando nas mãos, zarpando para Valença onde era sócio de uma próspera firma de ar condicionado. Mas a desordem dos vivos pode atingir velocidades que cilindram a moléstia da morte e amantes e filhos sucessivos baratinaram o que parecia fácil; tendo o sucesso garantido à partida volvido um fóssil de nenhuma licitação nos leilões.
A fim de pagar pensões, escolas, vícios próprios e alheios, Pereira começou a não pagar a fornecedores e dispensou os melhores cangalheiros, recrutando ocasionalmente para gatos-pingados brutamontes arredios ao banho lustral que os enlutados exigem – mesuras e decoro. Foi como ter acoplado buzinas de ambulância sobre a carlinga de uma emoção que se quer embargada.
Descobrir que a Cátia, a sua quarta mulher em oito anos, o enganava com um zulu de Torre Eifel tatuada no peito esquerdo foi um pormenor tão inútil como escorar um trovão com uma empena: o clarão do relâmpago já fizera estragos.

Desde miúdo que Pereira não estava fadado para aquele negócio. Tinha vergonha, na escola, de contar que o pai era funerário e a mãe maquilhava os cadáveres. E que dizer do costume da família que sempre o perturbara? Em nascendo mais um membro familiar - e depois dele viera uma irmã e dois primos – iam ao Barreiro consultar uma indiana que lançava as cartas do Tarot e anunciava a provável data da morte. Consoante a sorte, arranjava-se de imediato um caixão, que era inaugurado em festa de família, partindo-se uma garrafa de champanhe num dos vértices, como se fosse um navio.
A irmã tratou de obedecer ao ditame e faleceu aos doze anos, com o corpo requerido ao esquife escolhido. Pereira vomitou durante dois dias e toda a gente se sensibilizou com “a dor do mano”, embora a verdade fosse mais mesquinha: Pereira começou aí a rejeitar o seu destino. Tinha dezassete anos quando este inopinado facto lhe convulsionou as tripas. Decidiu-se – não nasce da lama, a flor de lótus? Tornou-se um bom garfo, um garfo tão glutão que transportá-lo exigia uma mochila. E aos dezanove já pesava cento e vinte quilos, para um metro e setenta de altura, e excedia a largura física do seu caixão.
Nos estudos ia mal, repetiu três vezes o 12º ano no Liceu Camões, onde ganhou a alcunha do Triple C (aixão).
Só se interessava pelo teatro, mas pouco. Comprou na Feira da Ladra A Cantora Careca, do Ionesco (por causa do título), peça que o animou, dizia, por ser “completamente crazy”; e embalado, uns meses depois adquiriu, também na rua, um volume encardido que reunia várias peças de Eurípedes. Então vidrou-se por Alceste e Medeia, que recitava em casa até ao cansaço das suas vítimas. Sobre Alcestes, embora a história lhe fosse absolutamente desconhecida antes do filho a azucrinar com semelhantes disparates, a mãe ainda entendia o fascínio de Pereira, agora a atracção por Medeia deixava-a apreensiva sobre a educação que dera à cria. E mortificava-a o gozo com que Pereira narrava, à mesa, ao seu cansado pai, o episódio de Ioclos, quando Medeia convence as filhas do rei Pélias a cozerem o pai num caldeirão, com ervas mágicas, para que ele recupere a juventude. 
O pai não se ficava e a mutação do filho, dantes franzino, em continente, segundo expressão sua, trouxe o conflito às refeições familiares. O velho Pereira era de uma moral estrita que não autorizava recuo nos fundamentos que arbitram a ordem duma casa. Fora o que o que lhe resguardara o negócio da manápula socialista, garantia: ter contraposto a preceitos tão redutores, e sem vacilar, uma conduta igualmente rigorosa valera-lhe o respeito dos comissários políticos. Já Pereira suportava estoicamente as resmunguices paternas – e refocilava nas terrinas de arroz, no leitão ou nas costeletas de novilho, nos rojões e feijoadas, no leite-creme, nas trouxas-de-ovos, nos chocolates com que nunca mais deixou de abarrotar os bolsos.
Quebrou mais cedo o pai, levado por um enfarte múltiplo ao ver imagens de um tsunami em Bornéus. Balbuciou “tantos mortos sem sepultura!” e pôs-se de borco. Coube à justa no seu caixão, pois a briga com o filho provocou-lhe um descontrole hormonal de litigiosos contornos. Dir-se-ia que, no fundo, se dera ao trabalho de morrer para dar uma lição de disciplina ao filho, insinuou o Padre Oliveira no elogio final enquanto desfechava soslaios acerados sobre “O Continente” Pereira. Contudo, à imagem de Medeia, Pereira já ouvia os outros, como à pedra ou à onda do mar: estava-se nas tintas.
A tia Irina, um espeto de nariz adunco que já enterrara três maridos, mercê, asseguravam na Leitaria Primavera, pegada à Funerária, duma voracidade… (e aqui a malícia aflorava aos rostos) de flor carnívora, foi a última a não o poupar aos remoques, perguntando-lhe de chofre como é que aos vinte anos se podia carregar um corpo que afundaria um batelão.
Circunstância atenuadora: tal não foi sequer objecto de reparo de Nicolau, o irmão mais velho, que vindo do Valência, travou com ele várias conversas de homem para homem, barrando-lhe muito pragmaticamente a massa gelatinosa com untuosas instruções. Sobre a sua obesidade, não foi gasta uma sílaba. Pediu-lhe apenas que aparasse o cabelo, passou-lhe uma procuração e deixou-o no comando do negócio de família. 
Teve Pereira de mandar cortar e fazer três casacos a três quartos, negro & cinza, num alfaiate da Baixa, nas lojas já não se encontravam fatos à sua medida, e, contra o conselho do irmão, que era por um desbaste radical na sua comprida trunfa, manteve-a, passando a untá-la com gel e apanhando-a num rabo-de-cavalo pouco ortodoxo para a classe de que doravante fazia parte. Inclusive, sentindo-se autorizado pela confiança do irmão, encomendou igualmente três casacos assertoados e dois ternos de fantasia, que ornamentava com gravatas berrantes, passando a ser uma presença colorida no Urban onde, entre os matraquilhos e uma por outra linha de coca, adoptou o nome de guerra de Olivier Style. Era o hílare Olivier à noite e o sóbrio Pereira no compungimento dos escritórios da funerária.
