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sábado, 8 de junho de 2013
MON AMI AMADEUS
Ganhou o Amadeu Baptista mais um prémio.
O Amadeu é o meu brutamontes. Uma vez tinha-o deixado na sexta-feira ao almoço deprimido como o raio e na terça telefonou-me absolutamente excitado. Lá fui ter com ele ao António e mandámos vir rojões e um jarro de vinho. E ele saca um manuscrito da mala e passa-mo: um poema de 90 páginas, escrito de sexta para segunda-feira.
Isto irrita muita gente.
De outra vez, já eu estava em Moçambique e fui a Portugal e visitei-o em Viseu. E ele diz-me, comecei um ciclo de poemas em torno de quadros do século XX. Preciso que me vejas isso. E eu disse-lhe, tá bem, manda-me depois por mail. E ele assim fez-me e íamos dialogando sobre os poemas, e em três meses fez quinhentos. Quinhentos, ponto.
Isto faz-me lembrar uma história do dramaturgo Dias Gomes, que era também um bisonte de concentração. Uma empresária de teatro encomenda-lhe uma peça de teatro numa sexta-feira. Sábado, ele levanta-se às 6h da manhã e começa a trabalhar, domingo dá a peça por encerrada. Na segunda telefona a alguns amigos dramaturgos: “pá, quanto tempo é que levas a escrever uma peça de teatro, dois meses, três, seis? Tive uma encomenda na sexta e não posso entregar já a coisa senão a senhora pensa que lhe estou a dar material refugado que tinha na gaveta…”
O Amadeu ganhou mais um prémio, na Galiza.
Há quem o deteste por isso. Por ganhar prémios. Todas as gerações têm um certo preconceito em relação a poetas que ganhem prémios. Eu também tinha. Na minha geração, a nossa besta de estimação era o José Jorge Letria.
Todos nós puros, ele impuro, porque fazia da escrita comércio – era assim que pensávamos. Não tenho a menor ideia do quanto éramos injustos ou não porque raramente o li, e sentir-me-ia um cavalo se fizesse um juízo sobre a poesia que um certo preconceito me impediu de ler. Mas que o Jorge sofreu de ostracismo, é evidente.
Havia muita arrogância camuflada nesta atitude.
Hoje sei que era um preconceito idiota e um dia destes pegarei num livro do Jorge, simplesmente para o ler como é, sem sobrepor de antemão juízos. Pode ser mau, pode ser bom, não sei.
Com a mesma soberba, várias vezes tendo manuscritos inéditos, e apesar de andar teso como um cão, desdenhei participar em algum concurso.
Já participei em alguns, empurrado por desesperadas razões económicas. É o único factor que me empurra a participar, quando participo. Felizmente, quando precisava mesmo, ganhei.
Embora, enfim, tivesse preferido que me convidassem para escrever um livro erótico – sempre me divertia. Aliás já o propus, uma história erótico-pornográfica escrita em alexandrinos, por ser essa a medida mais próxima do pénis, mas o editor não se decidiu a desembrulhar o adiantamento.
Evito falar dos prémios que ganhei, para mim não têm importância alguma e não avalio o que escrevo à lupa de nenhum prémio, mas do ponto de vista do desafogo económico em alturas de aperto foram vitais.
Uma vez ganhei o prémio Cesário Verde (com um livro, soube depois, que um dos elementos do júri considerou herético) e a concurso estava o então muito jovem José Luís Tavares. Mais tarde ele procurou-me para me dizer que também tinha um livro a concurso mas que o meu era muito melhor. Gente de qualidade é assim que procede, e o José Luis Tavares viria a revelar-se um poeta muito sólido, hoje absolutamente firmado.
Também ele fora a concurso porque precisava, na altura vivia num bairro de lata. Tenho a certeza que muitos achariam preferível que ele continuasse a viver num bairro de lata do que que vê-lo como vencedor de um concurso que lhe aliviasse a precaridade.
Entretanto, o tipo que me instigou a concorrer, contra ele, porque “tinha um livro imbatível”, deixou de me falar, assim que foi anunciado que perdera. Foram dois os motivos porque concorri, estava com 4000 euros de dívidas e tinha aquele paspalho à minha frente que todos os dias me telefonava para me dissuadir de participar, visto que ele ia participar. Nem sequer pensava nisso, e achava a insistência dele irritante, mas no dia do fecho do concurso, depois dele voltar a espicaçar-me ao telefone (nunca percebi donde lhe vinha a sanha daquela competição comigo) à última hora enviei os manuscritos da estação dos Restauradores (eram 17h45) e papei-lhe o prémio. Parece que o livro dele não era tão herético como o meu. Ainda lhe telefonei a convidá-lo para jantar mas ele não me atendeu mais o telefone, cortou comigo, pelo mesmos insondáveis motivos porque se tinha tornado meu amigo.
