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terça-feira, 25 de outubro de 2011

CAFÉ ORION

o orion nunca foi o majestic mas passa a ser, se as pessoas podem melhorar why not os cafes? 

Fiz uma série de contos sobre cafés, este foi o único que não foi publicado. É do final dos anos 90 e é uma simples montagem de coisas que ouvi e anotei no Café Orion, ao cimo da Calçada do Combro, em Lisboa. Espero que ainda exista.


“Nunca consegui que o meu marido fugisse para o lado da minha família, era a família dele, a família dele, a família dele. Ele é de uma aldeia próxima, mas estava sentido com a minha porque em miúdo um primo meu lhe vazou um olho com uma pedra. Um olho, imagina, há tanta gente boa que vive sem um olho...e que fossem os dois... há noites tão bonitas... sim, tens razão, só quem vê é que pode olhar as estrelas... mas que raio, uma vida não se faz só da gente andar de olho nela... Lembras-te daqueles camaleões que a gente apanhava em miúdas?”

 “Ele já me deu 90 contos com o 962, mas ontem ia-me dando uma coisinha má com o 963 quando saíram 900 contos para o 964... foi uma facada... uma vez sonhei com o 99, tu nunca sonhaste com números? Olha, para mim, depois do 9 só o... 7...”

“Sei o meu texto, só não sei a ordem em que o digo.
Que horror. Não se cala com isso, desde que viu aquele filme.
Nessa frase está a minha vida.
Ó rica, deixe de ir aos filmes.
Nunca sentiu que sabe exactamente o que quer, o momento é que é errado?
Foi pior que um crime, foi um erro...
Quê?
É um provérbio inglês.
E que tem essa trampa a ver com o que lhe estava a perguntar?
Ó rica, não sei, ocorreu-me...
Vê, fala por falar, também não sabe a ordem em que deve dizer as coisas...
Mas eu à partida não sei texto nenhum.
(após uma pausa) Bem respondido...
Ainda que para a minha mãe seja esse o problema (imita-a) ‘Ó filha, nunca sabes pôr-te no teu lugar...’
A sua mãe? É incrível! A sua mãe intuiu! Vê como é genético?
Genético é aquela coisa que é fruto de pai e mãe? Sou filha do amante.
E depois?
É o mesmo que ser filha do cauteleiro. Quem quer?
Mesmo que saia a sorte grande?
Aí sabe-se a ordem e sabe-se o texto... mas está-se no filme errado.
Tem razão.
Toda a gente dá o braço a torcer...
A mim, o direito, já mo partiram duas vezes.”

Uma árvore que dura mais do que eu? Um castanheiro durar mais que eu? Era o que faltava. Uma árvore é para um gajo mijar. Vai logo à serra. É assim a natureza, os superiores governam os destinos dos inferiores. No outro dia comprei um kit com várias bactérias, um amigo meu tem uns conhecimentos na Secreta e vendeu-me...Para mim é assim, vai de fungos, vírus, cancros, tudo... não devia haver mais árvores do que homens. Um gajo não pode correr à vontade. Corre e bate. Vocês já viram árvores num campo de futebol? E é um exemplo de natureza, a relva, de socialização, o jogo, e de cultura, o árbitro. Para mim é um must. Percebo que tem de haver árvores por causa do papel, mas se formos a ver publica-se muita merda neste país. Há uma árvore de que gosto. Quando é grande. O abrunheiro. E dá um bagaço de arromba. Agora um gajo ler que a castanha está na moda e que daqui a vinte anos é um negócio tão rendoso como o vinho do Porto, não dá – é um embuste. Vinte anos é o tempo que um castanheiro leva a produzir castanha capaz. Um homem responde por si, aos treze, aos catorze... eu por acaso aos doze já enchia um balde. Nem sei se tenho gente do circo na família mas os meus espermatozóides são trapezistas..."
“Casou-se com ela para lhe tirar o vício do nogat.
Disparate... já nem se usa.
É esquisito não é. Foi o que ele me disse. À saída do registo. Dei-lhe os parabéns e desejei-lhes muitos anos e ele saiu-se com essa...
Ele disse-te o que achava que tu querias ouvir. Achava que era uma coisa do teu tempo.
Achas. Mas então é igual ao Portas.
Isso não sei. Mas tu acreditaste. Hoje há lá pais que deixem os filhos comer nogat, por causa dos dentes...nem encontras já essa porcaria nos cafés.
Ó filha, então para que é que ele casou com ela?
Sei lá, é tua sobrinha...
Achas que estava a gozar comigo, o fedelho?
Boa peça não é. Desculpa que te diga. A boca dele parece uma ventosa. Estás a ver as rêmoras, sempre nas costas do tubarão? Pois aqui no café, à frente das nossas ventas, a boca dele fixava-se como uma rêmora no coração dela...
É verdade. Também nunca gostei. Só nunca disse para não nos acusarem de botas de elástico...
E alguma vez viste a tua sobrinha a comer nogat?
Sei lá... Devia ser uma expressão figurada.
Figurada como?
Assim como se diz que o casamento é para toda a vida.
E então o teu não foi?
Olha pois foi... se soubesse tinha-me viciado no nogat.
És doida, para quê mulher?
Quando se acabasse o vício acabava-se o martírio...
As coisas que tu dizes...
Parece que não sabes...
Sim, mas há um momento em que a gente acredita...
Pois eu olha mais valia ter acreditado no padre quando lhe disse que ele ia casar. Perguntou-me se eu sabia o que eu ia fazer e cá a ingénua respondeu que ‘estava em consciência. E vai ele, nunca me hei-de esquecer:’ a consciência é verde e às vezes bem um burro e come- a..’. E eu não acreditei.
Custa a admitir que um burro nos vai comer toda a vida ... (riem)
Olha lá está aquela, onze da manhã e já vai na terceira cerveja...       
Coitadita. Bebe cervejas atrás de cervejas à espera que a convidem para jantar e o hálito dela acaba por afastá-los...”