Pode um gato gordo ser tão ágil como um gato magro? É duvidoso. Contudo, o raio do dinheiro muda o ângulo sobre o pólipo mais insípido e puxar carinhosamente pelos suspensórios de um gordo pode recair num vício que rapidamente desperta a arte da dissimulação no sorriso que se julgava cândido. E Olivier queria crer, pelo menos tanto como elas. Elas, passada a incredulidade inicial – como são que ainda ninguém lhe dissera que um rabo-de-cavalo só assenta bem numa magreza com carácter? –, superado o repúdio e a jura antecipada, começavam a tropeçar na sua persistência e na desconcertante lenga-lenga de “um cobarde que procura uma Alceste”, e, ainda que pouco lhes importasse os clássicos, não eram indiferentes ao provimento das ofertas. Cativadas pelo humor, acabavam por lhes aceitar o laço - e não prometia o nutricionista do Sheraton, White do ‘Ite, transfigurar a massapão em massa folhada?
Ao fim de meses de conjugalidade sobrevinha o arrependimento, o divertido Olivier das noitadas não compensava a maçada de aturar o Pereira dos enterros, e ele só sabia ser uma coisa ou outra, e não uma coisa e outra. Mesmo no leito, ele revelava-se um sorumbático, e, destituído da mínima sombra do humor que prometera, Pereira oscilava entre a oportunidade de emudecer como um toucinho ou de desatar a arfar em decibéis que matavam as microtonalidades, a languidez do prazer; encurralando as mulheres na recordação de experiências de outra adequação, na doce souplesse das carícias sem peso de ex-namorados.
A coisa piorava depois de grávidas. Normalmente pariam e dois meses depois desatavam a trai-lo com o contabilista, com o primo massagista do Belenenses, ou a primeira jovem viúva de olhos verdes e lábios de cereja que lhes falasse em Safo. Ele, circunspecto, cerimonioso, na missa do sétimo dia, fechava as pálpebras, sonhando brunir as orelhas no latim do padre e elas, latindo nos bastidores, alunavam.
Corolariamente, nos processos de divórcio como podiam elas portar-se senão como lobas ávidas pela conservação de privilégios adquiridos - duas linhas de coca, diárias, e outros mimos? Pereira que, no mais fundo de si temia a crueldade de Medeia, dispunha-se a ceder para calar a humilhação.
Ao cabo de três rombos patrimoniais, quando Pereira apresentou Karina a sua mãe - e esta detectou no olhar da candidata um vinco de lubricidade que sobrepujava em muito o pulmão do filho -, dona Marieta embarcou num caudal de xamaxs e lorenis que lhe precipitaram o fim. No quarto, sozinha, sentia-se torturada - num medo itimorato, absolutamente infundado - pela maldita frase de Medeia: «Ó filhos malditos de mãe odiosa, perecei com vosso pai, e a casa caia toda em ruínas.», e soluçava inconsolável: “Perecei Pereiras!”. Meses a fio. Uma noite levantou-se do capitoné em que via a telenovela queixou-se duma moinha, deu boa-noite e foi deitar-se, apagando-se no leito como a borbulha no acne adolescente. Vitória, a empregada, entrou sigilosamente no quarto, de manhã, para lhe deixar uma carta da irmã Raquel (a sua favorita, que casara com Cristo) na mesa-de-cabeceira e achou a senhora ‘bonita, repousada’; só indo certificar-se depois de em vão a chamarem três vezes para o pequeno-almoço.
Nicolau não faltou ao enterro da mãe e aproveitou para ensaboar Pereira, prevenindo-o de que lhe retiraria o comando do negócio familiar se ele não deixasse de ser um estouvado. Pereira concedeu, andava a meter o pé na argola e como sinal de assentimento cortou a trunfa rente, o que deixou Nicolau satisfeito. Mas o coração não muda à mesma velocidade da cabeça e, manejando as gravatas estampadas que lhe comprava, Karina engarrafou-o com vários nós de marinheiro. Um deles, os gémeos Tião e Tiago.
Quando dois anos depois Nicolau aterrou em Lisboa para observar, em friso, na escadaria da igreja (e porquê na igreja, meu Deus, agora metia igreja!), os quatro filhos do irmão, os caríssimos vestidos das ex., e reconhecer de imediato na esfuziante Cátia, a nova noiva, outra caça-dotes, percebeu que tinha de tomar rapidamente as rédeas do negócio ou então rogar que acontecesse em Lisboa o primeiro terramoto de grau 9.
Pereira foi salvo de não chegar da lua-de-mel para uma prateleira à parte de quaisquer circuitos decisórios na empresa por uma chamada do sócio de Nicolau, a quem fora diagnosticado Alzheimer e que ameaçava suicidar-se. Indo no socorro do sócio e amigo, Nicolau reservou para mais tarde as acções a tomar quanto ao património familiar.

Ao fim da tarde do dia em que descobriu, não seriam mais que umas 11h30, a mulher a escalar a Torre Eifel; depois de ter desabafado em tragos longos nas barracas do bairro a sua infelicidade com as mulheres e a sua impotência para as rejeitar, Pereira entrou em casa decidido a ir ao quarto dos fundos – onde se guardavam os caixões reservados para si e o irmão – coloquiar com o seu esquife sobre as linhas tortas em que a sua vida capotara, desde que experimentara fintar a sina. Se Pereira, nessa manhã, tivesse lido atentamente o artigo sobre estratégia que se estampava nas centrais da revista Visão, que folheara apressadamente ao chegar ao escritório, teria compreendido que aquilo que há anos a sua obesidade reclamava era o direito a afirmar que o mapa não é o território. Não importa, facto é que decidira enfrentar o mal de frente, Pereira queria meditar, face a face ao esquife, ou à asa-delta da alma, como se quiser, na decepção da sua vida. 