Julgar um livro por ter tido ou não um prémio é absolutamente idiota. Ou é um preconceito de classe. Quem não necessita dos direitos de autor para ter alguma margem de equilíbrio que lhe permita continuar a escrever sem estrangulamento faz boca fina.
Não entendo porque podiam viver os Dickens e Camilo de folhetins e um poeta hoje não pode concorrer a prémios que lhe tragam maior conforto à sua frugalidade. Se a grande parte dos editores não paga os direitos (e às vezes não pode mesmo, sobretudo as pequenas e médias editoras) porque não há-de o escritor tentar safar-se, sobretudo se não tem outros meios de provento?
Foi assim que se safou o Bolano. E fez muito bem. O que lhe salvaguardou o tempo que necessitava para escrever algumas obras assombrosas. Que interessa agora os prémios menores que foram necessários para isso?
Outra coisa é escrever para os prémios.
Nunca foi o caso. Nem o do Amadeu, este meu brutamontes que quando ri silencia os carrilhões de Mafra, que simplesmente não consegue deixar de escrever.
Um dia, o Amadeu ficou desempregado de um dia para o outro e eu, que lhe conhecia a produção caudalosa e a muita qualidade de algumas das suas produções, fui um dos que mais o incitei a tentar viver da escrita. Disse-lhe, meu caro ficas proibido de buscar outras servidões … chega de patrões!
E até o quis empurrar para a prosa, passo que ele tem hesitado em dar. Não me arrependo nada. E ele hoje ainda tem as gavetas da secretária repleta de inéditos. Se há um prémio e ele necessita de assegurar sustento para os meses que se seguirão ele pega num manuscrito qualquer que escreveu há anos e envia-o. Mas não tem mais patrões.
O ano passado fui nomeado semifinalista do Prémio Telecom, no Brasil. Como o Gastão Cruz ou o João Rasteiro ou o Hugo-Mãe. Foi o editor que me enviei o livro, ele sabia que eu em direitos receberia pouco e então pensou, eu gosto do livro, pode ser… e enviou. Eu agradeci-lhe o gesto porque o meu carro está podre.
Mas desse prémio, ninguém desdenha porque se é nomeado para ele. Contudo, por isso mesmo, por à cabeça se conhecer os nomes dos candidatos pode ser mais permeável a influências e a uma certa inércia aurática que pode desvirtuar a verdade quanto ao texto.
Nos prémios mais periféricos, de que nunca se fala, há uma clareza maior nos critérios: só vale o que o texto vale, em anonimato. O manuscrito é lido pelo que é e não por estar associado a este ou aquele nome. Podem ocorrer evidentemente enormidades, basta lembrar o caso de Pessoa com a Mensagem, mas na maior parte dos casos ganha mesmo o melhor manuscrito em presença.
O Amadeu é imensamente prolixo, tem coisas muito boas e outras de que gosto menos, como é natural, mas há nele um labor operário e uma energia que devem ser respeitados e que são, nele, signos de dignidade.
Entre a nova geração conheço também quem não o leia também por ser "vaidoso".
As pessoas confundem o ser vaidoso com o ser-se orgulhoso do que se fez e se construiu, contra todas as condições e possibilidades.
É espantoso que o Octavio Paz o tenha considerado suficientemente bom para lhe dar o Prémio Internacional que a sua revista dava todos os anos, mas que em Portugal seja menosprezado por alguns.
O Amadeu subiu a pulso, dos becos mais tenebrosos, da condição mais precária; dum meio onde não se lia e era proibitivo cultivar-se. Não é isso que faz dele um bom poeta, isso seria apenas um dado sociológico interessante. O que faz dele um “caso” é que quando acerta é muito bom e o fôlego absolutamente atordoador que ele tem – que para muitos, inexplicavelmente, é um defeito.
Que ele manifeste orgulho disso - é o seu direito. Algo que só entende quem, como eu e ele, veio do nada, sem apelidos, heranças ou truques.