“Tás a ver um ficheiro sempre a paralisar-te o computas e a deixar-te muita marado? Foi assim... há milhões de bicharocos no metro todos os dias, ‘tás a ver, e no espaço de uma semana esbarrámos três vezes à porta da carruagem... sim, na estação das Laranjeiras. Ela numa de entrar, eu na de sair – e pumba, chocávamos...uma, duas... três é a conta que Deus fez...´tás a ver? A gente queria dar passagem ao outro e, trás, íamos para o mesmo lado... até parecia dois putos teleguiados, ‘tás ver? Era um atropelo, meu... ‘tás-te a ver a atropelar a mesma garina dia após dia, numa cena de milhões de hipóteses? À terceira a malta topou-se e desatámos a rir... Era o que tinha que ser. ‘Eh pá, isto parece um disco dos meus cotas que é “o destino marca a hora”, disse-lhe eu, e miúda curtiu...” Não nos despegámos mais, Brown, Sugar, Terremoto, até à manhã do dia seguinte. Levei a miúda às cenas todas, até ao B.leza. É uma cena gémea, ouvi uma vez uma coisa que nunca mais esqueci...”o corpo dela era o meu surf...”, ouve lá, era cada vaga...um mês, caralho...‘tás a ver... eh pá, foi um desatino muita acetinado mas um desatino...não dá...não dá...é que, ´tás a ver, quando a gente tava no metro e chocava a gente pensava... topas como é que é quando um gajo está gamado... pá a gente esqueceu-se que no calor da cena, no metro, sim no metro, quando ela virava à esquerda eu virava à direita, tás a ver... a gente curtia, pá, mas éramos incompatíveis... é a cena do espelho, engana-te... Tás a ver um ficheiro sempre a paralisar-te o computas?”

“O jornalista de renome: O homem habituado a engolfar os olhos no vento que oxigena as ramadas sabe que não passa do selo numa carta: é incerto o lugar de onde veio e para onde vai. Ele não, a avaliar pela facilidade com que o aparo da sua caneta desborda banalidades anos a fio sem ser açoitado por uma dúvida, um arrependimento. Desprende-se nele uma consciência em papel vegetal que não acrescentou uma veia ao mundo, um fuste onde um pássaro sazonal, de cores garridas, possa faltar ao encontro”.

“Abandonou tudo e foi viver para o interior, trabalhar numa passagem de nível, um rapaz engenheiro, eu seja ceguinha... disse ao pai que só se sentia bem quando via os comboios a calar, foi assim mesmo que ele disse, os comboios a calar, pois só quando segurava na bandeira para lhes dar passagem é que a mão não tremia...”

“Ela tenta ler um livro de óptica mas está demasiado impaciente para isso. Ele chega finalmente e ela recebe-o secamente, ainda que ele lhe estenda uma rosa amarela.
Desculpa amor, trouxe-te esta...- ela não reage – é das amarelas, das que tu gostas.
Sabes o que é pena? Que o amarelo seja a única cor que não existe nessa rosa...Toma... – passa-lhe o livro – Está aí na página 52...
Vira-lhe as costas e sai do café, deixando-o abismado, com o livro na mão. Ele olha a flor, abre o livro na página 52, que lê, na oblíqua, rapidamente e torna a olhar a rosa como se visse um alienígena. Depois pega na flor e devora-a de uma dentada...”

“Pagas-me uma cerveja?
Manda vir.
E posso sentar-me contigo?
Força...- Ela senta-se, ele repara-lhe na tatuagem no braço – Desculpa a pergunta, eu sei que as tatuagens estão na moda, mas este tipo de tatuagem, numa rapariga, nunca vi...
666. Cada humano traz em si o fim do mundo.
É um cenário possível.
Possível?
Eu por mim não reivindicava tanta pompa. Cada humano traz em si o seu fim. A florista vai continuar a negar-se ao Armando depois da morte do marido? Prova-me...
Vou cá estar para ver.
E eu não?
Tu és mais velho que eu... É uma evidência empírica com milhares de anos de comprovação...
Daí teres escolhido o 666 para tatuagem? É um bocado tétrico...
Esse número foi-me dado pelos serviços prisionais, na minha detenção na Terceira. E adoptei-o.
Que é que te aconteceu?
Fui apanhada a vender ganzas no quartel. Choca-te?
Não.
Eu estava como voluntária na marinha... sabes que agora aceitam mulheres na marinha? E arredondava o soldo com a venda de umas ganzas... Sabes como me chamavam os maçaricos?
Força...
O catorze.
Não compreendo.
Cada humano tem em si um fundo próprio. O meu lê-se nos números.
O catorze.
Essa cadeira é incómoda?
É um pouco rija, mas eu tenho um problema na coluna, por isso é que me mexo tanto...
Aí está uma coisa que uma árvore nunca sofrerá.
Fala-me da tropa...
Foram tempos agitados. No fim expulsaram-me. Era um mau exemplo. A minha primeira detenção foi porque chupei a gasolina do carro do major, para sair com um cabo. Da segunda já te falei, a terceira foi quando quis chupar a pila ao coronel para ele me transferir para o continente. Ele não se importava, mas fomos apanhados com a boca na botija... Sabes qual foi o melhor filme que já vi na vida?
Não calculo.
O Seven. É um filme onde não há redenção. O gajo que escreveu aquilo sabia que estamos cá para as pagar. É apenas uma questão de tempo.
Às vezes o bem triunfa.
Estás a brincar. Só o facto do bem existir por oposição ao mal mostra como está entalado... O mal passeia-se no teu sangue, não prestas. Isto não é nada contra ti. Falo de ti como representante da humanidade.
Mas não houve nada de bom na tua vida.
Em miúda havia um homem que me dava selos. Houve. O momento em que matei o meu pai e aliviei a minha mãe de vinte anos de pancadaria. Ela até chorou de felicidade. Mas sabes qual foi a ironia? Agarrei na espingarda com estas mãos que herdei dele, iguais como duas gotas de água. O cabrão tinha umas mãos de mulher. ou sou eu que as tenho... Não calculas o peso de ter uma vida em segunda mão.
Que idade tinhas quando isso aconteceu.
Quinze. Espetaram-me com dois anos de reformatório, apesar de ter sido considerado legítima defesa...
Falas disso com um desassombro... nunca tiveste medo?
Medo? Hum, senti-o uma vez, num tremor de terra...
Vai outra cerveja?
Queres-me engatar, é? Não queiras ser a gota de água.”

“E tinha a pila curta?
Oh pá, era um guardanapo!”

“Numa carpa de 60 anos o cérebro ainda se divide. No homem, a partir do 3º mês as células deixam de se dividir e só resta um futuro: morrer. Suponho que é por causa disto que a Cristo lhe chamavam O Peixe – ele era mais carpa que homem.”

“Ó senhor Armando, já sabe que é adoçante, não há que enganar...”