Assim que abriu a porta do quarto teve uma desagradável surpresa. Cátia dormia dentro do seu caixão aberto. O seu vestido azul claro, de decote drapeado, raiava contra o fundo vermelho da seda. Descansava aí do pleito amoroso com o titã, e a sua pele morena resplendia uma luz interior como Pereira nunca despertara nela. A seda, garantia ela, augurava bons sonhos.
Não era a primeira vez. O carinho com que a princípio ela brincava com as suas superstições degenerara nos últimos meses em escárnio, e provocações. Por várias vezes, à noite, se escapara ao seu assédio amoroso, na cama, para ir dormir ‘sossegada’ ao lugar de todos os seus terrores, e chegara ao ponto de não dispensar a estocada cruel: «Tenho mais prazer em dormir com o teu caixão do que contigo, ao menos não transpira!».
Ainda namoravam quando, num rasgo de entusiasmo, ele lhe contou a história de Alceste, o amor com que se ofereceu à Morte para trocar de lugar com o marido, o que lhe valeu a admiração dos deuses e o resgate autorizado da sua alma ao Hades, por Hércules, enquanto ela numa frívola espontaneidade lhe chamava tolo, oferecendo-se para ir dormir ao caixão. Ele ficara sentido mas ela disfarçou e deu-lhe a volta. Agora, era cada vez mais frequente ela preferir o esquife porque sabia que ele não se aproximaria de si. Estava há vários meses ciente de que este casamento teria o mesmo fim dos anteriores e agora até duvidava que o feto de três meses que ela carregava fosse seu.
Se ela soubesse que eu sei, que eu vi, não dormiria tão descansada, pensou Pereira, deplorando a sua cobardia por de manhã não ter interrompido a injúria. E se eu fechasse o caixão e a mandasse mesmo no meu lugar? Num impulso fechou o esquife. Mas o seu coração pontapeou-o, não estava na sua índole. E reabriu-o. Ela permanecia indemne, como se a inocência lhe pulsasse da carne e lhe volvesse mais branda a respiração. Cabra, Alceste ofereceu-se para a morte, tu ofereceste-te para me enganar. E mordeu a língua, ao dar-se conta de que não seria capaz de deixar de a amar.
Saiu pela porta de rompante e meteu pelo corredor, comprido. A casa estava quase esvaziada; os seus móveis e electrodomésticos haviam sido vendidos por Rosânia para pagar dívidas, com excepção dos trastes velhos que a sua cunhada autorizara que empilhasse em dois quartos, até serem trasladados para o armazém do Prior Velho, onde estava determinado que Pereira doravante viveria, num exílio forçado. Pereira era estroina mas bem formado e por isso, há três semanas atrás desabafara com o irmão ao telefone e este percebera que o estado das coisas exigia um pulso de ferro, enviando a mulher no seu lugar. Esta providenciava a venda da casa familiar e Pereira, obediente e desmoralizado, encaixava.
Cátia estava demasiado ocupada para se pôr com guerras com a cunhada e a relativa indiferença dela ao que se estava a passar é que colocou Pereira de sobreaviso.
Pereira soluçava quando dobrou o cotovelo do corredor e entrou de impulso na primeira porta à direita, atirando-se para cima da velha cama de mogno da mãe, que fedia a naftalina. A luz do dia foi baixando os véus sobre a fronha bordada e os painéis em cruz do pesado armário que Pereira entalara entre a cama e a parede, sem espaço para alguém passar de permeio; e os símbolos das cartas – ouro, copas, espadas, paus - em marfim marchetados na cabeceira da cama foram ficando baços.
Que horas seriam quando deu conta de que a casa transpirava? Não era um problema de canos, naquela parede não passavam canos. E a casa nunca tivera humidade, nem pensar, a mãe era asmática (felizmente Pereira não lhe herdara o gene) e os pais haviam migrado de morada em morada até conseguirem um domicílio que lhes garantisse a secura do grés nas veredas da Virgem.
A parede exsudava, perlada como a testa de um lutador de boxe. Levantou-se e foi verificar. Havia quatro finos sulcos de água, que desciam do tecto, e engrossavam na ponta, numa gota. Encostou o indicador à parede e a gota trepou-lhe o dedo. Encostou a língua à gota. Era mais do que água. Voltou a prová-la. Sim, a gota despertava-lhe o gosto a chá de camomila, a bebida exclusiva de Nicole, a francesa que o bisavô Jaime, combatente voluntário nas forças dos Aliados, na II Guerra, tinha trazido de Paris. Passou à gota do lado. Provou. Sabia a asfódelos. Como a sua avó, segundo ela mesma dizia, apesar dos sabonetes e perfumes com que esfregava a pele; a única lamúria que se lhe ouvia da profissão, impressão que nunca foi desmentida pelo pai. Era a sua mãe. Trémulo com a revelação, estendeu o dedo para o terceiro sulco de água. Voltou a passar com a língua pelo dedo. Não havia dúvidas, sabia a aguardente. Algo de profundamente residual do seu avô Custódio, homem de sermões e muita aguardente, encarnara naquela gota. Sentou-se na cama, sem coragem para testar a quarta gota, numa ligeira quebra de tensão.
Os mortos regressavam. O quarto estava pejado dos seus fantasmas. Estavam ali por ele, naquele momento de sofrimento, ou haviam estado sempre? Não sabia lidar com a descoberta. Que o assustava, tremendamente: os mortos voltam, afinal não partem para sempre. Estão em nosso redor; no mais insignificante recanto, em todas as casas, uma superfície perla; membrana líquida que conecta memória e actualidade.
As ideias encadeavam-se dentro dele: não há razão para fugir à morte, ou para a delegar noutrém, porque o fito do espírito é regressar, acompanhar todos os elos da cadeia, até ao molde final; compreendia agora o que insistentemente lhe balbuciava o avô Custódio, em dias de muita água de fogo: ‘rapaz, para que nasça a abóbora é preciso que a semente morra!’; e o que é uma abóbora - para além da sopa, deliciosa - senão um paiol de sementes? Pereira julgou compreender: há deperecimento mas não há desaparecimento final, e, como diz o verso de Pessoa, morrer é unicamente deixar de ser visto. Pelo que deixa de haver necessidade de alguém morrer no nosso lugar, concluiu aliviado.