Ele bebe pouco, não se droga, não tem igrejas – a sua religião sem mestre é a poesia, onde insiste e insiste sentado à secretária horas a fio, diariamente.
Quem trabalha menos do que ele, é evidente que torce o nariz.
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AMADEU BAPTISTA
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
ESTACA ZERO
a onda, de Victor Hugo
À procura de um texto encontro um documento que julgava perdido, onde havia compilado uma boa tarde das entradas de um diário irregularíssimo que comecei a escrever em 2005, desde que cheguei a Moçambique. Este documento, que se chama Estaca Zero, reune apontamentos até Janeiro de 2008. Não tenho a certeza se as datas conferem, teria de confirmar nos cadernos. Aqui deixo as últimas páginas desse documento, com 110 páginas.
1 de Julho de 2007
Será hoje publicado no Expresso o texto polémico sobre recepção de poesia que enviei há umas três semanas:
« SOMBRAS DA MERIDIANA CLAREZA»
Depois não me admito como poeta “a quem se consente”. Só a minha solidão e a sua zona de laminação me guiam: não porque entenda a arte e a poesia como espaço sacrificial mas porque no limite há uma longitude de destino que me desobstrui – dom que é gratuito mas exige um preço a que não quero nem posso furtar-me. Sob risco de tudo se tornar decoro e venalidade.
14 de Julho
Claro que ninguém responde ao meu texto endereçado ao Pitta. Nem o próprio.
“J´habite l’exterieur d’un anneau”, Paul Claudel: tão próximo de âne.
15 de Julho
Extraído da Autobiografia, de Zao Wou-Ki, grande pintor chino-francês, presença determinante da Escola de Paris, dos anos 50 e 60, e amigo de Michaux: «(sobre a sua infância)
...os generais decapitavam e colocavam as cabeças à entrada da cidade – cabeças que pintavam metade em verde,a outra em vermelho. Como todas as crianças qua saíam da escola, empurradas pela multidão ao primeiro tumulto, eu assisti a uma execução. Não se podia recuar, era-se obrigado a olhar. Adormeci durante muito tempo, aterrorizado pela visão dessa cabeça rolando sobre o solo, cujo sangue espirrava de todos os lados.
Esta época foi terível. Havia suicídios entre os mais pobres, que não conseguiam sobreviver e vendiam os seus filhos no caminho da escola. Não eram incomuns os enforcados...»
Depois disto nunca se fará uma pintura realista. Seria absolutamente desumano.
16 de Julho
Quiasma: a acrescentar ao meu catálogo de palavras que usarei invariavelmente a contrapêlo. Tão próximo quiasma de quiabo.
Concluindo, Sócrates que na distorção da dialéctica – Sócrates, em todos os diálogos, é quem determina as regras da discussão, vantagem que não se deve menorizar – invariavelmente comandava a luminotecnia foi “comido” pelas sombras chinesas.
Leio de Paz: «O presente é perpétuo/ Os montes são de osso e são de neve/ estão aqui desde o princípio/ O vento acaba de nascer/ sem idade/ como a luz e como o pó (...)». Mas será assim? Nascerá o vento a cada instante, sem antecedência nem sombra platónica? Nietzsche gostaria.
Variante de Paz:
na tua cama/ éramos três:/ eu tu e o vento.
Pode ser este o artigo que me faltava para fechar o livro de ensaios?
19 de Setembro
Afinal, reza a última moda entre os paleontólogos, os dinossauros não buliam com os refreados nervos dos mamíferos (os placentários, segundo o artigo). Ninguém empatava ninguém naqueles tempos coruscantes, de pavio tão curto. Há hoje indícios, asseguram, de que o que aprenderamos sobre a incompatibilidade entre dinos e mamíferos é falso. Os chineses apresentam inclusive fósseis de um mamífero do Cretáceo que se alimentava de dinossauros, o Repenomanus. Convenhamos que é nome que o desvelo de uma vovó dinossaúrica pode apontar como Papão aos netos. E sei finalmente de onde extraiu Shakespeare o espírito peçonhento de Iago, o qual, segundo as novas correntes paleontológicas podia perfeitamente cuidar da higiene dentária dos T.Rex, seus irmãos na floração do sangue.
No mesmo jornal, leio:
O silêncio que enfrentará um pequeno submarino sob as calotes de gelo é inimaginável, capaz de remover as coordenadas de uma mente, o seu precário equilíbrio. Nesses limites, os monstros da interioridade abissal galgam facilmente os picos da consciência mais moderada, da mesma forma que a ausência de gravidade leva a que os astronautas percam massa óssea.