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

FORS SUA CUIQUE LOCO EST *

uma foto minha, no lançamento de um livro de umas fábulas macondes que eu recriei para que o meu pai, no altíssimo, veja que apesar de tudo lhe herdei o olhar, que nunca foi supramente idiota

Aconteceu-me um encontro terrível mas simultaneamente exultante. Num restaurante da Baixa de Maputo. Levanto-me para ir aos lavabos e vejo o meu pai, que não via desde os 26 anos. Alguém absolutamente igual, mas em basalto negro. Era do Zimbabué e não nos entendemos porque não falávamos nenhuma língua comum, mas saí da tasca alterado e a pensar na possibilidade de que todos nós podemos ter uma variação noutra raça ou latitude. Parece-me sedutor, e além disso sempre resolvia de forma feliz o destino do meu pai, cuja tragédia contei num dos dois únicos contos (em dezasseis) que tem um fundo de vivido no meu livro “Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo” (Teorema, 2008). Em nome da emoção que vivi hoje, aqui vos deixo:


Aos 46 anos o meu pai deixou de rir. Sulcava sorumbático o corredor da casa, para baixo e para cima: cismava em desentranhar a luz das tripas de um sapo.
Eu acabara de ultrapassar em corrida «a mais bela idade da vida» e martelava nas teclas duma velha Hermes, despachando verbetes para uma enciclopédia popular. Fora o que arranjara depois do curso de cinema e de interiorizar que não tinha estômago para rodagens com mais prepotência e bebedeira que arte, onde as equipas se comportavam alegremente como receptores de material roubado. E à bebedeira tinha-a na estima duma flor dos naufrágios. Na Escola, um dos professores confessara que para fazer cinema «basta ter lata», eu é que não tinha o canivete afiado para o descasque do cigano.
Martelava nas teclas. Estava convertido num especialista em rios, rios de todo os quadrantes, que invariavelmente fazia chegar «já exaustos» à foz, e a um deles – o que me valeu reprimenda da supervisora – fi-lo «soçobrar ao cansaço, atirando-se descompassadamente da foz para o mar num suicídio pleno de fragor.» Entregava os verbetes à sexta-feira de manhã para poder receber um cheque semanal, o que traduzido na minha proverbial indisciplina resultava em 40 horas sem dormir, atado à máquina, numa caudalosa inconsciência, enquanto espreitava aqui e ali as fotocópias de outras enciclopédias e trocava os leitos e a fauna aos rios, pondo o Danúbio a atravessar o Kentucky.
Nesse mês, Outubro, para variar, pedi material que se relacionasse com o «ó»: ósculo, obituário, oração, Orlando... e nessa manhã duma sexta desunhava-me com a fúria de um depenador de avestruzes. Tinha combinado com a namorada uma surtida ao Norte, à boleia, e precisava desesperadamente de dinheiro. As coisas fluíam no ritmo devido e eu procurava decalcar nas teclas a cadência eruptiva de Stravinsky ou da Mahavishnu Orchestra. E às dez da manhã o meu pai irrompeu pelo meu quarto:
Pára...pára...pára de bater à máquina.
Quê, está doido?
Tinha um olhar de pânico:
Pára, as teclas estão a falar de mim.
É, e a mim cantam-me ao ouvido porque já ouço as lecas...
Peço-te para parares, elas estão a falar de mim...
Ele agarrou na máquina para a lançar pela janela e eu fiz o pude para o suster, numa ira crescente. Ele estava magro, seco como o Gregor de Kafka na véspera de finar-se.  Empurrei-o para trás com quanta força tinha e ele embateu com a coluna num bico da mesa. Caiu fulminado por um raio. Sucederam-se cinco minutos de pânico, sem saber o que fazer com ele em tremuras no chão e uma expressão de dor que condensava várias toneladas de xisto.
Peguei-o ao colo e enfiei-o na cama, telefonei para um familiar, peguei no trabalho feito, numa mochila com roupa, e fugi. Ele esteve uma semana semi-paralisado.
Andámos dez dias pelo Minho, à boleia, e numa sebe deixei esquecido o meu casaco de cabedal, a única peça de roupa que alguma vez tive de valor.
Às vezes chorava enquanto fazíamos amor, com a cabeça escondida no pescoço dela, para que ela não visse. Á cabeça só me vinha o olhar implorativo dele e a frase: «as teclas estão a falar de mim!». Estava doido. E eu não me sentia melhor.