Pereira, nos últimos anos, viciara-se na ideia de que o dinheiro compra tudo. Num flash, viu, há coisas que vêm por si, apesar ou para além dos aparatos. A morte vem por si, independentemente das agulhas que quisemos semear nos seus carris. O amor terá de vir por si…
Pereira suspirou e deixou-se cair para trás na cama. Sentia-se em paz, absolutamente esvaziado de ansiedades. Passou-lhe levemente pela cabeça a ideia de dormitar um pouco. Mas sentia os bolsos pesados. Despejou-os, do chaveiro, um verdadeiro trambolho, e de dois chocolates. Um deles licoroso, por abrir. Ainda os ergueu à boca mas só o cheiro enjoou-o. Abriu a mesa-de-cabeceira e enfiou-os lá para dentro, certo de que nunca mais lhes tocaria.
Deitou a cabeça, descontraidamente. Fechou os olhos. Via o florão de estuque no tecto, através das pálpebras. Percebeu então que, se os mortos voltam, ele não se importaria que Cátia fosse, não no lugar dele, mas no seu e próprio.
Levantou-se de um pulo, saiu pela porta, dobrou o cotovelo do corredor e encaminhou-se para a porta do fundo.
  


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BEAUTIFUL PEOPLE

359*

Não faço a menor ideia porque é que esta belíssima foto de Alice WR me inspirou o pequeno conto que corre em baixo e que escrevi em Março de 2014, em Nacala, quando filmava com o cineasta Fábio Ribeiro, a quem dediquei a narrativa, que daria um filme durinho:


«Tomé estava longe de ter planeado entrar na cabina do chapa e de zarpar com a viatura quando a viu estacionar à porta da barraca Trinitá e o motorista a esgueirar-se - o sequestro de uma mija arrepanhava-lhe a fronha - para as traseiras. O apagão que logo a seguir detonou na rua é que lhe ondulou na cabeça e aí mais nada fez senão obedecer ao impulso.
Entrou na cabina, confirmou que a chave estava na ignição, e rodou-a. Suavemente, como faca na manteiga, fez deslizar a carrinha por entre os volumes enegrecidos (houve tempo para experimentar os óculos raban que se encontravam no tablier), e só no fim da rua acelerou. Estava no papo.
Não havia mais que quatro ou cinco passageiros mergulhados no bréu, mansas criaturas amodorradas pelo bréu, e ninguém dera pela troca do motorista. Deixou-se seguir sem acender as luzes interiores, sem o tinir duma sílaba de protesto - gado bom de ordenhar.
A música que o leitor de dvds emitia era estranha, uma toada electrónica que lhe parecia velha como o mundo. Ouvia-a e vinha-lhe à cabeça o refrão: há quantos anos deixei de usar ganga? Não sabia se achar mais bizarro o gosto daquele motorista se o modo como as frases lhe despontavam no cérebro, cometas chegados de nenhures para um destino inadivinhável. Há quantos anos deixara de usar ganga? Que tinha uma coisa a ver com a outra? Deixou a música tocar, a ver onde aquilo ia.
Conhecia a rota como a palma da mão e levou a viatura sem custo até ao seu término. Aí encheu o carro de people que se acotovelava como botões que desesperassem por regressar a casa. Aproveitou para descobrir que música era aquela. Neu! Hallogallo. Era quase gala-gala, mas não, não conhecia. Voltou a colocar o disco. Algas com ferrugem num mar electrónico - vira uma vez na Costa do Sol. Com o carro já cheio, só aí se apercebeu que o chapa andava sem cobrador - melhor, cobrou ele logo à cabeça.
Era vinte e duas horas e o apagão alastrara a sua tinta de polvo por toda a cidade.
Ladeava o muro da lixeira do Zimpeto quando puxou da pistola com silenciador que havia comprado ao china e, sem se virar, atirou ao acaso por detrás do pescoço, visando duas vezes à esquerda e três à direita. O silenciador funcionava, não fazia mais barulho que um peido de formiga. O escuro, a surpresa, a sua rapidez ajudaram.
O alarido só rebentou quando numa guinada parou o chapa à beira do muro e, gozando o prato, acendeu as luzes virando-se para trás, de pistola em riste. Os passageiros olhavam estarrecidos as vítimas de cabeça pendida. Atingira em cheio um olho, um coração, uma testa, um cotovelo que guinchava e um pescoço que gorgolejava. Uma mulher olhou o sangue na sua mão e gritou, pela última vez na sua vida. Foi remédio santo para os demais. Disse-lhes:
- Passem-me tudo o que têm nos bolsos.
Depositaram tudo no lugar vazio ao seu lado. Moedas, notas, telemóveis, porta-chaves. Até perservativos. Encheu os bolsos. Depois articulou, pausadamente:
- Vamos sair, calmamente, e pôr os mortos onde devem estar...
Não se apercebia de como aos ouvidos dos seus acagaçados passageiros a sua voz soava mais metálica que aquela música que, esgravatando o miolo do escuro, pastoreava estrelas. Desciam do chapa atrasando o passo, mais enfiados que esterco no rabo do cabrito. Veio-lhe ao nariz sinais de que um gordo se borrara, literalmente. Atrás dele desceu um madala (1) com umas calças de ganga. Há quantos anos deixara de usar ganga? Donde raio lhe chegava aquilo? Desligou a música. Alinhou-os contra o muro. Aproveitando o estupor em que estavam, na rapidez que lhe dera o treino de comandos, mudou o carregador da arma. Contou-os. eram treze. Abateu o gordo. Explicou:
- Não gosto do treze e este já fedia...
Uma mulher soluçou. Baixinho, o que lhe valeu. Apesar do escuro, ouvia as grossas bátegas de calafrio entrechocando-se como seixos na testa dos homens. Ao redor, os grilos faziam de segundos violinos. Vivalma. Noite de trevas, muito ao longe acenava o farol dum carro, mais solitário que o lenço de mulher esquecida. O gordo gemia. Um balázio na cabeça serenou-o. Tomé suspirou, entediado, e observou:
- Escarumba é assim mesmo, vive da bacela (2) do seu medo. Vamos ao que interessa. Quatro a quatro, peguem nos corpos e atirem-nos por cima do muro. Sempre que falharem abato um dos quatro...
