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sábado, 6 de junho de 2015

UM DIÁRIO AFRICANO / 3

                                                                  Soutter, Souplesse

06/ 06/ 2015 

Curiosa esta passagem de Arthur C. Danto, no seu livro Andy Warhol (Cosacnaify): «O primeiro filme de Andy, Sleep, foi um presente, por assim dizer, ao seu namorado da época, o poeta John Giorno. A ideia era que o filme transformasse Giorno num astro do cinema. Assim, desde o começo, fazer filmes teve para Warhol o sentido de um ato de amor.
O historiador de arte Leo Steinberg teceu certa vez interessantes observaçóes sobre um gênero peculiar de trabalho artístico de Picasso, que consistia numa figura, geralmente um homem, a observar uma mulher dormindo. Steinberg refere-se a essas figuras como sleepwatchers, ou seja, um tipo especial de voyeur. “O artista deve ter sabido desde o começo que o tema era antigo”, escreveu Steinberg. “Cenas de ninfas dormindo observadas por machos em vigília – relacionadas à visão e ao desejo – são parte da grande tradição da arte, na Antiguidade e, novamente, a partir do Renascimento.”
Não sei se fizeram gravuras underground mostrando um amante gay a observar o sono do outro. Giorno fez questão de dormir numa época em que a maioria das pessoas, especialmente os usuários de anfetaminas, tentava sobreviver com o mínimo de sono possível.»
Sinto-me um Sleepwatcher, a Teresa na maior parte dos dias vai para a cama às oito (acorda às cinco) e fico a vegetar pela casa, pelo quarto, na cama, vendo filmes, lendo, ao seu lado, esperando que acorde e me conte: “Estava a sonhar contigo. Tinha morrido a tua amante, e tu estavas numa longa, longa, fila para dar os pêsames, velhinho, tinhas de ser amparado...”, antes de desatar a rir, de vontade. Conseguirei alguma vez acordar em mim o Picasso?



Ouvido no café, na mesa ao lado:
- Eh pá, Não percebo... por que é que escolhes enganar a tua dama sempre que ela está grávida? Eu cá até gramo duma grávida...
- Ya, aos dois, três meses, até me excita... Depois ela faz barrigas big, volumosas...
- Isso, todas!
- Desculpa, a minha faz bacias onde cabem o bebé e o trono de chanfuta com embutidos de marfim...
- ...eh, que cena!
- Juro! A partir dos quatro meses sinto-me a dormir com um molhe donde partem grandes paquetes para a Austrália...
- E então, arranjas outras?
- Não é isso, mano... quero saber o que se passa em Sidney!



Uma boa abertura para um conto, encontrada num caderno: «Um garfo, em eternos gatafunhos na esparguete, mostra os dentes, rindo da sofreguidão com que X se atira ao prato...»



Acho em Bataille, criatura com quem costumo concordar, uma passagem de que discordo totalmente. Assegura ele: «a linguagem poética deve ser o comentário da sua ausência de sentido». Começo por rejeitar a sentença, o “dever ser”. A feliz indeterminação da poesia não autoriza estas balizas programáticas, creio mesmo, com Lezama Lima, que tentar definir a poesia é um intento diabólico. Depois o carácter gaguejante e metalinguístico a que esta proposição sujeita a poesia, como se fosse um instante de trégua de uma impotência, é apenas uma das suas vertentes, havendo no seu oposto poetas “saturados” de sentido e de uma fecundidade fora de suspeita. Terá sido essa a “aporia” de Bataille, mas só a ele lhe cabe.  



Da belíssima antologia de Jerome Rothenberg, «Technician of the Sacred», vertida em francês pelo igualmente poeta Yves di Manno (José Corti, 2007), estas

SOMBRAS E ESPECTROS

Os espectros nesta floresta, as sombras 
repelidas pela noite 
Ou urdidos em pleno dia 
como morcegos que se des-
              sedentam nas nossas veias 
e se suspendem nas paredes húmidas 
              das mais esconsas cavernas  
E atrás deste musgo verde, aquelas terríveis pedras brancas 
Oramos para deslindar quem as viu 
a essas sombras repelidas pela noite 
oramos para deslindar quem os viu

(Pigmeus do Gabão)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

CERA, NA ORELHA DE VAN GOGH

                                                                        kandinsky

«Este mundo é dado ao homem como um enigma a resolver», escreveu Bataille. Transcrevo e concordo. Transcrevo e abismo-me. Claro que sim, claro que não: como a luz, na persiana às riscas.                                                                                        Encarar o mundo como enigma e perfurá-lo com uma opacidade que separa sujeito e realidade, afinal só instaura a dualidade. Ou não? Julgo que, frequentemente, a realidade se vela e unicamente se deixa captar de viés, veladamente, sendo a metáfora, apesar dos apesares, a sonda; enquanto noutros momentos somos participes na abertura que dispara o dulcíssimo canto da imanência, onde sujeito e (e)vidência estão síntonos. Inescusavelmente. Aí não há enigmas mas um fluxo de que fazemos parte.                                                                                                                 
Oscilamos entre uma e outra acostagem ao mundo e nos dois pertencemos a comunidades diferentes.                                                                                               Não pertencermos só a um dos lados secreta-nos o múltiplo, desafoga-nos da clausura. Infelizmente, há ainda quem não viva sem exclusões, ainda que – abnegadamente – confundido.

«Era incapaz de matar, mas não de matar-se. E jamais compreendeu a crueldade hu-mana e os homens de luta», escreveu Goytisolo sobre Cesare Pavese. E julgo que disse muito quanto à seriedade e sensibilidade do autor de Lavorare Stanca. Acho que foi imperfeitamente medida esta amplitude entre uma coisa e outra, talvez a mesma que Camus evocava quando sentenciava que «…sofrer não te dá direitos!», renúncia a tomar o outro como ecrã, o que traduz um respeito e coragem inauditos. Pois, o que é comum é vingarmos no outro o que sofremos.
Este virar para si o gatilho (bem sei que Pavese morreu de uma excessiva ingurgitação de barbitúricos) em vez de transformar a irresolução própria numa energia para viciar as relações com os outros, aceitando esculpir-se no silêncio, afigura-se um gesto de um homem fatigado mas inexoravelmente honrado.


Nunca deixou de me impressionar uma afirmação do Ernesto Sampaio, numa entrevista que lhe fiz: no Império Romano, à data da sua queda, havia 40 maneiras de refinar o azeite. Não creio que tivéssemos chegado a este requinte e contudo, tendo em vista a histeria com que fazemos gala de ter opinião sobre tudo e todos, é nítido que já não nos sabemos ouvir e nos comportamos como gueixas que já só encontram cera na orelha de Van Gogh.