Desci do autocarro, fiz uma rápida panorâmica pela praceta e estaquei nele: um velho freak corroído dos ossos aos neurónios pelos ácidos mas que mantinha a agressividade no redil. Até esse dia, esse momento em que o meu olhar  a vinte metros dele estacou na sua figura e segregou na minha mente: “Que raio é que lhe aconteceu? Está  nojento, o cabelo parece uma pasta!”, à medida que avançava displicentemente na direcção da minha porta. Enfiava-me entre dois carros estacionados quando ele aferrou uma manápula de aço ao meu pescoço e me apontou uma pedra da calçada à cabeça, alvejando-me com uma clareza inexplicável: “Quem é que está nojento? Que cabelo é que parece uma pasta de merda, ó cabrão?”.
Divido-me em avaliar se o tempo se distendeu ou condensou – fixei-lhe os dentes esverdeados, raiados de nicotina, que se semelhavam a cascos de bode,  depois em ralenti foquei a pedra, o tamanho, a densidade, o relevo, procurando minimizar os estragos no meu rosto, contraído pela pressão na glote; pelo rabo do olho identifiquei cinco dos meus parceiros de infância impassivelmente recostados à montra da padaria, calcinados por milhares de panfletos consumidos (ou vingavam-se de eu continuar a estudar e eles não, de ter namorada e eles não, de ter dispensado a esquina onde coçavam as horas à espera duma cena; vingavam-se da clemência com que os cumprimentava?), enquanto o medo aflorava no meu rosto e, para além dele, o espanto em tiquetaque nas têmporas.
Repentinamente libertou-me, escavacou a pontapés o farolim de um carro estacionado e lançou a pedra para longe, antes de zarpar num passo hirto.
Refugiei-me no quarto. As mãos tremiam-me. A incredulidade reboava-me na cabeça: ele reproduzira exactamente o que eu tinha pensado.
Aquele tipo enfrentava um mundo em estado nascente, que nele confluía ou defluía por laços invisíveis. Ler as mentes supõe ouvir à capella as oratórias do inferno. Com que radar captava ele o que andava no ar, apesar do decoro do não-dito, e da opacidade do silêncio? É um dom que claramente não se deseja e que gemina com a paranóia.
Não passou um ano sem que me encontrasse inapelavelmente na mesma condição.
Três dias depois de ter feito dezanove anos, numa noite a desoras, um charro fumado em grupo projectou-me numa experiência abissal.
A minha consciência derruiu como um castelo de cartas e fui sorvido pelo vácuo. O meu pavor resistia debilmente àquele engolfamento no ralo.  Incapaz de conexão com o grupo, entrei em colapso: a vacuidade instilara-se no meu âmago e propagava-se do mesmo modo que o branco no branco acende o jarro.
Normalmente a consciência é o motorista de um carro que transporta o sentido de um lugar para outro. Naquele momento, nitidamente, viajava de táxi e o motorista não era eu – pior: o estrito valor residual do sentido coava uma espuma.
Absolutamente dissolvido, as palavras deles começaram a brotar directamente de mim. Num jorro que abolia o eu e o tu, o sujeito e o objecto, e me fazia participar de algo não formulado, oculto e nunca antes denunciado, um elástico ao abrigo da própria imagem. Despejado de identidade, sempre que tentava balbuciar algo as palavras rebentavam como bolhas antes de recortarem um sentido ou de chegarem à boca. Só as palavras deles refrigeravam o meu âmago esburacado. Estava reduzido a um vegetal com o pavor a florir, entre os ossos e uma velatura crivada de vozes.
Era uma época em que saltávamos de intoxicação em intoxicação, ávidos por tocar a chama. O álcool, as drogas, a desmesura desorbitavam a mágica geografia dos sentidos. Aquele estilhaçar de medos e simulacros fazia ressoar um aviso do inconsciente: estava preso nas malhas de um ritmo alheio e precisava de esvaziar para que o meu próprio eco começasse a fluir. Precisava ainda de engolir o dragão.
Aguentava-me como podia: num caco. Segue-se o marasmo à descoberta de que no âmago existe o nada. Lidar com a realidade equiparava-se agora a um trabalho de desminagem, que destroçaria os nervos de Hércules. Não percebemos mais do que aquilo que se filtra e eu andava sem filtro, permeável aos clamores da realidade e aos hieróglifos que a linguagem desatava, sem preparo para um estado de “doença” em que as palavras revivem a origem do seu sentido.
Com a ingente personalidade em esfoliação, manifestava-me em sombra chinesa, ofuscado por coloridos deslizes semânticos. A mais corriqueira das conversas sobre futebol, numa mesa de café, ao meu lado, descolava do seu plano factível e adquiria dois ou três níveis de significação, acabando por ser traduzida numa cifra que reflectia - o verdadeiro objecto da discussão - o meu deficiente estado de crisálida. Os comentários sobre um penalty falhado, por exemplo, na minha lógica “transmental” tornavam-se uma charada que focava a minha incapacidade para a prontidão do ser. Estava no centro do inferno, intérprete de um atávico desajuste das peças num puzzle. Às vezes, em períodos mais lúcidos, sentia-me o ponto dessa comédia cósmica que me aprisionava e me negava os liames.
Era portador de um segredo que não podia contar (temia sobretudo que a namorada me abandonasse se eu lhe contasse a verdade sobre as minhas alucinações verbais). Sofria por não saber ainda que, tal como na natureza, há um tipo de nada que fertiliza. Naquela altura andava em pontas sobre lâminas, em alerta constante, ainda que dissimulasse com relativo êxito diante da namorada, de amigos, da família. Para não pensar, não ouvir, não ser interpelado, fechava-me a ler e calhou ter encontrado num tratado indiano do século XII a recomendação para se voltar a dormir após um sonho mau, sem falar disso a quem quer que fosse, afim de destruir os efeitos nefastos. Foi o que fiz, e além de me entregar com afinco a Morfeu entreguei-me aos sonhos da literatura. Três livros salvaram-me da fossa: Aurélia, de Nerval, Trópico de Capricórnio, de Henry Miller, e Apresentação do Rosto, do Herberto Helder. A este lia-o literalmente, do mesmo modo que a Moisés a visão divina era concedida pela evidência e não por enigmas, sonhos e metáforas. Fora investido da percepção fulgurante e imediata que engendra e desmonta os andaimes da interpretação, sob o impacto duma revelação subitânea. Mas levei mais dez anos a perceber que o medo só desfaz os seus inextricáveis laços quando deixamos de o combater.
Estremeço, neste instante, ao dar-me conta de que o meu pai tinha razão: as teclas falam dele. A sua perturbada percepção tê-lo-ia feito vivenciar uma dobra no tempo, lendo no toc-toc dessa desconchavada Hermes que se derramava em rios e olas, o aveludado metralhar deste teclado ergonómico que o evoca?

Lembro-me: chegava de algures, como sempre, e dispunha-me a tomar um banho, trocar de roupa e pirar-me para alhures, entre os braços da amada e as lerpadas com os amigos. Andava pelos vinte e dois e a minha crise estava mitigada, ainda que a espaços se manifestasse em picos de ansiedade e pânico. Levara seis meses fechado no quarto, lendo, escrevendo, bebendo vinho rasca, e deixando o meu pai apreensivo por uma tão prolongada e desusada permanência em casa. Quando a realidade interior foi revolvida, ainda que se escondam os escombros, aparecem olheiras fundas na auto-estima. Por duas vezes, tentou abordar-me e eu descartei a hipótese de um diálogo, refugiando-me em monossílabos e desculpas de trabalhos por entregar. Ao fim de seis meses lá saí da toca e voltei à boémia – ainda que à cautela, sombreado por um halo de superstição. Ele pareceu aliviado, mas às vezes os seus olhos perscrutavam-me o espírito, inquiridores.
Abri a porta e fui golpeado de imediato pelas correntes de ar que provocavam uma dança de papéis no corredor. A casa distribuía-se em torno dum comprido corredor central, e as suas seis janelas escancaradas enchiam a casa de ventos, revoadas e assobios. Ele estava deitado no meio do corredor. Perguntei, ‘o que é que se passa, está doido?’, e a resposta foi descoroçoadora: ‘Estou a ouvir o que dizem de mim! Estou a ouvir os sinos da Basileia!’.
Estaria a sacrificar-se por minha causa, sabendo que com a sua descida aos infernos eu teria de reagir? Durante anos também eu ouvi os sinos da Basileia.

*“cada lugar tem o seu próprio destino”, Vergílio

domingo, 11 de setembro de 2011

A BOA VIZINHANÇA

serão gémeos? são as fotografias do relatório final
A colheita de sábado, um contito:


A linguagem é tramada mas permite-nos recortar o inexprimível e contar como o Zibelina deu com os ossos no céu. Embutidos na transparência do azul. Bastou um tiro com uma carabina para caça grossa.
A arma deu um coice no ombro do guarda-fronteiriço, que se aproximou do morto a massajar a omoplata. Antes de o virar com um pé, cuspiu.
A arma era potente, a cratera sanguinolenta devorava-lhe metade do peito. Mirou os canos da carabina, à cata de fumo. Nada.
Feio como as cobras, aquele morto. Tinha um cabelo à rasta, cãs que se afundavam na cara chupada, duas verrugas, uma em cada aleta (nunca tinha visto igual simetria), e um colete de fotógrafo que lhe ficava a boiar.
Da mochila, esventrada pelo tiro, saía, destruída, uma lente de máquina fotográfica. Nem se deu ao trabalho de desapertar os atilhos da mochila; com a faca do mato alargou o buraco, tirou o carrego e dispôs os objectos pelo chão.
Era uma carga estranha: uma barra de haxixe (aquilo valia para cima de mil dólares, havia de escondê-la no buraco da mafurreira no quintal da casa); duas t-shirts, duas cuecas, três latas de atum, umas linguiças plastificadas, ovos, pão, uma frigideira, dois isqueiros, três maços Palmar, dois frascos grandes com fetos lá dentro, conservados num líquido, como se fossem picles. E a máquina fotográfica destruída (uma pena). Num bolso do colete havia trezentos dólares em notas de cinquenta dobrados sobre mil e trezentos meticais (- sorte, estar sozinho…).
Olhou de novo a cara do morto. Nunca o tinha visto.
O que o intrigava era os dois fetos. Resolveu telefonar para o primo, que trabalhava como guarda no Museu de História Natural, em Maputo:
- Mbate, sou eu, o Artur… ya brada, tudo bem… e a cunhada como vai?... como? Mulher é fogo… Mano, lhe telefono porque limpei o sebo a um traficas, o man tem na mochila dois fetos de elefante… não é tanga… juro, iguaizinhos a esses… nem eu, pá, mandei-o parar três vezes e o man nada, antes que levasse o tiro dei eu… E o gajo tinha dois fetos na mochila… não são daí? Não houve roubo? Então kilharam alguma elefanta, na reserva… Ouviste falar de quem faça bizzniss com os fetos? Como é que é? Colecções na África-do-Sul? É o costume… E isso deve dar uma grana… Cinco mil? Por aquela gelatina? Ya… foda é o relatório… Tem people maningue crazy… Eh, pega leve… Tenho de ir, depois faço-te a ocorrência… ya, estamos juntos… 
Voltou a examinar os bolsos do colete. Num deles achou um papelinho enrolado com dois números de telefone.
Ligou para o primeiro. Enquanto conversava viu que os corvos se aproximavam do cadáver. Encolheu os ombros, virou as costas. A conversa não correu mal.
Curioso, soergueu o morto pelos colarinhos e deu-lhe duas galhetas só para lhe sentir os ossos. Este cabrão levou a vidinha a comer galinha, pensou. Virou-o de novo e perscrutou-lhe os bolsos de trás. Tinha o bilhete de identidade moçambicano. Leu: Zibelina Capristano Guente, casado. Quem se deitaria com tão fraco descaminho?

Duas horas depois chegou a casa com a mochila e uma gazela, que entretanto caçara.
A mulher tinha o banho preparado.
Acendia uma cigarrilha, deitado na banheira de água tépida, quando a mulher lhe veio perguntar:
- Marido, aquele coração que trouxeste num saco é de quem?
Fitou-a numa reprimenda, antes de lhe sair:
- Coração de gazela…
- Gazela não tem dois coração… - retorquiu ela, inquieta.
- E homem não tem espírito? Se homem tem duas sombra porque não tem gazela dois coração? – e imperativo - Esta tem… corta em fatia e faz como de costume, que mister Blacktie vem jantar connosco…
- Não sei que vês tu nesse mulungo*…
- Emprestou-me a arma. É treinador do meu clube. E já viste preto chamado Mulungo? Mamã, faz como te digo…

Blacktie, na varanda, afastou um bocadinho para o lado o painel solar, acomodou a cadeira de plástico e sentou-se. O seu rosto esplendia ansiedade:
- Então Ntundo, apanhaste gazela?
- Of course! Um maconde não perdoa…
- Gostaste da arma?
- É fêmea, dá coice mas no fim, crazy, anicha à mão…
- Yes… - respondeu o outro, sorrindo – quando se é home habilidoso…
- Of course…
Ntundo levantou-se, atravessou a penumbra e entrou dentro de casa, donde saiu dez segundos depois com a carabina na mão:
- Tome, it’s yourse… É boa para caçador de elefantes e não de gazela. Desfez a cara do bicho…
- Te disse…
- E quis ver, já vi…
Voltou a estender-lhe a arma, que o outro aceitou.
- And now?
- Gazela apanha-se à mão… se assobia e diz come in… e corta-se o pescoço na cama…
Blacktie anui, galhofeiro:
- Ntundo é home habilidoso e sábio de mulheres…
- Yes, i’m a beatiful…
Riem com gosto.
- Fizeste o coraçon?
- Of course… -Ntundo corta, sacana, sabendo como picar o outro - A equipa do mister é que voltou a perder este domingo… Como é que Ferroviário perde com a Liga Muçulmana, depois de estar a ganhar dois zero?
Blacktie puxa dos seus brios de treinador experimentado – que já levara três equipas da Liga B da África-do-Sul a subir de divisão – e tenta justificar o desnorte da sua equipa.
Um morcego ziguezagueia no violeta do lusco-fusco quando Lisa traz para a mesa, atrás deles, a tijela com o mutchuchu, um prato com o coração fatiado, uma travessa com nacos assados de gazela, e outro prato com linguiças.
Blacktie levantava-se e vai ao fô by fô** buscar o vinho, uma pomada chilena de arromba, garante.
- Frontera… - sussurra Ntundo, entre dentes, com a presciência dum maconde que já viu tudo sobre a generosidade dum bóer.
Blacktie, com olhos gulosos, atirou-se ao coração.
- Melhor que esse, só de cobra… - avisa Ntuno, que corta a linguiça.
Há linguiças do diabo, mas daquela ressumava o inexprimível e contava como o Zibelina bateu com os ossos no céu.

* branco, em schangana
** jipe 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

LER OS OLMOS, O TROVÃO DISTANTE

Julian Beever, o chão de Paris

Ontem ao fim do dia visitou-me o Tavares Belarmino, um jovem amigo de 21 anos que vinha de Paris, embriagado com a cidade, onde passou duas semanas, como ele dizia, atordoadoras. Trouxe-me um diálogo do Alain Badiou, filósofo e escritor, sobre o amor, Éloge de l’amour (Champ/Essais, Flammarion), que aconselho a todo a gente para quem o amor seja mais que o simples hedonismo. Um livro belíssimo. Hoje, recebo um email da Susana Gonçalves, que está em Paris e para quem o reencontro com a cidade não está a ser feliz, para além do diálogo com um inesperado tuaregue. Eu, que só tenho de Paris uma experiência atordoadora (como a do Tavares) aqui deixo o único conto que escrevi com a Cidade das Luzes em fundo. Pertence ao meu livro, Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo, Teorema, 2008. Vai dedicado aos dois.