Os homens superam-se. Tomé viu como um a um os cadávares foram balanceados à justa. Impulsão feita à medida. O quarto corpo elevou-se um pouco mais, deu uma reviravolta sobre si e pairou um momento no ar antes do ombro ir embater no topo do muro fazendo-o rodar para o outro lado. Borbulhou o alívio que tem um pneu furado. Não ficaria mal aqui a ratinice dum corvo, se um corvo fosse capaz de se interrogar, há quantos anos deixei eu de usar ganga. Porém, Tomé congelara a música dos alemães Neu!
Ao baque do último corpo no outro lado do muro, Tomé gabou:
- Somos melhores que os mambas(3)... os moçambicanos só precisam de uma motivação... - e atirou para o ar - Alguém guia?
Um rapaz novo, hesitante, receoso, levantou a mão. Tomé - deu-lhe um súbito cansaço - deixou cair a arma, olhou para ele e sugeriu, meigamente:
- Leva-os daqui... - sorriu, antegozando a ideia - E para os jornais digam que foi um comando da Renamo...
Num ápice, viu-os desaparecer. Foram no encalço de um velho Mercedes que passou, tossicando.
Tudo tinha corrido pelo melhor. O apagão, o avançado da hora, a pouca afluência de carros, não ter havido um passageiro que se julgasse com estofo de herói... até a piada final lhe saíra a primor. Além disso, Tomé que, como o seu xará bíblico, gostava de ver para crer, era obrigado a reconhecer que os chineses, afinal, não têm à venda só a fancaria das lojas de trezentos, tinham do bom.
Encaminhou-se para casa, vivia ali perto. A mulher esperava-o. No dia seguinte podia comprar-lhe um micro-ondas, tão prático para durante a noite se aquecer o biberão do bebé. E os óculos raban ficavam-lhe a matar.»

(1) um homem já maduro
(2) um pequeno brinde numa compra informal, compra-se seis maçãs e a vendedora dá uma sétima, por exemplo
(3) o nome que se dá à equipa de futebol moçambicano, que na semana anterior à escrita do conto havia desiludido mais uma vez num confronto internacional 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

CABRIOLICES DAS CATATUAS


Um conto que não se destina a qualquer livro, um mero exercício para a mão, motivado pela história verdadeira duma anónima, uma mulher que não conheço, mas me foi contada num café:

VASCULHAM OS BOLSOS DE FIO A PAVIO, À CATA de uma moeda perdida ou de nota dobrada, depois contam pela segunda vez o dinheiro que conseguiram juntar. Dá à justa para a dormida. Pensão Nacional. Sobrava cem meticais, segundo a tabela.
Desde que tocaram na sineta, escorrem cinco longos minutos sem que ninguém apareça na recepção, mas ficam hipnotizados pelas cabriolices das duas catatuas que se encarniçam a bicar-se, num rodopio de sílabas, pios, guinchos e penas arrancadas que multiplicam os cantos a uma pequena gaiola de bambu que se pendura ao lado dos cacifos.
- …se continuam neste ritmo, ainda acordam os hóspedes… - Observa ele.
- Bom… - Ratifica ela, entusiasmada – este desatino … é uma maravilha… não há dúvida que esta é uma casa do amor… qual delas é o macho?
- Não sei…
Ele voltou a badalar a sineta, poisada atrás da tabela, no balcão.
- Será que está cheia? – Inquieta-se ela.
- Se estiver, estamos fritos… ou vamos para minha casa.
- Ai, isso é que não… - Objecta ela - a minha primeira noite com alguém tem de ser em território neutro… desculpa, amigo, mas é uma regra de que não abdico.
- Por princípio parece-me bem… mas são duas da manhã, e já não temos dinheiro para mais nenhum pardieiro…
- Quiseste-me impressionar com aquele vinho francês…
- E deu certo, não?
Um pigarro precede um homem de anoraque lilás sobre um pijama às riscas e enfiado num gorro vermelho, que empurra a porta de batentes, vindo supostamente do escritório. Embezerrado ainda, cumprimenta-os:
- Boa-noite. Os senhores, querem quarto? – Baixou a voz, como se a si mesmo perguntasse - Com banho ou sem banho?
- Com banho… - Atalhou ela.
- Têm sorte… que estamos no Ramadão. Às sextas costumamos ter a casa esgotada…- Esclareceu, enquanto abria um livro encardido de hóspedes e pedia a Alberto, apontando com a unha suja:
- Importa-se de assinar.
Pagaram o quarto, foi-lhes dada a chave do quarto 12.
Na travessia do corredor, Célia franziu a testa, sondando o rebordo de bolor nas rosáceas de estuque, o pó acumulado no lambril da parede, e as glicínias empoladas do papel de parede.
Alberto enfiava a chave na ranhura quando ela perguntou:
- Já aqui vieste?
- Não, espera… - A chave encontrava resistência. Houve que desenfiá-la, e torná-la a meter, devagar, tenteando à esquerda e à direita até a serrilha encontrar o encaixe que move a lingueta.
- Detesto fechaduras que só se abrem com jeito… - observou ele – é como se fossem fechaduras com cheiro…
- Com cheiro? - Redarguiu Célia – Tu falas umas coisas que me fazem cócegas no céu-da-boca… - exclamou, rindo alto.
- Shiu… - sussurrou ele, puxando-a para o quarto – não acordes os mortos vivos.
Atiraram-se para a cama, acolchoada a verde. Um verde berrante, de lagarto. As molas rangeram, desengonçadas. Que espelunca, comentou ele, e riram, desafogadamente, como aliás acontecera toda a noite, desde que se haviam encontrado no jantar de despedida de uma amiga comum, que regressava a Portugal.
Beijaram-se. Alberto sentia-se ligeiramente anestesiado pelo álcool mas a maior fogosidade dela compensava. Num ímpeto, sincronizadamente, como se tivesse sido combinado, levantaram-se e cada um do seu lado da cama pegou nas orelhas da colcha e lançaram-na para os pés da cama.
Despiram-se, entreolhando-se com lampejos malandros, piscadelas de olho. O sinal castanho dele, acima do umbigo, com a caprichosa forma de uma língua-de-gato retiniu nos olhos dela:
- Uau!