Trabalhos danados a que os poetas hoje se furtam, pobres antenas de uma civilização encaramelizada que, dizia Michaux, inventou jogos e desportos onde não se arrisca nada.
26 de Dezembro
Voltei a fazer merda e a não telefonar às minhas filhas no Natal. Elas ficam sempre tão magoadas com isto. E eu não consigo deixar de ser miseravelmente egoísta e a não querer superar (por elas) o pânico de me encontrar convulso ao telefone quando lhes ouvisse a voz e soubesse que há pouco a dizer porque a distância, iniludível, vai roendo os códigos da intimidade.
Que cobardia, somos sempre indignos para alguém.
27 de Dezembro
Diziam os chineses, escreve Kenneth White, que para “agarrar” a verdadeira poesia é preciso encontrar-se face a face com um homem vivendo a três mil quilómetros de nós.
Eu meti-me a dez mil. E se reencontrei a poesia, temo, por vezes perder a memória, atolar-me no desprendimento que convoquei.
29 de Dezembro
Na esplanada da Colmeia, a tasca onde sempre abanco depois de umas horas de aulas, ouço uma discussão de jovens sobre filosofia – coisa raríssima nestes lugares – e um deles avança com um argumento devastador para firmar a (palavras dele) ‘superioridade dos filósofos’: «nunca vi num jornal o anúncio de um filósofo a auto-publicitar-se».
O que gostaria de ter à mão o Banquete, de Platão, para lhe ler esta passagem: «Aristodemo escutou-me que encontrara Sócrates quando este saíra do banho, calçando umas sandálias, o que não era seu costume, e perguntou-lhe onde ia, assim tão bem arranjado».
O que gostaria de ter à mão o Steiner para lhe ler a sua sugestão de que tudo o que importa na vida não se traduz em valores cambiáveis.
Ainda bem que não tinha o arsenal comigo senão teria tido a tentação de me meter na conversa e de dar gasolina à combustão daquele pobre rapaz. Devemos ser muito prudentes de modo a não induzir ninguém a abraçar a nossa escolha: a de um perdulário que desbarata a sua inteligência na pobreza.
À procura de um texto encontro um documento que julgava perdido, onde havia compilado uma boa tarde das entradas de um diário irregularíssimo que comecei a escrever em 2005, desde que cheguei a Moçambique. Este documento, que se chama Estaca Zero, reune apontamentos até Janeiro de 2008. Não tenho a certeza se as datas conferem, teria de confirmar nos cadernos. Aqui deixo as últimas páginas desse documento, com 110 páginas.
1 de Julho de 2007
Será hoje publicado no Expresso o texto polémico sobre recepção de poesia que enviei há umas três semanas:
Um poeta faz 25 anos de edição e realiza uma
antologia pessoal. Profusa, como de resto a sua obra, expõe linhas de força,
núcleos temáticos, plasmados com vitalidade, fôlego e um ecletismo de processos
descoroçoante. São 25 anos de trabalho, de uma dedicação exclusiva. Não importa
aqui situar o poeta em qualquer ranking – trata-se aliás de um poeta que
se exprime compulsivamente, por necessidade interior. O que interessa é a
probidade, o fazer operário, a incansável entrega a um labor. Chega um crítico
(que ainda por cima é poeta) e sob a pressão do espaço e do tempo faz um fresco
ligeirinho.
O crítico parece dizer bem, mas
manifesta várias desatenções e algum desconforto, ilustrado em pequenas farpas
cirúrgicas, aqui e ali, que fazem pensar se o crítico não escreveu apesar de si próprio, arreliado pela
persistência do autor, um moscardo flamejante que zumbe e desassossega.
Falo de Amadeu Baptista, que saiu
com uma antologia pessoal de 260 páginas, Antecedentes Criminais /
Quasi, 2007, e da crítica que lhe fez Eduardo Pitta no Público, no dia
8.
Vamos aos factos. Escreve Pitta: «escrevendo
sobre Negrume, de 2006 – livro que esta antologia recupera na íntegra -,
um ensaísta exigente como Luís Adriano Carlos
sublinhou a “dilaceração tumultuoso da consciência face à contradição
quotidiana de quem habita níveis existenciais não comunicantes”». Não sei o
que pensará a exigência de Luís Adriano Carlos face ao deslocamento que o seu
excerto sofreu do prefácio de Poesia Digital para uma suposta recensão a
Negrume que nunca escreveu, mas os 25 anos do poeta pediam um bocadinho
mais de rigor e não este artifício de escriba pressionado pelo tempo, pelo
espaço, pelo seu imago.