Naquele Inverno as árvores eram só pescoço. Era o que guardava da terra: troncos com finos pescoços implumes. Olmos, se a lotaria dos nomes permite uma hipótese. Tudo tão diferente do jardim das Tulherias, onde, agora, a campânula das castanheiras-da-Índia a protegia dos aguaceiros.
O Amadeu trabalhava em Paris num café com um nome pomposo, Le Petit Coin de L'Opera, disseram-lhe, e, farta de se sentir em salmoura, conseguiu que um emigrante de passagem fosse portador do seu apelo. Há dois anos que nada sabia do noivo mas no íntimo a sua promessa abrasava, irrevogável.
Pôs-se um pimento quando um mês depois o carteiro lhe depositou uma carta nas mãos. A prima é que lha leu. O Amadeu marcava-lhe encontro na «vue panoramique» da Samaritaine. A 15 de Maio, faltava um mês. Ele não enviava a morada mas não cismou. Em Paris as árvores teriam mais do que pescoço, anteviu, e aos trinta e cinco não há tempo para indecisões.
O senhor de boné de bombazina e cachimbo, da banca de livros, fitou fixamente a carta que amarrotava na mão. Ela pronunciou como pôde a palavra Samaritaine e ele apontou a haste do cachimbo em duas ou três direcções. Felizmente não estava longe e chegou meia-hora antes do encontro.
Lá em cima, a vista aparvalhava. Sentia-se uma rola na palma de um trovão que, a espaços, rugia ao longe. Deus já não habitava nas poldras: a grande cidade espreguiçava-se à sua frente, ardendo-lhe nas narinas. Pena o granizo que caiu de súbito, a roupa colada ao corpo, o atraso de Amadeu.

Só dois dias depois encontrou o Le Petit Coin de L'Ópera, na «Rue de Charenton». Uma tasca atamancada e suja, de balcão de mármore roído e a tresandar a ranço e vinho. Ao fim de uma hora de inarticulada lamúria compreendeu: do Amadeu nem o borboto.
Voltou à Samaritaine. Dessa vez concentrou-se na Basílica do Sacré Coeur: a sua vida manava dali, misteriosamente. Quatro horas depois olhava a escadaria íngreme. Já não tinha dinheiro para o elevador. Subiu-a hipnótica. Não ia à cata de nenhum Cristo de ouro, mas foi junto à estátua de tantas promessas que uma mão treinada a quis espoliar. Deu conta no último momento e com uma lima que guardava no bolso do casaco fez um lenho na mão do ladrão. Antes de desmaiar.
       
Um pergaminho, o rosto da Senhora que, ao acordar, lhe oferecia um chá. Esplendia uma bondade irrecusável. Quem a teria levado, desmaiada, para aquela casa?
A Senhora já tivera empregadas portuguesas (soube mais tarde que se oferecera ao padre para a levar quando viram pelo BI que era portuguesa) e sabia as palavras suficientes para a entender -  rapidamente decidiu ampará-la. Era a mãe de um político.
Começou por fazer pequenos serviços enquanto ruminava os ossos miúdos de uma língua afanosamente estrangeira.  
   
Das janelas da casa, mesmo ao lado da basílica - à cunha num dos vértices da colina - Paris desenrolava-se como um deslumbrante tapete de arabescos. Ali, só destoava a torre de Montparnasse; nunca se habituou àquele mono.
A Senhora tinha bom fundo e incitou-a a aprender a ler e a escrever. E para a motivar tomou a iniciativa de lhe comprar uma gramática portuguesa, um dicionário português-francês e um caderno de exercícios, oferecendo-se para a acompanhar nos estudos. Faziam duas horas de exercícios semanais, prazenteiramente interrompidas por momentos de mímica e gaguejadas confidências ou pela impertinência da velha cozinheira corsa, a quem enciumava a intimidade da nova com a patroa.
Marisa afeiçoou-se à sua patroa septuagenária, um ser talhado para a nobreza como o cobre para a luz.
 
Seis meses depois, num domingo, saía do metro e calhou chocar com o emigrante. Ele não a reconheceu, ela voltou atrás e seguiu-o. O homem apanhou a linha 4 e à saída enfiou-se pelo «marché aux puces» de Clignancourt. Marisa, que nunca lá tinha ido, apanhou-se a contar as malhas na pele de um jaguar e perdeu-o de vista.
Voltou a encontrá-lo no mês seguinte. Ele esperava alguém junto à entrada da Ópera, na Bastilha, e ela passeava o Balthasar, o coolie da Senhora. Esta nunca lhe dava horas de entrada nem perguntava por onde andara e Marisa acostumou-se a apanhar o Metro e a conhecer Paris aos palmos. Nos primeiros tempos voltara ao Samaritaine, agora preferia deambular pelos recantos da cidade. Era ele. Dessa vez não hesitou.
O homem primeiro começou por esquivar-se, não tinha ideia, depois, embaraçado, pediu-lhe desculpa de ter forjado a carta. "Nunca imaginei que se pusesse a caminho. Nem sequer conhecia nenhum Amadeu...". Marisa lembrou-se de quando as árvores ficavam num fio e o vento persistia no açoite, semanas.
Ele deu-lhe um cartão, tinha uma padaria, se ela alguma vez precisasse. Deixou que o Balthasar lhe ladrasse.
As palavras escritas mentem ainda mais que as que saem pela boca, pensou, e emaranhou-se ali na decisão de ficar analfabeta e muda.
Só falava quando era preciso para não ser malcriada. A patroa fez uma pausa no rendilhado com que fazia durar um croissant e perguntou-lhe uma derradeira vez porque decidira parar de aprender. Depois aceitou.

Já que não fala, pode ser que venha a cantar, disse-lhe a patroa, que lhe emprestou um casaquinho com estola e a levou à ópera. Para lhe fazer companhia. Conhecera o marido no intervalo de uma estreia do «Nabuco» e tornou-se um ritual na sua vida não falhar uma reposição da ópera. Pelo caminho contou o enredo a Marisa, que se alheava. A ópera fazia-lhe lembrar o Petit Coin de L´Opera e o nome da peça um dos pratos que mais servia no restaurante português onde tinha trabalhado: osso buco.
Era tudo um pouco demais, as talhas, os candelabros, os tapetes vermelhos no chão, os espelhos onde se descobria atarantada, uma cereja num pão de ló. No intervalo atravessou aqueles corredores a olhar os pés, os seus dois trambolhos metidos nuns sapatos de vidro, à vergonha expostos. Voltou ao lugar, atrás da Senhora, e quando a música recomeçou salvou-a de enlouquecer o zunido de um insecto, junto à cabeça. Veio-lhe uma imagem: o primeiro balcão do teatro incrustado no abdómen de uma mosca. Esforçou-se para não rir.
  
Cinco anos num «passe-vite», brincava mais tarde Marisa, aludindo a esta fase da sua vida.    

Com coisas boas. Na sua terra o silêncio granítico das casas apoderava-se do ânimo, latejava nas têmporas. Em Paris não, antes das pedras sentia-se o elo entre as pessoas e essa vibração transmitia-se às casas, aligeirava-lhes o peso, parecia música suspensa, até nas estátuas. Apesar de serem edifícios incomparavelmente maiores aos da sua infância.
Ali nevava mais, mas não tiritava de frio porque, costumava dizer à Senhora, "o frio vela connosco, não somos o morto!".