- Para o caso de depois nos dar a fomeca, temos biscoito… - Brincou ele, antes de, feito um relance pelo corpo dela, enxuto, perfeito, como se de bronze fosse, a gabar – És bonita.
- Negra bonita! – Graceja ela, pestanejando.
- Sabe-la toda, bandida…
Ela continua o jogo, imitando o sotaque brasileiro:
- Vamos, siô branco?
Levantaram o lençol e deitaram-se, enlaçando-se de imediato. Num primeiro abraço. Pelo canto do olho, ele viu os lençóis cheios de borboto, e atirou sarcástico:
- Vieram directamente de Pompeia, para aqui.
- O quê, indagou ele, intrigada.
- Os lençóis.
- Se queres que olhe muito, muito, para tudo, murcho… - Acentua, mudando de tom, antes de dar uma risada- …perco a vontade… 
- Tens razão… - Amenizou ele, beijando-lhe o ombro – Passemos à acção… O que me dá pica é a tua pele… quero lá saber da pele do mundo, merda para o mundo… - e deslizando-lhe a mão pelo dorso chegou ao sexo dela. Estava húmido.
Beijaram-se. Um beijo à francesa, diria um narrador vegetariano. Ela fechava os olhos, ele só a espaços – e de viés rememorava os borbotos de outros lençóis, noutro manhoso quarto de pensão, em outras eras da sua vida.
Estava apaixonado, então. Há quinze dias que batiam os hotéis de Lisboa. Na primeira noite calhou, por brincadeira, terem entrado no Hotel Londres, na Pedro V, a caminho do Príncipe Real. Ainda no elevador, a caminho do quarto, decidiram que doravante só dormiriam em hotéis com nomes de países ou cidades europeias. Pela sugestão da viagem. Passaram “a lua-de-mel” numa longa viagem pela Europa: na noite seguinte escolheram o Hotel Paris, seguiu-se o Hotel Roma, a residencial Madrid, a Rock House, etc. Todas as noites aterravam num país diferente, e entredevoravam-se nele. Ao cabo de 15 dias de turismo sexual estavam lisos, a rapar todas as moedas, e era a última noite de liberdade para ambos – a mulher dele regressava do Algarve, com a cria e uma gravidez de quatro meses, razão pelo qual ele adiava romper o casamento de imediato. Sentiam que precisavam de fechar em grande aquele primeiro ciclo de enamoramento. Mas estavam tesos e tristes.
Jantaram num restaurante barato e agora palmilhavam a cidade de pensão em pensão à procura de uma dormida que pudessem pagar. Perambularam durante horas a cidade em silêncio, de avenida em avenida, ruas, viela, becos, subindo e descendo colinas, travessas, escadarias, desenhando no corpo um labirinto de cansaço. Só na Praça da Alegria encontraram o sítio que lhes convinha. Num segundo andar, por cima dos bombeiros. Pagava-se à hora. Uma pensão de putas. Mas era tão barato que conseguiram negociar a noite, até às sete da manhã. A senhora, de óculos garrafais sobre um buço de galega, ficava a arder em duas horas, mas aquele intervalo entre as 5 e as 7 era quase sempre morto. Acedeu.
O quarto era chungoso, com uma asa de bolor que se infiltrava nas narinas. A luz glauca dos candeeiros não disfarçava os borbotos dos lençóis, a gordura colada ao esmalte cariado da bacia, a sordidez que os feria. Fizeram o que tinham a fazer, num soluço, transidos de nojo e desejo.
Dois dias depois, em casa, Alberto tomava duche e deu conta de que uns bichos se passeavam nos seus pêlos púbicos. Chatos. Pôs a água no limite do aquecimento que aguentava e dirigiu o jacto de água para a púbis. Mais de um minuto. Enxaguado o corpo, pesquisou. Não via nada.
Mas duas horas depois, ao vestir a filha, que tinha dois anos, deu conta de que num tufo de cabelos em pé da miúda se baloiçava um intruso. Catou-o e num sentimento de culpa fez estalar o bicho entre as unhas.
Três dias depois toda a gente em casa era obrigada a usar shampoo contra os parasitas capilares. E ficou sem reacção quando a mulher lhe perguntou, directa:
- Com quem apanhaste tu, os chatos?
Respondeu, sacana:
- Ah, então tu distingues entre chatos e piolhos, donde te vem tal saber enciclopédico? E como sabes que a miúda não os apanhou na escola?
Teve de engolir a resposta pronta:
- Andas tão distraído com mulheres vulgares que nem te ocorre que a tua filha está de férias da creche há um mês.
Foi nocaute puro. O primeiro num longo débito de mentiras que o levaram nos meses seguintes a perder a mulher e a amante, porque a perfídia, mesmo a que se infiltra em nome do amor, bicha todas as maçãs e abre os portões do jardim à desconfiança e ao tumulto.
Os chatos. Perscrutava agora os borbotos, desconfiado, vigilante, a mão inerte sobre o sexo de Célia. Há seis anos que não via as filhas. O que o magoava, muito. Ela nota o desconforto dele. Célia mudou de posição, desencaixando o corpo dela do dele:
- Se preferires dormir, estás à vontade...
Ele faz estalar os lábios. Ela reforça, ternurenta:
- Sério… acontece…
Alberto soergue-se, sentando-se contra o espaldar da cama. Não quer ser descortês, mas remói a pergunta dela, antes de admitir:
- Não sei o que me deu… Importas-te? Ainda lambo os selos de algumas feridas.
- Os selos de algumas feridas? Tu não falas como as pessoas normais. És muito doido, engenheiro.
- Não é nada contigo. Estou estoirado.
- Ya, sempre me disseram que homens de 50 anos davam negas… Mas como estavas cheio de humor…
- Desculpa. Um dia destes convido-te para jantar e havemos de ir para um quarto que te mereça. Juro.
- Ok, ficas a dever-me uma noite de arromba.
Alberto deu-lhe um beijo na testa, e ela vira-lhe as costas. Disposta a dormir. Alberto, afunda a sua mão na omoplata dela, a sua pele é extraordinariamente macia, depois apalpa-lhe o ombro e, suavemente, segue com o indicador a linha direita das clavículas, recortadas, perfeitas; Célia encolhe o ombro, coloca a sua mão sobre a dele, roga:
- Estás-me a fazer cócegas...