Adiante, escreve Pitta: «Nenhuma
ambiguidade perturba o discurso do poeta, que aconselho com proveito aos
arautos do “real absoluto”. Por falar em real convém lembrar que uma das formas
de que Amadeu Baptista se serve para o pôr em pauta tem que ver com enunciados
de natureza sexual explícita, embora a parcimónia da actual recolha pareça desmentir
a asserção. Do meu ponto de vista, livros como a Noite Ismaelita (2000)
e A Construção de Nínive (2001) estão insuficientemente representados,
por oposição a Arte do Regresso (1999) e Paixão (2003) mas uma
antologia pessoal é o lugar por excelência da idiossincrasia, e seria fútil
insistir na perspectiva do crítico». E seria fútil exactamente por
reveladora das idiossincrasias do crítico, pois que acrescentar se A
Construção de Nínive é publicado em Antecedentes Criminais na
íntegra? Sentiu o Pitta falta de algum coito? Por outro lado, o texto dá a
impressão de que A Noite Ismaelita é outro texto recheado de kamasutra.
Ora, nos antípodas, é um livro quase místico de inspiração sufi e onde ao
contrário do anterior não há alusão ao golpe e contra-golpe do sexo.
Ademais, será legítimo fixar para
um poeta tão plural uma imagem redutora e distorcida? O poeta adora sexo (e
quem não?) e declara-o com à vontade e persuasão retórica. Usando a mesma
veemência com que navega na infância, numa escrita contemplativa, na
religiosidade, na pintura, na música: experiência estética de que dá amplo
testemunho. A sexualidade explícita - já que estamos a falar em medidas - é uma
parte ínfima da sua obra, dominada isso sim pelo erotismo, por uma sensualidade
a que não se furta nem o seu (irregular) pendor místico. As coisas (o sagrado e
o profano) estão nele tão interligadas que inclusive o poema que dá título a A
Construção de Nínive (o tal da sexualidade “desenfreada”) é colocado (nesta
antologia sem separadores, cortinas ou títulos de livros, como assinala Pitta)
a anteceder os poemas de Paixão, um livro de inspiração bíblica, de modo
a que possamos sentir a sua ressonância salomónica. Amadeu Baptista dá as
chaves. O que não é habitual é um poeta manifestar-se num espectro tão amplo e
isso, admite Pitta, chateia à «poesia de sabor único» (Pessoa) que hoje agrega
tantos militantes.
Voltando a Pitta, lê-se: «Se tivermos de
escolher uma palavra para caracterizar a obra de Amadeu Baptista, essa palavra
seria catarse. Isso explicará o desacerto da recepção crítica, por oposição ao
sucesso de obras “lisas”, isto é, não problemáticas. Antecedentes Criminais prova que o
ónus é equivalente à aspereza do discurso». Apesar do acerto de contrapor
ao sucesso momentâneo da lisura de alguns a injustiça do relativo silêncio
(comparativamente) a que a obra de Amadeu Baptista tem estado sujeita, pois dá
muito mais trabalho a perspectivar, este parágrafo enferma de equívocos e
lugares-comuns.
Primeiro, a catarse. Não se deve menosprezar a inteligência
dos autores. Amadeu Baptista compreendeu cedo que a catarse é impossível ou é
de um inacabamento que enquistou na
aporia. A sua é, sim, uma poesia pejada de pathos, mas não esqueçamos o
papel de uma poderosa estratégia de fingimento que neste poeta propende a uma
nunca referida pulsão dramatúrgica. Com outra propriedade escreveu
Baptista-Bastos (um não poeta) sobre a antologia, quando a apresentou na Fnac:
«O poeta fala de si para se aproximar das emoções do outro (...) Não é porém
uma poética do testemunho, mas sim, a definição, muito singular, da nossa
posição existencial (...) no seu bojo, contém-se uma subtil convocação da
experiência – e da experiência tornada consciência.» O que se amplifica na
seguinte advertência de Deleuze «Escrever
não é contar as lembranças, as viagens, os amores, os lutos, sonhos e
fantasmas. Ninguém escreve com as suas neuroses. (...) A literatura só se
afirma se descobre sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal.» Daí que Amadeu consiga ser
blasfemo e perseguir o sublime, consiga ser metafórico e descritivo, ser subtil
e ser directo, capaz de moldar-se ao soneto e de expandir-se no poema longo: a
sua experiência de escrita trasladou o vivido para a orbe de um impessoal, e
agora joga com os géneros. Quanto à sua ‘neurose’ é a mesma que demanda Bernardo Soares quando
aspira a “ver o polícia como Deus o vê” – lugar onde a catarse é de há muito
uma categoria abandonada. Pode ser sido até pretexto mas já não é de todo o seu
telos.