Um domingo, disse-lhe a Senhora sorrindo: «Marisa, sabe que hoje são as eleições europeias. Na sua terra também. Já que na juventude não pôde votar, agora depois de velha devia aproveitar os votos todos!». Aquilo doeu-lhe. Não o voto, o modo ameno e trocista com que a patroa lhe lembrou que haviam passado cinco anos e que entrava solitária na casa dos quarenta.
Telefonou a uma porteira conhecida e foi com ela votar num Clube Recreativo em Strasbourg/Saint Denis. Aí, a porteira mostrou-lhe um cartaz que anunciava um baile no sábado seguinte e insistiu na companhia dela.
Acedeu. Achou graça ao conjunto, formado por acordeão e bateria, lembrava-lhe os da terra, mas, como de costume só falou o necessário para não parecer mal educada.
Um transmontano de hálito avinhado não se intimidou com o seu silêncio e toda a noite lhe pisou os pés, num arremedo de dança. No fim, teimou em levá-la a casa, obrigou-a a atravessar Saint Denis e quis forçá-la a entrar com ele numa sex-shop. Valeu-lhe de novo a lima. O lenho foi quase no mesmo sítio. A amiga porteira é que deixou de lhe falar.

Voltou aos seus passeios solitários. Habituou-se a ir para o jardim do Luxemburgo ou para as Tulherias. Às tardes. Soltava o cão e sentava-se a escutar o martelar manso dos vocábulos. Aos poucos foi achando o francês uma língua de vislumbres. Não foi fácil. De início enfrentou um muro opaco, de tijolo, depois um muro de buxo com buracos, onde, palavra a palavra, a sua compreensão ia respirando; ao fim de quatro anos comunicava, entendia tudo na televisão e o muro era uma azinhaga forrada de amoras, ainda que aqui e ali despontassem arbustos e bagas de que desconhecia a designação, o sabor e uso.
Mas era impagável o prazer de ir sentar-se à beira de um dos lagos hexagonais das Tulherias, abrindo os ouvidos ao jorro descontínuo das conversas. Tudo a maravilhava: uma nova particularidade da língua, as energias que as palavras são capazes de desencadear, e, porque não, as histórias divertidas e rocambolescas que a vida, instante a instante, desata. Habituou-se a ser um vulto quase invisível no mundo, descobria prazer nisso: muda como a pedra que escuta.    

Lembrava-se que no Inverno anterior àquilo ter acontecido apanhou o gosto de se plantar à janela durante os nevões, a ver o manto branco a cobrir paulatinamente os telhados e terraços de  Paris: a cidade era um gigantesco tabuleiro de damas.
Lembrava-se porque para a senhora, de repente, esse «tempo fatídico» punha-a triste e lembrava-lhe o Sudário. Maria sabia que as verdadeiras razões residiam na discussão que ouvira atrás de uma porta, entre mãe e filho; nas palavras duras que ela lhe dirigira: «és um político mais sujo, mais corrupto, que o lamaçal que fica depois de nevar!".
A neve, para a Senhora, só realçava as tristes pisadas do filho, e caiu doente. O que obrigou Marisa a permanecer em casa, a espreitar pela janela os brilhos e a geometria da neve nos telhados de Paris, enquanto uma melancolia viscosa e negra orlava o coração da patroa.

Dois passos à sua frente o ar queimava. Foi a arrastar-se, a superstição a destapar todos os medos antigos, que nesse dia chegou às Tulherias, vinda da praça Concorde. A doença da Senhora convertera-se no seu pesadelo: via-a nitidamente estendida à sua frente como uma toalha para uma mesa de dez pessoas. Que fazer se ela morresse, a quem recorrer? A morte eminente da Senhora - salvo seja - lançava-a de novo numa encruzilhada.
Passou à frente da estátua que representa o Nilo, de Lorenzo Ottoné, e deteve-se pela milionésima vez a medir a proporção e o sentido das figuras: a do rio, majestosamente reclinada, e a das insignificantes crianças decapitadas, uma sobre o seu ombro e as outras duas sentadas aos pés - para além do mistério da única criança com cabeça montar um crocodilo.
Já sabia há algum tempo que as crianças representavam os afluentes e por isso não precisavam de cabeça, mas Marisa empreendera que o escultor não as fizera assim.
Sentou-se à beira do lago e mergulhou os pés na água, tépida. Estava-se nos fins de Abril e a semana fizera despontar um extemporâneo calor de Verão. Não havia uma cadeira vazia ao redor do lago, um homem calvo adormecera com a cabeça caída para trás, no gozo do sol clemente. No lado oposto do lago, um grupo de espanhóis cantava sevilhanas.
Naquele dia pareciam-lhe mais pequenos os esguichos de água que saíam dos vértices do octógono, naquele dia a vida afigurava-se-lhe mais triste e comezinha e Marisa revia-se na pouca sorte daquelas crianças decapitadas: com os pés no rio da vida não acediam à condição de poderem exprimir a sua alegria.
Um pardal que exibia uma côdea de pão no bico passou afoito por debaixo das suas pernas. À saída do túnel, outro pardal fez-lhe uma tangente e roubou-lhe a provisão, indo aterrar no rebordo, três metros depois. Mal teve tempo de lhe tomar o gosto, dois pombos ameaçadores obrigaram-no a largar a presa. A côdea ficou sobre a pedra do rebordo porque um terceiro pombo meteu-se na disputa. Aproveitou o primeiro pardal que num voo raso fisgou a côdea, rumando ao cimo das árvores.
A cena animou quase todos os presentes naquela área e ao seu lado uma jovem mulher de 23, 24 anos largou uma  gargalhada, contra o ar sisudo do seu companheiro. Quando começaram a falar deu conta que eram portugueses. O diálogo estarreceu-a:
Olha que já devemos estar indexados no Guiness... - queixava-se ele.
Porquê?
Que machadada na auréola romântica desta cidade!
Mau...
Sério. Devemos ser o único casal que vem de férias a Paris e não dá uma para amostra. A nossa primeira vez em Paris e nada...
Outra vez a mesma conversa!
Uma semana... e nada. Só se pedia uma rapidinha, nos lavabos do Museu do Homem... uma trancadinha para amostra...
Que romântico!
Que queres? É uma força de expressão justa, se se fala em urgência.
A urgência do amor! Que pomposo. Já te expliquei, nas condições em que estamos não me sinto à vontade. Numa casa tão pequena, a dormir numa assoalhada sem porta que dá directamente para a cozinha e a casa-de-banha, e com elas a dormir no quarto ao lado, desculpa, mas não me sinto à vontade...
Antes irmos para um hotel. Ao menos uma tarde.
E o dinheiro? Comprasses menos livros. E com tantas coisas para ver, querias perder uma tarde...
Perder uma tarde? Vês? Já me estou a ouvir dizer ao conselheiro matrimonial: "senhor doutor, já nem Paris nos inspira!".
Mas não se partilham outras coisas, além do sexo? Eu amo-te e estamos juntos. Não é o mais importante?
É, mas falta a prova parisiense.
A prova?
É como comprar uma cartola e nunca tirar o coelho. E o trágico é que tão cedo não vamos poder cá voltar...
A prova...não caibo em mim.
Algo inesquecível, único, que nos faça acreditar toda a vida. Olha, imagina que te despias agora e te metias água dentro, a fazer o perímetro do lago, enquanto eu me punha em cima da cadeira e bradava aos céus, "é a Vénus, nasceu a Vénus das Tulherias, é a mulher que eu amo, a Vénus, a Vénus das Tulherias nasceu deste amor que lhe tenho, a mulher mais bela do mundo..."
Brincas!
Sério. Uma loucura. Ao menos tínhamos algo para recordar.