- Desculpa…
Retira a mão. Ela ameniza:
- Não te esqueças… uma noite de arromba.
- Está prometido.

Passados quinze minutos de uma incomodidade fúngica (donde lhe vinham tantas cócegas sob a barba grisalha, no peito, nos cotovelos?), ele resolve acender a luz do candeeiro de mesa e espiolhar a revista que adorna a mesa-de-cabeceira. Um número velho da Super Interessante.
- Importas-te? – Desculpa-se – Tem aqui uma revista.
- Está à vontade, não me incomoda a luz… - Murmura ela.
Folheia-a distraidamente, na obliquidade. Na página 28, uma notícia prende-lhe a atenção, lê-a e desmancha-se às gargalhadas… Ri tão a gosto que ela se vira curiosa:
- Que foi… que há aí de tão engraçado.
Ele não responde logo, enreda-se num rodeio:
- Sabes, fui sempre um ingénuo. Era tão atado que nunca me confessei...
- Confessar, como? Na igreja?
- Sim… Hoje sei que fiz bem, que à mínima menção dos meus pecadilhos (eu tinha uma imaginação prodigiosa para a mentira) uma mão esguia me procuraria o reduto, o zip, e me descascaria o pepino.
- Falas de quê?
- Do padre, na igreja. Sabes que eles abrem os zipes dos miúdos, e zás….
- Brincas…
- O pior é que eu ia gostar…
Ela arregala os olhos:
- Tu? Ias gostar?
- Os miúdos, numa determinada fase, não distinguem uma mão de outra, isso só lhes vem mais tarde, com a educação, por isso nunca me confessei, aterrado pela ideia de gostar tanto de ser punheteado como de mentir. Mas sabes, fui sempre assim com tudo, à mínima suspeita que ia gostar de alguma coisa, renunciava... Foi igual para a tropa. Via farda e salivava. Farda de bombeiro, de polícia, de soldado, pelava-me por uma farda…
- Juras?! – Sublinha ela, divertida.
- Juro… Por um triz não sou brigadeiro. O triz que me fez objector de consciência. Ainda que hoje esteja arrependido. Até na sexualidade me esquivei. Sabes que na Grécia houve um mago chamado Tirésias que foi homem e mulher. E os deuses chamaram-no lá em cima para arbitrar uma discussão sobre quem tinha mais prazer na cama, se o homem ou a mulher e ele foi peremptório: a mulher tem nove vezes mais prazer que o homem na cama… e por isso, desde as minhas vidas pretéritas, fiz sempre o possível para reencarnar em homem, só para não sucumbir a uma voluptuosidade impossível de rejeitar…
- Olha… - Atira ela, divertida - desconfio que isso não seja verdade, e não sei se percebo o que estás a tentar dizer-me. Tu abres a boca e fazes assim umas cabriolas… - sorri - como as catatuas… mas, sabes, és um barra nos preliminares, estou a adorar…
Ele abre o jogo:
- Trata-se de que agora posso finalmente confessar-me sem receio. Finalmente. Andava tão precisado. Está aqui… - lê - é um aplicativo para iPhone chama-se "Confession: A Roman Catholic App" e, diz aqui, foi desenvolvido com a colaboração de representantes da Igreja dos Estados Unidos. Custa 1,59 euros e pretende ajudar o utilizador a fazer um exame de consciência. Inclui os mandamentos, uma lista de pecados, a data da última confissão e sete preces diferentes. Amén! É fabuloso…
- Gosto de te ver animado de novo… - Encosta-se a ele, dengosa - isso dá-me esperanças…
- Façamos uma coisa… vamos os dois fazer uma grande confissão, e depois desse repasto espiritual atiramo-nos à febra, que tal?
- Hum, tudo bem… começa tu, conta-me a verdade sobre o que te deixou murchinho, à bocado…
- Vamos a confidências? – Hesita ele.
- Tu é que propuseste.
- Deixa-me fumar… - Puxa de um cigarro, senta-se na cama e acende-o. Ela senta-se também. Ele expele uma baforada e começa a contar – A minha mulher estava grávida da nossa segunda filha há quatro meses quando eu me apaixonei por uma colega do serviço… Perdidamente… Eu não fui capaz de romper com a minha mulher de imediato porque ela estava grávida, nem de me privar de estar com a outra porque estava embeiçado… Foram meses de mentiras em que frequentei todas as pensões de Lisboa… e algumas bem rascas, era o que podia ser, consoante se avançava no mês… e acabei por destruir nos seis meses em que durou a coisa as relações com toda a gente, com ela, necessariamente, com a minha amante… e com as minhas filhas… e nenhuma delas merecia tantas mentiras à esquerda e à direita…
- Com as tuas filhas, como, se eram tão pequenas? Uma delas estava para nascer…
- Essa, descobri depois que se julgava culpada da separação entre o pai e a mãe e isso foi pesando no modo como ela se relacionava comigo… O facto é que as minhas filhas nunca tiveram muita confiança em mim, chegaram até a viver comigo, um períodomas… ao mínimo pretexto vinha um capital de queixas inigualável… E a mãe escarafunchava nos pormenores mais sórdidos, o facto é que nos fomos perdendo… a pouco e pouco tudo não passava de comércio, de obrigações… e tudo começou nestas pensões com borbotos…
Ela desvaloriza:
- Não sei se entendes que o teu problema, para aqui… nesta terra… não existe…
- Tens razão, os homens daqui têm duas mulheres, às vezes três… filhos à esquerda e à direita…
- Vocês complicam muito a vida… os teus pecados são menores…
- Espera lá, eu não disse que se voltasse atrás eu não repetiria tudo aquilo que vivi sem um desvio… eu estava apaixonado e a nossa história foi uma coisa bonita que mereceu todos os passos indignos que foram dados… chato foi ter perdido os filhos, a seguir… isso é que às vezes me chega como um fantasma e… me faz perder a tusa. Mas diz lá porque é que achas que é um pecado menor, se é um caso de confiança perdida…
- Menoríssimo…
- Tens mais grave?