Segundo,
não há em Amadeu Baptista aspereza de discurso, há é temas que exigem uma
linguagem menos pura, menos poética – ainda que pareça paradoxal, às vezes o
não-poético é o mais poético.
Por fim, uma afirmação com ar de
ditame, sobre a propensão de Amadeu para o poema longo: «Rosto Soberano
(...) dá a medida da especial apetência do autor pelo discurso torrencial, com
os riscos correlatos da metaforização, da acumulação de materiais e do eco
retórico que uma e outra produzem. Prefiro o registo vigiado dos sonetos, mais
conformes a uma prosódia segura». Não interessava antes saber se, corridos
os riscos correlatos, o autor leva a tarefa a bom porto, em vez da preferência
do crítico? Os textos longos funcionam e resultam, são desenvoltos, arejados,
mantêm a tensão da escrita, ou não? O que é uma prosódia segura? Mede-se tal
pelo menor quociente de riscos? Se Amadeu demonstra ser capaz de pequenas
escaramuças (a prosódia segura), que pode impedi-lo de empreender grandes
batalhas? O sentido de medida do crítico? Segura no mesmo sentido em que uma
mãe galinha diz ao seu filho que não deve sair à rua? Será um crime, adquirida
a técnica, preferir os riscos ao capitoné da prosódia? A poesia deve ser
analisada a partir do que é e expõe ou a partir de um suposto dever ser e de
moldes pré-formatados? Tenho de aceitar Ungaretti contra Pere Gimferrer?
Larking contra Ted Hughes? O fito é reduzir, em vez da abertura? Ora, um
poeta conciso e breve como Eduardo Pitta devia saber que só tem fôlego quem
pode.
Pitta saberá que eu sei que
escrever para os jornais leva a precipitações (e nos jornais pensa-se que se
explica a física quântica nos mesmos caracteres com que se anuncia um
estrangulamento por ciúmes na Rua do Norte), a confiar-se demasiado na opinião
(primeiro passo para a idiotia, pecado que foi também o meu tantas vezes), mas
como poeta compreenderá que uma obra que levou 25 anos a erguer não devia ser
observada com olhos de sono.»
Valerá a pena, a 10 000 km de distância, abrir o
debate no seio da teia instalada para a recepção e o condicionamento da poesia
portuguesa actual?
Provavelmente é um gesto suicidário, sobretudo
quando se acabou de lançar um livro que espera por leitores, mas, neste exílio,
percebo que não posso consentir que me coarctem os direitos. E estes passam
pelas virtualidades de uma prática poética e de uma leitura das suas
respectivas densidades algo arredias ao que se tornou dominante em Portugal.
Instalou-se uma preguiça mental e uma estreiteza de horizontes que
paulatinamente afeiçoam o leitor a formatos pré-definidos de pensar e de
acomodar a expressão. O fascismo, diria até. A grande questão está contida
nesta formulação de Salah Stétié: «O testemunho na circunstância, digo: na
poesia, não é feito senão de palavras e é esta mesma a sua principal
fragilidade, aos olhos daqueles, os mais numerosos, para quem a palavra é uma
forma melhorada do nada. Para os outros, entre os quais alguns poetas que nós
colocamos no topo da nossa estima, a palavra é uma forma, penosamente
diminuída, da totalidade pressentida». (L’interdit, 93, José Corti)
Para quem considera a palavra «uma forma melhorada
do nada» a poesia aparenta-se à decoração ou, nos casos mais ‘sérios’, a uma ourivesaria
com um ofício expresso em medidas mensuráveis. Daí que tão facilmente se caia
na tentação de definir parâmetros. Tudo em nome de um retorno ao “realismo”.Depois não me admito como poeta “a quem se consente”. Só a minha solidão e a sua zona de laminação me guiam: não porque entenda a arte e a poesia como espaço sacrificial mas porque no limite há uma longitude de destino que me desobstrui – dom que é gratuito mas exige um preço a que não quero nem posso furtar-me. Sob risco de tudo se tornar decoro e venalidade.