E então aconteceu. Para espanto de Marisa, ela tirou a mochila das costas, e em três gestos sacudidos despiu a t-shirt, os calções e as cuecas.
E nua, mais nua que muitas feridas, entrou no lago. Ele estava fulminado pelo efeito das suas palavras: a namorada percorria o lago, recebia palmas, piropos ou assobios, enquanto agulhas e linhas lhe selavam a boca. Quatro, cinco minutos, num passo lento, no passo de quem espera ser ungida, o que centuplicava o silêncio dele e lhe revolvia nas tripas o fátuo carvão das promessas. Quando ela se reaproximou, caía uma lágrima na sua face e ele, não suportando mais o vexame, fugiu.
A mulher vestiu-se calmamente, sob o clamor dos curiosos que entretanto se tinham aproximado, e Marisa, ainda atónita por se ter sentido mais emocionada do que escandalizada, deixou fugir:
A menina é muito bonita.
Ela respondeu-lhe sem levantar a cabeça:
É um infame, um cobarde infame.
Pôs a mochila às costas e preparava-se para seguir quando Marisa notou que ele tinha esquecido um livro. Pegou nele e estendeu-lho:
Olhe o livro do seu... namorado.  
Fique com ele. Fui eu que lhe ofereci. Ele nunca o mereceu.
 
Nesse dia entrou mais tarde em casa. Atravessara a cidade a pé, movida pelo assombro. A coragem daquela rapariga, a confiança com que se dispusera às palavras dele, sem que no fim, apesar da desilusão, a sua beleza, a sua inteireza, a sua nudez saíssem chamuscadas. Pelo caminho, abriu repetidamente o livro, eram versos, via pelo recorte que eram versos, e esforçou o entendimento sem conseguir articular mais do que quatro ou cinco palavras de obscuro sentido. O título parecia ter colher e boca e mais cismada ficou, que tinha a poesia a ver com os talheres? Havia de conseguir ler o que a rapariga captara naquele livro para não ficar interdita – e tremia de pensar que a sua vida acordava de novo alcateias, depois de tantos anos de uma transparência estática, vazia.
O livro tinha uma dedicatória: “Para o António Valdemar, com a promessa de amor da Clara”, e um endereço, soube depois, para a eventualidade de ser perdido.

Contou tudo à Senhora que a encorajou a estudar. A Senhora ainda tentou decifrar com ela uma ou duas estrofes mas a sua ténue energia já quebrava como palha seca. Nessa noite Marisa levou um licor para a cama e fixou sem desfalecer as letras, uma a uma: pastora de vogais.
Inscreveu-se num curso para adultos que dava, em complemento, uma formação profissionalizante. Uma outra amiga porteira é que lhe havia trazido os papéis. Pensava no fim do curso abrir uma pequena pastelaria. O professor não coube em si de pasmado quando ela confeccionou uns bolos corsos. Tinha mão.
Ao fim de quatro meses já lia o jornal com fluência, sem os tropeções que dantes a faziam desanimar. E experimentou ler de fio a pavio o livro de poesia. Com susto, como nos salmos. Dois meses depois ainda estava atordoada. Não imaginava que se pudesse escrever assim, que as palavras acendessem fogueiras na neve. Sentia-se tão pronta para aquele significado novo das palavras que soube que tinha de regressar a Portugal. Já não tinha medo de não compreender tudo o que uma língua nos diz.
Mas era-lhe impossível partir de imediato. A sua gratidão para com a Senhora não lho permitia, naquele estado.
Com a sua proverbial generosidade a Senhora facilitou: morreu 15 dias depois, viam as duas um programa sobre astrologia. Pediu a Marisa que lhe apertasse a almofada e depois de a ter aconchegado, quando Marisa se sentou, reparou que a cabeça da senhora pendia. A surpresa é que deixara a Marisa e à velha cozinheira corsa um pé-de-meia, o suficiente para um pequeno negócio na terra.

A carta para o Amadeu - tinham-lhe dito entretanto que ele vivia em Barcelona e estava viúvo e desta vez haviam-lhe dado a morada - é que estava a meio. Não sabia se a acabaria, começara a sair com um senhor, o Béjart, que andava no mesmo curso, mas nos escritórios. Já tinham ido numa excursão à Bretanha. Pensava nisso ao almoço e ficara tão aérea que deixou salpicar a camisa. À tarde, na aula, a professora chamou-a ao quadro. Aguentou a mão enquanto pode, até que a professora, se meteu com ela: "a Marisa está a guardar algum segredo?". Baixou a mão e as nódoas, três - uma delas parecia um pássaro -, assomaram. A Arminda, que era a mais velha e estava na primeira fila com uma camisola listada que lhe dava um ar de gaiata não aguentou, "ó Marisa, e canta?".
    Escreva o que quiser, sugeriu a professora. E Marisa pegou no giz e redigiu: «Naquele tempo as árvores eram só pescoço». Riram todas muito, embora Marisa insistisse em que era verdade.

   Era ali naquela rua: perto do castelo de S. Jorge. Depois havia de aproveitar para espreitar Lisboa lá de cima, nunca o tinha feito. Subiu ao 2º, era o esquerdo. Bateu à porta. Ouviu lá dentro, uma voz feminina, “abres a porta, estou a trocar-lhe a fralda”. Havia uma criança, pensou, e sorriu, estranhamente aliviada. O homem abriu a porta. Era o mesmo.
Sr. António?
Sim, faz favor. 
Sorriu, entregando-lhe o volume de «A Colher na Boca»*:
Venho-lhe devolver este livro. E agradecer. Tenho a certeza que o senhor merece uma segunda oportunidade.

*segundo livro de poesia de Herberto Helder