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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PORTRAIT OF A ROMANTIC

Portrait of a Romantic, foto de Alice W R


Shirley Temple, a actriz que soube retirar-se
antes de se tornar uma criança malsã
e de Hollywood a clonar como a febre dos fenos,
feneceu hoje, fanada pedra de isqueiro.
Lembro-me de a ver sapatear a preto
e branco e dos olhos envidraçados
da minha mãe, assim que no pequeno ecrã
acudiam os seus cachos de caracóis
que para dona Isabel seriam dourados.
Ele via na pequena estrela americana a infância
que lhe foi roubada, e hoje sobre a campa
de minha mãe florescerão os miosótis.
Vou compondo este poema estrada fora
enquanto a tempestade me segue há duas horas
com maligna perseverança e o coração
se me aclimata, diferido, melancólico.
As colunas, depois dum festival de didjeridu,
que me fez vibrar no sangue aborígena
a pulsação das estrelas, derramam agora
Portrait of a romantic, de John Surman.
O passado é o futuro que me esculpe,
na estrada que as sombras do presente incandescem.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

UM PHOTOMATON E UMA CANÇÃO DESENCRAVADOS

 
 
 
estes vão p’ró moço Henrique Fialho, que faz anos,
a quem admiro e que felizmente é casmurro


1. BECKETT


E num relance é-me evidente: a estreita cabeça
do Beckett é uma armação totalmente vegetal, 
e no pergaminho do seu rosto  
escondem-se um repolho e duas folhas.


Sim, as que emergem dum pescoço filiforme
que quis chegar às estrelas mas se resignou
em pecíolo e em cuja metade pulsa, inútil,
aquela vagem do tamanho dum amendoim.

 
Num relance, isento de estigmas, é-me evidente
que a leitura da sua acostumada imagem,
entre ave de rapina e angústia,
lhe vem da extrema lentidão,


uma lentidão de estuque ainda fresco,
da lenta fruição da clorofila
que o autor partilha com as suas personagens
e até no modo recalcitrante como lutam & lutam

 
consigo mesmas, pelo vão ensejo de parecerem
mais activas que contemplativas.
Fito-lhe o retrato imaginando que plantas
hão de ser tão emaranhadas. Como se ele em criança


tivesse queimado o rosto com uma máscara
de funcho. Peço um Grants, duplo,
pois quero vê-lo espelhado nos estalidos
do gelo, e então ouço-o

segredar-me, num irlandês
de duas gemas de ovo:
"Creio que inventámos o amor
para que Deus não se suicide!"


retrato de Lou Reed por Alice W R
 

2. LOU REED



Vendia botões de madrepérola em Brooklin
o janota que tinha um deus
que vivia em três mundos.
Mas assim que montava o selim
de freguesa auspiciosa,
com fundos e amante de folhetim,
punha um ar de bezerro
em ultra-levure
e trauteava-lhes, a boca
em fotogravura,
tu tu tu, satellite of love
tu tu tu, satellite of love.


Não era o único truque do sabido
também lhes recomendava book
sobre a pintura dos bambus,
que num ressoante vagido
largavam ao vento o nome das viúvas
ou das solteiras mais injustiçadas
aquelas que catrapus
fariam cair de novo o império romano,
e depois: tu tu tu tu, satellite of love
Tu tu tu tu, satellite of love.

 
Passou duas noites na esquadra
por assédio, onde defendeu
que não passava dum budista primitivo
e talvez dos médios, dos menos atractivos.
Mas houve uma Fátima que lhe pegou
- eu dou-te o meu lençol e tu dás-me o coração –
que bom cair nas trampas da ilusão;
há-de no rastilho tornar-se mártir do Islão?
tu tu tu, satellite of love
tu tu tu, satellite of love
tu tu tu, sa-te-lli-te-of-lo-ve