Claro que ninguém responde ao meu texto endereçado ao Pitta. Nem o próprio.
“J´habite l’exterieur d’un anneau”, Paul Claudel: tão próximo de âne.
Extraído da Autobiografia, de Zao Wou-Ki, grande pintor chino-francês, presença determinante da Escola de Paris, dos anos 50 e 60, e amigo de Michaux: «(sobre a sua infância)
...os generais decapitavam e colocavam as cabeças à entrada da cidade – cabeças que pintavam metade em verde,a outra em vermelho. Como todas as crianças qua saíam da escola, empurradas pela multidão ao primeiro tumulto, eu assisti a uma execução. Não se podia recuar, era-se obrigado a olhar. Adormeci durante muito tempo, aterrorizado pela visão dessa cabeça rolando sobre o solo, cujo sangue espirrava de todos os lados.
Esta época foi terível. Havia suicídios entre os mais pobres, que não conseguiam sobreviver e vendiam os seus filhos no caminho da escola. Não eram incomuns os enforcados...»
Depois disto nunca se fará uma pintura realista. Seria absolutamente desumano.
Quiasma: a acrescentar ao meu catálogo de palavras que usarei invariavelmente a contrapêlo. Tão próximo quiasma de quiabo.
17 de Julho
A falta de electricidade é que
cumpliciou afinal a vontade dos medíocres à inveja de alguns, no caso da
condenção de Sócrates. A deliberação ocorreu em duas sessões. Na primeira,
segundo Xenofante – citado por Luciano Canfora no notável Um Ofício
Perigoso/ A Vida Quotidiana dos Flósofos Gregos – “parecera prevalecer o
bom senso; mas o grupo que batalhava pela condenação soube evitar uma decisão
imediata, dizendo que naquela noite não se podia votar porque não havia luz
suficiente para que se distinguissem as mãos erguidas dos votantes. Entretanto
trabalharam da melhor maneira que puderam para influenciar a sessão seguinte
com alguns lances de teatro”. Concluindo, Sócrates que na distorção da dialéctica – Sócrates, em todos os diálogos, é quem determina as regras da discussão, vantagem que não se deve menorizar – invariavelmente comandava a luminotecnia foi “comido” pelas sombras chinesas.
18 de Julho.
Pessoa morreu aos 47 anos, roído como
as borrachas que a minha filha entrega desleixadamente ao consolo do cachorro,
e eu sinto que renasço aos 48, como se pela primeira vez na vida reunisse as
cartas necessárias a um poke de ases. Quanto tempo me deixará a vida progredir
neste estado de exaltação nupcial? Algumas doenças perseguem-me e os alicates do
inexorável nunca se fecham. Mas talvez seja possível diferir, o intervalo
necessário à decantação deste meu novo estado numa visão. Não muito,
apenas o tempo necessário – se me é permitido pedir.
20 de Julho de 2007
Bilene, um espaço paradisíaco para
ler, escrever, acabar um livro. Belo jardim à Simenon, que se espraia pelos
fundos da casa em que me coube passar uma semana de repouso, depois da violência
de ter tido de escrever uma série de ficção para televisão de sete episódios em
15 dias (enfim, só metade, o que convulsionei do argumento já existente, mas a
mudança foi absolutamente geológica o
que exigiu uma reescrita total).Leio de Paz: «O presente é perpétuo/ Os montes são de osso e são de neve/ estão aqui desde o princípio/ O vento acaba de nascer/ sem idade/ como a luz e como o pó (...)». Mas será assim? Nascerá o vento a cada instante, sem antecedência nem sombra platónica? Nietzsche gostaria.
Variante de Paz:
na tua cama/ éramos três:/ eu tu e o vento.
25 de Agosto de 2007
Simpático convite para botar faladura
num congresso internacional sobre a Zambrano. Será que isso permitirá um salto
a Lisboa? Pensando meia-hora sobre o título da comunicação e o tema da mesma, a
minha intuição chega a estas prerrogativas: título, Zambrano: as imaginações
do oráculo; tema: «Na coincidência entre ser e linguagem entre acção e
devir, receptáculo e reminiscência, nesse para-além da linguagem que suplanta
as representações, e que tem nos «sonhos monoeidéticos» o seu operador,
Zambrano desenha uma trajectória que a aproxima da imaginação criadora de
Ibn´Arabi – à luz da exegse de Henry Corbin – e da “não-dualidade” do Advanta. Esboçar estes paralelos com algum
rigor e deixar entrevistas as suas consequências é o movimento que nos motiva.»Pode ser este o artigo que me faltava para fechar o livro de ensaios?