- Hum, hum…
- É o que vais contar?
- Se me deixares…
Olham-se. Ele oferece-lhe um cigarro, ela aceita-o e acende-o. Dá uma passa, olha para ele, indecisa, prolonga o impasse com uma segunda passa, enquanto o examina de soslaio, de alto a baixo, avaliando a matéria do silêncio dele, e desfere:
- Estava com uma prima na praia da Macaneta, a apanhar ameijoas. Tínhamos lá ido ver um terreno que ela queria comprar… aproveitámos e fomos à água… a maré estava baixa, ela tinha fato de banho, eu não, estava com uns calções de ganga, e ela apanhou uma ameixa, outra, e entusiasmou-se…- Ameixas?
- Ameijoas, que disparate…é da hora… - tem um momento de vacilação – não sei se quero falar isto…
- Então?    
- Combinámos, não é?
- Hum, hum…
- Bom, que seja o que deus quiser… Eu achei graça à facilidade com que ela apanhava as ameijoas e pus-me a imitá-la, de costas para o mar… e de telemóvel na outra mão. Veio uma onda mais brava e rebentou nas minhas costas… com força no meu rabo… e na surpresa deixei cair o telemóvel à água… Estás a ver a cena…
- Isto até agora parece-me: “Como eu converti a minha primeira alforreca ao islamismo”…
- Espera para veres… Estou uma barata tonta, a tentar salvar um cell submarino e deixo de o ver na espuma… Estive para ali mais de um minuto a amaldiçoar-me e à pesca do telemóvel, que desapareceu e nem reparo que vindo do mar se aproxima alguém num fato de mergulhador e que numa das mãos tem um peixe-serra que se contorce no arpão… e, na outra, o meu telemóvel… e pergunta-me num inglês arrevesado, minina o cell é seu? Era o Lambert, um holandês. Um mês depois estávamos enrolados. Nunca soube bem o que ele fazia, mas o dinheiro caía-lhe do céu escorria, ele falava que tinha sido uma herança… e vai pede-me para ir por ele ao Suriname levar uns papéis para serem assinados… que confiava muito em mim, tra lá lá, eu fico baralhada, mas acredito nele, e o que há a fazer parece-me simples. E ele fala que, na mesma data ele tem de ir ao Cabo assegurar outro contracto, etc. Bom, na véspera de eu ir morre o meu pai… e fico sem condições de viajar. Ele dá-lhe uma coisa, mas que fazer, e contrariado, vai. E assim que chega ao Suriname e é preso… o forro da mala estava cheio de droga. Eu estive prestes a ser um correio da droga, percebes? Foi uma sorte dar um treco ao meu pai, e tudo se alterar à última hora. Podia ser eu a estar presa. Ele apanhou dez anos. E fica baratinado de todo, ainda passei lá seis meses, até à confirmação da pena, eu estava furiosa com ele, mas ao mesmo tempo gostava dele, e ele não estava preparado para aquilo, para ele era uma aventura, e não estava preparado para a dureza da prisão e ficou muito mal… E quando estou para me vir embora, fui visitá-lo à prisão, e ele está desesperado e fala-me em suicídio… e eu, sem saber como acudir-lhe, digo-lhe que estou grávida… Menti-lhe. Ele ficou felicíssimo. A partir daí, agarrou-se a isso como uma jangada para a vida, e está convencido de que ao fim de cinco anos sai e as coisas se recompõem e envia-me duas cartas por semana falando dos planos para o nosso filho…
- Mas ele continuou convencido que ele existe?
- Eu cheguei a Moçambique e a minha melhor amiga estava de barriga, de um filho com um italiano. E sem saber muito bem o que estava a fazer, porque o Lambert me sufocava com as suas cartas a falar de um filho que não existia, depois de o ter visto na merda, tirei fotografias à barriga dela e enviei-lhe, fui-lhe enviando e quando nasceu o filho da minha amiga mandei mais fotografias do miúdo… não foi premeditado, queria apenas ajudá-lo, tirar-lhe o peso do que estava a viver… era ele que falava que aquilo o ajudava, para mim era um jogo… mas de repente, há três anos para cá, decide mandar-me uma pensão mensal para um Filipe que não existe, e eu retribuo com fotos do filho da minha amiga e algumas cartas em que conto como vai a criança, as primeiras palavras que disse, como caiu contra o bico da mesinha da sala e fez um golpe fundo na sobrancelha que teve de levar dois pontos, o sarilho que foi com a varicela, sei lá… Eu não queria, não calculei a coisa como um esquema, mas fui-lhe ajudando e fui-me acomodando, e ele manda-me o dobro do dinheiro que eu ganho como secretária de administração no banco, é difícil ter a honestidade que ele, afinal, não teve comigo… É isto…
Alberto acendeu um cigarro e ofereceu-lhe outro:
- Bom… - Procurava suavizar o juízo que ele próprio se sentia inseguro de ter – tu não quebraste a confiança de ninguém, só lhe deste mais confiança e manténs a ilusão de que ele necessita para sobreviver. 
- Sim, enquanto ele estiver preso é uma ilusão, depois passa a ser uma burla… - E remata lacónica - E eu não consigo evitar gastar o dinheiro…
- Há atenuantes… fizeste-o de boa fé… Podias tu estar presa… porque ele sabia, tu não…E para te ser franco… - acaricia-a, sente o sexo entumecido - essa pequena safadeza dá-te um certo encanto…
Tenta beijá-lo, ela não reage.
- Que é?
- Desculpa… não sei se fiz bem falar-te… sinto até um certo alívio, mas agora não me sinto à vontade, percebes?
Ele sustém o olhar dela e esmaga o cigarro no cinzeiro que tem poisado nas pernas. Pisca-lhe o olho:
- Compreendo, ficas a dever-me uma noite de arromba…   
Beija-a no ombro e deita-se.
Pelos cortinados translúcidos lucilam as luzes do bar que, clandestinamente, se mantém aberto nas traseiras da pensão. Ele comenta:
- Este foi o meu último cigarro... Devo-me uma dívida maior que a morte.
Ao fundo, o alarido das catatuas cabriola no ar.