29 de Agosto
Conferência de Fotocópias: lê-se num
letreiro num notário de Maputo. Afinal, reza a última moda entre os paleontólogos, os dinossauros não buliam com os refreados nervos dos mamíferos (os placentários, segundo o artigo). Ninguém empatava ninguém naqueles tempos coruscantes, de pavio tão curto. Há hoje indícios, asseguram, de que o que aprenderamos sobre a incompatibilidade entre dinos e mamíferos é falso. Os chineses apresentam inclusive fósseis de um mamífero do Cretáceo que se alimentava de dinossauros, o Repenomanus. Convenhamos que é nome que o desvelo de uma vovó dinossaúrica pode apontar como Papão aos netos. E sei finalmente de onde extraiu Shakespeare o espírito peçonhento de Iago, o qual, segundo as novas correntes paleontológicas podia perfeitamente cuidar da higiene dentária dos T.Rex, seus irmãos na floração do sangue.
No mesmo jornal, leio:
«Dois minisubmarinos russos fizeram
domingo último uma jornada inédita, ao mergulhar até uma profundidade de 1,3
quilómetros sob o gelo do Oceano Galacial Ártico, como preparativo para uma
expedição rumo ao leito do mar, nunca antes visitado pelo Homem.
‘Esta foi a primeira vez que um
submersível foi usado por baixo da camada de gelo do Ártico e (o aparelho)
provou ser capaz de fazer isso’, disse Anatoly Segalevich, piloto de um dos
minisubmarinos que levam apenas um tripulamte cada um.»O silêncio que enfrentará um pequeno submarino sob as calotes de gelo é inimaginável, capaz de remover as coordenadas de uma mente, o seu precário equilíbrio. Nesses limites, os monstros da interioridade abissal galgam facilmente os picos da consciência mais moderada, da mesma forma que a ausência de gravidade leva a que os astronautas percam massa óssea.
Trabalhos danados a que os poetas hoje se furtam, pobres antenas de uma civilização encaramelizada que, dizia Michaux, inventou jogos e desportos onde não se arrisca nada.
Voltei a fazer merda e a não telefonar às minhas filhas no Natal. Elas ficam sempre tão magoadas com isto. E eu não consigo deixar de ser miseravelmente egoísta e a não querer superar (por elas) o pânico de me encontrar convulso ao telefone quando lhes ouvisse a voz e soubesse que há pouco a dizer porque a distância, iniludível, vai roendo os códigos da intimidade.
Que cobardia, somos sempre indignos para alguém.
27 de Dezembro
Diziam os chineses, escreve Kenneth White, que para “agarrar” a verdadeira poesia é preciso encontrar-se face a face com um homem vivendo a três mil quilómetros de nós.
Eu meti-me a dez mil. E se reencontrei a poesia, temo, por vezes perder a memória, atolar-me no desprendimento que convoquei.
Na esplanada da Colmeia, a tasca onde sempre abanco depois de umas horas de aulas, ouço uma discussão de jovens sobre filosofia – coisa raríssima nestes lugares – e um deles avança com um argumento devastador para firmar a (palavras dele) ‘superioridade dos filósofos’: «nunca vi num jornal o anúncio de um filósofo a auto-publicitar-se».
O que gostaria de ter à mão o Banquete, de Platão, para lhe ler esta passagem: «Aristodemo escutou-me que encontrara Sócrates quando este saíra do banho, calçando umas sandálias, o que não era seu costume, e perguntou-lhe onde ia, assim tão bem arranjado».
O que gostaria de ter à mão o Steiner para lhe ler a sua sugestão de que tudo o que importa na vida não se traduz em valores cambiáveis.
Ainda bem que não tinha o arsenal comigo senão teria tido a tentação de me meter na conversa e de dar gasolina à combustão daquele pobre rapaz. Devemos ser muito prudentes de modo a não induzir ninguém a abraçar a nossa escolha: a de um perdulário que desbarata a sua inteligência na pobreza.
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